Por John Hatcher.
O que acontece quando não percebemos as metáforas na religião?Um exemplo dos resultados desastrosos de não reconhecer o processo metafórico presente na natureza dos mensageiros de Deus está evidente nas amplas consequências da votação realizada no Concílio de Niceia em 325 d.C. Os seguidores de Atanásio, um teólogo e eclesiástico egípcio, afirmavam que Cristo e Deus eram a mesma essência. Os seguidores de Ário, um sacerdote cristão de Alexandria, acreditavam que Cristo era essencialmente inferior a Deus e fora enviado para cumprir a vontade divina.
Após um debate aceso, foi realizada uma votação — e Ário perdeu.
A instituição da igreja aprovou a teologia de Atanásio, condenou como heresia as ideias de Ário e, efectivamente, separou-se para sempre dos ensinamentos fundamentais de Cristo. Como Muhammad afirmou aos cristãos trezentos anos mais tarde, equiparar Cristo a Deus é acrescentar deuses a Deus — em suma, acreditar em mais do que um Deus, como faziam os idólatras do tempo de Muhammad.
Infiéis são aqueles que dizem: “Deus é o Messias, Filho de Maria”; pois o Messias disse: “Ó filhos de Israel! Adorai a Deus, meu Senhor e vosso Senhor”. Quem associar outros deuses a Deus, Deus proibir-lhe-á o Paraíso, e a sua morada será o Fogo; e os ímpios não terão quem os ajude. (Alcorão 5:76)
O uso da metáfora é também a chave para perceber o significado dos actos físicos dos Mensageiros, os Manifestantes de Deus. Uma vez que nenhum dos profetas aspira à autoridade ou ao domínio material, qualquer expressão de poder material por parte deles tem, claramente, uma importância limitada. Ao curar os doentes, Cristo não estava a tentar livrar a terra das doenças nem a demonstrar uma técnica médica inovadora. 'Abdu'l-Bahá explica que os actos milagrosos dos Mensageiros de Deus têm como finalidade primordial a dramatização metafórica ou analógica de uma verdade espiritual:
Estes milagres exteriores não têm qualquer importância para os seguidores da verdade. Por exemplo, se um cego for curado, no fim perderá novamente a visão, pois morrerá e ficará privado de todos os seus sentidos e faculdades. Assim, curar um cego não tem importância duradoura, dado que a faculdade da visão se perderá inevitavelmente de novo. E se um corpo morto for ressuscitado, o que se ganha com isso, uma vez que voltará a morrer? O importante é conceder a verdadeira compreensão e a vida eterna, isto é, uma vida espiritual e divina…
Considere que Cristo considerou mortos aqueles que, no entanto, estavam exterior e fisicamente vivos; pois a verdadeira vida é a vida eterna e a verdadeira existência é a existência espiritual. Assim, se as Sagradas Escrituras falam da ressurreição dos mortos, o significado é que eles alcançaram a vida eterna; se dizem que um cego passou a ver, o significado dessa visão é a verdadeira compreensão; se dizem que um surdo passou a ouvir, o significado é que adquiriu um ouvido interior e alcançou a audição espiritual...
O nosso objectivo não é afirmar que os Manifestantes de Deus são incapazes de realizar milagres, pois isso, de facto, está dentro do Seu poder. Mas o que importa e tem importância aos Seus olhos é a visão interior, a audição espiritual e a vida eterna. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 114-115)
Existe também uma tentação óbvia, por parte dos seguidores dos Manifestantes de Deus, em adorá-Lo por causa daquilo que percebem como acções físicas impressionantes ou milagrosas. Ao fazê-lo, percebem-No como uma figura de poder temporal em vez de autoridade espiritual. É compreensivelmente mais fácil para alguns seguidores sentirem-se atraídos pelo veículo — as personalidades dos Manifestantes ou os actos literais que realizam — do que reconhecer a semelhança entre estes veículos e as forças e atributos espirituais que metaforizam para nós.
