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domingo, 24 de maio de 2015

Rejeitar os Dogmas

Por Tom Tai-Seale.


Qual é o problema da maioria dos dogmas religiosos? Tendem a ser compromissos políticos, tentativas para conciliar pontos de vista diferentes.

Atanásio, Apolinário, e Cirilo - a facção de Alexandria nos primórdios da história cristã - defendiam a ideia de que o Logos era essencialmente Deus e, portanto, não podia ser dividido. Acreditavam que a divindade do Logos ficava comprometida se o Logos fosse visto como mais do que um; e que quaisquer limitações de Jesus como Logos deviam-se apenas ao facto de ter encarnado numa forma humana, e não eram atribuíveis ao Logos. Além disso, argumentavam que se Jesus tivesse duas naturezas então estaria em guerra consigo próprio. Assim, para este grupo o importante era afirmar que Jesus era uma única substância. Teodoro de Mopsuéstia e Nestório (que mais tarde se tornou arcebispo de Constantinopla) lideram o grupo de Antioquia. Acreditavam que o Logos encarnado não podia ser literalmente Deus, porque ele (Jesus) tinha sofrido. Além disso, consideravam que nós precisamos de um modelo humano de salvação em Jesus e ao fazê-Lo divino isso tornava-se impossível. Assim, para satisfazer estes dois grupos, o credo resultante afirmava que Jesus tinha duas naturezas.

Cirilo de Alexandria
Isto faz sentido? Maurice Wells, o teólogo cristão mencionado num post anterior, responde:
... quando se pede que acreditemos em algo que não se consegue descrever em termos inteligíveis, é altura de parar e recuar com a questão para uma fase anterior. Temos a certeza de que o conceito de um ser encarnado, que simultaneamente é plenamente Deus e plenamente homem, é apesar de tudo, um conceito inteligível? (The Myth of God Incarnate, p.5)
Outro teólogo cristão, Francis Young, prossegue:
Será que a fé cristã tem que estar presa a uma posição cristológica que nunca foi muito satisfatória e que certamente estava condicionada por um determinado ambiente cultural? (Ibid, p. 29)
Perante este cenário de controvérsia, vamos analisar a perspectiva Baha'i sobre a encarnação e a manifestação. Para começar, os Bahá'ís rejeitam, como muitos Cristãos o fizeram antes, acreditar que Deus transcendente, imutável e eterno, possa de alguma forma encarnar. Isto é uma consequência natural da definição de um Deus imutável. Bahá'u'lláh afirma:
Sabe tu com certeza que o Invisível não pode, de forma alguma, encarnar a Sua Essência e revelá-la aos homens. (SEB, XX).
E noutro texto:
Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência incognoscível, o Ser divino, está imensamente enaltecido acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, ascensão e descida, saída e regresso. (Kitab-i-Iqán, p. 98)
O Guardião da Fé Bahá'í, Shoghi Effendi, resume:
Na verdade, à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, o Deus que pudesse encarnar a Sua própria realidade, deixaria imediatamente de ser Deus. Uma teoria tão grosseira e fantástica de encarnação divina está muito longe, e é incompatível com os fundamentos da crença bahá'í, tal como as não menos inadmissíveis concepções panteístas e antropomórficas de Deus, que as palavras de Bahá'u'lláh repudiam enfaticamente e cuja falácia elas expõem." (The World Order of Baha’u'llah, pp 112-113)
Para os Bahá'ís e para muitos Cristãos, o que quer que nós podemos idealizar como sendo o Criador não é senão um conceito humano limitado. Imaginar um Ser Supremo numa forma mortal, por muito enaltecida que seja, é criar uma forma restrita e limitada de Deus. Além disso, assim que imaginamos Deus de uma forma, podemos sempre imaginar algo maior que não tem forma. Desta forma, o verdadeiro Criador estará sempre para além das nossas concepções, não importa o quanto tentemos. Mesmo que admitissemos que o Criador pudesse encarnar a Sua Essência, o que nós veríamos ainda estaria condicionado pelas limitações da nossa mente. Mesmo que houvesse uma encarnação da divindade, nós seríamos incapazes de percebê-la.
Não deixeis que as coisas do corpo obscureçam a luz celestial do espírito, para que, pela graça divina, possais entrar com os filhos de Deus no Seu Reino eterno. Esta é a minha oração por todos vós. (‘Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 44)

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Texto Original: Rejecting Dogma (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 14 de março de 2015

Deus pode vir à Terra?

