Por David Langness.
Quando era criança, vi um filme antigo que me fez reflectir profundamente sobre a morte. Chamava-se "On Borrowed Time" (“Tempo Emprestado”), e apresentava uma nova versão de uma antiga fábula grega sobre a Morte presa numa árvore, incapaz de realizar o seu trabalho.
É necessário ver o filme para perceber todo o seu impacto, mas vou resumir: basicamente, para salvar o seu amado avô, um rapaz engana o Sr. Brink – também conhecido como Ceifador, Morte, Tânatos – fazendo-o subir a uma árvore que o aprisiona.
Consequentemente, em todo o lado, as pessoas param de morrer.
Alerta spoiler: o rapaz depressa percebe que a morte é uma parte essencial da vida e que impedi-la significa prolongar o sofrimento de milhões e atrasar o progresso do mundo – e de cada alma individual.
A morte, no fundo, é essencial para a vida. A vida depende da morte, desenhando um ciclo que se repete desde sempre.
Talvez este filme me tenha ajudado a conhecer a Fé Bahá’í, que descobri e comecei a investigar alguns anos mais tarde, na adolescência. Os ensinamentos de Bahá’u’lláh sobre a vida e a morte tocaram-me profundamente assim que os ouvi:
- A primeira vida, que pertence ao corpo elementar, terminará, como foi revelado por Deus: “Toda a alma provará a morte”. Mas a segunda vida, que provém do conhecimento de Deus, não conhece a morte...
- Ó Filho da Mundanidade! Agradável é o reino do ser, se o alcançares; glorioso é o domínio da eternidade, se ultrapassares o mundo da mortalidade; doce é o êxtase sagrado se beberes do cálice místico… Se alcançares esta posição, serás libertado da destruição e da morte, do trabalho e do pecado.
- ...a verdadeira vida não é a vida da carne, mas a vida do espírito. Pois a vida da carne é comum tanto aos homens como aos animais, enquanto a vida do espírito é possuída apenas pelos puros de coração que beberam do oceano da fé e provaram do fruto da certeza. Esta vida não conhece a morte, e esta existência é coroada pela imortalidade.
Percebi cedo, depois de atingir a idade adulta e de sofrer com a morte dos pais, dos avós e de uma querida irmã mais nova, que uma das maiores e mais importantes tarefas que temos de enfrentar nesta existência física passa por aceitar a realidade da morte.
Todo o ser humano enfrenta essa mesma luta existencial.
A perda de um ente querido pode atingir-nos com muita, muita força. Sofremos, lamentamos e choramos, e a nossa dor pode dominar-nos. Descobri, na minha própria vida, que ajuda poder recordar e ter uma recordação física da presença deste ente querido – um lugar a visitar, onde a memória e a meditação possam evocar o espírito da pessoa que partiu.
O luto é, na verdade, apenas o amor expresso na ausência do ente querido, e por essa razão os ensinamentos Bahá’ís recomendam o enterro. 'Abdu'l-Bahá, numa carta que escreveu a Laura Clifford Barney sobre o enterro versus a cremação, disse:
… embora a alma humana tenha cortado a sua ligação com o corpo, os amigos e os entes queridos continuam veementemente apegados ao que resta, e não suportam vê-lo destruído instantaneamente. Não conseguem, por exemplo, ver o rosto do defunto apagado e espalhado, embora uma fotografia seja apenas a sua sombra e, no final, também deva desaparecer. Na medida do possível, protegem qualquer vestígio que lhes reste, seja um fragmento de barro, uma árvore ou uma pedra. Quão mais prezam a sua forma terrena! Nunca o coração pode aceitar contemplar o corpo querido de um amigo, de um pai, de uma mãe, de um irmão, de um filho, e vê-lo desfazer-se instantaneamente em nada — e esta é uma exigência do amor.
Porque guardamos as fotografias, vídeos e cartas dos nossos familiares falecidos? Guardamo-los porque nos recordam o amor que sentimos por eles.
Como sugere o antigo filme sobre o Sr. Brink, todos nós vivemos num tempo emprestado, as nossas vidas afastam-se constantemente do nosso primeiro nascimento e aproximam-se cada vez mais do segundo. Podemos ajudar-nos a nós próprios e às pessoas que amamos reconhecendo este facto e preparando-nos para a sua chegada inevitável. Parte desta preparação passa por planear dois eventos, respondendo a estas questões: Qual a melhor forma de desenvolver o meu espírito enquanto ainda estou aqui neste plano de existência material? E o que quero fazer com o meu corpo quando ele terminar a sua função?
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Texto original: Death, Burial, and Human Nature (www.bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

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