segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Mind the Gap! (2)

No post anterior limitei-me a relatar o que li em vários jornais ingleses ao longo dos últimos dias. É importante ter presente que os jornais ingleses relatam com regularidade os chamados "crimes de ódio": é o jovens negro que foi esfaqueado por skinheads; é um bando de negros que atacou um velho reformado... Mas estes nunca são apresentados como "mais um problema provocado por esta ou aquela comunidade"; são tratados como crimes, fruto de problemas como o desemprego juvenil e a pobreza. O que eu estranhei nestes dias em Londres foi a quantidade de problemas que os jornais (através de reportagens, editoriais e artigos de opinião) apontavam como problemas de integração das comunidades muçulmanas.

Agora fica aqui a minha opinião sobre o assunto.

Quando umas pessoas se deslocam para viver noutra sociedade (seja por motivos políticos, económicos ou familiares), é legítimo que queiram manter a sua identidade cultural. Isso pode acontecer por desejo dos próprios ou por incapacidade de se integrarem na sociedade que os acolhe. Como alguns comentadores escreveram aqui, isso aconteceu com alguns portugueses em França e na Alemanha. Mas não aconteceu com todos; houve também os que se integraram nos países de acolhimento, e assimilaram novos valores culturais, sem nunca perderem as ligações afectivas ao país de origem. Esses seguiram o ditado "Em Roma, sê romano".

É verdade que a proximidade cultural é maior entre Portugueses e Franceses/Alemães do que entre Paquistaneses/Egípcios e Ingleses. Por esse motivo, comparar estes dois casos pode não ser muito correcto. E também não podemos esquecer que os ingleses conseguem ser muito racistas contra os estrangeiros; tenho alguns familiares que viveram em Inglaterra durante alguns anos, foram vítimas de discriminação e testemunharam casos de racismo (especialmente contra Paquistaneses e Indianos).

Mas o que nunca aconteceu com os portugueses que se fecharam em comunidade foi tentarem impor os seus valores culturais à sociedade que os acolhia; tão pouco, aqueles que saíram de Portugal no tempo da ditadura, se alguma vez criticaram os governos dos países que os acolheram, se esqueceram de criticar o governo do seu país de origem.

Ora este é um dos problemas actuais de alguns sectores (que acredito serem uma minoria) da comunidade islâmica em Inglaterra; criticam o que consideram ser abusos da autoridades inglesas, mas mantém um silêncio – por cumplicidade ou por receio? – com flagrantes abusos dos direitos humanos nos seus países de origem.

Além desta dualidade de comportamento, há questão da tentativa de alteração valores culturais da sociedade de acolhimento.

Confesso que partilho da opinião do Jack Straw; eu também não me sentiria à vontade se no meu país tivesse de falar de viva voz com alguém de rosto tapado. Não nego que as mulheres que queiram andar com rosto coberto o possam fazer; mas também ninguém me pode negar o direito de me sentir incomodado por ter de falar com alguém com o rosto coberto (Daud Abdullah, membro do Conselho Muçulmano Britânico reconheceu que é compreensível que os não-muçulmanos sintam esse desconforto).

Da mesma forma me sentiria incomodado se na escola dos meus filhos, um grupo minoritário de estudantes começasse a levantar objecções à realização da Festa de Natal. Apesar de eu ser Baha’i, o Natal faz parte da minha cultura e tenho prazer em celebrá-lo como festa da família (já escrevi sobre esse assunto).

Em cada país, existem valores elementares que regem a organização social e a convivência entre as pessoas; e esses valores devem ser respeitados por todos os que aí vivem. É evidente que os valores culturais evoluem ao longo do tempo (a tolerância ocidental, por exemplo, é um fenómeno muito recente); mas uma tentativa de forçar mudanças de valores através de violência e ameaças apenas provocará tensões e conflitos sociais.

15 comentários:

dina disse...

eu a pensar que me ias contar as coisas giras que vistas e tu pões-te a dar importância às cabecinhas quadradas dos ingleses ? faz-me um favor não vás aos estados unidos, nem quero pensar o relato que irias fazer ...

João disse...

