terça-feira, 26 de julho de 2005

O Desterro do Báb em Mah-Ku (1)

Em meados de 1847, o primeiro-ministro persa, Haji Mirzá Aqasi, convencera o Xá Muhammad a prender o Báb num local remoto do país. Acreditava que o Seu isolamento e a falta de contacto com os crentes poderia fazer esmorecer o entusiasmo e interesse pela nova religião. O local escolhido foi o forte de Mah-Ku, nas montanhas do Azerbaijão persa. Para chegar ao local, depois de percorrer estradas íngremes e sinuosas, é necessário passar pela vila do mesmo nome. Além do isolamento, a região também se caracterizava pela agressividade do clima: calor intenso no verão e frio tremendo no inverno.


O primeiro-ministro persa, Haji Mirzá Aqasi (1850)

Haji Mirzá Aqasi tinha razões para acreditar que o Báb ficaria realmente incomunicável; tinha nascido em Mah-Ku e ali detinha uma considerável influência e poder; sabia que podia esperar uma completa obediência e lealdade da população local. Tendo dado ordens explícitas para que o Báb fosse mantido em rigoroso isolamento e que absolutamente ninguém pudesse visitá-Lo, era de esperar que poucos ou nenhuns Babis se atrevessem a viajar até esta localidade remota.

O governador do forte de Mah-Ku era 'Alí Khan, um homem rude e simples que ansiava agradar ao primeiro-ministro. Em Julho de 1847, ao receber o Báb no forte, cumpriu as ordens com todo o rigor. Tanto 'Ali Khan como os guardas da prisão pouco se importaram com as condições de detenção do Báb. O facto daquele Prisioneiro ser descendente do Profeta Maomé era mesmo um motivo de maior aversão [1]. Excepcionalmente permitiu que duas pessoas (secretários pessoais) tivessem contacto com o Báb; essas duas pessoas tinham autorização para se deslocar à vila de Mah-Ku para comprar alimentos e outros bens.

Com o passar do tempo, foi-se desvanecendo a antipatia dos guardas e o rigor com que as ordens eram cumpridas. No forte ninguém conseguia ser insensível àquele Prisioneiro e, pouco a pouco, na vila foi-se sabendo do Seu carácter e Sua sabedoria. Vários habitantes de Mah-Ku, começaram a visitar o forte; uns vinham pedir conselhos, outros procuravam ajuda na resolução de diferendos e outros apenas uma benção. Simultaneamente, por essa altura, alguns Babis iam aparecendo na vila e enviavam mensagens para o Báb, através dos Seus secretários que se deslocavam à povoação.


A vila de Mah-Ku, no Azerbaijão persa

O próprio 'Alí Khan acabou por ceder à influência do Báb. Um dia de madrugada, depois de entrar apressadamente no forte, apareceu submisso à entrada da cela do Prisioneiro. Com toda a humildade, pediu licença para entrar; o Báb levantou-se para o receber e ele lançou-se aos Seus pés. Começou então a descrever uma estranha experiência. Nessa madrugada, tinha visto o próprio Báb em oração junto ao rio que passa pela cidade. Quando chegou ao forte, percebeu que os portões estavam fechados e que afinal o Báb estava na Sua Cela. Sentia-se perfeitamente confuso e transtornado [2].

O Báb confirmou a veracidade da visão de ‘Alí Khan e pediu-lhe que abrisse as portas da prisão para todos os que O quisessem visitar. ‘Alí Khan acedeu a esse pedido e passou a tomar todas as providências para minimizar o desconforto do Báb naquele local. Ofertas de frutas dos pomares vizinhos e visitas demoradas às sextas-feiras tornaram-se comuns. Além disso, com as portas da prisão aberta, tornou-se notório o fluxo de peregrinos babis provenientes de toda a Pérsia em direcção a Mah-Ku. O Báb recebia-os durante três dias e depois aconselhava-os sobre o trabalho de divulgação da nova religião.

A tentativa do primeiro-ministro para isolar o Báb fracassara.

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NOTAS
[1] - A maioria dos habitantes da região de Mah-Ku é sunita e de etnia curda. Os sunitas mostram com frequência aversão aos xiitas, e particularmente aos descendentes do Profeta Maomé.
[2] - A experiência de 'Ali Khan deve ser entendida como uma experiência mística pessoal. Existem alguns relatos deste tipo feitos pelos primeiros crentes. No entanto, estes não são apresentados como provas da divindade do Báb ou de Bahá'u'lláh, mas apenas como experiências pessoais.

2 comentários:

João Moutinho disse...

Só comento para dizer que continuo a ser um leitor atentodeste excelente blog.

dhuoda disse...

Há seguramente forças que nada nem ninguém pode derrubar.O Báb devia ser uma dessas.O bem vence sempre no final.Eu acredito.
Gostei muito.