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domingo, 31 de dezembro de 2006

Pobres pescadores de fim-de-semana...



De tempos aparecem leis tão absurdas que parecem ter sido criadas só para nos fazer rir. Refiro-me à nova lei que pretende regulamentar a actividade da chamada “pesca desportiva” ou “pesca de fim-de-semana”. Segundo a nova lei, estes pescadores deverão adquirir uma licença que pode custar até 200 euros, deverão guardar entre si uma distância de 10 metros, terão o volume de capturas limitado a 10Kg por dia e não poderão pescar a menos de 100 metros dos esgotos.

Nenhum responsável governamental veio a público explicar o objectivo da lei, ou esclarecer o seu propósito. Mas segundo a imprensa, seria evitar o desenvolvimento de uma actividade profissional a coberto da pesca com fins lúdicos.

Mas as reportagens na TV e nos jornais dão conta do desajustamento da lei à realidade da “pesca de fim-de-semana”. A maioria destes pescadores tem a pesca como passatempo; para muitos deles o que importa são os momentos de convívio e a cavaqueira com os outros. Como dizia um deles: "Pesca? Isto não é pesca nenhuma! Isto é para a gente se entreter e não estar nas tabernas."

A necessidade de regulamentar um passatempo tão inofensivo como este fica por perceber. E a ausência de explicação sobre o mesmo permite-nos pensar que a seguir se seguirão outros passatempos de fim-de-semana: licença para jogar à bisca em jardins públicos, portagens em Lisboa nas zonas pedonais de Belém e da Expo, licença para fazer jogging em espaços públicos,...

Este tipo de legislação deixa no cidadão comum a impressão que alguns dos nossos governantes na sua necessidade de mostrar trabalho que são capazes de produzir coisas tão absurdas quanto esta lei. É triste. Porque é revelador da sua incapacidade governativa e porque pode manchar a imagem dos governantes em geral.

NOTA: Mesmo assim, esta lei não conseguiu ser tão patética quanto a daquele outro Secretário de Estado que há alguns anos queria aplicar multas a quem não separasse o lixo doméstico. Quando questionado na TV, argumentou que se podia identificar a origem dos lixos domésticos. Claro que na altura não faltou quem o imaginasse a vasculhar caixotes do lixo...

sábado, 30 de dezembro de 2006

O que merecem os ditadores?

Justiça ou vingança?


Julgamento de Nuremberga


Julgamento de Tóquio


Julgamento de Milosevic (pelo Tribunal Penal Internacional)


Ceausescu e Saddam. Alvos da justiça ou de vingança?

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Acordámos hoje com a notícia da execução de Saddam Hussein. É mais um episódio triste da trágica aventura americana no Iraque. A forma como ele foi julgado e condenado assemelha-se mais a um acto de vingança do que justiça.

Não preciso de voltar a escrever aqui o quanto abomino as ditaduras. Saddam era um ditador que oprimiu os povos do Iraque; ordenou a eliminação de opositores e o massacre de populações civis. Como todos os ditadores, gostaria que ele fosse levado perante a justiça e que o seu julgamento fosse imparcial. A justiça que o condenou pareceu mais a justiça dos vencedores do que um processo claro de averiguação de todas as suas responsabilidades enquanto governante iraquiano. Infelizmente o seu julgamento foi mais parecido foi mais parecido com o de Ceausescu do que aos julgamentos de Nuremberga e de Tóquio.

