sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Raizes da Diversidade Religiosa em Portugal

Quando no colóquio Religiões: Diversidade e não-Discriminação, o Dr. Samuel Levy concluiu a sua intervenção, pensei imediatamente que gostaria de publicar o texto integral da sua intervenção neste blog. A minha amiga Esther Mucznik teve a amabilidade de me enviar esse texto e aqui o deixo. Espero que o apreciem tanto como eu.

Mas a publicação deste texto é também uma prenda de aniversário: para o Nuno Guerreiro pelo quarto aniversário da Rua da Judiaria. Depois de quatro anos a mostrar-nos as raízes judaicas da história de Portugal, aqui fica o meu "muito obrigado" (תּוֹדָה רַבָּה).

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RAIZES DA DIVERSIDADE RELIGIOSA EM PORTUGAL

Colóquio Religiões – Diversidade e não discriminação

Lisboa, 19 de Outubro de 2007

Judaísmo – Samuel Levy

A igualdade de oportunidades que se deseja para todo o ser humano é, felizmente, hoje, uma preocupação das sociedades democráticas. Elas não tem existido, sobretudo, pela discriminação que é feita aos seres humanos pelos mais variados motivos desde a cor da pele, ao nível social, religião e convicções, em geral, nacionalidade, etc etc. Essa discriminação é uma tendência das sociedades, que cumpre combater, até porque, muitas vezes, ironicamente essas sociedades vem a ser prejudicadas por essa discriminação.

Deve ser um combate permanente, pois, infelizmente, a discriminação tende a renovar-se a cada geração. Uma forma de a combater é conhecer a História e verificar os sofrimentos que foram infligidos a tantos seres humanos, a maior parte das vezes com terrível crueldade. Por isso relembraremos alguns factos.

No caso concreto da História de Portugal não faltam os exemplos de que foram vítimas os povos de crença ou raça diferente dos poderes instituídos. É certo que, no passado, a mentalidade e a cultura eram diferentes mas, infelizmente, nos dias de hoje eles repetem-se. No caso dos judeus, mal se saiu do holocausto nazi, já se ouve as arengas do presidente do Irão a querer destruir o Estado de Israel. Desgraçadamente, temos que contar, sempre, com estas “erupções” de ódio em todas as gerações.

Os judeus vieram, para a Península Ibérica, em tempos bastante remotos, possivelmente já no séc. IX a.C. com a vinda dos fenícios (um povo semítico da sua região) e com os cartagineses e gregos no séc. VI a.C.(destruição do 1º templo e exílio na Babilónia). O fluxo de judeus ter-se-á repetido em eras posteriores, aquando das invasões dos seus Estados (Israel e Judah), como por exemplo, com Alexandre Magno (322 a.C.), destruição do 2º templo (70 d.C.) pelo Imperador romano Tito e expulsão dos judeus de Jerusalém, por Adriano (138 d.C.).

A título de curiosidade: os nomes de muitas cidades da Península Ibérica teriam nomes a sua origem origem em expressões hebraicas. Exemplos: Barcelona – Bar chelanu (a nossa costa); Sevilha – Shevil –yah (linha de Deus) , transformada mais tarde em Ishbilia, em árabe; Granada – Ger anat (colónia de peregrinos); mais tarde os árabes chamaram-lhe Garnatat-ul Yahud (Garnata dos judeus); Toledo - toledot (gerações) que inicialmente se chamou Taltel (desterro); Calatayud – Calat el yahud (castelo dos judeus, em árabe).

Os judeus tiveram a cidadania romana tal como os outros povos que Roma submeteu. (legislação de Caracala - 211-217). Viviam nas urbes como nos campos e dedicavam-se à agricultura (sobretudo vinho) ao comércio, aos ofícios e á navegação nas costas africanas .

Há 3 factos importantes a salientar na presença dos judeus na Península Ibérica:

1º - Os judeus eram, então, o único povo de religião monoteísta (no início não existia nem o Cristianismo nem o Islamismo).
2º - Os judeus nunca exerceram o poder temporal, apesar de serem numerosos.
3º - Os judeus nunca quiseram impor a sua religião aos outros (não faziam proselitismo) e sempre respeitaram os povos que os acolhiam e, até, os dominavam.

A História da relação entre os judeus e os povos de outras religiões teve sempre, ao longo dos séculos, uma alternância de períodos de ódio e perseguições ferozes com períodos de acalmia e profunda colaboração, que, aliás, e mostrou sempre benéfica para todos.

