terça-feira, 7 de março de 2006

Kitáb-i-Iqán (14)

A Ressurreição dos Mortos

A ressurreição dos mortos é um conceito comum às escatologias cristãs e islâmicas; ambas sustentam que um dia, no "fim dos tempos", todos os seres humanos ressuscitarão e serão chamados a responder pelos seus actos. Tratam-se interpretações literais dos textos sagrados que há muitos séculos são aceites pelos crentes.

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh afirma que o significado desta expressão está muito longe da interpretação literal que lhe é atribuída. [114]; essa interpretação literal leva-nos a um acto de utilidade questionável para os seres humanos. Pelo contrário, o fundador da religião Bahá'í considera que a ressurreição dos mortos consiste num processo de regeneração espiritual que ocorre sempre que surge um novo Mensageiro de Deus [51]. Esse transformação dos seres humanos é algo muito mais poderoso do que uma ressurreição física.


A Ressurreição dos Mortos, de Luca Signorelli.
Este pintor renascentista acreditava na ressurreição física.

Bahá'u'lláh acrescenta ainda que o Dia da Ressurreição se deu com todos os Manifestantes de Deus, e afirma explicitamente que a ressurreição dos mortos se deu com o aparecimento de Jesus[88] e com o aparecimento de Maomé[121]. Além disso, Bahá'u'lláh recorda que todos os Manifestantes tentaram explicar o sentido simbólico desta expressão: "Em cada era e século, os Profetas de Deus e Seus eleitos não tiveram outro objectivo senão o de afirmar o sentido espiritual dos termos «vida», «ressurreição» e «juízo»"[128]. E apresenta alguns exemplos:

Essas coisas sucederam nos dias de cada um dos Manifestantes de Deus. Assim disse Jesus: "Importa-vos nascer outra vez." (Jo 3:7) E ainda: "Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não poderá entrar no Reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito." (Jo 3:56) O intuito destas palavras é que, em cada era, quem nasce do Espírito e se vivifica pelo alento do Manifestante da Santidade, é, em verdade, dos que atingiram a "vida" e a "ressurreição", e entraram no "paraíso" do amor de Deus. [125]

(...)

Noutra passagem do Evangelho está escrito: "E aconteceu que, certo dia, morrera o pai de um dos discípulos de Jesus. Esse discípulo, relatando a Jesus a morte do pai, pediu que lhe fosse permitido ir enterrá-lo. A isso respondeu Jesus, aquela Essência do Desprendimento, dizendo: «Deixa que os mortos enterrem os seus mortos.» (Lc 9:60) [125]
Também no Alcorão se refere um exemplo de crentes que não entendiam o significado da expressão “ressurreição”: "E se disseres «Após a morte sereis seguramente ressuscitados», os infiéis responderão: «Isto nada mais é que manifesta magia»"(11:7)

O Dia da Ressurreição é ainda referido como “o Dia do Juízo”; o simbolismo de Ressurreição também está muito próximo de um outro referido anteriormente: a Presença de Deus [149]. Ambas as expressões descrevem a aceitação de uma nova Mensagem Divina, um acto que nos exige que abandonemos ideias, valores e conceitos antigos e que adoptemos novos valores e ensinamentos revelados pelo novo Manifestante de Deus.

Com o aparecimento de um novo Mensageiro de Deus todos somos testados. Ao surgir a nova mensagem divina, cuja fonte é a mesma de todas as religiões anteriores, Deus avalia se a nossa fé se baseia na essência do que foi revelado ou apenas em aspectos exteriores e secundários da religião[182]. É nesse teste que o Criador nos faz, que podemos viver uma ressurreição espiritual ao entender os ensinamentos de uma nova mensagem divina.

4 comentários:

Maria Lagos disse...

Muito boa explicação dos textos sagrados. Gostei muito do post. Os mistérios da vida e da morte são assunto que interessa a toda a gente.

dina disse...

desculpa, não consegui ler o texto, porque estou sem tempo para isso, mas digo-te ... adorei a imagem

Joao disse...

Descobri só agora este blog e acho excelente, sem duvida que vou passar com regularidade.
Parabéns Marco!

Marco disse...

Obrigado, João.
Comentários e trocas de opiniões são sempre bem vindas.