Por Kurt Asplund.
Se viu as notícias de hoje, sem dúvida que já conhece os extraordinários perigos da nossa época, desde guerras e rumores de guerras ao aprofundamento das divisões e ao declínio do civismo em todos os níveis da sociedade.
Enfrentamos os graves impactos das alterações climáticas e da degradação ambiental que ameaçam o nosso abastecimento alimentar e fornecimento de água, a erosão da confiança em instituições anteriormente valorizadas e a alarmante tolerância a "factos alternativos" e narrativas falsas, para citar apenas alguns exemplos. Sentimos um nó no estômago só de pensar nas inúmeras e diversas ameaças que todos enfrentamos neste mundo conturbado, vergonhosamente desigual e desordenado.
É natural que compartimentalizemos ou nos agarremos a uma negação reconfortante para conseguirmos passar o dia, mas se ainda está a ler este texto, suspeito que concorda que vivemos em tempos assustadores, onde as coisas parecem muitas vezes estar prestes a descontrolar-se.
De alguma forma, precisamos de encontrar um terreno firme, especialmente quando tempestades turbulentas se agitam à nossa volta e dentro de nós.
Mas como nos podemos sentir seguros nestes tempos desafiadores, e o que têm os ensinamentos Bahá’ís a dizer sobre a nossa segurança? Uma pesquisa na internet revelará uma infinidade de estratégias para lidar com a segurança física, mas gostaria que refletíssemos sobre a resposta fundamental a estas questões cruciais.
Segundo o meu entendimento dos ensinamentos Bahá'ís, é no mundo espiritual que devemos encontrar o nosso lar há muito perdido, como é mencionado nesta oração de Bahá'u'lláh: "Vês, ó meu Senhor, este estranho apressando-se para a sua morada sublime sob o pálio da Tua majestade e no recinto da Tua misericórdia..."
Se isto parece um pouco invulgar para uma estratégia de segurança, espere e continue a ler. Pense da seguinte forma: imagine que está perdido algures numa terra estranha, onde os perigos espreitam de todos os lados. Para onde quer que se vire, há novas ameaças à sua segurança. Só quer voltar para casa!
Acontece que a sua casa está mais perto do que imagina.
Antes de se rir e perguntar: «Onde estão os meus chinelos?», talvez lhe interesse saber que a grande maioria da população mundial acredita que existe uma força vital dentro de nós que sobrevive à morte física — que a nossa consciência e identidade continuam a existir depois de os nossos corpos se transformarem em pó. Pessoalmente, tenho tido experiências que confirmam esta crença. Vou descrever apenas uma.
A mãe da minha mulher Leslie, Ethel, estava no seu leito de morte aos 100 anos, prostrada e quase em coma, enquanto Leslie lhe segurava a mão. Eu estava sentado em silêncio num canto do quarto com o meu portátil virado para o lado, onde ninguém podia ver o que eu escrevia. Para passar o tempo, escrevia sobre personagens fictícias: um médico britânico na Pérsia na década de 1850 e o seu amor, Layli, uma criada persa.
No instante em que escrevi as palavras "Henry e Layli estão a anos-luz um do outro", Ethel, súbita e inesperadamente, levantou-se da cama e disse: "Não compreendo!"
Leslie perguntou: "O que é que não compreendes, mãe?"
Ethel respondeu imediatamente: "Porque estão tão afastados um do outro!"
"Quem está tão afastado, mãe?", perguntou Leslie.
Mas a mãe de Leslie não respondeu; deitou-se novamente na cama. Ela estava em transição gradual e, evidentemente, a sua alma estava consciente do que eu estava a pensar e a escrever. Ela faleceu em paz na manhã seguinte.
Se acredita numa vida após a morte – como os Bahá’ís – já se perguntou o que a sua alma ou espírito está a fazer neste mundo material enquanto trabalha, se diverte, se preocupa, se aflige e interage com os outros? Como podemos saber se a nossa alma existe realmente? Não podemos vê-la nem tocar-lhe. Será que ela precisa de alimento como os nossos corpos precisam de alimento, água e ar? Será que possui poderes aos quais podemos aceder?
Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que precisamos de alimentar as nossas almas diariamente e recorrer aos recursos espirituais ao nosso alcance. De facto, os ensinamentos Bahá’ís sugerem que esta necessidade é urgente, que não nos podemos dar ao luxo de esperar, que este é o momento de voltarmos a nossa atenção para a dimensão espiritual do nosso ser.
