quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Carta de uma estudante Baha’i expulsa da Universidade

Dorsa Gholizadeh, estudante de Arquitectura na Universidade Roozbehan em Sari, foi convocada para o Gabinete de Comunicação do Ministério da Informação e posteriormente expulsa durante os exames finais do semestre de Primavera. Dorsa escreveu uma carta para descrever os acontecimentos que levaram a esta violação do seu direito à educação. Essa carta foi publicada no site da agência HRANA (Human Rights Activist News Agency) e traduzido para inglês pelo IranPressWatch.

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"Você sabia que os estudantes Bahá'ís são expulsos! Você sabia que tinha uma possibilidade de ser expulsa! No entanto, você insistiu em continuar a sua educação. Isso significa que você não tinha outro objectivo senão ensinar o Bahaismo". Estas foram as palavras que me dirigiu o interrogador do Gabinete de Comunicação do Ministério da Informação .

Com este tipo de lógica (pensei para mim própria), se algum dia eu quiser abrir uma loja, não vou poder fazê-lo porque eles podem dizer-me: "Você sabia que em Sari há mais de 25 lojas pertencentes a Bahá'ís que foram fechadas e seladas. Você sabia que havia uma possibilidade da sua loja ser fechada e selada porque você é Baha'i. No entanto, você insistiu em abrir um negócio; isso significa que você não tinha outro objectivo senão ensinar o Bahaismo na sua loja."

Com este tipo de mentalidade, serei acusada de ensinar a minha Fé e proibida de exercer qualquer actividade independente. Agora compreendo porque o interrogador me disse: "Você intitula-se cidadã? Você devia agradecer a Deus por nós lhe darmos o direito de estar viva!"

Foi no dia 9 de Junho de 2015. Estava no auge dos exames finais. Tinha acabado de regressar do exame de "Materiais de Construção", quando recebi um telefonema do Ministério da Informação e fui chamada ao Gabinete de Comunicação para responder a algumas perguntas. Tinha exames de "Visão Islâmica" e "Física" marcados para o dia seguinte. Não tinha certeza se deveria concentrar-me em "Física", "Visão Islâmica" ou em ser Baha'i; na verdade, as perguntas que me foram feitas estavam relacionadas com este último. Eu pensei que o dia seguinte poderia ser a última vez que iria fazer os exames na universidade; tentei concentrar-me nos meus próximos exames. No dia seguinte, o telefone de casa tocou quando eu estava a sair para a universidade. A identificação de chamada mostrou o número 1, e isso significava que a chamada era do Ministério da Informação. A minha mãe atendeu o telefone. Eles disseram: "Por que você não trouxe hoje a sua filha? Você quer que ela seja expulsa da escola? "

Fui para ao Gabinete de Comunicação com a minha mãe, confiante de que ia ser expulsa. Duas pessoas entraram na sala e começaram um interrogatório que durou cerca de três horas e meia.

Como mencionei, fui interrogada por ter divulgado as de crenças na universidade, algo que eu nunca fizera no campus - nem me foi apresentada qualquer prova credível em relação a essa acusação. Perguntei: "A quem foi que eu ensinei [a Fé Bahá’í]? E quando, onde e como foi que eu fiz isso?" A resposta a todas estas perguntas foi: "Você não tem direito a fazer perguntas - você está aqui apenas para responder às nossas perguntas". Percebi então que além de não ter direito a receber educação superior, também não tinha o direito de fazer perguntas, nem de compreender as acusações, nem de me defender. É claro que percebi que tenho apenas um direito: responder às perguntas do interrogador! Quando perceberam a minha paixão pelos estudos, apresentaram-me três sugestões. Nesse momento, não tinha esperança de que essas sugestões pudessem fornecer qualquer solução para continuar os meus estudos. No entanto, eu tinha uma ideia na minha mente, a ideia de que nenhum ser humano pode ser impedido de estudar devido às suas crenças. As sugestões foram as seguintes:

  1. Manter minhas crenças e ser impedida de estudar. 
  2. Deixar o Irão. 
  3. Negar as minhas crenças.

O interrogador fez esta última proposta da seguinte forma: "Veja, Sra. Gholizadeh, se você está tão interessada em estudar, podemos levá-la ao Imam. Você recita o versículo: «Dou testemunho que não há outra divindade senão Deus; dou testemunho que Maomé é o mensageiro de Deus». O seu nome será depois publicado nos jornais, e então você poderá viver da forma que desejar e continuar a sua educação. É isso, e nada mais lhe vai acontecer."

