quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

Kitáb-i-Iqán (11)

Motivos da Oposição aos Profetas (3ª parte)

A ATITUDE DOS LEIGOS

Ao longo do Kitáb-i-Íqán, o fundador da religião bahá'í aponta diversos motivos que levam a massa dos crentes a rejeitar os Profetas. O principal motivo está no facto da maioria das pessoas não tomar como fonte de conhecimento divino as Escrituras e as palavras dos Profetas do passado; em vez disso, deixam-se impressionar pelo estatuto e pompa dos seus dirigentes religiosos e preferem as interpretações limitadas e erradas que os sacerdotes fazem das escrituras.[112]. Segundo as palavras do próprio Bahá'u'lláh:
Não obstante as advertências divinamente inspiradas, feitas por todos os Profetas, Santos e Eleitos de Deus, exortando os povos a ver com os seus próprios olhos e ouvir com os seus próprios ouvidos, eles rejeitaram com desdém os Seus conselhos, e têm seguido cegamente - e continuarão a seguir - os lideres da sua Fé. Se uma pessoa pobre e pouco conhecida, destituída dos adornos dos homens de erudição, se dirigisse a eles dizendo: «Segue, ó povo, os Mensageiros de Deus», eles profundamente surpreendidos com tal declaração responderiam: «O quê? Queres dizer que todos esses sacerdotes, todos esses expoentes da erudição, com toda a sua autoridade, pompa e fausto, erraram e não sabem distinguir a verdade da falsidade? Terás tu, e outros semelhantes a ti, a pretensão de ter compreendido o que eles não compreenderam?» Se a quantidade e a excelência dos ornamentos fossem considerados como critérios para avaliar a erudição e a verdade, então os povos de tempos idos - aos quais os de hoje nunca excederam em número, magnificência ou poder - deveriam, certamente, ser considerados superiores e mais dignos.[176]

Além do problema identificado na citação anterior, devemos ter presente que todos os Profetas revelam novos ensinamentos éticos e sociais, destinados a substituir os revelados anteriormente. Em sociedades habituadas as seguir durante muitos séculos hábitos e tradições, isto torna-se mais um motivo de oposição ao Profeta[81]; nas escrituras baha'is, estes hábitos e tradições que impedem as pessoas de ver a verdade divina, são frequentemente comparados a nuvens que impedem que se veja o sol.

Por fim, a própria condição social do Profeta é também um teste para o povo. Segundo Bahá'u'lláh, o facto de Moisés ter assassinado um homem[58], constituiu um teste para muitos hebreus e egípcios; o facto de Jesus ser “uma Criança cujo pai era desconhecido... concebido pelo Espírito Santo[59], também foi um motivo de profunda apreensão e um teste para o povo hebreu.

O aparecimento de um novo Mensageiro de Deus está rodeado de várias coisas que são contrárias aos desejos e compreensão da enorme maioria dos seres humanos. Tudo isto se apresenta como um grande teste a cada ser humano e à sociedade. Cada pessoa deve escolher entre seguir hábitos do passado, interpretações incorrectas ou aderir a um novo paradigma espiritual. É um teste ao ego e ao desprendimento de cada pessoa [55].

Na perspectiva baha'i, a Palavra revelada nas Escrituras é o maior prova da veracidade de um Mensageiro de Deus. A compreensão das Escrituras não depende da erudição humana, mas apenas da pureza de coração, sinceridade de motivos e liberdade de espírito. Sugerir que um leigo é incapaz de compreender as Escrituras, e por esse motivo estas não devem ser consideradas uma prova suficiente da veracidade, equivale a sugerir que a Palavra de Deus revelada foi inútil.

5 comentários:

João Moutinho disse...

"o facto de Jesus ser “uma Criança cujo pai era desconhecido... concebido pelo Espírito Santo”"
Lembro-me de quando frequentava a formação religiosa católica não entender (ou concordar) que a prova da Divindade de Jesus vinha do facto de a Sua Mãe "não ter conhecido homem".
Ou também a valorização excessiva da castidade absoluta em que esta se sobrepunha ao casamento (sabemos que após o Vaticano II houve alteração nesta escal de valores).
O facto de Jesus ter tido irmãos e Maria outros filhos (tendo-os feito normalmente) só demonstra a Sua santidade e dedicação ao Criador.

GH disse...

"a Palavra revelada nas Escrituras é o maior prova da veracidade de um Mensageiro de Deus"

Então e se aparecer por aí um poeta ou um escritor com talento e supondo que o gajo(a) começa a dizer que é profeta. Como é que nós sabemos se ele está a dizer a verdade ou não?

Marco disse...

GH,
Será que as palavras desse profeta têm o poder transformador, capaz de levar as pessoas a decidirem, por sua própria vontade, modificar as suas atitudes e comportamento? E isso aplica-se a milhares ou milhões de pessoas? Será que essas mesmas palavras conseguem ser o fundamento de sociedades, ou mesmo de civilizações? Poderão essas palavras inspirar as artes, as ciências e a cultura durante vários séculos?

F Cirilo disse...

Mas o povão gosta é de milagres, da religião espectáculo, com pregadores e profetas do tipo David Coperfield. Uma religião sem isso não consegue chegar às massas; mas uma religião com isso é o autentico ópio do povo.
Por isso e que eu digo que vocês serão sempre e apenas um grupo simpático e pouco mais do que isso. Uma religião para intelectuais. (ou gente com dois dedos de testa). Inevitavelmente, uma religião elitista. Digo eu.

Marco disse...

Cirilo,
Posso garantir-te que a maioria dos baha'is não são intelectuais.
Pertencem àquilo que designas como "povão". E não esperam milagres, nem a tal "religião espectáculo".
Talvez algo esteja a mudar neste mundo...
:-)