sábado, 25 de abril de 2026

Como encontrar segurança num mundo em perigosa desordem?

Por Kurt Asplund.


Se viu as notícias de hoje, sem dúvida que já conhece os extraordinários perigos da nossa época, desde guerras e rumores de guerras ao aprofundamento das divisões e ao declínio do civismo em todos os níveis da sociedade.

Enfrentamos os graves impactos das alterações climáticas e da degradação ambiental que ameaçam o nosso abastecimento alimentar e fornecimento de água, a erosão da confiança em instituições anteriormente valorizadas e a alarmante tolerância a "factos alternativos" e narrativas falsas, para citar apenas alguns exemplos. Sentimos um nó no estômago só de pensar nas inúmeras e diversas ameaças que todos enfrentamos neste mundo conturbado, vergonhosamente desigual e desordenado.

É natural que compartimentalizemos ou nos agarremos a uma negação reconfortante para conseguirmos passar o dia, mas se ainda está a ler este texto, suspeito que concorda que vivemos em tempos assustadores, onde as coisas parecem muitas vezes estar prestes a descontrolar-se.

De alguma forma, precisamos de encontrar um terreno firme, especialmente quando tempestades turbulentas se agitam à nossa volta e dentro de nós.

Mas como nos podemos sentir seguros nestes tempos desafiadores, e o que têm os ensinamentos Bahá’ís a dizer sobre a nossa segurança? Uma pesquisa na internet revelará uma infinidade de estratégias para lidar com a segurança física, mas gostaria que refletíssemos sobre a resposta fundamental a estas questões cruciais.

Segundo o meu entendimento dos ensinamentos Bahá'ís, é no mundo espiritual que devemos encontrar o nosso lar há muito perdido, como é mencionado nesta oração de Bahá'u'lláh: "Vês, ó meu Senhor, este estranho apressando-se para a sua morada sublime sob o pálio da Tua majestade e no recinto da Tua misericórdia..."

Se isto parece um pouco invulgar para uma estratégia de segurança, espere e continue a ler. Pense da seguinte forma: imagine que está perdido algures numa terra estranha, onde os perigos espreitam de todos os lados. Para onde quer que se vire, há novas ameaças à sua segurança. Só quer voltar para casa!

Acontece que a sua casa está mais perto do que imagina.

Antes de se rir e perguntar: «Onde estão os meus chinelos?», talvez lhe interesse saber que a grande maioria da população mundial acredita que existe uma força vital dentro de nós que sobrevive à morte física — que a nossa consciência e identidade continuam a existir depois de os nossos corpos se transformarem em pó. Pessoalmente, tenho tido experiências que confirmam esta crença. Vou descrever apenas uma.

A mãe da minha mulher Leslie, Ethel, estava no seu leito de morte aos 100 anos, prostrada e quase em coma, enquanto Leslie lhe segurava a mão. Eu estava sentado em silêncio num canto do quarto com o meu portátil virado para o lado, onde ninguém podia ver o que eu escrevia. Para passar o tempo, escrevia sobre personagens fictícias: um médico britânico na Pérsia na década de 1850 e o seu amor, Layli, uma criada persa.

No instante em que escrevi as palavras "Henry e Layli estão a anos-luz um do outro", Ethel, súbita e inesperadamente, levantou-se da cama e disse: "Não compreendo!"

Leslie perguntou: "O que é que não compreendes, mãe?"

Ethel respondeu imediatamente: "Porque estão tão afastados um do outro!"

"Quem está tão afastado, mãe?", perguntou Leslie.

Mas a mãe de Leslie não respondeu; deitou-se novamente na cama. Ela estava em transição gradual e, evidentemente, a sua alma estava consciente do que eu estava a pensar e a escrever. Ela faleceu em paz na manhã seguinte.

Se acredita numa vida após a morte – como os Bahá’ís – já se perguntou o que a sua alma ou espírito está a fazer neste mundo material enquanto trabalha, se diverte, se preocupa, se aflige e interage com os outros? Como podemos saber se a nossa alma existe realmente? Não podemos vê-la nem tocar-lhe. Será que ela precisa de alimento como os nossos corpos precisam de alimento, água e ar? Será que possui poderes aos quais podemos aceder?

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que precisamos de alimentar as nossas almas diariamente e recorrer aos recursos espirituais ao nosso alcance. De facto, os ensinamentos Bahá’ís sugerem que esta necessidade é urgente, que não nos podemos dar ao luxo de esperar, que este é o momento de voltarmos a nossa atenção para a dimensão espiritual do nosso ser.

