quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Kitáb-i-Íqán (2)

Os Temas do Kitáb-i-Íqán
Devo confessar que tive dificuldades para começar a ler este livro. O estilo da escrita, a não sequencialidade dos conceitos e explicações apresentadas, e a utilização de palavras e expressões típicas de outra cultura foram provavelmente os meus grandes obstáculos para começar a compreender o Kitáb-i-Íqán(a). Mas o livro, apesar de ser dirigido a um destinatário de religião xiita e à comunidade Babí, contém muitas as passagens em que Bahá'u'lláh se dirige a toda a humanidade: "Santificai vossas almas ó povos do mundo..."[1]. Com o tempo, as minhas dificuldades desapareceram.

Tal como as cores e padrões de um tapete persa, no Kitáb-i-Íqán cruzam-se diversos temas de forma harmoniosa e eloquente. Shoghi Effendi, bisneto de Bahá'u'lláh descreve-o como "um modelo de prosa persa, com um estilo simultaneamente original, simples e vigoroso, notavelmente lúcido, e simultaneamente persuasivo e incomparável na sua irresistível eloquência"(b).

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh começa por falar sobre os Profetas que fundaram as grandes religiões mundiais; descreve as Suas vidas e os Seus sofrimentos e demonstra a verdade das Suas Missões; ao longo dessas descrições vai assinalando aspectos comuns das Suas Religiões. Desta forma, Ele demonstra ao leitor os verdadeiros alicerces em que assenta a religião, e aquilo que devem ser consideradas provas da validade da religião do leitor. Esses mesmos critérios são depois aplicados a outras religiões, sendo o leitor levado a aplicá-los a outros Profetas e a validar os Seus ensinamentos.

A grande maioria dos seguidores das religiões mundiais, são ensinados a acreditar apenas num único Profeta, ou a venerar um Profeta acima dos outros; a sua prática religiosa tende a preocupar-se mais com a forma, do que com o conteúdo. Poder-se-ia fazer a seguinte analogia: uma pessoa pode possuir um pequena peça de outro e saber que possui um grande valor; no entanto, essa mesma pessoa pode ser incapaz perceber o valor de outra peça de ouro apenas porque tem uma forma diferente (pode até ser incapaz de distinguir ouro do bronze!).

Note-se que não está em causa a sinceridade da crença pessoal de cada pessoa. A questão essencial consiste no facto das pessoas se agarrarem a algo que consideram ser a sua religião e, de alguma forma, ignorarem as verdadeiras provas da veracidade do fundador da sua religião; este facto deixa-as incapazes de compreender as provas da veracidade dos fundadores de outras religiões.

Os temas do Kitáb-i-Íqán são tão diversos como a existência de Deus, a relatividade e continuidade da revelação divina, a semelhança dos ensinamentos fundamentais dos Profetas fundadores das religiões, e a explicação de excertos alegóricos do Novo Testamento e do Alcorão (descreve-se o significado de termos e expressões como "Ressurreição", "Dia do Juízo", "Sêlo dos Profetas" e outros) . Estes temas são ainda cruzados com outros, tais como a denúncia da perversidade dos sacerdotes e doutores de cada era, e ainda o elogio à Virgem Maria e ao Iman Hussein. Por fim afirma-se a demonstra-se a veracidade da Mensagem do Báb e enaltece-se a coragem dos Seus primeiros discípulos.

Para um leitor de língua portuguesa, o Kitáb-i-Íqán com o seu estilo de escrita, com o uso de nomes e expressões árabes e persas(c), e com a frequente citação de tradições islâmicas(d) com as quais estamos pouco familiarizados, aparenta ser um livro de leitura pouco fácil. Temos de ter presente que o destinatário deste livro era um muçulmano com perguntas muito específicas sobre o Báb. No entanto, é importante ter presente que Bahá'u'lláh demonstra a validade das religiões do passado, citando com alguma frequência o Antigo e o Novo Testamento(e).

No entanto, algumas das questões colocadas pelo tio do Báb encontram paralelismo no Cristianismo. Por exemplo, o facto do décimo segundo Iman estar vivo encontra paralelo no facto de muitos cristãos acreditarem que Cristo está vivo. Por outro lado, conceitos como "Ressurreição" e a descrição dos acontecimentos que devem ocorrer quando surgir o Prometido têm uma enorme semelhança nas duas religiões.

Como todos os livros sagrados, não é possível compreender o Kitáb-i-Íqán com uma única leitura. Em cada leitura, os diferentes temas sucedem-se, e a sua riqueza vai-se revelando gradualmente. Sucessivas leituras deste livro permitirão não só compreender melhor os assuntos, mas também descobrir novos temas e significados. Como alguém disse, ler este livro é iniciar uma caminhada em direcção à descoberta da vontade divina

------------------------
-------
NOTAS
(a) - O texto completo (em inglês) está disponível aqui na Bahai Reference Library. Particularmente útil para o estudo do Kitab-í-Íqan, é o livro de Hooper Dunbar, A Companion to the Study of the Kitáb-i-Íqán. Neste aspecto também merece destaque o trabalho do prof. Christopher Buck: The Kitab-i Iqan: An Introduction to Bahá'u'lláh's Book of Certitude
(b) - God Passes By, pag. 138-139.
(c) - No final do Kitáb-i-Íqán existe um glossário com nomes e termos pouco comuns.
(d) - Talvez a mais curiosa tradição referida seja o facto de Jesus ter "
ascendido ao quarto céu"[98]. Segundo a tradição xiita, o céu está dividido em sete partes e Jesus quando morreu ascendeu ao quarto céu. Na minha opinião, a frase é feita em função do enquadramento cultural e religioso do tio do Báb, que era o destinatário do livro. É fácil imaginar que se o tio do Báb fosse cristão, Bahá'u'lláh poderia referir que "Jesus está sentado à direita do Pai". (mas isto é uma opinião muito pessoal!)
(e) – Sobre as aplicações do Kitáb-i-Íqán ao Cristianismo ver The Kitab-i-Iqan: The Key to Unsealing the Mysteries of the Holy Bible, de Brent Poirier

------------------------
-------------------------------------------
Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
-------------------------------------------------------------------

3 comentários:

João Moutinho disse...

Eu sou um lusitano dos quatro costados mas a primeira vez que li o Kitáb-i-Íqán sofri logo um impacto profundo.
Havia naquele Livro algo que buscava há muito.

Marco disse...

Houve um crente que confidenciou a 'Abdu'l-Bahá: "Já li o Kitáb-i-Íqán 80 vezes. Acho que comecei a perceber...". Quem era esse crente?
a) Zaynul Muqarabin
b) Mirza Abu Fadl
c) Mirza Haydar Ali

:-)

João Moutinho disse...

Mirza Abu Fadl.
No meio é que está a virtude. Mas desconfio estar enganado.