Respondi: "Sabe... a crença de uma pessoa está na sua cabeça, na sua mente, no seu coração. Você não lhe pode tirar a sua crença."

Ele disse: "Então, fique com a sua crença e será impedida de estudar."

A única resposta que tive foi: "Eu nunca vou me arrepender de não continuar a minha educação se isso é devido à minha crença."

Universidade Roozbehan, em Sari
Enquanto ia para a universidade para os meus dois últimos exames, estava preocupada com o que estava prestes a acontecer; a minha preocupação poderia ser facilmente vista no meu rosto. O que poderia dizer aos meus colegas quando eles me perguntassem em que estava a pensar? Deveria esconder dos meus amigos tudo o que tinha acontecido? Eu não tinha feito nada de errado; os meus interrogadores consideravam as suas acções legais. Não queria que surgissem mal-entendidos ou ambiguidades com os meus amigos depois de ser expulsa; mas não poderia voltar a vê-los. O que poderia dizer-lhes a não ser que tinha sido contactada pelo Ministério da Informação e podia ser expulsa?

Continuo a recordar várias manifestações de afecto que me foram repetidas no meu último dia por aqueles que se tinham tornado meus amigos ao longo dos últimos meses: "Na vida, é importante ser um bom ser humano. Lamento que pessoas com as minhas crenças te tenham impedido de continuar a estudar."

Apesar dos meus sentimentos agridoces, a minha expulsão ensinou-me uma grande lição. Percebi que um grande grupo de amigos e colegas de turma me amava apesar das minhas crenças diferentes, da mesma forma que eu os amava tal como eles eram. Mesmo que exista um número limitado de pessoas que não reconhecem nossa humanidade comum, que tentam considerar a mim e ao meu sistema de crenças como “não-oficiais”, que não consideram uma cidadã deste país e acreditam que eu deveria agradecer-lhes porque eles permitem-me apenas estar viva, eu sei que eu tenho que agradecer a Deus que me deu vida e me deu a oportunidade de desfrutar de liberdade de preconceitos, e passar a minha vida a contribuir para o desenvolvimento do meu país.

E a imagem que retenho dos seus rostos é como as crianças nos meus desenhos animados de infância cujas lágrimas eram como...

No último dia, eu fui à universidade para tratar dos meus assuntos finais e encerrar a minha conta. Disseram para preencher um formulário, o que fiz porque estava muito perturbada. No entanto eu percebi mais tarde que o formulário declarava que eu tinha decidido abandonar a escola, embora eu nunca tivesse a intenção de abandonar. Os funcionários sugeriram que o preenchimento deste formulário podia ajudar-me a reaver parte da propina que eu tinha pago. No entanto, o que eu estava a perder ao assinar esse formulário - o meu direito à educação - era muito mais valioso para mim do que o dinheiro.

Disse: "Mas eu não quero preencher este formulário". Responderam: "Você tem que preenchê-lo."

Inicialmente, eu fiquei em choque. E foi em stress que peguei nas minhas coisas e fui para casa.

Senti as pernas fracas. E pensava para mim: porque é que a nossa sociedade está feita de maneira que os seres humanos são impedidos de aceder ao conhecimento científico devido às suas crenças? Sentei-me no chão e chorei espontaneamente.

Sabias que legalmente não tens direito a frequentar a universidade?

Ele repetiu esta pergunta várias vezes (eu nunca vi uma lei que estipulasse que os Bahá'ís não têm o direito à educação). Nunca ouvi nada específico sobre os Baha'is não terem o direito a frequentar a universidade, e sabia que legalmente todos os cidadãos iranianos têm o direito ao ensino superior. No entanto, cada vez que invoquei isso, eles faziam-me a mesma pergunta mais enfaticamente.

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FONTE: Letter from an Expelled Baha’i Student (IranPressWatch.org)

1 comentário:

Eduardo Santos disse...

Como alguém pode dizer e em nome de quê que tens sorte que nós te deixamos viver?
Quem tem direito de dar ou permitir a vida?
O pensamento pode ser contido nas almas que nessa visão são uma espécie de copos
Se o pensamento de uma pessoa é adequado então ela pode viver e estudar ter mais conhecimento, se não que vá viver para outro país
O conhecimento de um bahá'í não é adequado para estar contido num recipiente chamado irão