sábado, 23 de junho de 2007

Bento XVI e as Religiões do Mundo (2)

Teocentrismo ou Cristocentrismo?

Num mundo globalizado onde a pluralidade e diversidade humana são cada vez mais patentes, e em que o diálogo de culturas e religiões são um imperativo, muita gente sente necessidade de reavaliar o papel e a importância das religiões no desenvolvimento da humanidade. Essa reavaliação passa frequentemente pela identificação de valores éticos e morais comuns entre as grandes religiões mundiais, valores esses que são vistos como a espinha dorsal do desenvolvimento espiritual da humanidade.

No livro Fé, Verdade e Tolerância, o actual líder da Igreja Católica refere-se a esta situação com evidente preocupação:
"A impressão dominante ao homem moderno é a de que todas as religiões, numa confusa multiplicidade de formas e figuras, no fundo são e pensam o mesmo: o que todos percebem, só elas é que não. À pretensão de verdade de uma determinada religião, o homem moderno opor-se-á raramente com um brusco não; pura e simplesmente relativiza essa reivindicação, dizendo: existem muitas religiões". (p.23)

"O conceito de religião do homem moderno tem um cunho simbólico e espiritualista. A religião aparece como um cosmos de símbolos que, por uma unidade última da linguagem simbólica da humanidade, diferem muitas vezes nos pormenores, mas significam todos o mesmo, e apenas deveria começar a descobrir a sua profunda unidade. Se isto vier a acontecer, então realiza-se a unidade das religiões, sem perda da sua multiplicidade – esta é a prometedora ilusão que precisamente pessoas com sensibilidade religiosa acalentam como única esperança real para o futuro." (p.24)
No conjunto de ensaios reunidos neste livro, Bento XVI considera que a classificação das religiões deve assentar numa análise "estrutura intra-histórica e espiritual" das mesmas (p.19). Não se deve apenas discutir a grandeza da religiões, mas procurar ver se nelas existem desenvolvimentos históricos constantes (p.19).

Bento XVI numa sinagoga em Colónia, 2005.

As grandes religiões mundiais são classificadas como místicas (Budismo, Hinduísmo) e monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islão). Pessoalmente considero esta classificação como inadequada; prefiro a classificação apresentada pelo Dr. Mojan Momen, que classifica as religiões como Teístas, Monistas e Relativistas. Na classificação proposta por Bento XVI, a terminologia utilizada parece-me infeliz, pois tem implícita uma distorção destas religiões. Por ventura se pode reduzir religiões como o Budismo e o Hinduísmo apenas ao seu carácter místico? Não há misticismo nas religiões ditas monoteístas? E não há correntes monoteístas no Hinduísmo e no Budismo?

As outras religiões podem ser vistas como provisórias (ou pre-cursoras) do Cristianismo (encontrando-se nelas algum sentido positivo). E também podem ser entendidas como insuficientes, opostas a Cristo, opostas à verdade - simulando a salvação sem nunca a poderem dar (p.20-21).

Não deixa de ser estranho que num conjunto de ensaios onde se referem as grandes religiões mundiais, Bento XVI nunca cite as escrituras sagradas das religiões não-cristãs. Em vez disso prefere considerar um único teólogo dessas religiões (Radhakrishnan, por exemplo), ou outros teólogos cristãos, como fontes fidedignas para as suas considerações.

A perspectiva cristocêntrica da história religiosa da humanidade que Bento XVI sustenta pode parecer chocante a quem não é cristão. Mas como tinha referido num post anterior, este não é um livro para construir pontes. Ao contrário de Hans Küng, o então cardeal Ratzinger não se propõe encontrar o que as religiões têm em comum, mas antes advertir os católicos sobre a forma como devem ver outras religiões.

Como é evidente, a minha perspectiva sobre as religiões do mundo é totalmente diferente. Afinal eu acredito que Deus tem enviando sucessivos Mensageiros Divinos à humanidade e que Eles trazem ensinamentos adequados às suas necessidades e capacidades. Não consigo conceber um Deus que envia um Mensageiro Divino, com ensinamentos finais e definitivos para a humanidade. Estará o Criador impedido de enviar novos Mensageiros? Será compatível com o Seu infinito amor e generosidade este “silêncio de Deus”, esta suposta ausência de mensageiros? Qual o Pai que abandona os Seus filhos?

Afinal, quem é o pivot da história religiosa da humanidade? O próprio Deus ou um dos Seus Mensageiros?

12 comentários:

Um Católico disse...

Nunca tinha visto um bahai preocupar-se com as diferenças entre as religiões; sempre pensei que vocês se preferiam meter por caminhos mais tranquilos e abordar apenas os pontos de convergência entre as religiões. De alguma forma até hoje achava que vocês eram irrealistas, pois tentavam ignorar as diferenças. Por isso fico feliz por ver que entre vocês há quem não ignore os problemas.

Eu sou católico e vejo nas palavras e vida de Jesus uma mensagem de amor que dá sentido à vida de qualquer pessoa. Para mim este Papa é um conservador (e a sua opinião nem sempre coincide com a doutrina oficial da Igreja. Para mim este Papa não é a Igreja; a Igreja são os crentes.

Resumindo: entendo este post como um comentário às posições de um certo catolicismo. E até estou perto de concordar com algumas das tuas críticas.

Elforadiante disse...

Pois..., eu é sou faccioso!

