quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

Ainda sobre Fátima

Ainda a propósito de Fátima, e de uma questão deixada aqui pelo Santos Passos, aqui fica uma pequena reflexão sobre o misticismo nas religiões.
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Todas as religiões têm uma componente mística. Esse aspecto místico manifesta-se durante a vida dos seus Profetas fundadores, nos ensinamentos que Eles nos deixam, e eventualmente com alguns dos seus seguidores.

Quanto ao primeiro caso, é relativamente fácil encontrar nos livros sagrados e as tradições religiosas descrevem momentos profundamente místicos com os Profetas. São sobejamente conhecidos as descrições dos episódios de Moisés perante a Sarça Ardente, Jesus e o retiro no deserto, e Maomé perante o Anjo Gabriel; como é óbvio, é menos conhecida a descrição da visão de Bahá'u'lláh teve na prisão. São momentos difíceis de compreender para um simples mortal. Pessoalmente, parece-me todos os esforços para compreender estes momentos são infrutíferos ou meramente especulativos; tratam-se de momentos em que o Criador parece ter contactado com os Seus Mensageiros.

No segundo caso, podem-se incluir ensinamentos como a oração, a meditação, o jejum e a peregrinação. Tratam-se de actos - que têm uma certa carga mística - destinados fortalecer a nossa ligação com o Criador; permitem elevar a espiritualidade de quem os pratica, e a ser dinamizadores de uma mudança interior em cada ser humano. Os benefícios destes actos são descritos nos livros sagrados de todas as religiões.

No terceiro caso, em que um crente afirma ter tido uma "experiência mística", seja com sonhos, visões ou qualquer outra coisa, aí sou profundamente céptico no que toca à validade desse evento como fonte de orientação divina para a humanidade. Este tipo de ocorrências são - acima de tudo - experiências pessoais, que poderão ter validade e importância para quem as vive. Se forem partilhadas com outras pessoas devem ser vistas com alguma reserva e não ser motivo de especulações.

Na análise destes fenómenos devemos usar sempre a maior dádiva que Deus nos deu: a razão. Todos nós já tivemos situações ou experiências na vida que não conseguimos explicar ou compreender na plenitude. Mas o facto de não compreendermos, não significa que a possamos colocar automaticamente num plano de transcendência divina.

Além disso, há muitas coisas que a ciência de hoje ainda não consegue explicar, quer em termos de fenómenos da natureza, quer em termos de capacidades do ser humano. Por certo que no futuro a ciência explicará às novas gerações factos e realidades que hoje para nós nos parecem completamente incompreensíveis.

Note-se que eu acredito que as "experiências místicas" podem acontecer, mas o seu resultado de forma alguma devem ser um substituto – ou complemento – dos ensinamentos religiosos conforme foram revelados pelos Profetas. Como já disse estas experiências são profundamente pessoais. Se para compreender o mundo que nos rodeia muitas vezes nos sentimos limitados pela nossa inteligência e condicionados pelos nossos conhecimentos científicos, então ainda mais limitados e condicionados estaremos para compreender uma experiência espiritualmente transcendente. Não é por acaso que os esforços de interpretação deste tipo de fenómenos degeneram, geralmente, numa distorção da mensagem religiosa original.

2 comentários:

Anónimo disse...

Marco, não haverá aqui uma dualidade de critérios? Ou seja, antes de Baha'Ulah todos os acontecimentos religiosos são legitimados e constituem passos para a tal progressão da Humanidade. E lembro-lhe que visões e encontros "imediatos" são uma constante, fundamentais no caminhar das religiões, que atingem muito para além dos fundadores da religião. Mas, depois do vosso profeta, qualquer novo contributo já é olhado com a maior suspeita, e posto de lado se não estiver na linha Bahai.
No fundo, parece-me que estão apenas a cumprir o caminho da maior parte das religiões. São sempre a derradeira revelação, absorvem e organizam o que já existe antes, mas têm muita dificuldades em lidar com as "novidades" que surgem constemente.
Já agora outro reparo: aquele tom "nem sim, nem não, antes pelo contrário" que sobressai das citações do post de dia 15, devia fazer pensar os bahais. Aquilo, na minha opinião, é demasiado parecido com as páginas do Catecismo Católico. Se no caso dos católicos podemos compreender (não aceitar) pelos muitos séculos de poder que lhes ensinou que se deve deixar sempre a porta entreaberta, quanto à religião Bahai, com pouco mais de cem anos, julgo que devia ser bastante mais clara. O tal "falar sim, sim, não, não" recomendado por Cristo.

Marco disse...

Segundos os ensinamentos baha'is, Deus comunica com a humanidade através de Profetas; este é o canal privilegiado para a orientação divina da humanidade. As visões, os sonhos e as experiências místicas são uma constante em todas as religiões (inclusive na religião Baha'i). Não me parece é que estas possam ser consideradas como substituto, ou complemento, da religião, conforme é revelada pelos seus Profetas fundadores. Considere-se por exemplo as experiências de Stª Teresa de Ávila; podemos considerá-las como autênticas experiências místicas. Mas por muito interessantes que possam parecer, são apenas experiências pessoais.

Quanto a Bahá'u'lláh não o consideramos como o último Profeta, mas o mais recente; a humanidade continua a evoluir e dentro de alguns séculos terá outras necessidades e surgirá outro Profeta. Relativamente à dificuldade em lidar com as "novidades", penso que o documento "Quem está a escrever o futuro?" mostra uma comunidade baha’i que acompanha com muito entusiasmo as novidades que vão surgindo no nosso planeta.

Mas voltemos às experiências místicas: tanto quanto sei, a doutrina oficial da Igreja Católica também olha estes fenómenos com muito cepticismo. Só depois de muitas investigações, estes fenómenos podem ser considerados pela Igreja como dignos de crença. Aqui reside uma diferença em relação à doutrina baha'i; nunca a Casa Universal de Justiça (que actualmente dirige a Comunidade Internacional Baha'i) irá declarar um fenómeno destes como digno de crença.

Entre bahá’ís já ouvi alguns relatos de pessoas que tiveram experiências deste género: sonhos, visões e até uma experiência pós-morte. São histórias muito interessantes, por vezes fascinantes, mas... eram experiências pessoais. De forma alguma as podíamos usar aquelas experiências para substituir, complementar ou mesmo re-interpretar os ensinamentos baha’is.

Assim, não me parece que a posição baha'i seja de "porta entreaberta"; o que se diz é que estas coisas podem existir, mas, ao contrário das revelações dos Profetas, não são fonte de orientação divina para a humanidade.