quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Que liberdade é essa?

Referindo-se à polémica das "caricaturas de Maomé" o Embaixador iraniano em Lisboa questionou: "Que liberdade é esta que vocês têm que vos permite dizer o que querem de outros santos de outras religiões?".

É uma boa pergunta que reflecte parte do debate a que se assiste na blogosfera: a liberdade e a responsabilidade. Mas terá o representante do governo iraniano em Lisboa autoridade moral para colocar uma questão destas? Vejamos:

  • A Comunidade Baha'i é a maior minoria religiosa do Irão. No Irão os baha'is são considerados cidadãos de terceira categoria; para dezenas de milhares de baha'is iranianos a sua religião foi motivo para serem despedidos dos empregos, privados de pensões de reforma, verem as sua lojas foram confiscadas e lares foram destruídos. Que liberdade é essa?
  • Centenas de jovens bahá'ís são impedidos de frequentar as universidades iranianas, a menos que neguem a sua religião. Que liberdade é essa?
  • Vários lugares sagrados bahá'is foram destruídos no Irão desde 1979. Que liberdade é essa?
  • Cerca de duas centenas de bahá'ís foram executados ou morreram em prisões iranianas desde a revolução islâmica. Que liberdade é essa?
  • Várias vezes a Assembleia Geral das Nações Unidas e a Comissão dos Direitos Humanos condenaram as perseguições aos baha'is no Irão e manifestaram profunda preocupação pela situação dos direitos humanos daquela comunidade religiosa. Que liberdade é essa?
  • O Relatório de 2005 do Departamento de Estado sobre Liberdade Religiosa no Mundo descreve vários casos de perseguições aos baha'is. A palavra baha'i é mencionada 93 vezes no capitulo dedicado ao Irão. Alguns excertos:

    As acções do governo continuaram a criar uma atmosfera ameaçadora contra algumas minorias religiosas, especialmente baha’is, judeus e cristãos evangélicos.
    (...)
    A maior minoria religiosa não muçulmana no é a comunidade baha’i, que se estima ter entre 300.000 e 350.000 aderentes no país.
    (...)
    Aderentes de religiões não reconhecidas ela Constituição não usufruem de liberdade para praticar a sua crença. Esta restrição afecta seriamente os aderentes da Fé Baha’i, que o governo considera como um grupo islâmico herético e com uma orientação política que é antagónica à revolução islâmica. No entanto, os baha’is não se consideram muçulmanos, mas antes como uma religião independente, com origens nas tradições islâmicas xiitas. Funcionários governamentais afirmaram que, enquanto indivíduos, todos os baha’is têm direito às suas crenças e estão sob protecção dos artigos da Constituição; no entanto, o governo tem continuado a proibir os baha’is de ensinar e praticar a sua fé
    (...)
    Segundo a lei, o sangue baha’i é considerado "Mobah", significando isto que pode ser derramado impunemente.


    Que liberdade é essa?

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ALGUMA REFERÊNCIAS:


Portas Fechadas!
Dhabihu'llah Mahrami
Dhabihullah Mahrami: reacção da Amnistia Internacional
Bahais Mourn Iranian Jailed for His Faith (Washington Post)
Pela 18ª vez...
Pela 17ª vez...
Cemitério Bahá'í de Yazd
Desrespeitando os mortos
Apagar a Memória
Santuário Baha'i destruído no Irão
Aquelas dez mulheres de Shiraz
Video sobre Mona Mahmudnizhad
O Islão e as Minorias
Carta ao presidente Khatami
The Situation of Baha'is in Iran
UN calls on Iran to stop persecution of Baha'is
Human Rights Violations Around the World

15 comentários:

Pedro Morgado disse...

Que liberdade é essa??? E está tudo dito!

Helena disse...

Marco,
prefiro distinguir entre a mensagem e o mensageiro. A pergunta é boa, independentemente da autoridade moral de quem a faz. E acho inteligente e oportuno da sua parte devolver essa pergunta ao mensageiro. Penso que o caminho a fazer vai por aí: sermos capazes de entender os argumentos das outras pessoas e culturas, tentar encontrar uma plataforma justa para todos.
Alargando um pouco a discussão: há países árabes onde os cristãos são compelidos à clandestinidade religiosa. Seria um erro responder na mesma moeda.

Marco disse...

É verdade, Helena.
É óbvio que não se deve responder na mesma moeda. O que eu não compreendo são os dirigentes - ou representantes - desses países (onde as minorias não gozam de liberdade) que tentam dar lições sobre liberdade e respeito entre nós. Não me parece que isso ajude à confiança no diálogo entre povos e culturas.

Elfo disse...