Num país em escombros, onde a violência e o sectarismo imperam e em que a autoridade do Estado se parece confinar a uma pequena zona da capital, dificilmente poderiam existir condições que garantissem a realização de um julgamento justo e imparcial. Nestas situações, um ditador deve ser entregue a uma organização internacional reconhecida como o Tribunal Penal Internacional (o que julgou Milosevich)

A construção de uma Nova Ordem Internacional, mais justa e equilibrada tem-se feito com avanços e recuos. A invasão do Iraque e a forma como Saddam foi julgado foram recuos. Mas também devem servir como lições para o futuro; a Comunidade Internacional não deve permitir que erros semelhantes se repitam.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Aborto



Este foi um dos melhores momentos do Gato Fedorento. Um crítica bem mordaz às atitudes radicais e exageradas que se fazem ouvir a propósito do anunciado referendo sobre a despenalização do aborto. É impossível conter o riso perante isto. Mas depois de umas saudáveis gargalhadas é importante reflectir um pouco sobre o é que leva tantos agentes sociais e comentadores a insultarem-se ou rotularem-se mutuamente de “criminosos” ou “liberais hedonistas” quando se aborda este assunto. O oportunismo político de alguns intervenientes é óbvio; e quando isto acontece torna-se difícil ter um debate calmo e objectivo sobre o assunto.

Uma das questões chave por detrás da polémica do aborto está na resposta à pergunta “quando é que se pode dizer que tem início a vida humana?”. Há os que defendem que o início da vida se dá no momento da concepção, outros que sustentam que a vida só existe depois da formação do sistema nervoso, e por aí diante. A única coisa que parece certa na resposta a esta questão é que não entre a comunidade científica não há consenso sobre esta matéria.

Estando em causa um assunto que lida com temas da vida e da morte, é natural que as comunidades religiosas tomem posições públicas sobre o assunto. E a sua posição tem sido quase consensual: a vida humana começa no momento da concepção e a prática do aborto apenas deve ser permitida em situações excepcionais.

Nas escrituras bahá'ís pouco se encontra em relação à prática do aborto. Desta forma, este é um dos assuntos sobre os quais a Casa Universal de Justiça deverá legislar. Apesar da Instituição suprema da Comunidade Bahá’í não ter considerado oportuno até hoje produzir essa legislação, tem esclarecido crentes e instituições baha’is sobre o assunto. O texto seguinte é um desses esclarecimentos:
A prática do aborto apenas com o intuito de impedir o nascimento de crianças indesejadas é estritamente proibida na Fé. No entanto, podem existir circunstâncias em que um aborto se justifique por razões médicas, e a legislação sobre este assunto foi deixada à Casa Universal de Justiça. No momento presente, porém, a Casa de Justiça não pretende legislar sobre este assunto tão delicado; por esse motivo, é deixado à consciência dos envolvidos que devem considerar cuidadosamente o conselho médico à luz das orientações gerais contidas nos ensinamentos.

(Carta escrita em nome da Casa Universal de Justiça à Assembleia Espiritual Nacional da Irlanda, 16 de Março de 1983, citada no Lights of Guidance, nº 1154)
No caso da actual legislação portuguesa é interessante notar que estão contemplados um conjunto de circunstâncias em que é permitida a interrupção da gravidez. Segundo o art.º 140 do Código Penal, a prática do aborto é permitida nas seguintes situações:
  1. Constitua o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida;
  2. Se mostre indicado para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e seja realizado nas primeiras 12 semanas de gravidez;
  3. Haja seguros motivos para prever que o nascituro venha a sofrer de forma incurável, de grave doença ou mal formação, e seja realizado nas primeiras 16 semanas de gravidez;
  4. Haja sérios indícios de que a gravidez resultou de violação da mulher, e seja realizado nas primeiras 12 semanas de gravidez.
Percebe-se, portanto, que a actual legislação portuguesa está em sintonia com as orientações que os baha’is recebem da Casa Universal de Justiça.

Para o referendo que se avizinha, a Assembleia da República aprovou que este tomasse forma na seguinte pergunta:
«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?»
Em termos práticos, o que se pergunta aqui é se os portugueses concordam que a interrupção voluntária da gravidez possa vir a ser usada como mais um prática de controlo da natalidade, um método para uma mulher, ou um casal, se livrar de uma criança indesejada.

Assim, a minha resposta ao referendo será um NÃO.