Para aprofundar estas questões, convido-vos a conhecer Bahá’u’lláh (1817-1892), o profeta fundador da Fé Bahá’í, um nobre persa que sacrificou o Seu conforto e segurança pela promoção da vida espiritual da humanidade. Quando Bahá’u’lláh revelou os ensinamentos Bahá’ís, estabeleceu um plano global para transformar a Terra num lar saudável, seguro e pacífico para a humanidade. Entre os seus 100 volumes de Escrituras, escreveu:
Sabe que a alma do homem está enaltecida acima e é independente de todas as enfermidades do corpo ou da alma. O facto de uma pessoa doente apresentar sinais de fraqueza deve-se aos obstáculos que se interpõem entre a sua alma e o seu corpo, pois a própria alma permanece inalterada por quaisquer enfermidades corporais. Considera a luz da lâmpada. Embora um objeto externo possa interferir com o seu brilho, a própria luz continua a brilhar com um poder inalterado. Da mesma forma, toda a doença que aflige o corpo do homem é um obstáculo que impede a alma de manifestar a sua força e poder inerentes. Quando abandona o corpo, porém, evidenciará um tal ascendente e revelará uma tamanha influência que nenhuma força na terra pode igualar. Toda a alma pura, refinada e santificada estará dotada com um enorme poder e regozijar-se-á com uma imensa alegria. (Gleanings, LXXX)
As palavras de Bahá’u’lláh servem de guia não só para a comunidade Bahá’í, mas para o mundo em geral:
Para qualquer lugar para onde sejamos banidos, por maior que seja a tribulação que possamos soframos, aqueles que são o povo de Deus devem, com firme determinação e perfeita confiança, manter os olhos voltados para a Aurora da Glória e ocupar-se com tudo o que possa contribuir para o aperfeiçoamento do mundo e a educação dos seus povos. (Gleanings, CXXVI)
Bahá'u'lláh garantiu-nos que "O bem-estar da humanidade, a sua paz e segurança, são inatingíveis a menos que a sua unidade seja firmemente estabelecida." (Gleanings, CXXXI)
Então, como encontramos o nosso lar espiritual no meio de toda a turbulência e dos perigos do dia a dia?
A revelação de Bahá’u’lláh ocorreu-Lhe primeiramente numa masmorra em Teerão, na Pérsia – chamada Poço Negro – uma prisão subterrânea tão imunda que os visitantes desmaiavam com o fedor. Sobreviveu quatro meses no inverno de 1852-53 na lama e na sujidade, carregando o peso de pesadas correntes.
Contudo, falando espiritualmente, Ele estava em casa. Incrivelmente, ensinou os Seus companheiros de prisão a cantar em louvor ao seu Criador!
Espero lembrar-me disto em momentos de perigo e quando finalmente for chamado para o outro mundo.
Provavelmente já sabe que Bahá’u’lláh não foi preso por ter cometido qualquer crime, mas sim por promover, sem medo, em terras muçulmanas, novos ensinamentos espirituais como a igualdade entre homens e mulheres, a eliminação de preconceitos de todos os tipos, a erradicação da superstição e do fanatismo, a adopção da ciência e da razão e a necessidade de considerar os povos do mundo como uma única família humana.
Desde a Sua prisão inicial até à Sua morte em 1892 na Terra Santa, Bahá’u’lláh nunca esteve a salvo da ameaça de danos físicos, suportando torturas e indignidades durante a maior parte da Sua vida, tudo para lançar as sementes de uma nova era na história da humanidade — uma era de unidade, justiça e paz.
O Seu chamamento à humanidade incluía estas palavras:
Os dias da vossa vida passam como um sopro de vento, e toda a tua pompa e glória serão recolhidas, tal como foram a pompa e a glória daqueles que vos precederam… Felizes os dias que foram consagrados à memória de Deus. (Gleanings, LXXI)
Podemos ler as advertências espirituais de Bahá’u’lláh ao procurarmos indicações sobre como devemos investir o nosso tempo, energia e recursos nestes tempos de mudanças e convulsões radicais.
A base sólida que todos procuramos pode ser encontrada na certeza de que somos, fundamentalmente, seres espirituais sob os cuidados de um Criador Todo-Poderoso. Por sermos seres espirituais, o melhor alimento para a alma é a palavra de Deus revelada pelos Seus mensageiros ao longo dos milénios, a mais recente trazida pela voz e pena de Bahá’u’lláh. Estes ensinamentos proporcionam o elixir que pode acalmar os nossos medos enquanto trabalhamos diligentemente nos imensos desafios de hoje, fortalecendo-nos em vez de nos sentirmos impotentes. Cada um de nós sentir-se-á melhor se fizer parte da solução, e não do problema.
Não podemos garantir que estaremos sempre seguros materialmente neste mundo, mas espiritualmente, o lar está apenas a um passo de distância.
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Texto original: How Do We Feel Safe in a Dangerously Disordered World? (www.bahaiteachings.org)
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Kurt Asplund é um psicoterapeuta, residente no estado de Washington (EUA). É casado, tem dois filhos adultos e um neto. O seu livro infantil, Quem é Deus? (agora disponível na Amazon com ilustrações de Kathryn Adebayo), oferece uma visão doce e reflexiva da vida espiritual numa perspetiva científica. Em 1964, aos 11 anos, Kurt conheceu a Fé Bahá’í através dos seus pais e começou imediatamente a partilhá-la com os seus amigos. Kurt é também cantor e compositor, tendo criado a peça coral Não à Tristeza, baseada nas Escrituras de Bahá’u’lláh.
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