sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Bento XVI e as Religiões do Mundo (10)

Conclusão

O livro Fé, Verdade e Tolerância: o Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo de autoria do actual líder da Igreja Católica foi publicado em 1999. Como já escrevi, reúne um conjunto de palestras proferidas em diferentes ocasiões. Poder-se-ia pensar que se trata de um conjunto de opiniões pessoais, que não reflectem com todo o rigor a posição oficial de Igreja Católica. Mas será mesmo assim?

No ano seguinte, a Congregação para a Doutrina da Fé – presidida pelo Cardeal Ratzinger – publicou o documento "Dominus Iesus", com o objectivo de clarificar e reiterar alguns princípios de do Catolicismo. A essência da sua mensagem poder-se-ia resumir numa frase: as religiões não se podem comparar.


O documento segue a linha do livro de Ratzinger, dando uma atenção especial ao relativismo religioso que se considerava ser uma ameaça para a Fé Católica, nomeadamente no que toca ao carácter completo e definitivo da revelação de Jesus. O texto considera o relativismo como fruto de uma absorção acrítica de ideias existentes em vários sistemas filosóficos e religiosos, sem cuidar da consistência, correlação ou compatibilidade com a “verdade cristã”.

Sobre o carácter completo e definitivo da revelação de Jesus, o documento lembra que a Igreja Católica admite outras religiões frequentemente reflectem um raio de luz dessa Verdade que ilumina todos os homens [Nostra aetate, 2], mas que a designação de livros inspirados está reservada aos textos canónicos do Antigo e Novo Testamento (pois apenas estes são inspirados pelo Espírito Santo). A declaração acrescenta ainda que se deve fazer uma distinção clara entre a fé no Deus Uno e Trino e as crenças de outras religiões que são revelações incompletas onde ainda se procura a verdade absoluta.

O Dominus Iesus relembra seria contrário aos princípios do Catolicismo considerar a Igreja Católica como um caminho para a salvação, à semelhança de outros oferecidos por outras religiões. As várias tradições religiosas contêm e apresentam elementos religiosos cuja eficácia salvífica não é comparável à dos sacramentos cristãos; e acrescenta que nessas religiões existem outros elementos, fruto de superstição e erros, que constituem um obstáculo à salvação.

A Congregação para a Doutrina da Fé considera a Igreja Católica afirma como o instrumento de Deus para a salvação da humanidade. E simultaneamente declara que essa verdade não diminui o sincero respeito que tem por outras religiões do mundo. No entanto, opõe-se frontalmente a uma “mentalidade de indiferentismo” “caracterizada por um relativismo religiosos onde se considera que uma religião é tão boa como qualquer outra” [Redemptoris missio, 36].

O livro de Ratzinger, que abordei ao longo de vários post neste blog, pode não ser a opinião oficial da Igreja Católica; mas a reafirmação das mesmas ideias num documento oficial no ano seguinte, mostram que pelo menos, tratam-se de ideias de uma corrente conservadora com peso considerável no Catolicismo actual.

Como conclusão deixo uma ideia final: as religiões são comparáveis. Comparáveis no humanismo dos seus princípios e valores, comparáveis na forma como têm influenciado a humanidade. Comparáveis na forma como são usadas para inspirar o que há de melhor (e pior!) no ser humano. O nosso planeta mudou imenso nos últimos dois séculos, e a diversidade religiosa da humanidade não é algo que se possa ignorar. E a na Aldeia Global as religiões não podem ser vistas como meras ideologias estanques e hostis entre si. O mundo global não é só aquilo que se vê a partir de Roma; o mundo também se vê a partir de Meca, de Jerusalém, do Ganges, de Amritsar, de Lhasa, ... e até de Haifa.

2 comentários:

Elfo disse...

Ó Marco, eu ainda admiro a tua santa paciência para comentares os dizeres deste sucessor de Torquemada. Felizmente que os tempos são outros e as fogueiras são uma fonte de poluiçã, senão...

Marco disse...

Elfo,
Se eu não estiver informado sobre o que ele escreveu, a minha opinião a respeito das suas ideias serão apenas meros preconceitos.
E se temos diferenças é importante justificá-las sobre ideias concretas.

Por outro lado, penso que toda a gente merece que as suas opiniões sejam ouvidas, ou lidas (mesmo que não concordemos com essas opiniões).