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A LER SOBRE ESTE ASSUNTO:
Religion and Ethics - Abortion (BBC)
Abortion--forbidden, discouraged, or permitted? (debate no Baha'i Library Forum)
Respect for Life (artigo no Planet Baha'i)
Reproduction and other Biological Subjects (Compilação do Dep. Pesquisa da Casa Universal de Justiça)
Legislating on Morality (carta da Casa Universal de Justiça)

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Polícia do Pensamento

Dois comentários recentes colocados neste blog quase passaram despercebidos por terem sido feitos em posts afixados há já algum tempo. Refiro-me aos comentários assinados por A.Mobarak (no post To Zeinobia, in Egypt) e por um anónimo, presumivelmente baha’i (no post 54 Bahá'ís presos no Irão).

Apesar de terem sido escritos por pessoas diferentes, com convicções diferentes, os autores têm uma convicção comum: confundem o seu entendimento da verdade com a própria verdade. E com isso se consideram superiores nas observações que fazem.

O comentário de A.Mobarak é igual a muitos outros que se encontram em fóruns e sites anti-baha’is: afirma que a Fé Bahá’í não é uma religião e sugere um site muçulmano onde se tenta provar que a religião bahá'í é falsa. Para mim, a novidade foi o facto desse comentário vir parar aqui.

Já o bahá'í anónimo insinua-se como uma espécie de polícia do pensamento, como se ele soubesse o que os baha’is devem pensar, dizer ou escrever. Também sugere que o que se escreve, e comenta, neste blog (e noutros blogs de baha’is) não estaria de acordo com o que ele lá entende ser a doutrina baha'i, e que seriam apenas "meias-verdades". E quase ameaça com queixinhas às instituições baha'is.

Para quem tem dos bahá’ís uma imagem de tolerância, o comentário do bahá'í anónimo é muito estranho. Mas eu já tinha referido aqui que conhecia dois ou três casos de bahá'ís fundamentalistas.

A resposta a estes dois auto-intitulados "donos da verdade" aqui fica, com uma citação de Agostinho da Silva:
Podemos dizer quando pensamos filosoficamente – e nem é preciso, para isso ser crente de uma determinada religião, a qual tem vantagem porque exerce a sua atenção sobre um ser superior último, seja ele o conceito, por exemplo, cristão ou muçulmano de Deus, seja outro conceito, é evidente que só esse último é que possui a autêntica verdade das coisas – que nós apenas temos de utilizar aquilo que consideramos verdadeiro e o grande perigo é que somos levados a confundir o nosso verdadeiro com a verdade. Então o homem que exerce o poder é o que acha que tem a verdade, que conhece a verdade, que dizer, comete o pecado de se considerar igual a Deus e de achar que pode dar determinações aos outros.

Agostinho da Silva, Vida Conversável, pag. 66

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Left Behind: The Eternal Forces


Algum de vós consegue-se imaginar como militar (ou membro de um grupo paramilitar) cujo objectivo é transformar a América numa teocracia cristã e impor a todo o mundo a sua interpretação pessoal dos ensinamentos de Cristo? Diga-se desde já que esta missão – que consiste numa guerra espiritual e material – inclui converter ou matar católicos, judeus, muçulmanos, budistas, gays e todos os que advogam a separação entre Estado e Igreja (incluindo cristãos moderados).

Na verdade, este é o cenário de um jogo de vídeo a lançar em Outubro (para aproveitar as vendas de Natal), e que já foi apresentado em algumas feiras de videojogos e visualizado por revistas da especialidade. Left Behind: The Eternal Forces é um simulador paramilitar em que os jogadores assumem comportamentos fundamentalistas/terroristas sob uma pretensa inspiração cristã. Segundo algumas pessoas que já visualizaram o jogo, os diálogos incluem personagens que gritam “Louvado seja o Senhor!” enquanto matam os “infiéis”.

