segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sofrimento Extremo


Em 1918, acabou a primeira Grande Guerra e os e os militares começaram a regressar a casa. Na Europa desenharam-se novas fronteiras e surgiam novas nações. Mas nesse momento surgiu uma nova calamidade: a gripe espanhola espalhou-se pelo mundo e durante dois anos ceifou 50 a 100 milhões de vidas em toda a parte (três a cinco por cento da população mundial).

Nessa época a minha avó era aluna no Conservatório de Música em Lisboa. Contou-nos uma vez que na sua turma morreram metade das suas colegas. Conseguem imaginar o que é perder metade os colegas de escola ou trabalho?

Recentemente ao acompanhar um dos meus filhos a estudar História, revimos o episódio do terramoto que arrasou Lisboa em 1755. Nesse ano, um sismo - seguido de um tsunami - arrasou a capital portuguesa, destruindo milhares de edifícios, provocando múltiplos incêndios e fazendo milhares de mortos.

Vitimas da Pandemia da Gripe de 1918
Estes são apenas dois exemplos de calamidades naturais em que o “sofrimento natural” assume dimensões extremas. Quando estes fenómenos extremos surgem, é natural que nos questionemos:

  • Será mesmo necessário que o mundo contenha casos tão esmagadores e aflitivos de sofrimento extremo? Será necessário que fomes devastadoras atinjam milhões de pessoas?
  • Serão necessárias calamidades naturais que arrasem cidades e matem milhares de pessoas em poucas horas? Serão necessárias epidemias que matam milhões de pessoas?
  • Nestes eventos, onde está o benefício para as almas? Pode haver algum desenvolvimento espiritual resultante de um processo implacavelmente destrutivo?

As respostas a estas questões devem ser consideradas tendo em conta a evolução da humanidade neste planeta.

Na minha opinião, nós, humanos, enquanto espécie, ainda estamos a aprender a viver neste planeta. Ainda não encontrámos forma de nos proteger de todos os fenómenos naturais de natureza destrutiva. A ciência e o desenvolvimento material têm ajudado a reduzir o sofrimento provocado por estes fenómenos. Mas a ciência moderna tem apenas 500 anos. E a massificação dos benefícios da ciência ainda é mais recente.

A comparação dos efeitos de algumas calamidades naturais no passado e no presente, permite perceber que estamos a evoluir. Por exemplo, hoje existem diversas técnicas de construção que permitem minimizar os estragos provocados por sismos. E existem várias doenças que praticamente desapareceram devido a grandes campanhas de vacinação e melhoria de cuidados de higiene e saúde. Desenvolvemos e começamos a usar sistemas de aviso de tsunamis e tornados.

Assim, podemos dizer que o intelecto humano é desafiado por estas calamidades naturais; desenvolvemos ciências e técnicas que minimizam os impactos dessas situações extremas. Mas por outro lado, as escrituras Bahá’is dizem-nos que estas calamidades naturais também nos devem levar a reflectir. Ao referir-se ao terramoto de S. Francisco (1906), 'Abdu’l-Bahá escreveu:
Esses eventos em S. Francisco foram realmente terríveis. Desastres deste tipo devem servir para despertar as pessoas, e diminuir o amor dos seus corações por este mundo inconstante. É neste mundo inferior que tais coisas trágicas têm lugar: este é o cálice que contém um vinho amargo. (Selecção dos Escritos de 'Abdu'l-Bahá, nº 39)
O sofrimento extremo causado por desastres naturais desafia-nos e apela a uma resposta dupla: desenvolver os meios materiais para mitigar os efeitos e ajudar as vítimas; e reflectir sobre a fragilidade da nossa existência, perguntando a nós próprios que sentido tem o apego exagerado às coisas materiais.

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Versão em inglês: How Spiritual People See Extreme Suffering (bahaiteachings.org)
Tradução em italiano: Come le Persone Spirituali vedono la Soffrenza Estrema

2 comentários:

Margarida Ganço disse...

Obrigada pela partilha da tua reflexão sobre este tema tão interessante e desafiador. O facto de ponderarmos sobre o sofrimento da forma como o abordaste é já um modo de o combatermos.

Marco Oliveira disse...

Obrigado, Margarida.
A vida é uma ventura em que nos devemos questionar constantemente (o tal principio da livre e independente pesquisa da verdade).
O que escrevi é uma tentativa de resposta (fruto de reflexões e de partilha de experiências pessoais) às perguntas que fui colocando a mim próprio.