Com o advento do Cristianismo a situação começou a modificar-se. Logo no tempo dos apóstolos Paulo e Santiago a religião de Cristo começou a chegar à Península. A Igreja sofreu bastantes perseguições nos primeiros tempos da sua existência por parte dos romanos (Diocleciano, séc. III). Nos primeiros tempos do Cristianismo houve um clima de amizade entre judeus e cristãos (em grande parte de origem judaica antes da conversão de Roma). No entanto, e apesar disso, o clima de intolerância da Igreja não tardou a manifestar-se (concílio de Elvira 303 a 404 d.C, reunido em Granada) que tomou diversas medidas impedindo, sob pena de excomunhão, todo o convívio dos cristãos com judeus (não comer juntos, não casar, etc,) possivelmente com receio de uma “contaminação” ideológica. Estas medidas revelam que a população judaica devia ser bastante numerosa.

A partir do princípio do séc. V, a Península foi invadida pelos Suevos, Vândalos e Alanos povos bárbaros e logo a seguir pelos Visigodos. Governaram a sangue e fogo. Em relação aos judeus a situação agravou-se, a partir de 587, com a conversão do rei visigodo Recaredo que, perante o III Concílio de Toledo abjurou a fé ariana e adoptou a fé cristã. Novas medidas foram tomadas contra os judeus.. Essa política foi seguida por outros reis o que provocou a fuga de muitos judeus para França e para a Àfrica do Norte. Em finais do séc. VII os que haviam ficado, fartos do tratamento que recebiam, planearam uma subversão geral apoiada pelos seus correligionários de várias tribos berberes do Norte de África.

Esses planos foram descobertos e os judeus tornados escravos. Contudo, o poder dos visigodos chegava ao fim, em especial, quando Rodrigo, o seu último rei, usurpou o trono das mãos de Witiza provocando inúmeras divisões e uma grande vulnerabilidade à invasão muçulmana.

Com efeito, em 711 dá-se a invasão de um exército de quase 7.000 muçulmanos, quase todos berberes sob comando de Taric Ibn Zyiad (o que deu o nome a Gibraltar, Gabal Taric – o monte de Taric) logo seguido por 5.000 homens comandados por Musa ibn Nosair que acabou por aniquilar os visigodos derrotados na batalha de Guadalete, onde Rodrigo morreu. Grande número de soldados judeus participou nestes combates do lado muçulmano.

No início do seu domínio, os muçulmanos demonstraram grande tolerância perante povos de outras religiões. Os judeus recuperaram, então, a maior parte das suas liberdades. (tinham de pagar a gyzia, imposto que era devido pelos dhimma (protegidos). Em 756 Abdul-Rahman o “Justo”, sobrevivente da dinastia Omníada de Damasco, destronada pelos Abasidas fundou o Emirato ou Califado de Córdova.

A partir daí e em especial no reinado de Abdul-Rahman III (912-961) 8º emir independente de Córdova, os reinos muçulmanos atingiram o maior brilho. Foi uma época de ouro na civilização na Península Ibérica, que durou cerca de 300 anos. Toda esta época teve a participação dos judeus que adoptaram a língua árabe (e numerosas vezes traduziram várias obras para hebraico).

As famosas Academias Judaicas de Córdova tornaram-se nos mais importantes centros judaicos do Mundo rivalizando com os centros talmúdicos da Babilónia e de Toledo. Com os judeus, viveu-se uma idade de Ouro, na cultura (principalmente no campo da literatura e da poesia, em especial), das ciências (em especial das matemáticas e da medicina), da indústria e do comércio (sobretudo das sedas): os judeus desempenharam, também, importantes funções públicas, tais como as de grão-vizir (o equivalente a primeiro-ministro)., como foi o caso de Hasdai ben Isaac ben Sharput (915-970) que foi médico e grão-vizir.

Abdul Rahman III manteve, contudo, guerras sangrentas com os reis de Castela e Leão.

Com a morte de Al Mansur em 1002, a guerra civil que se lhe seguiu e a extinção da dinastia Omníada, o Califado desmembrou-se e dividiu-se em numerosos reinos. Isto constituiu um forte revés para os judeus que se dispersaram pelos diversos reinos, em especial no reino de Granada, onde Samuel Ishmael ben Nagrela (995-1055) assumiu a direcção das comunidades judaicas (Samuel Há-Naguid) e dirigiu os Negócios Estrangeiros, como vizir (ministro) de Al Kasim ibn Al-Arif, grão-vizir do rei Habus.

