sábado, 8 de outubro de 2016

O Islão e o Renascimento Científico

Por Maya Bohnhoff.


Do piedoso muçulmano... esperava-se que evitasse... as ciências [racionais] com muito cuidado, pois eram consideradas perigosas para a sua fé... (Ignaz Goldziher, 1916)

... a posse de toda esta "iluminação" [de pensamento grego] não impulsionou muito progresso intelectual no Islão, muito menos resultou numa ciência Islâmica. (Rodney Stark, 2003)

Infelizmente, Islão voltou-se contra a ciência no século XII. (Steve Weinberg, 2007)
Hoje, muitas pessoas tendem a pensar em Bagdade como um lugar tenebroso com uma população lutando e tremendo de medo de atentados terroristas. No entanto, no século X Bagdade era a capital do Império Abássida com uma população superior a um milhão de pessoas, um centro cultural onde se desenvolviam avidamente actividades científicas e filosóficas.

Uma das actividades "perigosas" exercidas por muçulmanos piedosos foi um grandioso projecto de tradução de textos sânscritos, persas e gregos para o árabe. No século XII - época em que, segundo Weinberg, o Islão se tinha voltado contra a ciência - estes textos árabes foram traduzidos para latim para consumo na Europa Cristã. Os tradutores latinos trabalhavam com textos árabes, em vez dos textos gregos, porque os sábios Abássidas tinham adicionado anotações e comentários desafiadores, completando e corrigindo alguns dos textos gregos originais.

Apesar de este processo estar bem documentado, ainda persiste o mito de que os sábios língua árabe não deram qualquer contributo para o trabalho que traduziram e foram apenas papagaios sem criatividade. Assim é irónica, a acusação de Goldziher contra o Islão de que este era inerentemente hostil a estas escolas do conhecimento. Se isso for verdade, como podiam os "muçulmanos piedosos" permitir sequer a tradução destes textos, quanto mais o seu estudo, a sua divulgação e a aplicação do conhecimento que eles continham? O acto de tradução só por si (apoiado monetariamente por Muçulmanos de todos os estratos sociais) é suficiente para acabar com o mito.

As contribuições árabes para o pensamento científico e matemático podem ser vistas na tradução de obras como Arithmética de Diofanto de Alexandria até à Arte Árabe da Álgebra (a palavra "álgebra" é uma latinização da frase árabe al-jabr, i.e. "a restauração"). Neste trabalho, Qusta ibn Luqa (820-912) define as operações matemáticas dos gregos em termos de uma nova disciplina, que tinha sido desenvolvida pelo matemático Al-Khwarizmi - de cujo nome deriva a palavra algoritmo.

Texto árabe sobre Álgebra
A alegação de que esses sábios muçulmanos nada acrescentaram de novo ou original é facilmente desacreditada: quando o texto árabe foi traduzido de novo para o grego, isso não resultou no texto grego original.

Na verdade, os sábios muçulmanos dominaram o campo da ciência (especialmente, a matemática e a astronomia) entre 800 e 1300 EC. Eles não viam a sua ciência como estando em guerra com a sua fé. O campo da astronomia era importante por razões de fé e razão (ou seja, o cálculo dos momentos de oração e o estudo da força e perfeição de Deus, bem como as causas naturais de fenómenos cósmicos). O primeiro observatório construído por astrónomos muçulmanos foi construído em Bagdade, em 828 EC, enquanto que no séc. XIV, Ibn al-Shatir (cronometrista numa mesquita de Damasco) propôs o modelo lunar usado por Copérnico, no seu trabalho de 1534, De Revolutionibus.