Eu nao sei muito bem se atirar pedras uns aos outros resolve a situaçao, mas que descarrega a adrenalina, la isso e verdade.

Nao e digno que um povo que se diz civilizado faça caricaturas de uma Personagem Divina como Maome, quando se sabe que isso e ofensivo dos valores morais e eticos dessa religiao.
Tambem nao gostariamos que fizessem o mesmo com Bahaullah ou com o Bab penso mesmo que deviamos estar solidarios com os muçulmanos, peze, embora as nossas diferenças e ofenças sofridas por nos pela parte destes.
Um abraço.

Elfo disse...

Desculpem a falta de acentos mas hoje a maquineta nao estah para aih virada.

João Luis disse...

Sim eu lembraria ao Embaixador as atrocidades a que os Bahá'is estão, ainda hoje, sujeitos e quem sabe, não só os bahá'is como outras religiões ou minorias religiosas. Lembrar-lhe-ia também a fathwa que decretaram ao Salman Rushdie - eu por acaso li o livro e não encontrei razões que levassem a condenar à morte um homem, mas eu não sou fanático.
E lembrar-lhe-ia que o sururu que fizeram à volta disto tudo é que deu a visibilidade que deu ao caso; se não têm dado ao facto a importância que deram, isto não tinha atingido as proporções que atingiu!
E será que se sentem bem com eles próprios cometendo atentados em nome do Representante de Deus Maomé? Eu ouvi o Sheik Munir nos Prós e Contras e a posição dele foi mesmo muito moderada, o que acho ser a postura mais inteligente.

Helena disse...

Esqueci-me do ponto mais importante, no comentário anterior: a perseguição de outras pessoas, ou a simples ridicularização delas, por motivos religiosos, é insuportável.
Tanto melhor, então, poder usar as próprias palavras daquele que persegue, como o Marco faz. O rei vai nu.
A revista Stern desta semana chama a atenção para um facto curioso: bandeiras dinamarquesas não fazem propriamente parte da parafernália das famílias islâmicas. Quando, de repente, há tantas bandeiras à disposição do mob para serem queimadas, pergunta-se quem terá orquestrado estas manifestações espontâneas de fúria...

dina disse...

gostei da questão. o facto de haver gente que começa aceitar a revolta dos árabes como "normal", como por ex. o nosso MNE, que de certeza está a tomar medicamentos que lhe toldam o espirito, é ainda mais preocupante do que os árabes andarem a refilar com as caricaturas.

João Moutinho disse...

Já lá vai o tempo do Rei Ciro...
Ao vermos as várias bandeiras dinamarquesas a serem queimadas dá que reflectir e acima de tudo preocupar. Estamos a falar de um estado que é um modelo de organização social e respeito pela crença do outro.
Alguma multidões acéfalas orquestrads por indivíduos sem escrúpulos (ou criminosos) conseguiram dar uma visibilidade aqueles cartoons vergonhosos.
Ou seja, se a caricatura é (e, em parte, acredito ser) uma blasfémia então, de entre, os seus principais impulsionadores estão as autoridades governamentais e religiosoas de vários países muçulmanos.
Qaundo víamos a bandeira americana ou israelita a ser queimada poderíamos considerar essa atitude como resultante de um sentimento de revolta, mas a bandeira dinamarquesa que representa um Estado de 5 milhões de habitantes e que tem apoiado os palestinianos já é (muito)preocupante.
O que nos vale, europeus, é que vamos tendo os EUA para nos protegerem.
(não regozijo com o último parágrafo mas receio que, em parte, seja verdade)

celtiberix disse...

Felizmente a internet (e a blogosfera) servem para este tipo de coisas: ao contrário de indivíduos como o senhor embaixador do Irão ou o senhor Dr.Freitas do Amaral ainda há quem se sirva disto para aprender algo. E foi o que eu fiz, e foi fantástico descobrir um blog como este.
Um abraço.

Elise disse...

o marco tem felizmente a liberdade e o direito de questionar o embaixador do irão, porque vive na Europa do séc XXI.

Por isso, perdoem-me a arrogância, não precisamos de lições de moral sobre liberdades e respeito de países que desconhecem conceitos como separação de Estado/religião e Estado/Media.

As declarações do embaixador iraniano sobre o Holocausto chegaram à Polónia e a reacção oficial não foi a melhor.

george wesley disse...

What a powerful argument you present on behalf of religious freedom for Baha'is!

GH disse...

Mesmo não sendo bahai, e sabendo que o problema dos bahais não é a coisa mais grave que se passa no Irão, não posso deixar de apoiar o que escreveste.

Pitucha disse...