Mas que efeitos tem um jogo destes sobre miúdos de 12 ou 13 anos? Não estará um jogo destes a apresentar uma realidade profundamente distorcida do que é a religião, do que se pretende que seja uma sociedade onde pessoas de diferentes etnias, credos e convicções possam conviver pacificamente? E que influência terá um jogo destes sobre jovens cuja mentalidade se está a formar? Poderá qualquer forma de fundamentalismo religioso ser considerado um divertimento a que os pais possam fechar os olhos?

Fonte: The Purpose Driven Life Takers (Updated)

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Baha'is fundamentalistas

Um leitor questionou-me sobre baha'is fundamentalistas: Se um dia a religião bahai for maioritária não poderão também surgir "fundamentalistas" bahais?

Fundamentalismo é hoje uma palavra com uma conotação fortemente negativa. Já não está apenas associado a conceitos como "conservadorismo" ou "tradicionalismo"; tornou-se um sinónimo de "radicalismo", "fanatismo" e até "terrorismo". Por esse motivo penso que é importante definir qual o significado que atribuo a esta palavra antes de a aplicar.

Num certo sentido, posso considerar fundamentalismo como uma atitude mental segundo a qual a realidade é entendida apenas a preto e branco, ignorando as diferentes tonalidades de cinzento que existem entre estas duas cores.

Uma outra definição possível de fundamentalismo relaciona-se com uma dependência de uma comunidade em relação a algum (ou alguns) indivíduo(s) com um pouco de carisma ou personalidade forte. Pode existir uma situação em que ele(s) impõe(m) sistematicamente a sua opinião aos outros, exercendo com isso uma espécie de autoridade implícita sobre os restantes crentes.

Se considerarmos apenas estas duas definições, não tenho dúvidas em afirmar que existem dois ou três casos de atitudes fundamentalistas entre os baha'is de Portugal.

Aqui é importante ter presente que uma pessoa pode ser fundamentalista num aspecto da sua vida e ser liberal noutros. Por exemplo, uma pessoa pode mostrar uma atitude liberal ao defender uma sociedade multi-racial e vazia de preconceitos, mas simultaneamente pode ser fundamentalista ao impor uma alimentação vegetariana a toda a sua família.

Voltemos então à questão: poderão os fundamentalistas tomar o poder na comunidade baha'i?

O facto das instituições baha'is serem eleitas periodicamente torna a estrutura administrativa pouco vulnerável aos vícios e problemas conhecidos das estruturas administrativas de outra comunidades religiosas.

É evidente que podemos admitir o cenário onde exista uma comunidade "mentalmente dependente" de um pequeno conjunto de crentes, que são repetidamente eleitos para a Assembleia Espiritual. Mas será isso uma tomada de poder (uma espécie de golpe de estado)? Ou será apenas o resultado natural de uma eleição numa comunidade onde existe essa tal "dependência mental"?

O que pode cada baha’i fazer para evitar um cenário destes? Uma resposta possível pode passar pela participação em "Círculos de Estudo"; tratam-se de pequenos grupos de crentes que, de forma mais ou menos informal, se reúnem regularmente para estudar e meditar sobre a história, ensinamentos e Escrituras da religião baha'i. Outros baha'is que costumam visitar este blog poderão apresentar outras respostas alternativas e complementares a esta.

No fundo, o amadurecimento pessoal e desenvolvimento espiritual são o melhor obstáculo às atitudes fundamentalistas.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

Reformulemos a ONU!

Há cerca de uma semana, o secretário-geral da ONU repetiu mais uma vez que a Comissão de Direitos Humanos daquele organismo internacional estava a minar a credibilidade das Nações Unidas ao mostrar-se incapaz de defender os direitos humanos. Segundo Kofi Annan, "Chegámos a um ponto em que a decrescente credibilidade da comissão [de direitos humanos] lança uma sombra sobre a reputação do sistema das Nações Unidas" e ainda: "A menos que reformulemos a máquina dos direitos humanos, poderemos ser incapazes de renovar a confiança publica no próprio sistema das Nações Unidas".