João Moutinho disse...

Caríssimos

Na realidade Bento XVI antes de ser eleito Papa desempenhava um papel de garante da ortodoxia da Igreja Romana o que lhe terá valido a atribuição de vários atributos (nem sempre lisonjeiros) por parte dos ditos "media".

É lógico que a sua linha de pensamento se mantenha - provavelmente não muito diferente do seu sucessor.

O facto da análise que ele faz sobre o Budismo ou Hinduísmo não ser coincidente com a nossa não nos deve permitir sair do que são discordâncias naturais de seres pensantes que consideram que a sua Religião será a que melhor se adapta às necessidades da humanidade.

Ou seja, a ver se o nosso amigo Elfo se modera um pouco...

GH disse...

Elfo,
Com o teu sincretismo Baha'i-Marxismo mostras muito facciosismo. Afinal porque é que criticas o Papa? Só porque a imprensa e a Televisão contam histórias que o ridicularizam? Será que podemos acreditar nisso tudo que os media escrevem? Quanto disso será invenção e quanto será incapacidade de comunicação do Vaticano?

E depois a pergunta essencial: afinal tu leste alguma coisa do Ratzinger ou não?

Elforadiante disse...

Também nunca li Mein Kampf..., nem, nem, nem, isso não implica que não tenha lido outras coisas, meu caro GH.
Quanto ao caríssimo João Moutinho, não tenho de aturar as parrachices da santa madre igreja nem as prelecções de qualquer ahiatollah, nem sei se é assim que se escreve, seja este de que escola for.
Nunca tive muita pachorra para andar com aqueles que nunca procuraram a verdade às costas.
Na verdade, o tempo do cristianismo caiu em 375, ou por volta disso. Depois de Constantino, a igreja cristã vai-se transformando em igreja católica - significa universal -, e mais tarde apostólica e romana, para se distanciar dos bizantinos..., mas enfim não tenho de estar para aqui a especular porque é que uma religião com cerca de 2k anos de história se manteve de pé à custa das várias Inquisições e afins que a mantiveram de pé estes anos todos. Faz-me lembra um pedaço de pão bolorento a que algumas alminhas ainda andam a tentar limpar para consumo próprio e para vender.
Lamento mais uma vez que eu traga discórdia a este santo lugar, mas a verdade é que quando me chamam marxista, leninista, maoista até que nem levo lá muito a sério o que dizem, pois até já expus aqui ou nos meus blogs as minhas origens políticas.
Meus caros amigos, considero-me bahá'í, se bem que às vezes sinto que não mereço tal distinção, no entanto, lembro-me da "queda das estrelas" e do que isso significa. Muito sinceramente não tenho a paciência necessária para andar com os ecumenistas às costas, acho que já estou a ficar velho para isso.
Um abraço.

Elforadiante disse...

Marco, peço-te imensa desculpa mas tive de linkar toda esta conversa para o meu blog do Elforadiante, pois não quero conspurcar este lugar e se continuasse por aqui era isso que ia acontecer. Mais uma vez desculpa. Gosto de uma boa refrega mas o local não é o mais apropriado para isso.
Um enorme abraço.

Elforadiante disse...

Já por aqui fui acusado de ser quase tudo e mais alguma coisa...
Desde marxista-leninista até maoista, enfim tudo o que lhes deu na gana.
Já houve até um amigo que me chamou bábi, isso é um lisongeio para mim.
Quanto a esta coisa de andar com os santos padres às costas..., bom o único papa que respeito foi o que foi indicado por Jesus, i.e.: Pedro.
Pois..., podem chamar-me de tudo, desde Bahá'í, Bábí, Muçulmano, Cristão, Budista, Zoroastriano, Judeu, Hindu e até Sabeanista, que eu não levo a mal. Na realidade, ser Bahá'í significa ser seguidor de todas estas revelações. Os Reveladores são Mensageiros enviados por Deus, os seus supostos apóstolos não o são.
Também não sou nem sofista, socrático, platonista, aristotélico ou quejandos.
Sou o que sou e nada mais.
Não tenho muita paciência..., é o meu pior defeito, o que não quer dizer que seja o meu único defeito. Não, sou um poço de defeitos, não sou é burro!

Marco disse...

"Lamento mais uma vez que eu traga discórdia a este santo lugar..."

Elfo,
Isto é só um blog.
E quando há debate à natural que haja diferenças de opinião.
:-)

Elforadiante disse...

Bem hajas Marco, nem imaginas o quanto me senti mal por me ter sentido obrigado a escrever o que escrevi.
Afinal sou apenas um bahá´i perdido no meio das montanhas.
Mas apenas deixo aqui um sinal à navegação: isto não é um simples blog..., é algo muito maior que isso.

Elfo disse...

http://elfoverde.blogspot.com/

Às vezes perco-me, outras me encontro
só de encontro a um paredão
onde as vagas da maré alta
se esbatem sobre mim fazendo-me
parte da paisagemmmmmmmmmm...

Anónimo disse...

Tu devias ser considerado um santo dos bahais para aguentares esso elfo

Como é que fazes isso?

Marco disse...

Estou feito!
O Elfo quer santificar este blog... um anónimo quer beatificar-me... Só falta pedirem-me algum milagrinho!
:-)

A propósito: se os baha'is não tiverem paciência para se aturarem uns aos outros, então ainda menos paciência terão para enfrentar os problemas do mundo.