terça-feira, 13 de dezembro de 2005

A experiencia religiosa e o enquadramento humano

A maioria das pessoas que tem uma experiência religiosa a qualquer nível assume que se trata de uma experiência pura que lhes chega do exterior; por outras palavras, a sua forma e conteúdo têm origem numa outra realidade e não são afectadas pelas particularidades da pessoas a quem ocorre. Isto tem sido descrito como a erupção do sagrado no profano. Um exame cuidadoso mostra que as coisas não são exactamente assim.

A primeira coisa que vale a pena notar é que as experiências religiosas tendem a possuir uma conformidade com as expectativas culturais e religiosas. As raparigas da aldeia em Portugal têm visões da Virgem Maria e não da deusa indiana Kali. Os nativos norte-americanos nas suas transes têm visões de animais norte-americanos e não de animais africanos. Assim, parece que as experiências religiosas por muito intensas e arrebatadoras que sejam, estão sujeitas a constrangimentos por parte das normas culturais e religiosas da pessoa a quem ocorre. Outra forma de olhar para isto é dizer que não pode existir algo como uma experiência pura. Uma experiência ocorre sempre a uma pessoa, e essa pessoa já possui um enquadramento interpretativo através do qual vê o mundo. Assim, a experiência e a interpretação estão sempre combinados e interligados.

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pags. 114

NOTA: sobre as aparições de Fátima já deixei aqui a minha opinião em dois posts (Fátima, Ainda sobre Fátima)

7 comentários:

GH disse...

Sempre pensei que as pessoas que tinham uma "experiencia religiosa" (tipo "visões" ou "sonhos") não batiam muito bem.
Nunca me tinha lembrado desta: essas pessoas podem ter passado por algo que eles próprios não sabem descrever.

Pitucha disse...

Já me tinha colocado a questão da influência cultural na vida religiosa de uma pessoa! Afinal, se tivesse nascido na Holanda seria, certamente, protestante...mas não menos honesta nessa escolha.
Beijos

Anónimo disse...

Há uma fronteira que não conseguimos passar: a do Eu. Olhamos o mundo com os nossos olhos e o máximo que podemos fazer é imaginar a maneira como os outros o vêm.
Neste ponto a doutrina protestante parece-me certeira. Cada um é responsável perante Deus. Com a sua cultura, com os seus preconceitos, com as sua tendências "naturais". Responsável e sozinho perante Deus. Por isso me preocupo em fazer aquilo em acredito (pela minha experiência religiosa pessoal): viver e pregar o Evangelho. As divagações sobre a fé dos outros interessam-me pouco.

Anonymous #2

Marco disse...

Anonymous #2,

Parece-me que mais do que "imaginar a maneira como os outros o vêm" podemos tentar perceber a perspectiva dos outros. No caso deste pequeno texto, o autor tenta enquadrar essa perspectiva e entendimento da experiência religiosa segundo a envolvente socio-cultural do ser humano.

É verdade que cada um de nós, na sua fé, está sozinho perante Deus. Mas ninguém é uma ilha. E porque somos “animais sociais” temos necessidade de partilhar os nossos interesses, preocupações e experiências. No âmbito religioso, é esta necessidade de partilha da experiência do sagrado que cimenta as comunidades religiosas. Se nunca nos preocupamos com as experiências e as opiniões (mesmo que sejam meras “divagações”) dos outros, a religião perde a sua vertente comunitária e passa a ter apenas um cunho pessoal.

Apesar de não nos conhecermos pessoalmente, não acredito que as “divagações sobre a fé dos outros” te interessem pouco. Se assim fosse não terias paciência para este blog. Pela minha parte, já disse que aprecio as tuas opiniões e argumentos. Então o que estamos a fazer aqui? Ao trocar opiniões estamos a esgrimir argumentos ou a partilhar experiências? Não têm sido estas trocas de comentários uma manifestação de interesse pela fé do outro?
:-)
Um abraço

Anónimo disse...

Marco

Claro que não estou a por em causa a vertente comunitária da fé. Sei por experiência própria que a comunidade, a igreja, é indispensável. Por outro lado, o diálogo honesto com crentes de outras religiões, como aqui neste bom blog, também permite alargar a tal perspectiva humana e limitada.
Mais uma vez regresso ao Novo Testamento: "Julgai todas as coisas, retende o que é bom" - I Tessalonicenses 5:21
A minha questão tem a ver a limitação dos nossos sentidos e da nossa razão em contraponto à importância da dimensão pessoal da revelação divina. Quando digo que "as divagações sobre a fé dos outros interessam-me pouco" quero dizer que elas não são relevantes para a minha fé. Será que as minhas convicções religiosas seriam iguais se tivesse tido outra família e vivesse noutro meio? Talvez sim. Ou talvez não. Conheço filhos de ateus empedernidos que se tornaram cristãos fervorosos... Seja como for, a questão torna-se irrelevante perante a responsabidade que tenho em responder por aquilo me foi dado acreditar.
Já agora, um bom tema para um post seria o motivo que nos leva a escrever aqui(Marco e comentadores). Simples diálogo, cultura geral, proselitismo, evangelização?

Anonymous #2

Marco disse...

Anonymous #2,

O que me motiva a escrever aqui devia ter sido o primeiro post deste blog. Na verdade, tenho várias motivações para escrever aqui.
1. Apresentar uma perspectiva baha’i sobre assuntos correntes.
2. Debater o fenómeno da religião sobre diferentes perspectivas.
3. Expor a história e os valores da religião baha’i segundo a minha perspectiva pessoal.
4. Partilhar pequenas experiências e histórias pessoais.

Há quem diga que este é um “Blog de Missão”. Talvez isso queira dizer que é visto como tendo um carácter evangelizador. Não sei bem se o termo proselitista será adequado a este blog. Sempre entendi o proselitismo como a promessa de uma recompensa (material ou espiritual) em troca da aceitação de uma mensagem religiosa (esses não são os moldes da divulgação da religião baha’i).

Por vezes penso que este blog está demasiado parecido com o barbeiro que me falou da Fé Baha’i pela primeira vez. O barbeiro, por natureza, é palrador. E a enorme maioria dos barbeiros fala de duas coisas: mulheres e futebol. Aquele falava de religião. Isso despertou a minha atenção. Mais tarde percebi que esse era o seu principal tema de conversa com a maioria dos clientes. :-)

Anónimo disse...

Sabes, neste campo há um similitude grande entre os crentes evangélicos e os crentes bahais. Esse barbeiro é a definição evangelica de crente. Alguém que vive a religião 24 horas por dia, que não se envergonha dela, que não "desliga" depois da missa ou dos rituais. Talvez seja a ausência de hierarquia que nos aproxime nesse ponto.