Por Tom Tai-Seale.


Uma das doutrinas mais problemáticas da Trindade é o conceito de Deus encarnado. Como vimos, o Credo Niceno explica que Jesus era:
... consubstancial ao Pai; por quem foram criadas todas as coisas que estão no céu ou na terra... por nós homens e para nossa salvação, desceu (do céu) ... encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem.
Note-se que o credo estipula que Jesus "encarnou pelo Espírito Santo". Mas como pode o espírito de Deus encarnar e ainda permanecer espírito? Deus pode vir à terra?

Zeus, "pai dos deuses"
na antiga religião grega
Esta distinção, entre Deus encarnado (que não é afirmado no credo) e espírito encarnado (o que é afirmado) exige muitos momentos de reflexão. Apesar disto, o entendimento cristão comum é que Jesus era Deus encarnado.

No entanto, a noção primitiva cristã de Deus encarnado era claramente uma adaptação do conceito greco-romana de homem-Deus. Os deuses gregos pareciam homens e muitas vezes vinham à terra; também os imperadores romanos eram vistos como deuses encarnados. Na verdade, muito da doutrina cristã primitiva é problemática precisamente porque os estudiosos que a elaboraram estavam mais imersos em conceitos e filosofias grega e romana do que nos ensinamentos judaicos.

Tal como muitos dos Padres Apostólicos, as escrituras Bahá'ís afirmam que Deus, a Realidade Divina, é eterno, homogéneo, indivisível, e incognoscível na sua essência. 'Abdu'l-Bahá escreve:
A Realidade Divina, que está purificada e santificada acima da compreensão dos seres humanos e que nunca pode ser imaginada por pessoas de sabedoria e inteligência, está isenta de toda a concepção. Essa Realidade Senhorial não admite divisão, pois a divisão e multiplicidade são propriedades de criaturas que são existências contingentes, e não acidentes que acontecem ao auto-existente. (Some Answered Questions, cap. 27)
Os Bahá’ís acreditam que Deus está livre de divisão, e é também, como ‘Abdu'l-Bahá explica, "santificado da unicidade." Tudo o que Deus é, Ele é infinitamente superior à nossa capacidade para explicar ou compreender.

Quanto ao Filho, Jesus, e todos os outros Profetas de Deus, ‘Abdu'l-Bahá explica: "Tudo o que é mencionado sobre os Manifestantes e Locais de Alvorada de Deus expressa um reflexo divino, e não uma descida às condições da existência."

Por outras palavras, o Deus incognoscível não desce, nem aparece como Profeta. Em vez disso, o Seu Esplendor ou o Logos reflecte-se na alma do Manifestante de Deus, que é como um " espelho puro, limpo, polido." Deus, o Sol, "não desce para habitar e permanecer no espelho. Não; continua a subsistir na Sua grandeza e sublimidade, apesar de aparecer e manifestar-se no espelho em beleza e perfeição. "

Quanto ao Espírito Santo, ‘Abdu'l-Bahá explica que:
O Espírito Santo é a Bênção de Deus que se torna visível e evidente na realidade de Cristo. A condição de Filho está no coração de Cristo, e o Espírito Santo é a condição do Espírito de Cristo. Assim, tornou-se certo e provou-se que a essência da divindade é absolutamente única, e não tem igual, semelhante, ou equivalente.
Este é o entendimento Bahá'í sobre a Trindade. Contém os três elementos da fé: Deus, o Seu Eleito, e o Espírito Santo. Todos estão unidos numa só substância: luz. E ainda assim, Deus é claramente o governante supremo.

'Abdu’l-Bahá conclui a Sua declaração indicando que os argumentos sobre a Trindade devem ser lógicos. Ele escreve:
Este é o significado das Três Pessoas da Santíssima Trindade. Se assim não fosse, os fundamentos da Religião de Deus assentariam numa proposição ilógica que a mente nunca poderia conceber; e como pode a mente ser forçada a acreditar numa coisa que não pode conceber? Uma coisa não pode ser percebida pela inteligência, excepto quando está numa forma inteligível; caso contrário, é apenas um esforço da imaginação.