As palavras do Secretário-Geral das Nações Unidas têm fundamento; a Comissão dos Direitos Humanos tem como membros países como o Sudão, a China, a Rússia, o Zimbabwe e a Arábia Saudita; todos eles têm um considerável curriculum de violações de direitos humanos! A presença destes países num órgão tão importante da ONU levou mesmo um representante da Amnistia Internacional, Peter Splinter, a questionar: "Como é que estes Estados são eleitos para a Comissão? Quem é que os elege?" É importante ter presente que estes, e outros Estados membros, ao analisar questões dos direitos humanos centram as suas preocupações apenas na protecção dos seus interesses nacionais.

Ao longo dos últimos meses tenho chamado a atenção neste blog para uma série de atropelos à liberdade e direitos humanos dos bahá’ís no Irão. Recapitulemos:
  • Foram destruídos dois importantes lugares sagrados bahá'ís (ver Apagar a Memória e Santuário Baha'i destruído no Irão);
  • Foi destruído um cemitério Baha’i de Yazd;
  • Aos estudantes bahá’ís iranianos foi negado o acesso à universidade;
  • Vários bahá’ís de Teerao e Yazd foram espancados e detidos arbitrariamente;
  • Só no mês passado foram detidos vários bahá’ís porque distribuíam cópias de uma carta ao presidente Khatami (a carta nada tem de ofensivo e trata o presidente com toda a cortesia).
  • Vários terrenos, casas particulares de famílias bahá’ís foram confiscadas e um estabelecimento comercial foi incendiado; essas famílias ficaram sem meios de subsistência.
Lembro que entre 1978 e 1998, o governo da Republica Islâmica do Irão executou mais de 200 bahá’ís. Centenas foram detidos, milhares foram expulsos dos seus empregos expulsos das escolas, privados de pensões de reforma, e viram os seus bens destruídos ou confiscados. Foi uma campanha de perseguição que visava a asfixia económica e social da maior minoria religiosa do Irão. Graças a uma intensa pressão internacional e a sucessivas condenações na Comissão dos Direitos Humanos, as execuções terminaram e muitos bahá’ís foram libertados da prisão.

No entanto, nos últimos três anos a Comissão dos Direitos Humanos tem sido incapaz de aprovar uma resolução sobre o Irão. Esperemos que os anos sombrios da Revolução Iraniana não estejam de regresso para os bahá’ís daquele país.

O que se passa com os Bahá’ís do Irão é, obviamente, um pequeno drama quando comparado com as terríveis tragédias que se vivem no Darfur e no nordeste do Congo (até nestes casos a Comissão não consegue tomar uma decisão!). Mas o drama dos bahá’ís iranianos é também mais uma prova que Kofi Annan tem razão: as Nações Unidas necessitam de uma reestruturação.

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A ler sobre este assunto:
BWNS - Dismay at lack of human rights resolution on Iran as persecution worsens
BBC - Annan says rights body harming UN
BBC - Annan urges sweeping UN reforms
Reuters - U.N.: Establish New Human Rights Body

A consultar: Site da Comissão dos Direitos Humanos da ONU

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

...Mas as Crianças, Senhor?

A propósito do post ... Mas as Crianças, Senhor? na Rua da Judiaria, da resposta do Timshel (post: Erro ou Fanatismo?) e de todo o conjunto de comentários que ficaram registados neste último, aqui fica a minha opinião.

É natural que os pais queiram educar os filhos na sua religião. Eu pretendo fazer isso com o meu filho; quando ele tiver atingido a maturidade poderá decidir se deseja ser bahá'í ou não. Se eu, por ventura, faltar, gostaria que alguém lhe fosse transmitindo os valores e princípios da minha religião. Creio que qualquer um de nós sentirá isso em relação aos seus filhos.

