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sábado, 6 de fevereiro de 2010

No meio dos destroços no Haiti, um nascimento traz a esperança

PORT-AU-PRINCE, Haiti – A pequena Tina Rose Wome veio ao mundo no dia 28 de Janeiro numa clínica improvisada, numa sala de aulas da escola Baha’i no Anis Zunuzi, nos arredores de Port-au-Prince. Uma equipa de médicos e enfermeiros estavam prontos para a sua chegada - o primeiro nascimento na escola nos 30 anos desde a sua fundação.

O parto foi especial por outro motivo; Magdalah Wome esteve grávida três vezes, mas nenhum dos seus outros bebés sobreviveram ao parto. Tina Rose foi a primeira que ela levou para casa - uma casa, que agora não é mais do que uma tenda em frente a um monte de entulho que anteriormente era casa.


As agências internacionais de auxílio relataram que lidar com as consequências do terramoto que devastou Port-au-Prince em 12 de Janeiro é um dos maiores desafios que já enfrentaram. Cerca de 170.000 pessoas morreram, e o número de desalojados pode chegar a um milhão.

"O que quer que se veja na televisão, isto é 10 vezes pior", afirma a Dra. Munírih Tahzib, uma pediatra de Nova Jersey que ajudou a organizar a equipa médica. "Conhecemos pessoas cuja família inteira morreu e cuja casa foi destruída. E no entanto, eles levantam-se e continuam. Isso é o que nos deu ânimo."

Na verdade, a inspiração na população haitiana é um refrão comum nas notícias vindas do local. "Os haitianos não são se sentaram com as mãos estendidas. Eles fazem imenso trabalho pesado - tão humilde na sua natureza, que parece invisível", escreveu a revista Time. "Eles escavam os destroços à mão à procura de sobreviventes; não têm grandes máquinas amarelas".

Os 18 membros da equipa médica que acolheu Tina Rose veio dos Estados Unidos e Canadá. Deslocaram-se ao Haiti, para entregar material médico e tratar o maior número possível de pacientes durante a semana que podiam permanecer. Objectivos adicionais eram para ensinar as pessoas a reconhecer e tratar infecções, e avaliar as necessidades de sustentabilidade.

Os 18 visitantes, muitos dos quais eram Bahá'ís, instalou as suas tendas no pátio da escola Anis Zunuzi e criou uma clínica temporária nas salas de aula que ainda estavam de pé.

Os directores da escola, Yves e Susanna Puzo, perderam as suas casas no terremoto, mas ajudaram a organizar a alimentação e apoio logístico da equipa médica, que incluía dois pediatras, dois ortopedistas, quatro obstetras/ginecologistas, um especialista em cuidados intensivos, um médico hospitalar, uma enfermeira, um terapeuta respiratório, e um estudante do quarto ano de medicina.

Agora, de volta para casa, os membros do grupo já consultaram sobre a forma como podem prestar assistência aos esforços em curso dos haitianos - incluindo os Baha'is locais - para reconstruir o país.

"Todos nós aprendemos o poder das acções da população," afirmou a Dra. Tahzib.

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FONTE: Amid wreckage in Haiti, new birth brings hope (BWNS)

domingo, 24 de janeiro de 2010

A Banalidade do Bem

Daniel Oliveira, ontem no Expresso:

A violência e o caos são telegénicos. A distopia de uma sociedade sem Estado - nestes momentos recordamos a falta que ele nos faz - excita a imaginação dos europeus. No meio da ausência de regras e de Estado o instinto de sobrevivência não resulta apenas em barbárie sem limites.

A Rádio Caraíbas transformou-se num autêntico centro de operações. No início era apenas um guichê de perdidos e achados. Mas porque no Haiti não há Estado passou a ser a voz de comando para que os moradores de Port-au-Prince organizassem as suas vidas em comunidade. Para combater o caos e o boato. Para levar os pedidos de ajuda às organizações internacionais. Como nos mostram alguns canais de televisão internacionais que não se dedicam ao voyeurismo, em vários bairros os haitianos organizam-se para se ajudarem uns aos outros. Sem a ajuda de ninguém, juntam o pouco que há para a sobrevivência de todos.

A solidariedade humana não é menos natural que a barbárie e o egoísmo. Não cabe é em cinco segundos de imagens num telejornal e não alimenta o cinismo sistemático sobre a natureza humana. Mas não é obra de pessoas extraordinárias. Nem é excepção que confirma a regra. Ela não existe apenas por imposição moral do poder. Surge na luta pela sobrevivência tão espontaneamente como a violência. Porque é tão humana como a violência.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Haiti: um teste espiritual para quem?



No Haiti sepultam-se os mortos e cuida-se dos vivos. As televisões e os jornais vão descrevem o caos que se vive no país, o ambiente de desespero, o sofrimento da população... Ontem a Hillary Clinton, a secretária de Estado Norte Americana visitou o Haiti, entre outras coisas afirmou: "Vocês foram severamente testados, mas eu acredito que o Haiti pode tornar-se ainda melhor e mais forte no futuro."

Não é a primeira vez que ouço alguém descrever uma calamidade como um "teste". Mas a verdade, é que nunca me sinto confortável quando ouço (ou leio) Bahá’ís que se referem a estes desastres naturais, ou acidentes, como "testes espirituais". A expressão é, no mínimo, estranha. Será que o sofrimento é realmente um teste? Será possível que Deus interfira na natureza, causando calamidades naturais ou acidentes para nos testar? Será que é mesmo necessário o sofrimento físico para estimular o desenvolvimento espiritual?

Referindo-se ao terramoto de S. Francisco (1906), 'Abdu'l-Bahá escreveu:
Esses eventos em S. Francisco foram realmente terríveis. Desastres deste tipo devem servir para despertar as pessoas, e diminuir o amor dos seus corações por este mundo inconstante. É neste mundo inferior que tais coisas trágicas têm lugar: este é o cálice que contém um vinho amargo.

Selecção dos Escritos de 'Abdu'l-Bahá, nº 39
Note-se que o filho de Bahá'u'lláh não descreve o terramoto como um teste. Apenas reconhece a dimensão da tragédia e apela à reflexão: sendo a nossa existência tão frágil, que sentido tem o apego exagerado às coisas materiais?

É óbvio que o sofrimento é inerente à condição humana. Mas uma tragédia como a do Haiti leva mais uma vez as pessoas a questionar: Como pode Deus permitir tanto sofrimento? Onde estava Deus quando ocorreu esta desgraça? Porque acudiu a este povo que já é dos mais miseráveis do mundo?

Não consigo acreditar num Deus capaz de provocar calamidades naturais com o objectivo de estimular o pretenso desenvolvimento espiritual das vítimas dessa calamidade. Ser vítima de uma calamidade não é um teste, ou um castigo divino; é um risco inerente à nossa condição humana. Um risco se manifesta de forma aleatória e com consequências, por vezes, brutais e imerecidas.

Sejamos claros: se existe um teste espiritual numa calamidade como a do Haiti, ele não se coloca às vítimas, mas antes a nós, observadores distantes que fomos poupados. Enquanto agentes morais é-nos exigida a manifestação de uma virtude espiritual (se quiserem, chamem-lhe um "valor humano") que se chama solidariedade ou compaixão.

Oxalá consigamos estar à altura desse teste.