segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Jesus e Maomé: Palavras Comuns

O meu texto de hoje na Terra da Alegria.
-------------------------------------------------


Quando passei pelo liceu, frequentei as aulas de Moral e Religião. Houve um dos anos lectivos em que a professora perguntou que temas gostaríamos de ver abordados. Alguém sugeriu que se falasse de outras religiões. E assim foi. Recebemos um pequeno livro com a declaração do Vaticano II sobre as religiões não-cristãs, e durante algumas semanas ouvimos falar sobre Buda e Maomé. A mais de vinte anos de distância dessas aulas percebo que a experiência de vida da professora (tinha passado vários anos no Vietname e, provavelmente, era uma entusiasta do Vaticano II) permitiram-lhe a abertura mental necessária para aquelas aulas sobre outras religiões.

Assim, é com naturalidade que subscrevo a ideia do Miguel Marujo que na última edição da Terra da Alegria sugeriu que as aulas de Educação Moral e Religiosa fossem um espaço de aprendizagem sobre cada uma das religiões. Fazer deste espaço lectivo, um momento de diálogo inter-religioso, de aprendizagem das semelhanças e diferenças nos ensinamentos das grandes religiões mundiais, é uma forma da escola dar o seu contributo para a construção de uma sociedade multicultural onde as diferentes comunidades religiosas convivem em harmonia.

A este propósito, e para todos os apoiantes do diálogo inter-religioso, gostaria de chamar a atenção para um livro recentemente pela editora Estrela Polar intitulado Jesus e Maomé: Palavras Comuns. Da autoria de um judeu, e prefaciado por um muçulmano e por um cristão, o livro apresenta as semelhanças entre os ensinamentos de Jesus e os ensinamentos de Maomé.

Organizado por temas - como Deus, a Fé, o Amor, a Sabedoria, a Lei, o Pecado, e a Jihad - o livro vai expondo sucessivas citações de palavras de Jesus e Maomé; o paralelismo é impressionante, e torna-se evidente que estas duas religiões possuem o mesmo fundamento espiritual e moral (não obstante algumas diferenças de ensinamentos que são apontadas nas últimas páginas).

Para despertar a vossa curiosidade, aqui ficam algumas citações:

* * * * * * * * *

Amai os vosso inimigos e orai pelos que vos perseguem para poderdes ser filhos do vosso Pai no céu. (Mateus 5:44-45)

Não vos odieis uns aos outros e não tenhais inveja uns dos outros e não vos boicoteis uns aos outros, e sede servos de Deus como irmãos. (Hadith de Bukhari 78:57)

* * * * * * * * *

Se alguém te bater na face direita, vira para ele também a esquerda. (Mateus 5:39)

O homem forte não é o bom lutador; o homem forte é somente aquele que se controla quando está irado. (Hadith de Bukhari 73:135)

* * * * * * * * *

O céu e a terra perecerão, mas as Minhas palavras nunca perecerão. (Marcos 13:31)

Tudo na terra perecerá, mas o rosto do vosso Senhor permanecerá resplandecente de majestade e glória. (Alcorão 55:26-27)

* * * * * * * * *

Porque me chamas bom? Ninguém é bom, a não ser Deus. (Marcos 10:18)

Diz, Sou apenas um homem como vós. Foi-me revelado que o vosso Deus é um Deus. Que pratique o bem aquele que espera encontrar o seu Senhor. (Alcorão 18:110)

* * * * * * * * *

É mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que para um homem rico entrar no reino de Deus. (Marcos 10:25)

Para aqueles que rejeitas os Nossos sinais e arrogantemente lhes viram as costas, as portas do céu não serão abertas, nem entrarão pelo paraíso enquanto o camelo não passar pelo buraco da agulha. (Alcorão 7:40)

* * * * * * * * *

Embora vejam, não vêem; embora ouçam, não ouvem nem compreendem. (Mateus 13:13)

Eles têm corações com os quais não compreendem, e têm olhos com os quais não vêem, e têm ouvidos com os quais não ouvem. (Alcorão 7:179)

* * * * * * * * *

E, quando orares, não sejas como os hipócritas, pois eles adoram orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelo homens. (Mateus 6:5)

Os hipócritas querem enganar Deus, mas Ele é que os enganar! Quando se levantam para orar, levantam-se descuidadamente, para serem vistos pelos homens e lembram-se pouco de Deus. (Alcorão 4:142)

8 comentários:

João Moutinho disse...

