quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Os Filhos do Profeta sem Rosto


Por Mário Robalo, Expresso, 01-Novembro-1986

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Estão em Portugal como estiveram com João Paulo II em Assis: adorando um profeta cujo rosto não conhecem e pregando a paz e o universalismo. São os bahá'ís, perseguidos no Irão como espiões e aceites na ONU como interlocutores
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A humanidade «exige que as Grandes Potências resolvam, para a tranquilidade dos povos da terra, reconciliar-se plenamente entre si(...) Ajustai as vossas diferenças e reduzi os vossos armamentos (...) Isto assegurará a Paz e o sossego de cada povo, governo e nação».

Esta mensagem poderia ser parte do conteúdo de uma petição endereçada aos actuais líderes das duas superpotências que, em Reykyavik, mais uma vez não conseguiram chegar a um acordo. Mas não é. Curiosamente, estas palavras foram escritas há quase um século por um persa chamado Mirzá Husayn-Ali, que se proclamou encarregue do estabelecimento da verdadeira religião[1]. Actualmente denominado «profeta Bahá'u'lláh» (a glória de Deus) pelos seus quatro milhões de seguidores, este homem anunciou «o princípio evolutivo da religião», dizendo-a «revelada por etapas, de acordo com as necessidades de cada época e capacidade dos povos».

Mas antes da fé bahá'í ter sido introduzida em Portugal, já Eça de Queirós escrevia em Ccorrespondência de Fradique Mendes: "E Fradique, com toda a singeleza, confessou que se demorara tanto nas margens do Eufrates, por se achar casualmente ligado a um movimento religioso que, desde 1849, tomava na Pérsia um desenvolvimento quase triunfal e que se chamava babismo»". Não deixa porém de ser interessante referir que Eça de Queirós era conhecedor dos princípios que enformam a fé bahá’í. De tal modo que, neste mesmo livro, ele «interroga-se» se não deveria aventurar-se com Fradique «nessa campanha espiritual», tanto que seria mais nobre «encetar no Oriente uma carreira de evangelista» do que «banalmente recolher à banal Lisboa, a escrevinhar tiras de papel, sob um bico de gás, na ‘Gazeta de Portugal’»

Não tendo enveredado pelo apostolado Bahá’í, em 1926, porém, e conforme noticiaram os jornais da época, Lisboa parecia receptiva às palestras que duas missionárias proferiram no Clube Rotário. E dado o sucesso destas conferências, o «Diário de Notícias» e o «Diário de Lisboa» apressaram-se a solicitar entrevistas às duas mulheres que, perante a admiração geral, anunciavam «o estabelecimento de uma comunidade mundial» na qual desapareceriam «as rivalidades nacionais (...), as causas de lutas religiosas (...), e a grande acumulação de propriedades».

Sensivelmente vinte anos após esta primeira proclamação da fé bahá’í, fixavam-se no país – concretamente em 1947 – os primeiros «pioneiros». E dois anos mais tarde, em Lisboa, formava-se a primeira Assembleia Espiritual Local. Mas o governo de Salazar não permitiu a sua legalização. Desta forma, alguns crentes viram as suas casas devassadas pela polícia política. Só em 1975, após várias tentativas, os bahá’ís foram reconhecidos oficialmente como comunidade religiosa.

Com cerca de dois mil membros, a organização bahá’í portuguesa é actualmente governada por uma Assembleia Espiritual Nacional composta por nove membros eleitos todos os anos pelos delegados de vinte e oito Assembleias Locais, dispersas por todo o país.

Perseguição e extermínio

Recusando «entrar na arena da política partidária» por considerarem-na «prejudicial aos melhores interessas da Fé», os bahá'ís portugueses apresentaram, recentemente, um relatório ao Provedor de Justiça no qual denunciam as perseguições feitas contra os seus irmãos de fé no Irão. Esperam, desta forma, que Almeida Ribeiro, na sua qualidade de relator especial da Comissão de Direitos Humanos da ONU, interceda junto deste organismo pelos cerca de trezentos mil crentes bahá’ís que têm vindo a ser privados dos mais elementares direitos, quando não são executados sumariamente – tal como relatam e confirmam diversas resoluções do Parlamento Europeu e da Comissão de Direitos Humanos da ONU a que tivemos acesso.

Mas o primeiro-secretário da Embaixada do Irão em Lisboa, Bahadourvand, nega que alguém no seu país seja preso por causa das suas convicções religiosas. Reconhece, contudo, que «alguns elementos dessa seita foram presos por constituírem uma força de pressão com interesses anti-nacionais». Este diplomata afirmou mesmo que «eles (os bahá’ís) foram o maior suporte da Savak, a polícia secreta do Xá». Por sua vez, os bahá’ís negam tal acusação, afirmando que «tão fundamental é o princípio de não aceitarmos cargos políticos que, num único caso sob o regime de Pahlevi, quando um bahá'í foi nomeado para ministro, teve de imediato a sua expulsão decretada pela comunidade».