Para aprofundar estas questões, convido-vos a conhecer Bahá’u’lláh (1817-1892), o profeta fundador da Fé Bahá’í, um nobre persa que sacrificou o Seu conforto e segurança pela promoção da vida espiritual da humanidade. Quando Bahá’u’lláh revelou os ensinamentos Bahá’ís, estabeleceu um plano global para transformar a Terra num lar saudável, seguro e pacífico para a humanidade. Entre os seus 100 volumes de Escrituras, escreveu:

Sabe que a alma do homem está enaltecida acima e é independente de todas as enfermidades do corpo ou da alma. O facto de uma pessoa doente apresentar sinais de fraqueza deve-se aos obstáculos que se interpõem entre a sua alma e o seu corpo, pois a própria alma permanece inalterada por quaisquer enfermidades corporais. Considera a luz da lâmpada. Embora um objeto externo possa interferir com o seu brilho, a própria luz continua a brilhar com um poder inalterado. Da mesma forma, toda a doença que aflige o corpo do homem é um obstáculo que impede a alma de manifestar a sua força e poder inerentes. Quando abandona o corpo, porém, evidenciará um tal ascendente e revelará uma tamanha influência que nenhuma força na terra pode igualar. Toda a alma pura, refinada e santificada estará dotada com um enorme poder e regozijar-se-á com uma imensa alegria. (Gleanings, LXXX)

As palavras de Bahá’u’lláh servem de guia não só para a comunidade Bahá’í, mas para o mundo em geral:

Para qualquer lugar para onde sejamos banidos, por maior que seja a tribulação que possamos soframos, aqueles que são o povo de Deus devem, com firme determinação e perfeita confiança, manter os olhos voltados para a Aurora da Glória e ocupar-se com tudo o que possa contribuir para o aperfeiçoamento do mundo e a educação dos seus povos. (Gleanings, CXXVI)

Bahá'u'lláh garantiu-nos que "O bem-estar da humanidade, a sua paz e segurança, são inatingíveis a menos que a sua unidade seja firmemente estabelecida." (Gleanings, CXXXI)

Então, como encontramos o nosso lar espiritual no meio de toda a turbulência e dos perigos do dia a dia?

A revelação de Bahá’u’lláh ocorreu-Lhe primeiramente numa masmorra em Teerão, na Pérsia – chamada Poço Negro – uma prisão subterrânea tão imunda que os visitantes desmaiavam com o fedor. Sobreviveu quatro meses no inverno de 1852-53 na lama e na sujidade, carregando o peso de pesadas correntes.

Contudo, falando espiritualmente, Ele estava em casa. Incrivelmente, ensinou os Seus companheiros de prisão a cantar em louvor ao seu Criador!

Espero lembrar-me disto em momentos de perigo e quando finalmente for chamado para o outro mundo.

Provavelmente já sabe que Bahá’u’lláh não foi preso por ter cometido qualquer crime, mas sim por promover, sem medo, em terras muçulmanas, novos ensinamentos espirituais como a igualdade entre homens e mulheres, a eliminação de preconceitos de todos os tipos, a erradicação da superstição e do fanatismo, a adopção da ciência e da razão e a necessidade de considerar os povos do mundo como uma única família humana.

Desde a Sua prisão inicial até à Sua morte em 1892 na Terra Santa, Bahá’u’lláh nunca esteve a salvo da ameaça de danos físicos, suportando torturas e indignidades durante a maior parte da Sua vida, tudo para lançar as sementes de uma nova era na história da humanidade — uma era de unidade, justiça e paz.

O Seu chamamento à humanidade incluía estas palavras:

Os dias da vossa vida passam como um sopro de vento, e toda a tua pompa e glória serão recolhidas, tal como foram a pompa e a glória daqueles que vos precederam… Felizes os dias que foram consagrados à memória de Deus. (Gleanings, LXXI)

Podemos ler as advertências espirituais de Bahá’u’lláh ao procurarmos indicações sobre como devemos investir o nosso tempo, energia e recursos nestes tempos de mudanças e convulsões radicais.

A base sólida que todos procuramos pode ser encontrada na certeza de que somos, fundamentalmente, seres espirituais sob os cuidados de um Criador Todo-Poderoso. Por sermos seres espirituais, o melhor alimento para a alma é a palavra de Deus revelada pelos Seus mensageiros ao longo dos milénios, a mais recente trazida pela voz e pena de Bahá’u’lláh. Estes ensinamentos proporcionam o elixir que pode acalmar os nossos medos enquanto trabalhamos diligentemente nos imensos desafios de hoje, fortalecendo-nos em vez de nos sentirmos impotentes. Cada um de nós sentir-se-á melhor se fizer parte da solução, e não do problema.

Não podemos garantir que estaremos sempre seguros materialmente neste mundo, mas espiritualmente, o lar está apenas a um passo de distância.

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Texto original: How Do We Feel Safe in a Dangerously Disordered World? (www.bahaiteachings.org)

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Kurt Asplund é um psicoterapeuta, residente no estado de Washington (EUA). É casado, tem dois filhos adultos e um neto. O seu livro infantil, Quem é Deus? (agora disponível na Amazon com ilustrações de Kathryn Adebayo), oferece uma visão doce e reflexiva da vida espiritual numa perspetiva científica. Em 1964, aos 11 anos, Kurt conheceu a Fé Bahá’í através dos seus pais e começou imediatamente a partilhá-la com os seus amigos. Kurt é também cantor e compositor, tendo criado a peça coral Não à Tristeza, baseada nas Escrituras de Bahá’u’lláh.

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