Já o filho de Samuel, que sucedera ao pai como vizir pereceu, crucificado, em 1066 às portas de Granada. AÍ começou a matança dos judeus. Sucedeu a época dos Almorávidas, que vieram a desenvolver uma Guerra Santa contra os Cristãos. Mais tarde, os judeus viveram melhores tempos com o rei almorávida Ali, sucessor de Ibn Tashfin (1106-1143) que voltou a rodear-se de conselheiros judeus, no campo da poesia, da medicina, da astronomia, na diplomacia, etc.

Quando o Império Almorávida foi conquistado por Abdul Mamen, almohada (Unitários) foi instaurado um clima de fanatismo e terror, o que chamaríamos hoje de fundamentalismo islâmico. Os almohadas preconizavam uma vida austera e Abdalla ibn Tuymmart, antecessor daquele, considerava-se Mahdi (Messias esperado pelos muçulmanos) e foi proclamado Imam-ul-Islam (vigário de Deus para todo o Islão). Aí de novo, os judeus eram obrigados a adoptar a religião islâmica ou morrer.

Em suma os muçulmanos dominaram uns 8 séculos em Espanha e uns 7 em Portugal.

Com a fundação de Portugal os judeus desempenharam um papel importante junto dos nossos reis, na 1ª dinastia. D. Afonso Henriques teve como conselheiro de estratégia militar Yahia ben Yaish e que foi nomeado Arrabi-Mor de Santarém onde havia uma comunidade judaica mais importante que a de Lisboa. Yahia ben Yaish terá morrido na batalha pela conquista de Alcácer do Sal. Os judeus viveram em Portugal com uma relativa tolerância durante a 1ª dinastia e com os primeiros reis da 2ª dinastia, desempenhando funções na medicina, na gestão das finanças reais, nas ciências (botânica, matemáticas, astronomia, navegação, etc.) . São conhecidos os nomes de Isaac Abravanel, Pedro Nunes, Abrahão Zacuto, Garcia de Orta, Ribeiro Sanches e, de muitos outros judeus.

Com a pressão do Clero e da Nobreza os reis começaram gradualmente a tomar medidas contra os judeus que atingiram o seu expoente máximo com a expulsão (logo impedida pelo Rei) em 1496 e a conversão forçada, com o massacre do Rossio em 1506 e instauração da Inquisição em 1536. Embora devesse ser mais conhecida, não me vou alongar sobre essa época negra da História de Portugal que durou mais de 300 anos.

Só com o Marquês de Pombal se começou a abrir as portas para a concessão de oportunidades iguais a todos os cidadãos e o fim da discriminação dos vários credos.
Com efeito acabou-se com a distinção entre cristãos novos e cristãos velhos abolindo-se o impedimento de aqueles ocuparem funções públicas. Com a extinção formal da Inquisição em 1821 concedeu-se a liberdade de culto aos cidadãos estrangeiros (dada a união Estado/Igreja). Só com a implantação da República. Se tornou possível ser português e judeu e ter liberdade de culto.

Com a revolução de 1974 abriu-se uma nova era para o estabelecimento de legislação para a concessão da liberdade religiosa. Não se trata apenas de tolerância (que pressupõe uma certa superioridade em relação ao outro) perante os diversos credos. É preciso, sobretudo, respeito, porque isso já coloca as pessoas num plano de igualdade que se deseja.

A liberdade religiosa, que felizmente já se pratica, entre nós, é preciso ser adoptada pela mentalidade de cada um. E é preciso, para isso, que se conheça a História para estarmos prevenidos dos altos e baixos por que estes ideais passam e que podem causar tanto prejuízo à Humanidade. Devemos saber que nunca podemos estar tranquilos quanto aos riscos da alternância da liberdade religiosa com os períodos de perseguições.

Termino com as palavras de Jorge Sampaio que, como Presidente da República, as pronunciou na Sinagoga de Lisboa em 2002:
A nossa vocação universalista reforçou-se sempre nos períodos de tolerância e recuou nos períodos de intolerância. Nos primeiros, Portugal progrediu e afirmou-se, nos segundos decaiu e negou-se. (Jorge Sampaio, Presidente da República, 2002)

Samuel Levy

1 comentário:

Ricardo disse...

Vão visitar este blog.

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Mais precisamente este artigo sobre erros nas publicações cientificas.

http://companhiadosfilosofos.blogspot.com/2008/10/revistas-cientficas-publique-e-esteja.html