Mas não é somente após a chegada do ayatollah Khomenei ao poder que a comunidade bahá’í é perseguida. Desde 1847, altura em que Bahá'u'lláh iniciou a sua pregação, anunciando-se o último dos mensageiros de Deus[2], que as autoridades persas vêm promovendo a intolerância contra o seus seguidores . E a propósito, a literatura distribuída pelo movimento justifica: «o clero muçulmano do Irão, sentindo-se ameaçado por ideias que lhe contestavam a autoridade e o poder, exigiu insistentemente o extermínio dos Bahá’ís.»

Um governo mundial

Afirmando ser o descendente espiritual dos profetas das principais religiões (hinduísmo, judaísmo, zoroastrismo, budismo, cristianismo e islamismo) Bahá'u'lláh foi banido pelos governos da Pérsia e da Turquia que lhe decretaram sucessivos exílios. O último exílio que o «profeta» cumpriu foi na prisão de ‘Akká, na baía de Haifa, onde permaneceu até 1892, altura em que faleceu[3]. É ali, na sede internacional do movimento baha’i, que se encontra a única fotografia de Bahá'u'lláh, a qual não pode ser reproduzida «para que não exista o perigo de se vir a propagar um culto de adoração personificada, o que iria contra os nossos princípios»[4], dizem-nos os responsáveis portugueses.

A mensagem de Bahá'u'lláh preconiza a existência de «uma vasta assembleia que abranja todos os homens», por forma a poderem ser lançados «os alicerces da grande paz mundial». Reclamando a necessidade de um entendimento de todas as nações, para tornar possível o aparecimento de um governo mundial que detivesse poderes legislativos e executivos, Bahá'u'lláh reafirmou ainda que todas as matérias primas «pertencem à comunidade internacional». Conforme afirmam os dirigentes baha'is portugueses, ele sempre «pugnou por uma planificação a nível mundial, da produção do consumo e modo a eliminar a acumulação de riqueza apenas por parte de alguns países»[5].

Dos princípios e leis da fé baha’i que se encontram dispersos em mais de cem volumes, escritos pelo «último mensageiro de Deus» durante quarenta anos de exílio e cativeiro, destacam-se: a abolição de «quaisquer preconceitos, sejam de religião, raça, de pátria ou de política», porque «enquanto não forem eliminados o progresso do mundo será impossível»; a igualdade entre homem e mulher: «o mundo possui duas asas – o homem e a mulher. Enquanto estas duas asas não forem igualmente firmes, o pássaro não voará»; «ampliação das invenções humanas e desenvolvimento técnico; e exploração dos recursos do planeta ainda não utilizados».

Mas Bahá'u'lláh procurou também cativar homens influentes a nível internacional para a sua doutrina universalista. E a forma que encontrou foi o envio de mensagens pessoais. Primeiramente escreveu uma carta colectiva «aos reis da terra». Nela solicitava-lhes que governassem «com a mais meticulosa justiça» e conciliassem nas dissensões. «até poderem dispensar os exércitos». Posteriormente enviou cartas individuais a Napoleão III, ao Papa Pio IX, à rainha Vitória de Inglaterra e ao czar Alexandre solicitando a este último «colaboração para estabelecer entre os povos o Reino de Deus». A Napoleão III explicou que a sua missão consistia em «unificar a espécie humana»; asseverou «ser necessário abandonar a força» e que «os monges deveriam deixar os mosteiros, casar e participar na vida do povo». Por sua vez, na carta dirigida a Pio IX, escreveu: «Vende todos os elaborados ornamentos que possuis e despende-os no caminho de Deus». Incitou ainda o sumo pontífice a abandonar o seu «reino», numa clara alusão ao Vaticano.

Lideres Infalíveis

Convictos que no futuro estabelecimento de uma nova ordem mundial «a ciência e a religião, as duas forças mais poderosas da vida humana, cooperarão mutuamente e harmoniosamente se desenvolverão», os baha’is têm actualmente todas as suas actividades coordenadas pela Casa Universal de Justiça, sediada em Haifa, e cujo membros são considerados infalíveis em matéria de fé[6]. Segundo 'Abdu'l-Bahá, filho do «profeta», os membros deste órgão central devem «deliberar sobre todos os problemas que causam diferenças, questões obscuras (...). E aquilo que esse corpo decidir (...) é verdadeiramente a Verdade e o propósito de Deus».

Entre outros princípios, e tendo em conta a sua doutrina de unidade universal, os bahá'ís necessitam de ter o consentimento dos pais para se casarem. Se os progenitores de algum dos membros se opuserem à celebração do matrimónio, este não se poderá efectuar. Por outro lado, o divórcio só é permitido após o casal se separar durante um ano, considerado necessário para que ambos reflictam se pretendem ou não separar-se. Proibidos de se envolverem na vida política do seu país, os crentes têm o dever de respeitar «os pontos de vista daqueles que representam a autoridade». Contudo, não lhes é vedada a participação em actividades sindicais. Refira-se ainda que os ensinamentos do «profeta» não permitem aos baha’is ingerirem qualquer bebida que contenha álcool.

