Por Aravindh Kaniappan.
Bahá'u'lláh, o profeta fundador da Fé Bahá'í, foi contundente na sua repreensão aos líderes religiosos do século XIX, que, segundo Ele, "impediam os povos" de alcançar a salvação.
Depois de ter sido repetidamente torturado, exilado e preso pelos clérigos do Seu tempo apenas por ensinar a Sua nova fé, Bahá'u'lláh escreveu:
Os líderes da religião, em todas as eras, impediram os seus povos de alcançar as praias da salvação eterna, pois tinham as rédeas da autoridade nas suas poderosas mãos. Alguns pelo desejo da liderança, outros querendo conhecimento e discernimento, foram a causa da privação do povo. (Kitab-i-Iqan, ¶15)
Ao longo dos últimos dois séculos, um movimento antirreligioso específico ganhou gradualmente força em muitas partes do mundo. Rejeitada devido à profunda ignorância, corrupção e depravação em que a religião organizada fora lançada pela conduta egoísta e ávida de poder dos seus supostos líderes, e libertada cada vez mais das amarras que a prendiam desde os primórdios da humanidade, graças aos crescentes níveis de literacia, educação, descobertas científicas pós-Renascimento e descentralização do poder, a humanidade em geral tem-se voltado, lenta mas seguramente, para uma abordagem de vida que tende a compartimentar os seus elementos espirituais e materiais em partes separadas.
Será que isso é bom?
A constante adulteração da orientação divina para fins políticos ao longo do último século apenas reforçou no mundo em que vivemos hoje, a percepção da religião como arcaica, desligada da realidade e que procura controlar os seus seguidores, mantendo-os na ignorância e com medo da condenação eterna.
A força motriz por detrás do surgimento e da sustentação contínua deste movimento materialista anti-religioso pode ser facilmente compreendida. Mas será que alguma vez levou a humanidade ao extremo oposto, onde o elemento material e secular da vida, dissociado do outro, fica privado da influência redentora e moderadora do espírito, fazendo do materialismo uma faceta cada vez mais dominante da existência humana?
Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í, escreveu:
É este mesmo materialismo cancerígeno, nascido originalmente na Europa, levado ao extremo no continente norte-americano, contaminando os povos e as nações asiáticas, estendendo os seus sinistros tentáculos até às fronteiras de África e agora invadindo o seu próprio coração, que Bahá’u’lláh denunciou numa linguagem inequívoca e enfática nas Suas Escrituras, comparando-o a uma chama devoradora e considerando-o como o principal factor no precipitar de terríveis provações e crises que abalam o mundo... (Citadel of Faith, p.125)
Muitas pessoas lamentam hoje o facto de o materialismo se ter tornado uma faceta tão dominante da vida moderna, mas cancerígena? Contaminadora? Uma chama devoradora? Será mesmo assim tão mau? Gostaria de dizer, por experiência própria, que sim. Nascido e criado numa família de classe média, eu e os meus irmãos nunca sentimos falta de necessidades básicas para viver – mas certamente não tínhamos uma vida de luxo ou de excessos. Por ter nascido e sido criado numa família Bahá’í, sentia-me bastante feliz com este tipo de vida relativamente modesta, lembrando-me sempre da advertência de Bahá’u’lláh: “Ó Filho do Ser! Não te ocupes com este mundo, pois com fogo provamos o ouro e com ouro provamos os Nossos servos.”
No início da minha juventude, fui para a universidade, estudei engenharia, arranjei um emprego e comecei a ganhar dinheiro. A minha carreira evoluiu à medida que subia na hierarquia da empresa. Continuei a contribuir voluntariamente para o Fundo Bahá’í e a tentar ajudar os outros sempre que possível através de donativos e assistência financeira pessoal, mas o meu estilo de vida estava definitivamente a tornar-se cada vez mais confortável – aliás, muito mais do que confortável – e dei por mim a adquirir muitos bens materiais. Embora tentasse manter-me envolvido nas actividades da comunidade Bahá’í, o trabalho estava a consumir cada vez mais tempo e a definir cada vez mais quem eu era.
Até que um dia, alguém me fez uma pergunta inocente, algo que já me tinham feito muitas vezes: "Onde te vês daqui a 10 anos?" Ao que dei a minha resposta padrão, a mesma que já tinha dado inúmeras vezes: "Administrador de uma multinacional". Mas veio uma pergunta seguinte, e esta surpreendeu-me verdadeiramente: "E isso vai fazer-te feliz?"