Marco, estou 100% de acordo contigo. Qualquer pessoa que vá viver para outro país tem, no minimo, que respeitar as leis desse país.
É verdade também que as comunidades muçulmanas vêm apresentando problemas de integração cada vez mais falados.
Eu acho no entanto que é preciso ter consciência que a grande luta que se trava neste momento é entre muçulmanos que querem viver a sua religião em paz no respeito pelos outros e os fundamentalistas. Tomar todos os muçulmanos por fundamentalistas, como muita gente faz no ocidente, só tem como consequência aproximar os moderados dos fundamentalistas. Por outro lado fazer esta distinção não significa pactuar com o fundamentalismo, aliás nós os portugueses estamos até em boas condições para fazer essa distinção porque temos em Portugal uma comunidade muçulmana com um comportamento exemplar e com lideres que merecem toda a consideração!

Daniella disse...

Apesar de tudo continuo acreditando que cada um tem direito a gostar ou desgostar e de fazer as suas escolhas e os outros tem o dever de respeitar estas escolhas, nada de fudamentalismo.
Escreveu que os muçulmanos impõem a sua cultura (atenção eu não digo se está certo ou errado, simplesmente constato o facto) enquanto se um grupo de brasileiros invada a rua, cantando e dançando; ou subisse ao Torre Eiffel colocando a sua bandeira e festejar qualquer coisa que lhes apetecer será uma festa, não usamos a palavra impor, sem saber que há sempre quem não goste.
Em Los Angeles os iranianos fazem Carnaval nas ruas, festejando as suas datas comemorativas, as quais no próprio país não são comemoradas, eles se sentem mais “Persas” no estrangeiro do que anteriormente, diante este facto também não usamos o verbo impor, com tudo se o mesmo grupo recusasse a festejar o Natal terá impondo a sua cultura!
Posso citar muitos outros, cubanos, africanos,...
No entanto um bahá’i ou um muçulmano, um judeu ou um budista, em fim seja o que for a sua crença não terá direito a recusar o Natal e celebrar a sua própria festa?
Se o Natal tem raiz cultural para você ou por questões familiares ou qualquer outra razão quer celebrá-lo a escolha é sua, e nem por isso pode menosprezar a escolha de outro que recusa a celebrar o Natal, até porque e principalmente porque a legislação portuguesa assim o permite.
E se não for você também correrá o risco de estar sujeito a impor a sua cultura aos outros.
A questão sobre os direitos humanos que você levantou “...criticam o que consideram ser abusos da autoridades inglesas, mas mantém um silêncio – por cumplicidade ou por receio? – com flagrantes abusos dos direitos humanos nos seus países de origem.”
Devia acrescentar "...ou por ignorância" já ouviu falar do que os olhos não vêm o coração não sente? Eu acredito que na sua maioria eles não sabem o que se passa no seu país de origem até porque as publicidades contraditórias são muitas no entanto quem vem a saber contesta.
Gosto, ainda, de acreditar na bondade e na sensatez humana.

GH disse...

Já percebi! A Daniella é uma idealista.
:-)
Ela quer por força que o mundo seja cor-de-rosa, mesmo quando está pintado com cores sombrias.
O problema dos idealistas é que por vezes ficam muito desligados da realidade... ;-)

Daniella disse...

Oh GH agora está me ofendendo.
O que você escreveu não é verdade e não estou desligada da realidade, muito pelo contrário estou ligada até muito mais do que você imagina.
Já tinha pedido para você ler novamente os meus comentários, parece que não adiantou, mas tudo bem vou ficar por aqui porque não quero entrar em bate boca com você.

Marco Oliveira disse...

GH e Daniella,
Eu creio que a maneira como cada pessoa vê o mundo tem muito a ver com a sua própria maneira de ser. Pessoas mais optimistas tendem a enfatizar os aspectos positivos; pessoas mais pessimistas tendem a dar maior importância a aspectos negativos.
É uma análise simplistas, mas a verdade é que diferentes pessoas conseguem ter perspectivas distintas da mesma realidade. A verdade apresentada por cada pessoa é sempre uma verdade pessoal; nunca é a própria realidade. (e isto aplica-se às minhas palavras!)

Helena disse...

Olá Marco,
obrigada por estes posts e pela maneira simples como fala de coisas tão complicadas!
Queria acrescentar dois pontos:
- Em França é proibido cantar canções de Natal nas escolas, em nome da laicidade do Estado. Como vê, fundamentalismos acontecem nas melhores famílias...
- É verdade que há problemas graves com alguns muçulmanos que se querem impor. Mas a maioria não é assim. Aliás: não me sinto ameaçada por nenhum dos muçulmanos que conheço, ou por quem passo na rua, aqui na Alemanha. Penso que o nosso tempo está a criar o mito do "perigoso muçulmano". E cuidado com isso: pode ser um caso de self-fulfilling prophecy.