O Vaticano II representa um grande salto no diálogo inter-religioso. A sua influência foi muito mais além da esfera do própria Igreja Católica.
Até porque é sempre bom lermos as passagens do Alcorão sobre Jesus.
"Afinal, é sempre muito mais o que nos une do que nos separa".

Anónimo disse...

"Porque me chamas bom? Ninguém é bom, a não ser Deus. (Marcos 10:18)

Diz, Sou apenas um homem como vós. Foi-me revelado que o vosso Deus é um Deus. Que pratique o bem aquele que espera encontrar o seu Senhor. (Alcorão 18:110)"

Acho que estas passagens mostram exactamente o oposto do que o livro em causa quer demonstrar. Enquanto a afirmação de Jesus não me parece negar a sua dimensão divina (e no Novo Testamento encontramos muitas afirmações sobre a divindade de Jesus Cristo), Maomé afirma a sua humanidade total.
Já agora, e para uma abordagem totalmente honesta da questão, devia ser estudado também um livro sobre as diferenças.

Anonymous #2

João Moutinho disse...

Anónimo,
É natural que Maomé tenha pretendido trazer de volta o Monoteísmo, que estava um pouco adulterado com a "Santíssima Trindade". Daí a razão de Se ter colocado num plano mais humano e menos divino.

João Moutinho disse...

Anónimo,
É natural que Maomé tenha pretendido trazer de volta o Monoteísmo, que estava um pouco adulterado com a "Santíssima Trindade". Daí a razão de Se ter colocado num plano mais humano e menos divino.

Marco disse...

Anonymous #2,

Os Mensageiros de Deus possuem uma dupla condição: humana e divina (prometo que daqui a umas semanas vou abordar este assunto com mais detalhe). Para mim estas duas passagens demonstram exactamente o mesmo: a dimensão humana dos Mensageiros de Deus e a distinção que devemos fazer entre Eles e o Criador. As últimas páginas do livro descrevem aquilo que os autores consideram ser diferenças entre Jesus e Maomé. Apesar de não concordar com algumas das opiniões dos autores quanto a essas diferenças, creio que há honestidade da parte dos autores.

Estamos na presença de duas religiões com um tronco comum e é natural que existam imensas semelhanças. As diferenças surgem em ensinamentos éticos e sociais, e nas interpretações que os crentes fazem dos livros sagrados, e nas teologias que a partir daí se desenvolvem. Por exemplo, no Cristianismo, proclama-se que Jesus é uma manifestação do Verbo de Deus; no Islão, o próprio Alcorão é essa manifestação do Verbo de Deus.

F Cirilo disse...

Marco,
Percebo a tua admiração por este livro, mas parece-me que por muitos esforços que se façam para demonstrar as semelhanças entre estas duas religiões, os crentes parecem é interessados apenas em afirmar a sua religião é melhor do que a dos outros. Fazem lembrar os irmãos quando são crianças que discutem quem é que gosta mais do pai ou da mãe. Precisam é de crescer e perceber que estão em pé de igualdade perante os pais.

O vosso objectivo de tentar mostrar a igualdade entre as religiões parece muito bonito (e até bem fundamentado), mas os crentes não estão para aí virados. Desculpa lá a sinceridade, mas acho que andas a pregar no deserto.

Anónimo disse...

Eu não sou tao cinica quanto o Cirilo, mas reconheço que para muitas pessoas seja complicado combinar religião e racionalidade de forma equilibrada.
Mas também tem que se dizer que essa combnação (religião+racionalidade) não é um exclusivo dos bahais.
Gostei do blog.
Marta

Marco disse...

Cirilo e Marta,
Não se esqueçam que a fé é um exercício de livre vontade. Ninguém pode impor uma crença a outro, por muito atraente que essa crença lhe pareça.
Eu considero que a fé e a razão devem andar a par e sem contradições; Não imponho essa ideia a ninguém, mas também não fico desesperado se pouca gente me dá ouvidos.
E a Marta tem razão quando diz que a combinação de fé e razão não é um exclusivo dos baha'is. Em todas as religiões existem correntes que advogam esse princípio.