domingo, 24 de maio de 2015

Rejeitar os Dogmas

Por Tom Tai-Seale.


Qual é o problema da maioria dos dogmas religiosos? Tendem a ser compromissos políticos, tentativas para conciliar pontos de vista diferentes.

Atanásio, Apolinário, e Cirilo - a facção de Alexandria nos primórdios da história cristã - defendiam a ideia de que o Logos era essencialmente Deus e, portanto, não podia ser dividido. Acreditavam que a divindade do Logos ficava comprometida se o Logos fosse visto como mais do que um; e que quaisquer limitações de Jesus como Logos deviam-se apenas ao facto de ter encarnado numa forma humana, e não eram atribuíveis ao Logos. Além disso, argumentavam que se Jesus tivesse duas naturezas então estaria em guerra consigo próprio. Assim, para este grupo o importante era afirmar que Jesus era uma única substância. Teodoro de Mopsuéstia e Nestório (que mais tarde se tornou arcebispo de Constantinopla) lideram o grupo de Antioquia. Acreditavam que o Logos encarnado não podia ser literalmente Deus, porque ele (Jesus) tinha sofrido. Além disso, consideravam que nós precisamos de um modelo humano de salvação em Jesus e ao fazê-Lo divino isso tornava-se impossível. Assim, para satisfazer estes dois grupos, o credo resultante afirmava que Jesus tinha duas naturezas.

Cirilo de Alexandria
Isto faz sentido? Maurice Wells, o teólogo cristão mencionado num post anterior, responde:
... quando se pede que acreditemos em algo que não se consegue descrever em termos inteligíveis, é altura de parar e recuar com a questão para uma fase anterior. Temos a certeza de que o conceito de um ser encarnado, que simultaneamente é plenamente Deus e plenamente homem, é apesar de tudo, um conceito inteligível? (The Myth of God Incarnate, p.5)
Outro teólogo cristão, Francis Young, prossegue:
Será que a fé cristã tem que estar presa a uma posição cristológica que nunca foi muito satisfatória e que certamente estava condicionada por um determinado ambiente cultural? (Ibid, p. 29)
Perante este cenário de controvérsia, vamos analisar a perspectiva Baha'i sobre a encarnação e a manifestação. Para começar, os Bahá'ís rejeitam, como muitos Cristãos o fizeram antes, acreditar que Deus transcendente, imutável e eterno, possa de alguma forma encarnar. Isto é uma consequência natural da definição de um Deus imutável. Bahá'u'lláh afirma:
Sabe tu com certeza que o Invisível pode em nenhum sábio encarnado Sua Essência e revelá-lo aos homens. (SEB, XX).
E noutro texto:
Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência incognoscível, o Ser divino, está imensamente enaltecido acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, ascensão e descida, saída e regresso. (Kitab-i-Iqán, p. 98)
O Guardião da Fé Bahá'í, Shoghi Effendi, resume:
Na verdade, à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, o Deus que pudesse encarnar a Sua própria realidade, deixaria imediatamente de ser Deus. Uma teoria tão grosseira e fantástica de encarnação divina está muito longe, e é incompatível com os fundamentos da crença bahá'í, tal como as não menos inadmissíveis concepções panteístas e antropomórficas de Deus, que as palavras de Bahá'u'lláh repudiam enfaticamente e cuja falácia elas expõem." (The World Order of Baha’u'llah, pp 112-113)
Para os Bahá'ís e para muitos Cristãos, o que quer que nós podemos idealizar como sendo o Criador não é senão um conceito humano limitado. Imaginar um Ser Supremo numa forma mortal, por muito enaltecida que seja, é criar uma forma restrita e limitada de Deus. Além disso, assim que imaginamos Deus de uma forma, podemos sempre imaginar algo maior que não tem forma. Desta forma, o verdadeiro Criador estará sempre para além das nossas concepções, não importa o quanto tentemos. Mesmo que admitissemos que o Criador pudesse encarnar a Sua Essência, o que nós veríamos ainda estaria condicionado pelas limitações da nossa mente. Mesmo que houvesse uma encarnação da divindade, nós seríamos incapazes de percebê-la.
Não deixeis que as coisas do corpo obscureçam a luz celestial do espírito, para que, pela graça divina, possais entrar com os filhos de Deus no Seu Reino eterno. Esta é a minha oração por todos vós. (‘Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 44)

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Texto Original: Rejecting Dogma (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

2 comentários:

Emmanuel disse...

Segundo os católicos, Deus é Amor e o Seu filho Jesus Cristo veio à Terra para encarnar pela Sua Vida o Amor.

Marco Oliveira disse...

Emmanuel,
Este é uma assunto em que Bahá'ís e Católicos têm opiniões diferentes.
Para nós, Bahá'ís, Jesus é um dos Mensageiros de Deus.
E em todos os esses Mensageiros manifesta-se o Verbo de Deus.