terça-feira, 3 de maio de 2005

Epístola de Maqsúd (2)

O segundo post sobre a Epístola de Maqsud. Entre parentesis rectos indicam-se os números dos parágrafos. O primeiro parágrafo começa com as palavras "Ele é Deus, excelso é Ele, o Senhor de Majestade e poder".
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TEMAS DA EPÍSTOLA

Como já escrevi uma vez, a análise de uma epístola de Bahá'u'lláh não é simples; podemos identificar os principais temas e perceber como estes se relacionam entre si. Mas existem sempre alguns temas secundários – referidos por vezes numa pequena frase ou metáfora – que nos podem passar despercebidos. Além disso o estilo da escrita e a estrutura do texto - sem uma divisão em parágrafos e com os temas intercalados entre si - a que se acresce o facto deste geralmente ser revelado em resposta a uma ou mais perguntas - que nem sempre conhecemos - dificultam a contextualização dos assuntos expostos.

Não obstante estes obstáculos, na Epístola de Maqsúd parece-me ser possível identificar alguns temas centrais:
  • a situação da humanidade;
  • a criação de uma nova ordem mundial;
  • a religião:
  • o papel do ser humano na transformação social.
Estes temas são intercalados por palavras dirigidas a Maqsúd, invocações ao Criador e orações.

EQUACIONANDO OS PROBLEMAS

Segundo Bahá'u'lláh, a humanidade tem sido afligida por várias convulsões, e no entanto, ninguém parece ter parado para reflectir um momento sobre os motivos da intranquilidade dos povos [6]. Os seres humanos parecem estar divididos uns contra os outros e sempre dispostos à luta e contenda. A humanidade, que foi criada para a unidade, entrega-se a actos condenáveis; e Bahá'u'lláh recorda: "Sois os frutos de uma só árvore e as folhas de um mesmo ramo"[6]

O Ser Humano, enquanto criatura racional tem todas as capacidades para resolver os seus problemas; mas, estranhamente, não parece querer fazer uso dessas capacidades para resolver esses problemas. "Os ventos do desespero, lastimavelmente, sopram de todos os lados e aumenta dia a dia a contenda que divide o género humano"[27]. Toda a organização social e política parece irremediavelmente defeituosa.

Ao olhar para a sucessão de conflitos e barbáries, e a persistência de alguns dirigentes nesse tipo de actos, Bahá'u'lláh deixa uma lamentação: “Por quanto tempo haverá a injustiça de continuar? Até quando reinará entre os homens o caos e a confusão? Até quando haverá a discórdia de agitar a face da sociedade? [26] Apesar do nosso planeta ter mudado muito - para melhor e para pior - desde o momento da revelação desta epístola até aos dias de hoje, estas questões não podem deixar de nos fazer pensar um pouco.

Os problemas que Bahá'u'lláh aponta não são apenas os existentes na Sua época(a); as palavras do fundador da religião bahá’í nesta epístola aplicam-se à história da civilização humana. No decorrer do texto podemos perceber algumas soluções para os tribulações da humanidade. Essas soluções passam pelo definição de uma ordem mundial justa e equilibrada, pelo renascer da religião enquanto força criadora e inspiradora dos povos, e pela consciencialização de cada indivíduo do seu papel numa sociedade global e em constante progresso.

As propostas descritas nesta epístola não são as únicas que Bahá'u'lláh apresentou; existem mais escritos onde se apresentam outros princípios destinados à transformação humana, social e política do planeta(b). Pessoalmente acredito que estes princípios não devem ser vistos como uma panaceia; parecem mais as linhas mestras que permitem transformar um mundo de nações e impérios numa aldeia global, justa, equilibrada e em constante progresso.

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NOTAS
(a) – Nos anos anteriores à revelação da Epístola de Maqsúd tinha-se assistido à invasão do Egipto e à guerra Russo-Otomana; estes acontecimentos lançaram muita perturbação no mundo islâmico em que se movimentava a recém-nascida comunidade Bahá’í.
(b) - Princípios como a educação obrigatória universal, a igualdade de direitos entre homens e mulheres, e a eliminação de preconceitos são abordados noutros textos.

