quarta-feira, 7 de junho de 2006

Sacrifício e Desprendimento

O "meu" texto de hoje da Terra da Alegria. Também podem lá encontrar textos do Timshel (A importância da caridade desde os primeiros tempos da Igreja) e do José (Um papa que grita a Deus).
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O conceito de Sacrifício ocupa um lugar proeminente nas religiões do mundo. Nas religiões mais antigas, o conceito de oferecer qualquer coisa de valioso à Divindade assentava na ideia de que tudo Lhe pertencia e era um sinal de obediência de nossa parte. Uma parte significativa da mais antiga literatura religiosa que possuímos, incluindo a Bíblia Hebraica e os Vedas, consiste em instruções e hinos para rituais associados com o sacrifício. O exemplo paradigmático associado ao sacrifício (o acto de abdicar de algo valioso em obediência à Divindade) nas religiões ocidentais é o desejo de Abraão em sacrificar o seu filho, conforme as instruções de Deus. (...)

Nas principais religiões não-teístas, o sacrifício também é importante. Todo o esforço é feito para garantir o favor dos espíritos para que mana [o poder] esteja sempre disponível. Os sacrifícios são o método mais comum para conseguir a aprovação. Assim, o sacrifício é uma expressão de homenagem a um Ser (ou seres) mais elevado ou mais poderoso, e também uma expressão de agradecimento. Por exemplo, nos momentos de aflição ou perigo, uma expressão comum disto inclui o sacrifício de algo valioso à Divindade (uma oferenda propiciadora). Alternativamente o voto pode ser feito para que se o perigo for evitado, o sacrifício será oferecido mais tarde. O sacrifício também pode ser parte de uma súplica onde se antecipa um favor da Divindade. Estas expressões de sacrifício existem nos dias actuais nas religiões populares: em aldeias africanas sacrificam-se animais em nome de uma pessoa que se encontra doente e na Tailândia fazem-se ofertas aos espíritos pedindo prosperidade.

No entanto, com o passar do tempo, em muitas comunidades religiosas a ênfase mudou para uma forma mais metafórica. O sacrifício que agora é feito assenta é o sacrifício do ego (os seus desejos, vontades e ideias pré-concebidas); não é um sacrifício dos bens. O objectivo é agradar a Deus ou progredir espiritualmente (ou ambas as coisas). (...) Esta espécie de transacção é frequentemente conceptualizada como uma situação em que algo efémero é dado em troca por algo que tem um valor permanente. Obviamente que um pessoa religiosa acredita que aquilo que oferece vale menos do que aquilo que recebe.

O corolário desta noção "mais elevada" de sacrifício é o "desprendimento" ou a "auto-negação". O sacrifício envolve um desprendimento do ego em relação aos seus desejos e apego às coisas deste mundo. Esta purga espiritual, a morte de uma vida centrada no ego, é considerada como sendo um pré-requisito essencial para o progresso espiritual. Estes conceitos ocupam um lugar central nas principais religiões mundiais e existe muita literatura sobre o assunto. Nesta literatura, o ser humano individual é descrito como ganancioso e centrado em si próprio, por natureza. Como tal, existe um medo inato e uma dúvida relativamente à religião quando esta afirma que é melhor desprendermo-nos e tornarmo-nos menos egocêntricos. Em particular, as religiões pedem que a pessoa abdique do controlo que sente ter sobre a sua própria vida; este controlo deve ser entregue a um líder religioso (um guru ou um sheikh, por exemplo), ou à essência de um ensinamento religioso, permitindo que este domine o coração e o ser de um indivíduo. Existe um conflito no indivíduo entre o desejo dos benefícios espirituais perceptíveis de uma vida espiritual e o medo de perder o controlo da sua vida. Após algum tempo este conflito é resolvido com o "salto da fé" e o compromisso num "novo caminho". Isto é experimentado como uma libertação, um alívio ou uma descoberta.

EXCERTOS DAS SAGRADAS ESCRITURAS SOBRE DESPRENDIMENTO

Cristianismo
Certo chefe perguntou-lhe então: «Bom mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?» Respondeu-lhe Jesus...: «Ainda te resta uma coisa: vende tudo quanto tens, distribui o dinheiro pelos pobres e terás um tesouro nos Céus. Depois, vem e segue-Me». Quando isto ouviu ele entristeceu-se pois era muito rico. Vendo-o assim, Jesus exclamou: «Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Sim, é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus» (Lc 18:19, 22-25)

Islão
Maldito seja o vil caluniador, que acumula riquezas e as conta!
Pensa que as suas riquezas o tornam imortal. Não, em verdade, ele será lançado num tormento esmagador (Alcorão 104: 1-4)

Fé Bahá'í
Ó Filho do Ser!
Não te ocupes com este mundo, pois com o fogo testamos o ouro e com o ouro pomos à prova os Nossos servos.
Ó Filho do Homem!
Tu queres o ouro, e Eu desejo que dele te libertes. Tu julgas-te rico por possuí-lo, e Eu reconheço a tua riqueza por estares santificado acima dele. Por Minha vida! É este o Meu conhecimento e aquilo é a tua fantasia; como pode Minha vontade estar em harmonia com a tua?
(Bahá'u'lláh, Palavras Ocultas, do árabe, 55-56)

Taoismo
Fama ou integridade: qual é mais importante?
Dinheiro ou felicidade: qual é mais valioso?
Sucesso ou falhanço: qual é mais destrutivo?
Se procuras os outros para te realizares, nunca te realizarás verdadeiramente.
Se a tua felicidade depende de dinheiro, nunca estarás feliz contigo próprio.
Contenta-te com o que tens; regozija-te com a forma como as coisas são.
Quando perceberes que nada falta, todo o mundo te pertencerá.
(Tão Te Ching, 44)

Budismo
A riqueza destrói o louco que não procura o Além. Devido à ganância pela riqueza, o louco destrói-se a si próprio como se fosse o seu próprio inimigo.
(Dhammapada, 355)

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag. 225-228

9 comentários:

Elfo disse...