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Texto Original: Can God Come to Earth? (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Guerras Trinitárias: Lógica, Razão e Fé

Por Tom Tai-Seale.


É certo que a ideia da Trindade contém alguma verdade, mas isso depende de como se definem as suas partes componentes. Os cristãos nem sempre usam o termo "Filho" de formas consistentes. Às vezes, é apenas um sinónimo de Logos, o primeiro atributo de Deus: a Sua Palavra ou a Razão.

Neste caso, é fácil perceber como o Filho é co-eterno com Deus, da mesma forma que o sol é inconcebível sem os seus raios de luz. Usando esta metáfora, poderíamos falar do Pai e do Filho - do sol e dos raios de sol - como sendo da mesma substância luminosa. Noutros casos, porém, o termo "Filho" refere-se apenas ao homem Jesus. Aqui o Filho é apenas um sinónimo do Jesus histórico, o único que tinha um corpo e que sofreu e morreu na cruz. Este filho não era, obviamente, fisicamente grande como o Pai. Alem disto, os cristãos, por vezes, também usam o termo "Filho" para se referirem a natureza de Jesus.

É óbvio que existem dificuldades com o uso ocasional do termo "Filho de Deus". Para os muçulmanos isto ameaça banalizar o poder e transcendência de Deus, atribuindo-lhe uma função humana de ter um filho. Como dissemos anteriormente, isto também faz do Jesus histórico um parceiro com Deus, ignorando os seus aspectos humano e subordinado. Como veremos, os ensinamentos cristãos, muçulmanos e bahá’ís exigem que seja reconhecida a humanidade de Jesus e a humanidade de cada um dos Eleitos de Deus. Estes Eleitos são servos, segundo o Alcorão. O Deus único e verdadeiro não pode ter igual, nem parceiro, e nem filho. Tentar atribuir outras coisas ao Deus Único é uma tentativa para atribuir a Deus as limitações do nosso mundo e da nossa linguagem. Os muçulmanos, corretamente, resistiram a isto. Os cristãos deviam fazer o mesmo.

S. Tomás de Aquino
Por outro lado, uma grande parte desta questão da Trindade gira em torno da lógica e da racionalidade. A maioria dos teólogos cristãos que tentaram explicar a doutrina da Trindade falhou. O conhecido filósofo cristão Agostinho, quando tentou explicar a doutrina da Trindade, acabou por concluir que a explicação não está ao alcance da linguagem humana, dizendo que "devemos acreditar antes de compreender". Este apelo à fé em detrimento da razão funcionou durante algum tempo na idade média; mas à medida que a humanidade progredia e educação se tornava mais difundida, o simples apelo para aceitar uma doutrina apenas com base na fé começou a perder o seu encanto.

Depois do fracasso de Agostinho para descrever a Trindade, em termos lógicos ou compreensíveis, o grande teólogo e pensador cristão Tomás de Aquino concluiu que tanto a razão como a fé devem ser requisitos da teologia; e declarou, no seu majestoso trabalho Summa Theologica, que a teoria de três pessoas da Trindade não poderia ser defendida de qualquer forma racional ou compreensível:
Dir-se-ia que não há várias pessoas em Deus. Pois a pessoa é a substância individual de uma natureza racional. Então, se existirem várias pessoas em Deus, deve haver várias substâncias; e isso aparenta ser uma heresia.
A perspectiva Bahá’í sobre a Trindade coloca uma ênfase semelhante na unicidade de Deus, e também defende a racionalidade, pedindo que ninguém seja obrigado a aceitar um dogma de fé que não pode ser entendido de forma racional e lógica:
A questão da Trindade, desde o tempo de Sua Santidade Cristo até agora, é a crença dos cristãos, e até hoje todos os sábios entre eles estão perplexos e confundidos. Todos confessaram que a questão está além do alcance da razão, pois três não se podem tornar um, nem um em três. Unir estes é impossível; ou é um, ou é três. (‘Abdu'l-Baha, Tablets de Abdu'l-Baha v3, p. 512)
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Texto Original (em inglês): The Trinity Wars: Logic, Reason and Faith (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Guerras Trinitárias: Problemas com Palavras

Por Tom Tai-Seale.


