Por David Langness.
No debate entre a cremação/enterro, os ensinamentos Bahá’ís posicionam-se decisivamente a favor do enterro, por três razões principais: a protecção do ambiente, a natureza humana e a dignidade dos nossos corpos.
Neste artigo analisaremos a primeira destas razões e examinaremos os argumentos ambientais contra a cremação e o embalsamamento.
'Abdu'l-Bahá, em resposta a uma pergunta sobre cremação feita pela pioneira Bahá'í americana Laura Clifford Barney, escreveu:
No que diz respeito aos fenómenos universais, por mais que o intelecto humano se esforce por encontrar os procedimentos correctos ou o sistema perfeito, nunca poderá descobrir algo semelhante à criação divina e à sua ordem de transferências e trajectórias dentro da cadeia da vida. Pois as transferências, as composições, os encontros e dispersões de elementos, de partes constituintes e de substâncias, sucedem numa cadeia poderosa e impecável. Observai as leis universais reais e vede quão solidamente estabelecidas, seguras e fortes são.
Tal como a composição, a formação, o crescimento e o desenvolvimento do corpo físico ocorreram gradualmente, também a sua decomposição e dispersão devem ser graduais. (Additional Tablets, Extracts and Talks)
Esta cadeia da vida, como lhe chamou 'Abdu'l-Bahá, refere-se também à "grande cadeia do ser", ou em latim, à scala naturae ou "escada da natureza". O conceito surgiu originalmente com Platão e Aristóteles, e constitui a base científica para ordenar e classificar a matéria viva e não viva, desde os minerais e as plantas aos animais e aos seres humanos.
A Grande Cadeia do Ser e a Hipótese Gaia
Nas palavras de ‘Abdu’l-Bahá, a grande cadeia do ser refere-se também à biologia evolutiva de toda a existência, à inter-relação de todos os seres e ao movimento e transmissão contínuos de elementos entre cada nível da vida. Numa palestra proferida em Paris, no início do século XX, ‘Abdu’l-Bahá elaborou – e, ao fazê-lo, propôs pela primeira vez – a " hipótese Gaia", o conceito de que a própria Terra manifesta vida:
Na criação física, a evolução ocorre de um grau de perfeição para outro. O mineral, com as suas perfeições minerais, passa para o vegetal; o vegetal, com as suas perfeições, passa para o mundo animal, e assim sucessivamente até ao da humanidade. Este mundo está repleto de aparentes contradições; em cada um destes reinos (mineral, vegetal e animal), a vida existe no seu grau; embora, comparada com a vida no homem, a Terra pareça morta, também vive e tem vida própria. (Paris Talks, p.66)
A hipótese Gaia, desenvolvida 60 anos mais tarde pelo pioneiro químico e ambientalista britânico James Lovelock e pela microbiologista evolucionista norte-americana Lynn Margulis, defende que os organismos vivos interagem constantemente com o meio inorgânico que os rodeia, formando um sistema sinérgico e auto-sustentável. Este sistema e o seu constante movimento de elementos perpetuam as condições para que a vida prospere no nosso planeta – o que significa que a própria Terra está viva.
Este sistema “poderoso”, como salientou 'Abdu'l-Bahá na sua resposta a Laura Clifford Barney, surge da ordem natural – o que significa que os corpos humanos, como parte integrante da criação física, devem poder regressar ao ecossistema de forma natural e gradual:
… a composição e a decomposição, o agrupamento, a dispersão e a deslocação de todas as criaturas devem ocorrer segundo a ordem natural, o governo divino e a grandiosa lei de Deus, para que nenhuma perturbação ou dano afecte as relações essenciais que emergem das realidades internas das coisas criadas. É por isso que, segundo a lei de Deus, nos é ordenado que sepultemos os mortos. (Additional Tablets, Extracts and Talks)
A cremação interrompe e anula violentamente estes processos naturais graduais, transformando imediatamente os corpos em dois subprodutos: as cinzas e a poluição atmosférica.
A revista National Geographic, num artigo de 2019 sobre os factos científicos da cremação, destacou que "a cremação requer muito combustível e resulta em milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono por ano – o suficiente para que alguns ambientalistas estejam a tentar repensar o processo".
A cremação de um corpo – afinal, os seres humanos são formas de vida baseadas no carbono – acrescenta mais de 225 kg de CO² à atmosfera. No mundo ocidental, a cremação utiliza combustíveis fósseis para gerar o calor acima dos 650 °C necessário para queimar os corpos. A maioria das cremações no mundo, que ocorrem em países hindus como a Índia, utiliza a madeira como combustível, o que também contribui para a desflorestação e aumenta a pegada de carbono. Além disso, o calor intenso necessário para a cremação resulta na vaporização tóxica de mercúrio proveniente de obturações dentárias, tornando-se uma das principais fontes da crescente poluição atmosférica por mercúrio no mundo.