A Comunidade Internacional Bahá'í está acreditada, como organização não governamental junto do Conselho Económico e Social da ONU e da UNICEF. Está ainda associada ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e ao Departamento de Informações Públicas das Nações Unidas, com representações em Nova Iorque, Genebra, Viena e Nairobi. Todo este empenhamento, segundo os dirigentes portugueses, «faz parte da essência» da sua fé, através da qual acreditam «que a religião progressiva contribuirá permanentemente para o aperfeiçoamento do ser humano e consequentemente da ordem mundial».

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COMENTÁRIO
Passam hoje vinte e um anos sobre a publicação deste artigo. De certa forma foi um momento que assinalou um início de uma maior visibilidade pública da Comunidade Bahá'í de Portugal. Como o próprio Mário Robalo contou, até essa altura ninguém tinha ouvido falar dos baha’is no Expresso. O texto aqui transcrito (e cujas as frases a bold estão conforme o original) reflecte naturalmente a imagem que os bahá’ís conseguiram passar, e aquilo que o jornalista captou e considerou relevante no manancial de informação que lhe foi transmitido.

O que se seguem são algumas observações sobre aspectos do texto que não estão totalmente correctos.
[1] – A fé Bahá'í não se considera “a verdadeira religião”; esse sentimento de exclusividade está ausente das Escrituras Bahá’ís. Isso equivalia e negar o valor e a veracidade das outras religiões, facto que seria contrário aos ensinamentos bahá'ís. O mais correcto seria dizer que os bahá'ís consideram a sua religião a mais adequada aos dias de hoje.
[2] – Bahá'u'lláh nunca se proclamou “o último Mensageiro de Deus”; segundo os ensinamentos bahá’ís, Ele é o mais recente. No futuro, surgirão outros Mensageiros.
[3] – Bahá'u'lláh não faleceu na prisão de ‘Akká, mas sim na sua residência em Bahji. Na prisão de ‘Akká esteve pouco mais de dois anos. A Sua estadia na residência de Bahji – já no final da Sua vida – era uma espécie de “prisão domiciliária”.
[4] – A não divulgação de fotografias de Bahá'u'lláh é, acima de tudo, uma atitude de reverência e respeito pela pessoa do Manifestante. Alguns baha’is possuem fotos de Bahá'u'lláh mas nunca as mostram em público e apenas as mostram a outros crentes em ocasiões muito especiais. Em relação às fotografias de 'Abdu'l-Bahá (o filho de Bahá'u'lláh) não existem restrições, mas apenas recomendações para que estas sejam exibidas de forma digna.
[5] – Um sistema centralizado de planificação mundial da produção seria obviamente um absurdo. Esta ideia não faz sentido mesmo no contexto da criação de um governo mundial.
[6] – A questão da infalibilidade acabou por ser o tópico mais polémico deste artigo. A infalibilidade da Casa Universal de Justiça foi decretada por Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá; não é um dogma criado pelos crentes. Aplica-se apenas às competências definidas para esta instituição (legislação sobre temas omisso nas Escrituras e interpretação dos Textos Sagrados). No entanto, a infalibilidade da instituição não significa que os seus membros individuais também sejam infalíveis. Sobre este assunto ver o artigo The Infallibility of the Universal House of Justice.

3 comentários:

Dad disse...

Obrigada Marco por nos teres relembrado este artigo. Como o tempo passa...

Gostei particularmente dos teus esclarecedores comentários, absolutamente necessários, no contexto.

Faço votos que este post seja esclarecedor para muita gente que, se calhar até hoje ainda não sabe que existe tal Fé.

Abração,

Elforadiante disse...

Olha Marco, nem sempre temos de estar de acordo.
Quando falo de RP quero dizer que um press realease de vez em quando mandado para a imprensa surtiria algum efeito.
Quanto a pregar a Fé..., bom, nem conhecia esse termo dentro da Fé Bahá'í, o que sei é que o proselitismo é proíbido ou fortemente desaconselhável.
Acho que o que tu fazes é um óptimo trabalho de RP e não te estou a passar a mão pelo pêlo, é uma pura verdade.
Já vi o teu blog nos USA, em França, no UK, e por aí fora, até na Tailandia. Enfim tu sabes o que fazes e, nunca te vi a pregar fosse o que fosse.
Muito mais teria para dizer aqui acerca do trabalho individual de cada um para a visibilidade da Fé, mas não quero ocupar demasiado o teu espaço.
Um grande abraço.

Marco disse...

Elfo,
Para mim este blog não tem nada de RP; é apenas uma iniciativa individual, que tem as suas forças e as suas fraquezas.

Aqui há muita coisa: proselitismo, debate, comparação de religiões, divulgação de iniciativas, futebol e até humor.

Naturalmente que discordamos em várias coisas e concordamos noutras. É mesmo assim com toda a gente e em toda a parte.

Por exemplo, há 21 anos quando este artigo saiu, considerei-o uma frustração, pois achava que tinha várias incorrecções. Hoje não penso bem assim. A gente muda,o mundo transforma-se e o nosso entendimento das coisas também. Coitado de quem pensa sempre a mesma coisa.

Quando é que vens a Lisboa?
:-)