Um dos exemplos mais óbvios desta percepção errada, para além do apego quase inevitável à figura física do mensageiro, é o episódio em que Cristo multiplica os pães e os peixes. Depois de realizar o milagre de alimentar a multidão com apenas cinco pães de cevada e dois peixes, as pessoas convenceram-se subitamente de que Ele era um profeta. Quando Cristo percebeu que o queriam levar à força e fazê-Lo rei, fugiu para as montanhas. Explicou o motivo da Sua acção aos Seus discípulos no dia seguinte, quando O encontraram do outro lado do Mar da Galileia:
«Em verdade, em verdade vos digo: procurais-me não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. Trabalhai não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna e que o Filho do Homem vos dará; pois foi a Ele que Deus, o Pai, marcou com o seu selo». (Jo 6:26)
Quando as pessoas não conseguiram compreender o significado metafórico ou a importância intrínseca do acto de Cristo e quiseram tornar-se Seus seguidores por causa do milagre que Ele parecia ter feito, Ele ficou inconsolável e deixou-as. A importância que dava à compreensão do significado " intrínseco" das suas acções materiais é ainda mais evidente na paciência com que continuou a Sua explicação:
Os nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: «Deu-lhes a comer pão do céu». Disse-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés que vos deu o pão do céu; o meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é o que desce do céu e dá a vida ao mundo». Disseram-lhe, então: «Senhor, dá-nos sempre esse pão!». Jesus replicou-lhes: «Eu sou o pão da vida: quem vem a mim jamais terá fome; quem acredita em mim jamais terá sede. (Jo 6:31-35)
Se pensarmos que Cristo se alonga na imagem do pão do céu, estamos enganados. Mesmo quando repete e amplia a metáfora, os judeus não compreendem a intenção metafórica das Suas acções ou das Suas palavras:
Eu sou o pão vivo que desceu do céu: se alguém comer deste pão, viverá para sempre. E o pão que Eu hei de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo». Altercavam, então, os judeus entre si, dizendo: «Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?» (Jo 6:51-52)
Criados numa tradição religiosa legalista, muitos judeus tinham dificuldade em compreender ensinamentos transmitidos através de metáforas, embora os seus próprios ensinamentos e rituais tivessem origem na expressão simbólica ou metafórica de conceitos espirituais.
Assim, num sentido muito real, as acções e os métodos de ensino de Cristo visavam precisamente romper com o literalismo do seu público principal, o povo judeu. Ele ensinava-os a pensar “espiritualmente” ou metaforicamente, a perceber o significado intrínseco das Suas palavras e das Suas próprias Escrituras, bem como o significado subjacente às formas exteriores das suas práticas religiosas. Por exemplo, um dos actos simbólicos mais poderosos realizados por Cristo tornou-se para os cristãos o sacramento mais importante, o sacramento da Eucaristia.
Como uma das Suas últimas acções entre os Seus discípulos, Cristo empregou mais uma vez a metáfora ou o símbolo da nutrição ao falar da imagem do vinho e do pão na Última Ceia:
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: «Tomai e comei: isto é o meu corpo». Depois tomou um cálice, deu graças e deu-lho, dizendo: «Bebei todos dele, pois isto é o meu sangue da aliança, derramado por muitos para o perdão dos pecados. (Mt 26:26-28)
Neste caso, uma metáfora verbal não foi suficiente. Cristo fez com que os Seus próprios discípulos encenassem a metáfora. E, no entanto, apesar da clareza deste exercício de ensino, a igreja cristã do século XIII adoptou a doutrina da transubstanciação — a crença de que o vinho e o pão, quando benzidos pelo sacerdote, se transformam literalmente no sangue e no corpo de Cristo (embora existam variações na explicação desta doutrina).
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Texto original: The Bread, the Wine, and the Meaning of the Metaphor (www.bahaiteachings.org)
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John S. Hatcher é formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.

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