O conceito de Trindade tornou-se simultaneamente popular e controverso de um dia para o outro. A simplicidade do Credo de Constantinopla facilitou a sua divulgação, mas ao mesmo tempo a ideia de uma substância comum a três pessoas ocultava uma tremenda diversidade de significados possíveis. Um cristão podia entendê-la como significando qualquer coisa desde um politeísmo aberto (três deuses agindo em conjunto) até à divisão de Deus em partes (um Deus com três funções) e quase incontáveis interpretações entre estes dois.

A palavra substância (homoousia), por exemplo, torna-se um desafio quando a própria substância não está definida. Depois, há problemas com o termo "pessoa". O que significa a palavra "pessoa" quando falamos de Deus? E mesmo um grande trinitarista como Agostinho não gostou do termo hipóstase, que é usado para designar uma das três "pessoas" na Trindade.

Maomé recebendo a Revelação
Seiscentos anos depois de Cristo - 3 séculos após o primeiro credo trinitário - o conceito enfrentou o seu primeiro grande desafio por parte de uma voz com autoridade. Maomé advertiu:
Povo do Livro, não exagereis na vossa religião e dizei apenas a verdade sobre Deus: Jesus Cristo, o filho de Maria, era apenas um mensageiro de Deus e da Sua Palavra que Ele lançou em Maria, e um espírito proveniente Dele. Acreditai em Deus e nos Seus mensageiros, e não digais: Três. Abstei-vos! Será melhor para vós. Só Deus é Deus; Glória a Ele; longe Dele ter tido algum filho! Ele possui tudo o que está nos Céus e tudo o que está na Terra. Deus é suficiente como Guardião. (Alcorão 4:171)
É de notar que os muçulmanos aceitam claramente as três componentes da fé: Deus, o Seu Mensageiro (que eles reconhecem como Jesus para os Cristãos) e o Espírito Santo. Eles aceitam que Jesus era a Palavra de Deus, que Ele nasceu de uma virgem (ver 21:91 e 19:16-36), e que Ele procedeu de Deus. Mas opõem-se ao conceito não-bíblico de trinitarismo, dizendo que Deus é uno.

A sua fé está de acordo com o livro do Apocalipse, que proclama: "Adorai aquele que fez o céu e a terra, o mar, e as fontes de água. (Ap. 14:7 Veja também 19:10 e 22:9). Deus, na sua opinião, é o único objecto da adoração.

É claro que isso está de acordo com muitos grandes pensadores cristãos. Deus é a fonte; sem Ele não haveria nem Filho, nem espírito. Tertuliano, o grande apologista cristão do início do século III, lembra-nos:
Pois o Pai é toda a substância, mas o Filho é uma derivação e porção do todo ... Assim, o Pai é distinto do Filho, sendo maior do que o Filho, na medida em que aquele que gera é um e aquele que é gerado é outro. (Against Praxeas 9. James P. Mackey Jesus the Man and the Myth SCM Press, LTD. 1979 p. 225)
Toda esta teoria dogmática vem de uma incompreensão fundamental do simbolismo que Cristo usa na Bíblia. A perspectiva Bahá’í sobre este tipo de pensamento literalista retorcido é simples; e ‘Abdu'l-Bahá ilustra-o contando uma história:
Sua santidade Cristo afirmou "O Pai está em mim." Isso nós devemos compreender através de provas lógicas e científicas, pois, se os princípios religiosos não estão de acordo com a ciência e a razão, eles não enchem o coração com confiança e segurança.

Diz-se que uma vez que João Crisóstomo estava a caminhar à beira-mar a pensar sobre a questão da trindade e a tentar conciliá-la com a razão finita; a sua atenção foi atraída por um rapaz sentado na areia que colocava água num copo. Aproximando-se dele, perguntou-lhe: "Meu filho, o que estás a fazer?" "Estou a tentar colocar o mar neste copo", foi a resposta. "Como és tonto", disse João, "a tentar fazer o impossível." A criança respondeu: "O teu trabalho é mais estranho do que o meu, porque estás a esforçar-te para compreender o conceito da trindade com o intelecto humano ". (‘Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 152)

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Texto Original: The Trinity Wars: Term Trouble (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Guerras Trinitárias

Por Tom Tai-Seale.


