quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Kitáb-i-Iqán (9)

Motivos da Oposição aos Profetas (1ª parte)
Mas hoje, amanhã e depois, devo seguir o Meu caminho porque não se admite que um Profeta pereça fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes Eu quis juntar os teus filhos como uma galinha junta a sua ninhada debaixo das asas e não quiseste. (Lc 13:33-34)

Oh! a miséria dos homens! Não lhes é enviado Mensageiro algum, que não seja objecto do seu escárnio. (Alcorão 36:30)
As citações anteriores são exemplos de um aspecto comum a todas as religiões: a oposição aos Profetas. Invariavelmente, ao longo da história, cada vez que surgiu um Profeta, Ele foi perseguido, não obstante existirem tradições e profecias que anunciavam o Seu aparecimento. Este paradoxo é abordado por Bahá’u’lláh em vários parágrafos do Kitáb-i-Íqán.

SÍMBOLOS, METÁFORAS E PARÁBOLAS

Nas Sagradas Escrituras de todas as religiões podemos encontrar, na forma de símbolos, metáforas e parábolas, alusões ao aparecimento de um novo profeta. “Dia da Ressurreição”, “Juízo Final”, “Regresso de Cristo”, “Dia de Deus” são algumas das expressões usadas para descrever esses momentos únicos na história da humanidade. No entanto, os crentes nem sempre entendem o significado deste tipo de expressões e por vezes até os interpretam literalmente. E assim, quando o prometido Profeta surge, a maioria dos crentes revolta-se contra Ele, por considerarem que não se cumpriram os sinais que deviam acompanhar o Seu aparecimento.

Poder-se-ia argumentar que as indicações deixadas pelos Profetas do passado estão incompletas. Mas se essas indicações estivessem incompletas, Deus iria castigar alguém por não reconhecer o novo Mensageiro? Isso não estaria de acordo com a Sua misericórdia [14].

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh questiona: se o que está escrito nos textos sagrados sobre a vinda de um novo Mensageiro de Deus se cumprisse literalmente, quem se atreveria a descrer? E como se poderia isso cumprir se é contra as leis da natureza? Sobre os textos que anunciam o regresso de Jesus Cristo, Bahá'u'lláh declara:
Julgai imparcialmente: se as profecias registradas no Evangelho fossem cumpridas literalmente, se Jesus, Filho de Maria, acompanhado de anjos, descesse do céu visível sobre as nuvens, quem se atreveria a descrer, quem ousaria rejeitar a verdade e se tornar desdenhoso? Não, tamanha consternação logo se apoderaria de todos os que habitam a terra, que nenhuma alma se sentiria capaz de pronunciar uma palavra e, muito menos, de rejeitar ou aceitar a verdade.[88]
Assim, se o texto se cumprisse literalmente, o aparecimento de Jesus não seria um teste à fé de cada ser humano, mas um evento que deixaria todos estarrecidos. Percebe-se que as expectativas dos crentes quando se baseiam em interpretações literais acabam ser um obstáculo ao reconhecimento do novo Profeta, e ao acesso ao conhecimento espiritual que emana das Palavras de qualquer Mensageiro de Deus.

TRADIÇÕES RELIGIOSAS

Além das interpretações literais sobre textos alusivos ao aparecimento de novos Profetas, também existem conceitos baseados em certas interpretações das Escrituras podem funcionar como obstáculos ao reconhecimento de um novo Mensageiro Divino.

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh refere que os sacerdotes cristãos agarraram-se ao sentido literal das palavras de Jesus e não perceberam a grandeza de Maomé [25]. No Evangelho de S. Lucas, as seguintes palavras são atribuídas a Cristo: "Passará o céu e a terra, mas as Minhas palavras não passarão" (21:33). Este versículo levou a maioria dos sacerdotes cristãos a acreditar que a Lei do Evangelho nunca seria alterada. Não compreenderam esta frase à luz da dupla condição dos Profetas. Acreditam que o Prometido manterá todos os ensinamentos éticos e sociais estabelecidos por Cristo. Foi essa interpretação que os levou a repudiar Maomé.[26]

De igual forma, o versículo do Alcorão em que Maomé se proclama "Selo dos Profetas"(33:40) é invariavelmente interpretado como uma indicação de que Deus não enviará mais Profetas. Também a maioria dos muçulmanos não compreende o significado deste versículo de acordo com a dupla condição dos Profetas, e por esse motivo rejeitam todas as religiões que possam surgir após o Islão.

4 comentários:

Pri disse...

Marco,
Volto a parabelizar-te pela vossa coragem por tocar em assunto tão vetado nos incautos da nossa sociedade.
Vou te enviar um pequeno. Tá no preparo.
Reconhecimentos!

Pri disse...

Recomendo um, muito oportuno para quem quiser saborear um pouco da história no melhor do antigo estilo de vida desses homens, que assaram pães em feses, outraora casaram-se com prostitutas... tudo a mando de Deus. Por estas, e todas outras estes foram "rotulados", como os loucos de Deus:
Os Homens da Bíblia - André Chouraqui

João Moutinho disse...

Marco,
Mais um excelente texto.
Na realidade até hoje só houve uma Religião em que os Seus seguidores aceitaram maioritariamente O Prometido. Esssa Religião foi a Bábi.

Marco disse...

Businesswoman,
O Iqan tambem refere a condição de Cristo e de Moisés aos olhos da sociedade do Seu tempo. Moisés era um assassino e Cristo uma criança sem pai. (não me recordo das palavras exactas de Baha'u'llah).
Esta condição social é um teste enorme para todos os Seus contemporâneos. Na prática, o que acontece é que a vontade de Deus nem sempre está de acordo com as expectativas humanas.

Joao Moutinho,
Nunca me tinha lembrado disso sobre os Babis.