sábado, 20 de dezembro de 2014

Uma estudante Bahá’í fala com três deputados iranianos

O texto seguinte foi escrito por uma jornalista iraniana residente no Irão, que escreve sob pseudónimo para proteger a sua identidade.

Por Raha Bushehri - cidadã e jornalista

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Sou estudante do terceiro ano do ensino secundário. As minhas notas são excelentes. Os meus professores esperam que nos exames de admissão à universidade no próximo ano o meu nome esteja entre os primeiros. Mas eu sei que mesmo que eu esteja entre os primeiros, não haverá lugar para mim nas universidades iranianas, tal como não houve para a minha irmã que era estudante de arquitectura na Universidade de Beheshti e foi expulsa no segundo ano.

Na segunda-feira, 15 de Dezembro, o académico Ayatollah Moussavi Bojnourdi defendeu claramente a negação dos direitos civis elementares aos Bahá’ís. "Nós nunca dissemos que os Bahá’ís têm direito à educação", declarou à agência de notícias FARS. "Eles não têm quaisquer direitos civis. Cristãos, judeus e zoroastrianos têm direitos civis e humanos, porque estas são religiões abraâmicas."

Então tive uma ideia. Perguntei-me, quando eles próprios nos dizem que não temos direitos, junto de quem podemos nós protestar? Nós não temos um representante no parlamento a quem possamos recorrer. Decidi telefonar para alguns membros da Comissão Parlamentar de Educação e pedir-lhes, como estudante Bahá’í, que analisassem os meus direitos como cidadã iraniana. Todos os três representam Teerão, têm doutoramentos e ensinam em universidades ou centros de investigação.


Zohreh Tabib-Zadeh Nuri: "Converte-te ao Islão e o teu problema será resolvido."

Zohreh Tabib-Zadeh Nuri é dentista formada na Universidade Shahid Beheshti e membro do conselho científico. Ela foi um dos deputados que questionaram o ex-ministro da Ciência Reza Faraji Dana sobre o regresso de estudantes Bahá’ís às universidades.

Olá Sra. Tabib-Zadeh. Tenho um problema e gostaria de ter uma pequena conversa consigo.

Por favor, seja breve porque eu tenho que ir para uma reunião agora mesmo.

Eu sou estudante iraniana e todos os meus professores esperam que eu tenha as melhores notas nos exames de admissão no próximo ano. Mas não há nenhuma garantia de que eu possa ir para a universidade.

Porquê?

Porque eu sou Bahá’í.

Como é que obteve o meu número?

O seu número foi-me dado por uma amiga que é jornalista. Disseram-me que você faria tudo o que pudesse.

Olha, minha filha. Vocês, Bahá’ís são hostis ao Islão e não podemos permitir os inimigos do Islão em universidades islâmicas. Vocês entram nas universidades e começam a tentar converter os outros. Hoje em dia, devido a uma falha da antiga equipa de gestão do Ministério da Ciência vários estudantes Bahá'ís entraram nas universidades e já foram distribuídos folhetos promocionais Bahá'ís. É claro que os muçulmanos não se deixam enganar por esses folhetos, e os Bahá’ís também sabem disso, e só fazem essas coisas devido à vossa animosidade para com o Islão.

Quer dizer que você não pode fazer nada?

Olha, minha querida. Vai, estuda o Alcorão, aprende mais sobre o Islão e tentar decidir por ti própria. Prometo-te que se o estudares cuidadosamente e decidires com sabedoria, vais escolher a religião do Islão e os teus problemas desaparecem. Se precisas de materiais para estudar, podes entrar em contacto com o meu escritório. Toma nota do número do meu escritório e telefona-me. Que Deus esteja contigo. Agora tenho que ir para a minha reunião.


Mehdi Koochek-Zadeh: "Vai-te embora do Irão".

Mehdi Koochek-Zadeh tem um doutoramento em engenharia pela Universidade Modarres e é membro do seu conselho científico. É um deputado da linha-dura e membro da Frente de Resistência. Após duas horas a telefonar para o seu escritório e com ajuda da sua secretária, consegui finalmente autorização para falar com ele, porque insisti que tinha que explicar o meu problema diretamente ao deputado.

Olá, Sr. Koochek-Zadeh. Eu sou boa aluna e os meus professores esperam que nos exames de admissão do próximo ano eu tenha das melhores notas.

Bom, oxalá. O que posso fazer por si?

Eu não posso entrar na faculdade porque sou Bahá’í.

[Risos] Você não precisa das nossas universidades. Vocês têm a vossa própria universidade, organização e sei lá que mais. Vá para a vossa própria universidade secreta e não nos faça perder tempo.

Sr. Koochek-Zadeh, qualquer que seja a minha religião, eu sou iraniana e você representa todo o povo iraniano. Essa é a sua única resposta?

Você pode fazer outra coisa. Você pode ir para os Estados Unidos ou para Israel e peça-lhes ajuda. Diga-lhes que é um deles poderá facilmente entrar na faculdade e obter um diploma. Porque é que você quer ficar aqui e criar problemas para si e para nós?

Mas eu quero viver no meu país.

Então obedeça à lei. [o seu telemóvel toca] Eu não tenho mais tempo para esta conversa.


Mohammad Nabavian: "As universidades não são para os Bahá'ís."

Mohammad Nabavian é clérigo e tem um doutoramento em filosofia comparada. É professor assistente no Centro de Educação e Investigação Imam Khomeini. Foi estudante da linha-dura do Ayatollah Mesbah Yazdi e falou muitas vezes sobre como tornar as universidades mais islâmicas.

Mr. Nabavian, estou impedida de entrar na universidade. Os meus amigos sugeriram que eu entrasse em contacto consigo e lhe falasse sobre o meu problema.

Porque é que foi impedida? Eles expulsaram-na da universidade? Você tinha algum problema moral?

Não, eu não fui para a universidade. Mas eu acredito que estou impedida de ingressar no ensino superior, porque sou Bahá’í. Isso é verdade?

Sim, é verdade; as universidades não são para os Bahá’ís. As universidades em países islâmicos devem ser islâmicas.

Mas há alunos que têm uma religião diferente. Certo?

Religiões, sim. Mas o Bahaismo não é uma religião. É uma seita. Uma seita inventada.

Mas qualquer que seja a minha religião, eu sou iraniana e você representa todos os iranianos.

Não. Eu não sou seu representante. Eu represento o povo muçulmano do Irão.


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Texto Original em inglês: A Baha’i Student Interviews Three Members of Iranian Parliament (IranWire)

1 comentário:

Daniel Santos Moreira disse...

"Eles não têm quaisquer direitos civis. Cristãos, judeus e zoroastrianos têm direitos civis e humanos, porque estas são religiões abraâmicas."

Zoroastrianismo religião abraâmica? Por que isso?