Helena disse...

Olá Marco,
obrigada pelos posts e pelo modo simples como escreve sobre coisas complicadas!
Queria acrescentar dois pontos:
- Na França, é proibido ensinar canções de Natal nas escolas públicas - como vê, o fundamentalismo acontece nas melhores famílias...
- Pelo que sei da situação na Alemanha, onde vivo, é verdade que há problemas graves com alguns muçulmanos, em grande parte devido a erros na sua integração (por exemplo, pensar que eles não iriam ficar para sempre aqui, ou o exagerado respeito pela sua cultura que deixou de fora a obrigação de aprenderem alemão), mas não se pode generalizar. Pelo contrário: nenhum dos muçulmanos que conheço, ou com quem me cruzo na rua, representa para mim uma ameaça.
Penso que estamos a criar o mito do "perigoso muçulmano", e temos de ter cuidado com isso, não se vá tornar numa self-fulfilling prophecy.

Marco Oliveira disse...

Helena,
Obrigado por teres lembrado isso.
:-)

João Moutinho disse...

Marco & Boa Gente
Durante algum tempo alguns brilhentes "intelectuais" queriam-nos fazer crer que a culpa da não integração era nossa (neste caso dos ocidentais) mas foram longe demais.
O caso do motorista muçulmano que se recusa a transportar um cão guia de uma senhora invisual é asneira imperdoável.
Não demonstra qualquer consideração por aquele ser humano (mais do que o respeito pela sua Religião).

João disse...

João Moutinho, estou de acordo contigo e até digo mais, aquele taxista ao recusar transportar o cão da pessoa cega invocando motivos religiosos mostra bem que é uma besta.
Mas e daí, o quê que isso prova em relação ao islão? Tentar construir teorias a partir deste caso concreto parece-me um erro. Gente estupida e mal formada existe em todo o lado, infelizmente!

Helena disse...

Desculpem, escrevi duas vezes o mesmo comentário porque me pareceu que o primeiro se tinha perdido. Asseguro que não é Alzheimer (ainda...)

Olhem, não sei: na Alemanha sou estrangeira. Às vezes chateio-me com alguns tiques das pessoas, e resmungo que este país tem demasiados alemães. É apenas uma piada, mas se fosse muçulmana de certeza que me acusariam de tentação imperialista, incitação ao ódio e sei lá que mais.
E contudo, penso que tenho o direito de me sentir incomodada por na Alemanha haver tantos alemães que são como são, e que, em determinados contextos, o posso dizer - ou será caso para me expatriarem?
E que fazer com todos os portugueses que dizem "este país..." e se queixam de que "os portugueses são todos uns ladrões e uns preguiçosos"?
Queremos integração, e simultaneamente exigimos que os imigrantes se portem como convidados ou subalternos: respeitinho é que é bonito.
Não é fácil.
Idiotas há-os em todos os países, todas as culturas e religiões - é um facto assente. Outro facto é que a maior parte dos muçulmanos que estão na Europa não são "esses" idiotas, mas estão cada vez mais estigmatizados.
Não podemos exigir dos muçulmanos imigrantes que sejam mais perfeitos e equilibrados que nós próprios.
Mas temos também de averiguar se é de facto verdade que há grupos instalados entre nós que odeiam o Ocidente e o querem converter a partir de dentro, e que peso e estratégia têm esses grupos.

Helena disse...

Ah, já me ia esquecendo: na parte oriental da Alemanha, onde moro, o problema não é o Islão fundamentalista, mas o neonazismo. Soube ontem que há na internet listas com nome, foto e morada de pessoas "a abater". Estrangeiros, assistentes sociais que protegem os interesses dos estrangeiros, etc.
Isto está a ficar muito mais sério que a anedota de um gajo que não deixa um cão entrar no seu carro.
(Aliás, se eu fosse condutora de táxi, não sei se deixaria alguém entrar com um cobra à solta no meu carro. Bem sei que não há cobras-guias para cegos, mas será que as aversões a "bichos nojentos" são tão diferentes?)

Daniella disse...

Minha querida Helena não sei quem é mas estou aqui para dizer que:ADOREI, ADOREI E Adorei tudo o que você escreveu.......desde primeiro até ao último comentário.

Helena disse...

Daniella,
obrigada!
...até os repetidos?!

;-)

e

:-)