No caso das crianças judias que sobreviveram ao holocausto, é perfeitamente natural pensar que os seus pais gostassem que estas crianças fossem educadas segundo os princípios e valores do judaísmo. Cumprir esse desejo seria uma forma de homenagear a memória daquelas famílias e perpetuar a sua descendência. É óbvio que educar uma criança numa religião que não é a nossa é uma tarefa difícil. Qualquer um de nós, se fosse posto perante uma situação destas, questionar-se-ia: "O que é mais importante? A minha fé ou a memória dos pais desta criança?".

A este propósito, lembro-me de ter lido uma história que se passou na Índia, após os motins que se deram antes e depois da independência daquele país. Houve um hindu que disse a Gandhi que tinha morto uma criança muçulmana e que os remorsos desse acto não lhe saíam da cabeça. Gandhi sugeriu-lhe que procurasse uma criança muçulmana que tivesse ficado órfã, que a adoptasse e a educasse na religião islâmica (o que destaco aqui é a possibilidade desse gesto e não os motivos que levam a esse gesto).

segunda-feira, 12 de julho de 2004

Nascimento e Morte

Numa frase de Bahá'u'lláh é feita uma comparação entre a nossa evolução neste mundo e a evolução de um bebé no ventre materno:
O mundo do além é tão diferente deste mundo, quanto este mundo é diferente daquele mundo da criança que ainda está no ventre materno (SEB LXXXI)
No ventre materno, o bebé tem de desenvolver as suas qualidades físicas para ficar apto para a fase seguinte da sua existência; de igual modo, o nosso objectivo na vida será desenvolver qualidades espirituais que nos permitam ficar aptos para a fase seguinte da nossa existência.

O bebé no ventre materno não tem possibilidade de escolha sobre o seu desenvolvimento físico; ele não pode escolher se quer desenvolver membros, olhos, e todos os seus órgãos. Nós, porém, nesta fase da nossa existência, temos possibilidade de escolha sobre o nosso desenvolvimento espiritual; podemos escolher se queremos ser honestos, justos, fidedignos... podemos escolher aquele modelo de vida ou outro.

Se o bebé pudesse escolher sobre o seu desenvolvimento físico, talvez se questionasse sobre a necessidade de desenvolver pernas, braços, olhos, e outros órgãos e membros; na verdade, para a forma de existência que ele tem no ventre materno, esse desenvolvimento poderia parecer-lhe desnecessário.

Se o bebé tivesse consciência que aquela existência no ventre teria um fim, para ele isso significaria a morte (era o fim da única forma de existência que ele conhecia); no ventre da mãe ele tem tudo o que necessita. E nós aqui, à espera dele, sabemos que o fim daquela primeira fase de existência é na verdade um nascimento.

E nós, que já estamos nesta segunda fase da nossa existência, nós que temos consciência que um dia isto terá um fim, nós que podemos optar pelo nosso desenvolvimento espiritual, será que o nosso fim físico é, na verdade, um nascimento?

Que características espirituais devemos desenvolver para estarmos aptos para a próxima fase da nossa existência?

Que problemas poderemos ter se não nos desenvolvermos espiritualmente de forma a ficarmos preparados para outro tipo de existência?

Temos alguém "do outro lado" à espera do nosso segundo nascimento?

A resposta a estas questões não é linear quando se acredita que o ser humano é algo mais do que um pedaço de matéria que tomou consciência de si próprio. Por detrás destas questões está outra ainda: "Qual o objectivo da nossa existência?" Alguns esclarecimentos a estas questões foram dados pela maioria dos Profetas fundadores das grandes religiões mundiais e encontram-se registados nas Sagradas Escrituras de praticamente todas as religiões.

quarta-feira, 30 de junho de 2004

Centros de Decisão Internacionais

Quando fiz mestrado, tive a oportunidade de assistir a um seminário, onde o palestrante, era o Eng. Viana Baptista. Tinha sido ministro dos transportes num governo "AD", no inicio dos anos 80; estava ali para partilhar connosco uma série de experiências pessoais no âmbito da gestão de tecnologia e de políticas industriais e de inovação tecnológica.