Quando a intelectualidade cristã do século IV começou a definir Deus como três pessoas - Deus, Cristo e o Espírito Santo - eclodiu um enorme conflito e foi derramado muito sangue.

Na sua obra de 11 volumes intitulada The Story of Civilization, os historiadores Will e Ariel Durant dedicaram um livro, com o título The Age of Faith, ao período medieval entre 325-1300 dC. Neste livro, os Durants explicam que houve mais cristãos mortos por outros cristãos durante as controvérsias sobre a Trindade do que martírios de cristãos durante a Roma pagã.

A maioria dos livros de história deixa esse período de intensas guerras religiosas intestinais fora das suas descrições.

Os ensinamentos Bahá’ís condenam e proíbem a guerra religiosa, sempre provocada pelo poder, pelo dogma, e por interpretações e tradições incompatíveis.
Se um homem deseja ser bem-sucedido na busca da verdade, deverá, em primeiro lugar, fechar os olhos a todas as superstições tradicionais do passado.

Os judeus têm superstições tradicionais, os budistas e os zoroastrianos não estão livres delas, nem os cristãos! Todas as religiões têm-se tornado apegadas à tradição e ao dogma.

Todos se consideram que são os únicos guardiões da verdade e que as restantes religiões são feitas de erros. Eles próprios estão com a razão e os outros estão errados! Os Judeus acreditam que são os únicos detentores da verdade e condenam todas as outras religiões. Os Cristãos afirmam que a sua religião é a única verdadeira e que todas as outras são falsas. O mesmo fazem budistas e muçulmanos; todos se limitam a si próprios. Se todos se condenam mutuamente, onde podemos procurar a verdade? Se todos se contradizem uns aos outros, não podem ser todos verdadeiros. Se cada um acredita que a sua religião é a única verdadeira, então fecha os olhos para a verdade das outras. Se, por exemplo, um judeu está limitado à prática exterior da religião de Israel, ele não se permite perceber que a verdade pode existir em qualquer outra religião; esta deve estar totalmente contida na sua própria!

Assim, devemos desprender-nos das práticas e formas exteriores da religião. Devemos compreender que essas formas e práticas, por muito belas que sejam, são apenas ornamentos que cobrem o coração zeloso e os membros vivos da Verdade Divina. Devemos abandonar os preconceitos da tradição se queremos obter sucesso na procura da verdade que está no âmago de todas as religiões. (‘Abdu’l-Baha, Paris Talks, pp. 135-136)
Atanásio de Alexandria
Estas guerras intra-cristãs sobre a Trindade surgiram principalmente devido às proclamações dos "concílios" oficiais convocadas pelo clero e por governantes que se envolveram porque o cristianismo tinha crescido significativamente, tornando-se em alguns casos uma religião oficial. Um prelúdio significativo do Segundo Concílio Ecuménico sancionado imperialmente foi um pequeno concílio organizado por Atanásio (o Pai da Ortodoxia) na sede do seu bispado em Alexandria em 362 AD. Ali, ele forçou um acordo segundo o qual os cristãos ortodoxos devem falar das três pessoas (hipostases) de Deus - pois entendia-se que as pessoas não tinham "substância diferente". Isto foi feito para evitar ter três Deuses. Atanásio também esclareceu que aqueles que consideram que Deus era uma "pessoa", estavam, de facto, a usar o termo errado e que o que realmente queriam dizer era que Deus era uma "substância" (homoousia).

Mais tarde, outro Concílio Ecuménico, convocado pelo imperador em Constantinopla, em 381 dC, produziu o chamado de "Credo Niceno-Constantinopolitano". Este reafirmou a crença em "um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis"; proclamou que Jesus era "consubstancial (homoousia) ao Pai" e que o Espírito Santo era "o Senhor que dá a vida, que procede do Pai e do Filho, e que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado,… que falou pelos profetas". Também reafirmou que o Filho "desceu dos céus, e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem."

Isso tornou-se o dogma oficial, e tornou a interpretação de homens poderosos igual às palavras de Jesus, e, como sempre, tornou-se um prelúdio para a corrupção e queda da religião.

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Texto Original: The Trinity Wars (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Repensar a Trindade

Por Tom Tai-Seale.



Se desejamos reconciliar as religiões - encontrar alguma forma de alinhar mental e espiritualmente os seus Profetas e propósitos - temos que considerar o conceito cristão de Trindade.