Porque é que os Bahá'ís não embalsamam
O embalsamamento dos corpos dos mortos antes do enterro é uma prática secular. Basicamente, o embalsamamento consiste em drenar o sangue e injetar substâncias químicas e conservantes, como o formaldeído, o glutaraldeído e o metanol, no sistema arterial do falecido, além de remover cirurgicamente os fluidos internos do corpo. Embora o embalsamamento não seja obrigatório por lei na grande maioria dos países, os agentes funerários sugerem frequentemente aos familiares enlutados que o falecido seja embalsamado, talvez porque algumas agências funerárias lucrem consideravelmente com o procedimento.
O embalsamamento atrasa o processo natural de decomposição, permitindo funerais com caixão aberto, onde o defunto pode ser visto. No entanto, após o sepultamento, os fluidos tóxicos provenientes do embalsamamento acabam por ser absorvidos pelo solo em redor da sepultura e podem contaminar o lençol freático. Por esta razão, o embalsamamento tem sido questionado do ponto de vista ambiental.
Os ensinamentos Bahá’ís proíbem o embalsamamento, a menos que seja exigido por lei, como explica esta carta de 1988 escrita em nome da Casa Universal de Justiça:
Bahá’u’lláh aconselhou que é preferível que o enterro ocorra o mais cedo possível após o falecimento. Quando as circunstâncias não permitam o sepultamento do corpo logo após a morte, ou quando há uma exigência da lei civil, o corpo poderá ser embalsamado, desde que o processo utilizado tenha o efeito de retardar temporariamente a decomposição natural por um curto período. Contudo, o corpo não deve ser submetido a um processo de embalsamamento que tenha o efeito de preservá-lo sem decomposição por um longo período; tais processos visam geralmente preservar o corpo indefinidamente.
As leis Bahá’ís sobre o enterro exigem que os corpos dos defuntos sejam tratados com bondade e cuidado, dado que outrora foram os repositórios do espírito humano. Isto significa simplesmente lavar o corpo, envolvê-lo numa mortalha limpa de algodão ou seda e sepultá-lo na terra num caixão de madeira nobre, cristal ou pedra. O enterro deve ocorrer logo após a morte, recomendam os ensinamentos Bahá’ís, e a uma distância de até uma hora do local do falecimento, para evitar o transporte de corpos por longas distâncias. No enterro, os Bahá’ís costumam ler e recitar a oração de Bahá’u’lláh pelos mortos, que começa assim:
Ó meu Deus! Esta é a Tua serva e filha da Tua serva, que acreditou em Ti e nos Teus sinais, e voltou o seu rosto para Ti, totalmente desapegada de tudo, excepto de Ti. Tu és, em verdade, dentre os que mostram misericórdia, o mais misericordioso.
Trata-a, ó Tu que perdoas os pecados dos homens e ocultas as suas faltas, como convém ao céu da Tua generosidade e ao oceano da Tua graça. Concede-lhe admissão nos recintos da Tua misericórdia transcendente que existia antes da fundação da terra e do céu. Não há outro Deus além de Ti, o Sempre Clemente, o Mais Generoso.
(Se a pessoa falecida for um homem, a oração é: “Ó meu Deus! Este é o Teu servo e filho do Teu servo…”, etc.)
Composição e Decomposição: O Ciclo Natural da Vida
As leis funerárias Bahá’ís preconizam a simplicidade e a dignidade no tratamento da morte, pois o embalsamamento ou a cremação de corpos humanos interrompem e desviam o ciclo natural da vida. Quando os seres vivos morrem, decompõem-se naturalmente, transformando-se nos nutrientes necessários a outras formas de vida. Os Bahá’ís acreditam que este processo ambiental natural — o ciclo da vida e a inter-relação de todos os seres vivos — deve ser permitido que ocorra de acordo com a intenção de Deus e da natureza. Em Respostas a Algumas Perguntas, 'Abdu'l-Bahá disse:
Quanto às coisas criadas, a sua vida consiste na composição e a sua morte na decomposição. Mas a matéria e os elementos universais não podem ser completamente destruídos e aniquilados. Não, a sua aniquilação é meramente uma transformação. Por exemplo, quando um homem morre, o seu corpo transforma-se em pó, mas não se torna absolutamente inexistente: conserva uma existência mineral, mas ocorreu uma transformação, e essa composição foi submetida a decomposição. O mesmo acontece com a aniquilação de todos os outros seres; pois a existência não se torna absolutamente inexistente, e a absoluta inexistente não adquire existência. (Respostas a Algumas Perguntas, cap. 53)
Este tipo de enterro compassivo e digno – que trata os nossos corpos como parte integrante e importante da teia da vida – faz sentido tanto do ponto de vista lógico como ecológico.
Ao observarmos belas árvores e plantas floridas a crescer nos cemitérios, podemos começar a reconhecer a grande beleza deste ciclo da vida e a compreender o seu significado ambiental e espiritual.
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Texto original: The Environmental Case Against Cremation and Embalming (www.bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

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