Nesse momento, percebi que esta droga invisível e viciante do materialismo me tinha aprisionado firmemente nos seus "sinistros tentáculos", sem que eu me apercebesse! Eu era como um hamster na roda, a correr sem parar, sem saber ao certo porquê, mas tão drogado que não conseguia parar para pensar. Eu deveria ter aprendido a lição, com as advertências desde a mais tenra idade sobre o efeito debilitante do materialismo. Tentei perceber onde é que tudo tinha corrido mal, e o que descobri foi verdadeiramente assustador.
Somos bombardeados diariamente, a toda hora, a cada instante, com a narrativa de que o propósito da vida é progredir materialmente e adquirir cada vez mais bens, riqueza, conforto e estatuto. Dizem-nos que as pessoas que "chegaram lá" são os ricos e famosos, os ícones do desporto, as estrelas de cinema. Garantem-nos que a busca da felicidade deve ser feita através de empregos e negócios maiores e mais bem remunerados. Convencem-nos de que precisamos de investir nas empresas que oferecem o maior lucro, porque isso leva ao enriquecimento pessoal, essencial para uma vida plena. Somos doutrinados para acreditar que o único caminho para o progresso nacional é o nosso país explorar ao máximo os seus próprios recursos naturais (e, se possível, os de outros) e garantir que os cidadãos do nosso país vivem o mais prosperamente possível. Poucos, porém, levam esta linha de raciocínio à próxima questão lógica: E as outras pessoas?
Mesmo quando não se trata explicitamente de dinheiro, somos levados a crer que fazer o que "nos faz felizes" (leia-se: bens mais caros, férias de luxo, desportos radicais, cuidados de beleza, "soltar-se") é indispensável para levar uma vida plena.
Esta narrativa sedutora e bem elaborada, embora aparente reconheça a faceta espiritual do ser humano, nega quase completamente essa mesma faceta no modo de vida que defende. Alimenta-se de si própria e cresce como uma hidra. Encontra vítimas voluntárias, involuntárias e, muitas vezes, inconscientes em todas as camadas da sociedade. Age sobre nós de forma insidiosa, e muitos vão para o túmulo sem sequer se aperceberem de que vaguearam pela vida numa névoa induzida por drogas, acreditando ser real o que era apenas uma miragem temporária. Bahá'u'lláh advertiu:
Os dias da vossa vida estão quase concluídos, ó povo, e o vosso fim aproxima-se rapidamente. Deixai, pois, de lado as coisas que planeastes e às quais vos apegastes, e segurai-vos firmemente aos preceitos de Deus, para que talvez alcanceis o que Ele planeou para vós e sejais dos que seguem o caminho íntegro. Não vos deleiteis com as coisas do mundo e os seus adornos vãos, nem depositeis nelas a vossa esperança. Confiai na lembrança de Deus, o Mais Enaltecido, o Mais Grandioso. Ele, em breve, reduzirá a nada tudo o que possuís. (Gleanings, LXVI)
Na minha opinião, o materialismo é, de facto, o maior ópio que existe no mundo actual. Suga as nossas almas e destrói as nossas civilizações, à medida que indivíduos, empresas e nações competem entre si para tentar acumular para si uma parcela cada vez maior de bens materiais e recursos. Amaldiçoa o nosso planeta ao extrair cada vez mais recursos, produzir cada vez mais bens materiais desnecessários e gerar cada vez mais lixo, poluição e carbono. Esta corrida materialista mantém-nos num estado constante de entorpecimento, impedindo-nos de encarar os verdadeiros anseios e desejos das nossas almas.
Sinto-me incrivelmente abençoado por ter finalmente tomado consciência desta ameaça, deste vício, e por, pelo menos, ter podido contemplar algumas medidas correctivas para me libertar das suas garras – mas lembro-me de que posso facilmente voltar a cair no seu domínio se não tentar, constante e diariamente, realinhar-me com o meu Criador e a Sua vontade para mim. Tal como nos aconselhou Bahá'u'lláh:
Vós sois como o pássaro que levanta voo, com toda a força das suas poderosas asas, com plena e alegre confiança, pela imensidão dos céus, até que, impelido a saciar a sua fome, se volta com saudade para a água e o barro da terra em baixo, e, preso na teia do seu desejo, se vê impotente para retomar o seu voo para os reinos de onde veio. Incapaz de se livrar do fardo que lhe pesa sobre as asas maculadas, este pássaro, até então habitante dos céus, é agora obrigado a procurar morada no pó. Por isso, ó Meus servos, não contamineis as vossas asas com o barro da rebeldia e dos desejos vãos… (Gleanings, CLIII)
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Texto original: Materialism: the Real Opiate of the Masses (www.bahaiteachings.org)
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Aravindh é engenheiro de formação e desempenha funções de executivo numa grande multinacional. Vive na Malásia, é apaixonado pela leitura, com particular interesse pela história, tanto antiga como moderna. Procura envolver-se ao máximo nas actividades da comunidade Bahá'í.




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