Ó Marco acho que já li aquilo do Taoísmo num livro qualquer do Confúcio, ou será que foi no Livro Vermelho do Mao Tzé Tung?
Mas afinal o Taoísmo também é uma religião monoteísta?

Esclarece lá isso ó Marco senão ainda me perco em conjecturas e ainda meto os Mormons ao barulho pois estes também aceitam Bahá'u'lláh.

Já agora há-des explicar-me o que são as religiões teístas ou non-teístas, é que eu na minha santa ignorância só conheço Religiões Monoteísta e movimentos politeístas. Tais como o gardeniarismo e outros que tais como o Paganismo..., mas isto também são religiões?
Ó Marco põe lá isto em pratos limpos. Então andei eu com tanto trabalho a publicar os meus mapas onde nasceram os Fundadores das Nove Religiões e agora vens dizer que o taoísmo também é uma religião? É que isso entra em colisão com as crenças Bahá'ís, ou será que estou enganado e preciso de fazer uma reciclagem ou uma acção de formação?


E já agora, a palavra Sacríficio não consta do meu dicionário.

Não a aceito porque não sei o que isso significa.

Marco disse...

Entre investigadores do fenómeno religioso e teólogos não há consenso sobre o que é uma religião. Basta pegar num europeu, num árabe e num chinês para perceber como pessoas provenientes de três culturas têm diferentes conceitos de religião. A esse propósito citei o Moojan Momen no post O conceito de religião

http://povodebaha.blogspot.com/2005/10/o-conceito-de-religio.html

Há muitas formas de classificar o fenómeno religioso. A mais conhecida é a Monoteístas/Politeístas. Trata-se de uma classificação muito superficial, se atendermos à diversidade e multiplicidade de ensinamentos e que as religiões apresentam. A explicação dos conceitos de Teísmo/Monismo é apresentada pelo Moojan Momen no livro The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, e exposta no post Teísmo e Monismo

Além de Teístas ou Monistas, as religiões também podem ser consideradas Relativistas. Essa é uma classificação que assenta bem na religião baha’i. A esse propósito citei o Moojan Momen no post: Relativismo.

O taoismo pode ser considerado como uma escola filosófica ou uma religião tradicional chinesa. Vê a definição de Taoismo na Wikipedia

GH disse...

Engraçado...
Ontem chamavam-se "guru"... Hoje estão aqui perguntas provocadoras... Os teus amigos têm humores instáveis...

Se vocês são tão poucos e andam assim com este tipo de insinuações, é óbvio que nunca serão muitos.

Elfo disse...

Ó GH, então querias que os Bahá'ís afinássemos todos pelo mesmo diapasão?
é que na Fé Bahá'í pautamo-nos pela livre pesquisa da verdade.

Se isso provoca que seremos ainda durante algum tempo muito poucos - cerca de nove milhões, dados de 1996 -, então é porque não há um seguimento cego e todos temos direito e dever da livre pesquisa da verdade.
Um abraço.

GH disse...

Elfo,
Fez-me confusão o tom das perguntas. Não é costume neste blog.

Elfo disse...

Deixa lá, há dias e dias.

F Cirilo disse...

A mentalidade de muitas pessoas religiosas é que para tudo na vida é necessário sacrificio e que mesmo quando há coisas boas é porque vêem aí coisas más.
Parece que o sacrificio é o destino da nossa vida.
Recuso-me a perceber isso e a aceitar religiões que consideram o sacrifício como uma necessidade.

Elfo disse...

O único sacrifício que conheço é o dos Manifestantes de Deus, pois Deus sacrifica estes seres abençoados para que algumas graças caiam sobre a humanidade.

Isto sim é sacrifício. Por exemplo: Sua Santidade o Cristo sorveu o cálice do martírio até à última gota por amor à humanidade, a fim de que esta pudesse, porventura, alcançar o Reino de Deus.

Quando me falam de sacríficio sob o conceito de que: "sacrificamos algo menor para obtermos um bem maior"
Isso não é nenhum sacríficio, é puro interesse em que investe algo em troca de algo com mais valia. Repito, isto não é sacríficio.
Deus dá um nome a Bahá'u'ulláh que é o de Sacrifício dos Mundos.
Bahá'u'lláh é o único sacrifício que conheço na realidade.

Elfo disse...

"...Quando as espadas inimigas cintilam, avança! Quando voam os dardos, segue avante! Ó Tu, Sacrifício dos mundos..."

Este versículo foi retirado da Epístola do Fogo, de Bahá'u'lláh, pag, 410. Editora Bahá'í.