sábado, 9 de maio de 2026

Este Mundo: Apenas a Sombra do Mundo Seguinte

Por John Hatcher.


Os artistas oferecem-nos uma prenda preciosa, fornecendo-nos informações importantes sobre nós próprios, especialmente quando se trata de enfrentar a morte.

Mas, no caso dos poetas confessionais e dos artistas depressivos, estes revelam muito sobre a angústia do desespero, mesmo que não pareçam ter uma atitude séria face à arte de morrer. Por exemplo, é evidente, pelo tom retórico da poesia sarcástica de Sylvia Plath, que ela não se considera seriamente uma mentora para suicidas.

Assim sendo, considero mais consentâneo com o nosso objetivo de aprender sobre a arte de morrer examinar a abordagem da morte por parte de quem vê esta viagem através de um vidro não tão escuro como o de uma doença que afeta directamente a capacidade de ver qualquer coisa com clareza. Porque, embora a maioria das pessoas morra de alguma doença terminal, mesmo que a doença seja ironicamente categorizada como uma "causa natural", talvez possamos descobrir alguma sabedoria valiosa nas observações daqueles que encaram esta transição não como uma fuga calculada à dor psíquica, mas porque precisam de o fazer.

O que é que os moribundos encontraram como consolo e sagacidade úteis em relação a esta arte perdida? Digo "perdida" porque só na era moderna é que passámos a ver a morte como algo estranho, inapropriado ou antinatural.

No seu best-seller "A Última Aula" (“A Lição Final”, no Brasil), Randy Pausch escreveu um relato despretensioso e útil sobre a sua própria trajetória rumo à morte iminente, expondo-nos as nobres estratégias que concebeu como resposta à morte e ao morrer. Certamente que a sua resposta é engenhosa em todos os sentidos, e a prova disso é que, se assim não fosse, dificilmente consideraríamos como inspiradores os pensamentos autobiográficos de alguém que tem apenas seis meses de vida e que está a viver a devastação do seu corpo por tumores celulares insaciáveis.

Assim, para efeitos da nossa exploração da viagem até ao grande evento da morte, considero útil conversar com aqueles que estão a passar pelo mesmo tipo de processo que Pausch suportou de forma tão nobre. No entanto, existe uma lacuna importante no relato de Pausch. Ele reconhece abertamente que omitiu retratar a relação entre as suas crenças religiosas e a sua aceitação da morte iminente, mas não porque tal relação não seja relevante:

Muitas, muitas pessoas escreveram-me sobre questões de fé. Agradeço muito os vossos comentários e orações.

Fui educado por pais que acreditavam que a fé era algo muito pessoal. Não abordei a minha religião específica na palestra porque queria falar sobre princípios universais que se aplicam a todas as crenças — partilhar o que aprendi através das minhas relações com as pessoas. (A Última Aula)

Randy Pausch
Para Pausch, e provavelmente para a maioria das pessoas, a arte de viver pode ser discutida publicamente e com frequência, mas a arte de morrer é muitas vezes tratada como algo inteiramente privado. Da mesma forma, para Pausch e outros, a relação entre a crença religiosa e os assuntos mais práticos da ciência e da vida quotidiana são duas arenas distintas de pensamento e prática.

No caminho de vida Bahá’í, isso não acontece. Estes dois aspectos da vida estão integrados, são indissociáveis, tal como Bahá’u’lláh estabelece, como uma das principais doutrinas da Fé Bahá’í, o conceito da unidade entre ciência e religião.

A realidade é uma criação integrada, independentemente da dimensão que estejamos a discutir. Para os Bahá’ís, a realidade tem um aspecto exterior, visível e físico, e um aspecto interior, invisível e metafísico. Por outras palavras, a existência destas duas "dimensões" não indica duas realidades distintas. Nem se pretende que compreendamos ou tenhamos acesso a estas experiências gémeas de forma separada ou independente, assim como não devemos segregar a nossa vida espiritual da nossa vida familiar, da nossa vocação ou mesmo das nossas ocupações, não se desejarmos ter a nossa própria plenitude e integridade.

Este é o verdadeiro significado do princípio de Bahá’u’lláh da unidade da ciência e da religião, de que a realidade é um sistema integrado, e que:

O mundo espiritual é semelhante ao mundo fenomenal. São a contraparte exacta um do outro. Quaisquer objectos que apareçam neste mundo da existência são imagens exteriores do mundo celeste. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 9)

Portanto, enquanto a ciência se centra no estudo do aspecto material da realidade, e a religião se centra no aspecto metafísico da realidade, ambas as áreas de estudo examinam diferentes dimensões de uma única realidade.

Ainda mais relevante para o nosso exame dos aspetos gémeos da morte, cada área de estudo pode informar a outra sobre as verdades essenciais que regem a realidade. Para cada relação ou lei que descobrimos em acção no mundo físico, uma relação ou lei comparável está em acção no mundo metafísico.

Por exemplo, a área de especialização científica de Pausch era estudar como construir uma "realidade virtual". Que estudo com base científica poderá ser mais relevante para compreender o motivo inerente à criação, pelo Criador, de uma dimensão física? Certamente, a relação entre a realidade e alguma tentativa de a imitar levar-nos-ia à compreensão de que esta parte física da nossa existência está a fazer exactamente a mesma coisa em relação à realidade espiritual que nos espera.

Na realidade, como o próprio Platão expõe na Alegoria da Caverna, toda a dimensão da realidade física é apenas uma realidade virtual, não a realidade em si. É, por assim dizer, um espectáculo tonto em que brincamos ao faz de conta para compreender e nos tornarmos praticantes da arte de nos apresentarmos bem no mundo "real" em que entraremos no nosso segundo (ou terceiro) nascimento:

Sabei que o Reino é o mundo real, e este lugar inferior é apenas a sua sombra que se estende. Uma sombra não tem vida própria; a sua existência é apenas uma fantasia, e nada mais; são apenas imagens refletidas na água, parecendo pinturas aos olhos. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 178)

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Texto original: This World: Only the Shadow of the Next World (www.bahaiteachings.org)

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John S. Hatcher é formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.

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