As universidades europeias que referi anteriormente usaram vários textos árabes que tinham sido traduzidos para o latim. A medicina não seria o que é hoje sem o trabalho enciclopédico de Ibn-Sina (Avicena) - O Cânone da Medicina. Este texto foi usado durante séculos nas faculdades de medicina europeias. Outro exemplo no campo da medicina é a descoberta da circulação sanguínea pulmonar por um médico e teólogo sírio, Ibn al-Nafis. No campo da física, podemos citar o trabalho de al-Haytham (Alhazen) que uniu matemática e física e que, de acordo com o historiador de ciência David Lindberg -autor de Teorias de visão de al-Kindi de Kepler - era "a mais figura importante na história da óptica desde a antiguidade até ao século XVII".

Obviamente, a situação não é tão linear quanto Steven Weinberg e companhia sugerem. Assim, podemos questionar, o que deu origem à ideia de que o Islão não contribuiu em nada para a ciência (ou pelo menos nada de original) e, como Weinberg propõe, "virou-se contra a ciência" desde o século XII em diante?

A resposta de Weinberg é que o Islão foi influenciado por um filósofo chamado Abu Hamid al-Ghazali que argumentou contra o conceito de leis estáticas da natureza argumentando que a existência dessas leis amarraria as mãos de Deus. Tal como Ignaz Goldziher (citado anteriormente), Weinberg afirmou que as filosofias de al-Ghazali levaram a ciência islâmica a um impasse. Quão correcta é esta afirmação?

George Saliba - professor de Ciência Árabe e Islâmica na Universidade de Columbia – aponta alguns problemas nesta avaliação, principalmente, o facto do místico sufi, supostamente não-cientista, não só ter apoiado o estudo e uso da lógica e da matemática (algo que até Goldziher admite), mas também ter lamentado que os sábios muçulmanos não estivessem a fazer o máximo que podiam nas disciplinas da anatomia e da medicina. Por esse motivo, ele próprio escreveu sobre esses assuntos:
Se olharmos apenas para os documentos científicos sobreviventes, podemos perceber claramente uma actividade muito florescente em quase todas as disciplinas científicas nos séculos seguintes a Ghazali. (George Saliba, Islamic Science and the Making of the European Renaissance, p. 21)
No fundo, qual a plausibilidade de um único muçulmano erudito - não pertencente à principal corrente da teologia Islâmica - poder influenciar o pensamento, as atitudes e as práticas de uma parcela significativa do mundo muçulmano? O Islão, ao contrário da Igreja Católica ou da Fé Bahá'í, não tem nenhuma autoridade central, muito menos uma que defina uma agenda para todo o corpo de crentes. Em vez disso, várias escolas de pensamento têm evoluído dentro dos dois ramos principais. Os sufis são uma das tradições mais místicas e, como tradição, são reconhecidos como tendo inspirado uma Idade de Ouro na sabedoria Islâmica que se iniciou - ironicamente - por volta de 1300.

A ponderada opinião do Dr. Haq - partilhado por um número crescente de estudiosos – é que:
... durante séculos, enquanto a ciência no Ocidente Latino ficava no marasmo, nenhuma cultura no mundo proporcionou um lar mais hospitaleiro para ciência do que o Islão. E nenhum grupo de muçulmanos cultivou a ciência mais do que os religiosos. (Syed Haq, Galileo Goes to Jail, p. 41)
Na ficção, nós chamamos isso de "trabalhar contra o modelo." O clérigo académico que ama a ciência não é uma personagem que alguns de nós esperam encontrar nas páginas da história; no entanto, à medida que aprendemos mais sobre as interacções entre a fé e a ciência durante e depois da Idade Média, somos forçados a vê-lo como representativo em vez de raro. Como os ensinamentos Bahá’ís salientam, essa combinação equilibrada de ciência e religião concede-nos a capacidade para investigar verdadeiramente a realidade:
Deus deu ao homem a visão da investigação, através da qual ele pode ver e reconhecer a verdade. Ele dotou o homem com ouvidos que possa ouvir a mensagem da realidade e conferiu-lhe o dom da razão pela qual ele pode descobrir as coisas por si próprio. Este é o seu dom e equipamento para a investigação da realidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 293)
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Texto original: Islam and Science Redux (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

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