A maioria dos Cristãos foi ensinada a acreditar na Trindade. Eu cresci a afirmar essa crença em cada serviço religioso a que assistia. Mas o que é que a trindade - a noção de um Deus trino - significa para os Cristãos? Podemos perceber que Trindade significa muitas coisas diferentes.

É claro que Jesus Cristo nunca ensinou qualquer conceito sobre Trindade; isso surgiu muito tempo depois do Seu martírio. A controvérsia trinitária surgiu no século III e ainda hoje agita os Cristãos. Ao reflectir sobre esta controvérsia teológica, o historiador Sócrates (não confundir com o filósofo pré-cristão) escreveu: “A situação parecia exactamente uma batalha nocturna, pois ambos os lados pareciam estar às escuras quanto às bases em que usavam para se atacarem uns aos outros” (citado em Early Christian Doctrines J.N.D. Kelly, Harper and Row, 1978, p. 239). Para muitos, a noite permanece, pois o significado de Trindade continua oculto numa estranha estrutura de palavras e conceitos.

E porque a Trindade é um conceito muito complexo, até os bons e fieis Cristãos cometem erros e distorcem coisas quando tentam descrevê-lo. No entanto, isso tem pouco efeito na alma ou na fé de qualquer pessoa. A Trindade é uma doutrina, uma construção mental que tem pouco a ver com a salvação.

A evolução da doutrina cristã da Trindade atravessou várias etapas, enquanto muitos estudiosos e concílios realizados em diferentes cidades debatiam e reagiam contra os significados e as diferenças dos termos difíceis; a doutrina aprovada oficialmente foi aquela que mais agradava ao imperador. A primeira doutrina trinitária a receber a aprovação imperial tomou forma no ano 325 EC, numa cidade da Ásia Menor chamada Niceia - não longe de Constantinopla. Niceia foi o local de uma conferência de bispos, convocada pelo Imperador Constantino. As traduções diferem ligeiramente, mas uma versão comum do credo de Niceia declara:
O Imperador Constantino,
rodeado pelos Bispos no Concílio de Niceia
Cremos em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis.

E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, unigênito do Pai, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai; por quem foram criadas todas as coisas que estão no céu ou na terra. O qual por nós homens e para nossa salvação, desceu (do céu), se encarnou e se fez homem. Padeceu e ao terceiro dia ressuscitou e subiu ao céu. Ele virá novamente para julgar os vivos e os mortos.

E (cremos) no Espírito Santo.

E quem quer que diga que houve um tempo em que o Filho de Deus não existia, ou que antes que fosse gerado ele não existia, ou que ele foi criado daquilo que não existia, ou que ele é de uma substância ou essência diferente (do Pai), ou que ele é uma criatura, ou sujeito à mudança ou transformação, todos os que falem assim, são anatematizados pela Igreja Católica e Apostólica.

(Early Christian Doctrines J.N.D. Kelly, Harper and Row, Publishers, 1978, p. 232)
O credo específica como ortodoxa a crença num único Deus, num único Senhor (Jesus Cristo) e no Espírito Santo.

Apesar da aprovação do Imperador, o Credo de Niceia não pôs fim às discussões sobre o conceito cristão de Deus. De facto, o Credo apenas identificou os três elementos da Fé Cristã: Deus, Jesus (o Seu Mensageiro) e o Espírito Santo. As questões mais difíceis sobre a definição das três componentes e a forma como interagem ficaram reservadas para credos posteriores e as discussões continuam até hoje.

A perspectiva Bahá’í sobre esta questão começa por apresentar uma visão mais ampla sobre a própria religião. As Escrituras Bahá’ís salientam que a religião é, inevitavelmente, alterada quando os seres humanos tentam modifica-la e adaptá-la ao seu próprio gosto.
No início todas as grandes religiões eram puras; mas os sacerdotes, dominando as mentes das pessoas, encheram-nas com dogmas e superstições, de modo que a religião gradualmente se tornou corrupta ('Abdu’l-Bahá, 'Abdu’l-Baha in London, p. 125)
Vamos ver como é que este processo pode ocorrer, até àqueles que têm as melhores intenções.

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Texto Original: Re-examining the Trinity (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.