Referiu, a certa altura, as políticas europeias nessa área e a forma como os países se movimentam nos "corredores" da União Europeia para fazer valer os seus interesses. Contou-nos como era constantemente "assediado" por uma ministra holandesa com uma pasta equivalente à sua; ela sempre arranjava um pretexto para meter conversa com ele; onde quer que ele fosse, ela arranjava maneira para se encontrar com ele; a mulher emanava charme e simpatia.

Um dia percebeu que ela fazia isso com todos os ministros europeus com pastas iguais ou equivalentes à sua. Aquilo era apenas um dos métodos holandeses para fazer lobby. E olhando para os organismos internacionais, é fácil perceber que os holandeses possuem muita gente nas cúpulas ou integrando os respectivos centros de decisão. Ou seja: o lobby holandês nos organismos internacionais parece ser bem sucedido

A Holanda é, assim, um país com 15 milhões de habitantes e uma área que é 1/3 de Portugal e consegue desta forma fazer valer os seus interesses entre a comunidade das nações.

Soubemos nos últimos dias que o nosso primeiro-ministro será o próximo presidente da Comissão Europeia. Não sei se as negociações que levaram à escolha do nosso Primeiro é fruto de um lobby português, ou resultado de um entendimento de bastidores entre os países mais poderosos da União. Neste momento, a segunda hipótese parece-me mais plausível...

A escolha de um português (fosse Durão Barroso, ou António Vitorino) para chefiar a Comissão Europeia (apesar de ter menos poderes), só pode deixar-me satisfeito. Talvez os interesses portugueses na União fiquem melhor defendidos. É certo que isto é uma visão muito portuguesa e pouco universalista sobre esta Europa que se vai construindo; afinal, o Presidente da Comissão Europeia deve defender os interesses da Europa e não apenas do seu país natal.

Mas deixem-me ser um pouco faccioso! Gosto que o Presidente da Comissão Europeia seja português. Também gostava muito que o Conselho de Segurança da ONU tivesse como membros permanentes, grandes países como o Brasil (além disso, era importante acabar com o direito de veto naquele organismo...). Também gostava que Angola ou Moçambique ocupassem a presidência da OUA por muito tempo...

Enfim! Que as vozes lusófonas se fizessem ouvir nos centros de decisão dos organismos internacionais.

quinta-feira, 24 de junho de 2004

Anúncios que nos tocam

Para fugir à futebolada noticiosa, tenho de me refugiar nos noticiários dos canais estrangeiros; BBC e Euronews costumam ser as minhas primeiras alternativas. É a minha janela para o mundo real que continua a existir por detrás das nossas bandeiras, dos estádios e das opções tácticas de cada jogo.

Ontem, num intervalo entre blocos noticiosos, a Euronews, apresentou-nos um anúncio contra o turismo sexual e exploração sexual de crianças. Sem serem chocantes, as imagens e as palavras tinham uma força tremenda. Um homem que se ia despindo, e já nu caminhava por um corredor de uma prisão, até que se encostava a uma parede e um guarda de aproximava dele... Presumo que existam muitos europeus que necessitam de ser sensibilizados.

Hoje de manhã, um outro anúncio: num lar de uma família europeia "normal", as crianças brincam com a maior naturalidade; a filha brinca com uma boneca, o filho com um carrinho. A dado momento, a televisão mostra uma criança sem uma perna, apoiada em muletas, a olhar fixamente para a câmara; a menina pára de brincar com a boneca e olha demoradamente para a televisão. De súbito, arranca uma perna da sua boneca e oferece-a ao outro menino que vê na televisão. O anúncio era da Handicap International, uma organização que luta contra as minas anti-pessoais.

Confesso que estes anúncios não me deixaram indiferente. Sem recorrer a imagens sensacionalistas, têm uma força enorme para chamar a atenção para problemas gravíssimos. Oxalá estas duas campanhas obtenham bons resultados.