sábado, 29 de novembro de 2014

Como imaginar Deus

Por David Langness.

... a Essência de Deus é incompreensível à mente humana, pois a compreensão limitada não se pode aplicar a este Mistério infinito. Deus contém tudo; Ele não pode ser contido. O que contém é superior ao que é contido. O todo é maior que as suas partes. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 23-24)
Há alguns meses atrás, a minha mulher e eu decidimos organizar uma pequena reunião social para os vizinhos e para isso convidámos todas as pessoas do bloco; oferecemos muita comida e tocámos alguma música - uma festa instantânea! Não conhecíamos alguns dos convidados, nomeadamente uma jovem mãe solteira com a sua filha de sete anos; foi agradável conhecê-las pessoalmente. A criança, a quem chamarei Crystal, era brincalhona. É fácil gostar da Crystal. Ela é uma daquelas miúdas felizes, curiosas, com energia interminável, que adora brincar, correr, saltar e descobrir coisas.

Crystal viu os livros Bahá’ís na nossa biblioteca e começou a fazer perguntas. Quando lhe expliquei o que eram, ela respondeu entusiasticamente: “Eu sou ateia!”

Imagem de Zeus, antigo deus grego
“A sério?” respondi. “Isso é interessante. Só tens sete anos não acreditas mesmo em Deus?”

“Bem, eu acredito em Odin. E no Pai Natal!”, respondeu Crystal enquanto andava pela sala.

Percebi que Crystal - cuja mãe era uma veterana da guerra do Iraque e que perdera a fé em combate - nunca tinha entrado numa igreja, mesquita ou templo. Explicou-me que nunca tinha visto uma imagem de Deus; por isso, perguntava, como poderia acreditar em Deus? Mas já tinha visto imagens de Odin e do Pai Natal, que a levavam a acreditar que eles verdadeiramente existiam.

Este é, de forma simples, o eterno enigma humano: como podemos imaginar um Criador que não podemos ver, tocar ou perceber? Como podemos conhecer e amar um Deus que não compreendemos?

Este paradoxo tem estado sempre connosco.

Nas sociedades antigas, e também em algumas modernas, as pessoas tentaram frequentemente representar Deus de forma humana ou simbólica. Nos mitos e nas lendas, nas tradições e nas narrativas orais, representámos Deus como um temível super-herói que podia lançar raios e coriscos e criar desastres naturais, tais como Odin ou Zeus. E também o retratámos em pinturas com uma auréola, como mulher com rosto de tigre, como um Buda feliz sentado na posição de lótus ou como uma estátua de Shiva.

As escrituras Bahá’ís descrevem a realidade de Deus como “santificada acima da imaginação” e como “essência incognoscível”: 
Todos os povos criaram um deus no mundo do pensamento, e é esse modelo na sua imaginação que eles adoram. A verdade é que a forma imaginada é finita e a mente humana é finita. É certo que o infinito é maior que o finito, pois a imaginação é ocasional enquanto a mente é essencial. Certamente que o essencial é maior que o ocasional.

Assim, considerai: todas as seitas e povos adoram o seu próprio pensamento; criam um deus nas suas mentes e reconhecem-no como criador de todas as coisas. Mas essa forma é uma superstição - assim as pessoas adoram e veneram o imaginário.

A Essência da Entidade Divina e o Invisível dos Invisíveis está santificada acima da imaginação e para lá da compreensão. A consciência não a alcança. Na capacidade de compreensão de uma realidade produzida não se pode conter essa Realidade Antiga. É um mundo diferente; dali não existe informação; é impossível chegar lá. Alcançá-la é proibido e inacessível. Apenas sabemos isto: existe e a sua existência é certa e está provada - mas a sua condição é desconhecida…

Assim, com os poderes e sentidos existentes no homem, a compreensão da Realidade Invisível, que é pura e está santificada acima do alcance das dúvidas, é impossível. (‘Abdu’l-Baha, Baha’i World Faith, p. 381)
Como consequência destes ensinamentos, os Bahá’ís não tentam representar Deus de nenhuma forma.

Em vez disso, as Escrituras Bahá’ís, recomendam um caminho para imaginar e compreender a Realidade Invisível, esse Ser Supremo místico e infinito:
O mistério da Divindade está santificado e purificado acima da compreensão dos seres, pois tudo o que vem à imaginação é aquilo que o homem compreende, e o poder da compreensão do homem não abarca a Realidade da Essência Divina. Tudo o que o homem pode compreender são os atributos da Divindade, cuja radiância aparece e está visível nos mundos e nas almas. ('Abdu’l-Bahá, Baha’i World Faith, p. 322)
‘Abdu’l-Bahá diz que não podemos compreender Deus, mas que podemos compreender “os atributos da Divindade. O que significa isto?

No próximo artigo vamos explorar esses atributos divinos e examinar como estes têm sido transmitidos à humanidade..

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Texto original: How to Imagine God (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

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