3 comentários:

Anónimo disse...

Eu até gostaria de fazer um pequeno comentário mas não tenho muito a acrescentar ao que dizes.
Esta Epístola merece ser estudada de uma forma aprofundada, provavelmente pelos próprios governantes e líderes mundiais.
Receio, que esta Epístola só possa vir a ser entendida pela generalidade dos seres humanos após alguma "desolação".

João Moutinho

Marco disse...

Tenho fobia a essa postura apocalíptica. Há anos que oiço alguns baha'is (sempre os mesmos!) com conversas dessas. É o discurso tradicional do tipo "A humanidade tem de sofrer muito antes de compreender a importância de religião baha'i". Nunca ninguém me mostrou nada nas nossas escrituras que fundamentasse uma coisa dessas. Regra geral esse tipo de comentários são citações do chamado "Kitab-Ouvi-Dizer" ou interpretações muito distorcidas daquilo que se encontra nas escrituras bahá’ís.

A história mostra-nos que a aceitação de uma nova religião por um ou mais grupos sociais é um processo gradual que costuma ter por cenário uma sucessão de crises com complexas transformações políticas, sociais e económicas. No entanto, nada nos diz que é necessário um cenário destes para assistir a um crescimento significativo da comunidade bahá'í.

É certo que nas últimas décadas temos vivido uma sucessão de crises e transformações consideráveis. E também é certo que a receptividade de muitas e muitas pessoas à mensagem de Bahá’u’lláh é cada vez maior. Os princípios bahá’ís como a igualdade de direitos entre homens e mulheres, a construção de uma nova ordem mundial justa e equilibrada, e a obrigatoriedade de educação para todas as crianças (só para mencionar alguns) são hoje defendidos por qualquer pessoa com um pouco de senso comum.

Mas ao especular que só o agravamento dos problemas da humanidade (mesmo sem considerar cenários apocalípticos) pode favorecer um significativo crescimento da comunidade bahá’í, arriscamo-nos a tornar os bahá’ís numa espécie de adeptos do "quanto pior, melhor". Esse tipo de atitude nada tem a ver com a maneira como os bahá’ís encaram os problemas da humanidade.

Há alguns anos atrás a BBC transmitiu um documentário sobre a Fé Bahá’í que se intitulava "A Revolução Serena". Creio que é uma expressão que melhor define a forma como os princípios e ensinamentos bahá’ís vão influenciando a humanidade; também se aplica à forma como a comunidade bahá’í tem vindo a crescer independentemente das crises e transformações em que o mundo se vê mergulhado.

Assim, meu caro João, fica um conselho: mete o apocalipse na gaveta e pensa no contributo que podes dar para esta revolução serena. :-)

Anónimo disse...

Não sei se deva mencionar de novo "magistral resposta" (pronto já o fiz) ao conteúdo da tua explicação mas sejamos imparciais, não tentei configurar nenhum cenário apocalítico. Lembrei-me de uma citação de Jesus relativamente às profecias de Daniel em que é referido "desolação" - mas daí a transposição para um cenário absolutamente caótico e catastrófico vai uma grande diferença.
A minha opinião sobre a evolução da sociedade é que ela se deve muito mais a uma evolução na continuidade do que a acontecimentos isolados conduzidos por uma brilhante condutor de homens (nos quais estão incluídos políticos, filósofos e cientistas).
Agora, também não poderemos excluir sinais de algum desnorte da sociedade contemporânea, daí a referência à "desolação".
É verdade que muitos princípios bahá'ís têm vindo a ser aceites, mesmo que de forma indidrecta, pela presente sociedade mundial. Há outros que ainda estão numa fase inicial de interiorização.
Em todo o caso cenários de "desolação" não deixam de pairar sobre nós, estou a pensar na deterioração das condições climáticas. Todos nós temos a consciência da necessidade de "moderação", mas estaremos todos dispostos a passá-la à prática?
Bom, com a "Reolução Serena" tudo será mais fácil.
;-)

João Moutinho