Boa pergunta!
Admira-me a capacidade de certas pessoas de não olharem para si próprias e para os seus próprios erros!

Nova Evangelização disse...

Que liberdade é essa ?!

* * *

« Referindo-se à polémica das "caricaturas de Maomé", o embaixador iraniano em Lisboa questionou:
"Que liberdade é esta que vocês têm, que vos permite dizer o que querem de outros santos de outras religiões?" ».

« A Comunidade Baha'i é a maior minoria religiosa do Irão. No Irão os baha'is são considerados cidadãos de terceira categoria. Para dezenas de milhares de baha'is iranianos a sua religião foi motivo para serem despedidos dos empregos, privados das pensões de reforma, para verem as suas lojas a serem confiscadas e os seus lares a serem destruídos!...

- Que liberdade é essa? »


(...)

* * *

Caro Marco
Caros Blogonautas

Estou plenamente de acordo com o que diz e denuncia o Marco (Baha-i) neste seu poste, pois é essa a sua reacção justa, normal e positiva - bem haja!
Só não é justa e normal, pelos vistos, para regimes déspotas e fundamentalistas, como o do Irão em particular e os do Islão em geral, para mal de todos nós, Humanidade do século XXI!...

Todavia, existe, como já alguém sensatamente disse e reconheceu, um perigo latente ainda mais extremo e iminente, bárbaro e maligno, que é o de haver precisamente certos ocidentais, inclusivamente "cristãos e democratas" (!!??), que dão, cobarde e hipocritamente, total ou parcial razão aos islâmicos radicais e fundamentalistas; ou seja, aos terroristas em geral, que não olham a meios para alcançarem os seus hediondos fins, e não apenas como simples "suicidas", como incorrecta/eufemistamente lhes chamam (que isso, a ser verdade, seria sem dúvida um mal menor!), mas sobretudo como "potenciais assassinos em massa" (inclusivamente de pessoas cem por cento inocentes!), e por isso mesmo piores ainda que a "bomba atómica" (por razões óbvias)!...

E fazem-no por... rebeldia, cinismo, cobardia, traição, oportunismo, ganância, etc./etc., o que torna a situação bem mais grave e complicada, degradante e perigosa, sobretudo para todo o Mundo Ocidental; ou seja, para os países mais desenvolvidos e civilizados, "relativamente democráticos e cristãos" - repito, 'relativamente', ou melhor, 'muito deficientemente'! -, pois na realidade deixam muito a desejar (quanto a 'cristãos e democratas', o que é parcial/relativamente fachada, ou uma farsa e 'artifício diabólico'!), embora por motivos muito diversos de nação para nação, de cultura para cultura, de raça para raça, de crença pra crença!...

Enfim, estamos quase todos metidos na "boca do lobo"; isto é, numa tremenda emboscada - fazendo, directa ou indirectamente, o jogo execrável do inimigo! -, com a cumplicidade maléfica e traiçoeira de certos regimes e pessoas, como o "partido socialista", como o ministro Freitas do Amaral (eis-CDS!), como certo clero "rebelde, herético e modernista", como certos partidos e correntes comunistas e bloquistas (da extrema esquerda), como várias ideologias e filosofias ateias, maçónicas e jabobinas, etc./etc., um nunca mais acabar!...

Por conseguinte, que o embaixador iraniano em Portugal tenha dito o que disse - embora facciosa, cínica e injustamente! -, ainda se compreende (embora repugne); mas agora tantos ocidentais, "cristãos" e políticos, "democratas" e socialistas, a darem razão, ainda que parcial e/ou hipocritamente, aos regimes tirânicos e terroristas, a apoiar-lhes os golpes e chantagens sujos e corruptos, pérfidos e violentos, cruéis e odiosos (diametralmente opostos à ética, moral e civilidade mais elementares!), isso não se admite, de modo nenhum; pelo que nunca nos devemos calar, jamais - pois seríamos de algum modo seus cúmplices! -, antes pelo contrário (tal como fez o Marco e muito bem - parabéns! -, ou como todos nós devíamos fazer, o que é da nossa estrita obrigação, como humanistas que devemos ser), custe o que custar!...

Que Deus nos valha, agora e sempre, ao menos como último recurso; o Deus único e verdadeiro, que é o mesmo Criador para toda a humanidade; Aquele a quem tudo devemos, Aquele de quem tudo depende, Aquele que a todos julgará com rigor, mesmo aos que se dizem descrentes e ateus, tal como ao santo e pecador!

Um abraço de solidariedade cristã para todos vós,
e em particular para o amigo Baha'i
(assim como para a sua comunidade em geral,
tão discriminada e perseguida no Irão,
ainda mais que o povo Cristão).

José Mariano