sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Para além da comida: o verdadeiro propósito do jejum Bahá'í

Por Margaret Tash.

Há mais de 40 anos que sou Bahá'í, e ainda estou a aprender a desvendar o mistério do jejum Bahá’í de dezanove dias.

Esta prática espiritual anual, que os Bahá’ís iniciam nos começos de Março de cada ano, consiste em abster-se de alimentos e bebidas desde o nascer ao pôr do sol. Embora pareça simples à primeira vista, o jejum é algo muito profundo e complexo. As Escrituras Bahá'ís dizem:

Existem várias fases e etapas no Jejum, e incontáveis efeitos e benefícios estão ocultos nele. Felizes aqueles que os alcançam. (Bahá’u’lláh, citado em The Importance of Obligatory Prayer and Fasting)

Este jejum físico é um símbolo do jejum espiritual. Este jejum conduz à purificação da alma de todos os desejos egoístas, à aquisição de atributos espirituais, à atracção às brisas do Todo-Misericordioso e ao acender da chama do amor divino. (‘Abdu’l-Bahá, idem)

Eu sei que o verdadeiro propósito do jejum é obter estes benefícios espirituais intangíveis, e, no entanto, muitas vezes dou por mim a dar demasiada ênfase aos seus aspectos físicos. Normalmente, encaro o jejum com um misto de expectativa e ansiedade — expectativa porque sei que é uma enorme bênção, e ansiedade por pensar que não vou conseguir observá-lo de forma completa ou perfeita. Se me distrair um bocadinho, surge também a culpa.

Tenho aprendido que na raiz destas emoções está um hábito de pensamento que engana muitos de nós: uma “falsa dicotomia” ou “pensamento tudo ou nada”. Isto pode manifestar-se como “ou estás a jejuar… ou não estás”, ou “ou conseguiste jejuar o dia todo, ou falhaste”.

Os ensinamentos Bahá’ís incentivam este tipo de pensamento? Certamente que não. Na verdade, incentivam-nos a evitar falsas dicotomias. Grande parte desta Fé baseia-se na intenção sincera — simplesmente em nos esforçarmos ao máximo para pôr em prática aquilo que Deus nos pede.

Assim, na minha opinião, quanto mais compassivos formos connosco próprios, simplesmente fazendo o melhor que podemos, mais seremos capazes de focar a nossa atenção naquilo que realmente importa — não a comida, mas sim desfrutar dos benefícios espirituais do jejum.

Aqui estão algumas acções doces e carinhosas que estou a aprender, e que nos podem ajudar a manter o foco na dimensão espiritual do jejum.

Preparação para o Jejum

Em primeiro lugar, certifique-se de que o jejum é fisicamente adequado para si. Como o propósito fundamental do jejum é espiritual, não há motivo para prejudicar a sua saúde. As pessoas com menos de 15 anos, maiores de 70 anos, grávidas, lactantes, em viagem ou doentes não necessitam de jejuar — assim como aquelas cujas condições médicas ou de trabalho exijam um esforço físico intenso que o torne prejudicial. Em caso de dúvida sobre a adequação do jejum para si, consulte um médico antes de tentar jejuar.

Se tiver condições para jejuar, um pouco de preparação prévia tornará os aspetos físicos mais fáceis de lidar. Afinal, somos seres humanos com corpos que precisam de ser alimentados. Uma alteração na rotina provoca ansiedade e oscilações nos níveis de açúcar no sangue. Cada um de nós é diferente, sem dúvida, por isso procure uma rotina mais adequada para si. Se desejar juntar-se a nós na observação do Jejum, contacte os Bahá'ís da sua região para obter mais informações e dicas de preparação.

Perseverança — e Foco no Positivo.

O jejum não é suposto ser fácil — pelo menos no aspecto fisico. No entanto, os benefícios e recompensas espirituais são poderosos, por isso seja compassivo consigo mesmo e concentre-se no positivo: no que está a ganhar. Como escreveu Bahá'u'lláh:

Embora exteriormente o jejum seja difícil e penoso, interiormente é abundância e tranquilidade. (Bahá’u’lláh, idem)

Aprendi outro conceito útil durante o Jejum: alguns novos hábitos desafiam-nos não por serem inerentemente difíceis, mas simplesmente por serem novos. Com o tempo, a nossa observância de leis espirituais como o Jejum torna-se mais fácil e notamos cada vez mais benefícios.

Jejuar — e Orar

Como o jejum tem um carácter fundamentalmente espiritual, a oração irá ajudar-nos a tirar o máximo partido dele.

Na oração, podemos pedir a Deus auxílio para quaisquer dificuldades. Esta preparação espiritual ajuda-nos a enfrentar os desafios que quase certamente surgirão. Orar de manhã cedo — antes ou depois do pequeno-almoço — é uma experiência única e maravilhosa. Muitos que não podem jejuar fisicamente acordam, ainda assim, para rezar ao amanhecer, aproveitando esta oportunidade especial para comungar com Deus nas primeiras horas do dia. As Escrituras Bahá’ís contêm belas orações reveladas especificamente para o Jejum. Aqui fica um excerto de uma delas:

Que refúgio existe para além de Ti, ó meu Senhor, para onde eu possa fugir, e onde haja um porto seguro para onde me possa dirigir? ... Não existe protetor além de Ti, nenhum lugar para onde fugir senão para Ti, nenhum refúgio a procurar senão em Ti. Faze-me provar, ó meu Senhor, a divina doçura da Tua lembrança e do Teu louvor. (Bahá’u’lláh, Bahá’í Prayers, p. 256)

Se isto alimentar o seu espírito, pode ler mais orações para o jejum em https://bahai.org.br/oracoes-bahai/

Construir uma Comunidade

Em vez de enfrentarmos sozinhos as dificuldades do jejum, podemos explorá-las com os amigos em conversas sinceras e profundas. Isto leva-nos a refletir sobre as nossas acções, o que nos pode ajudar a crescer. O jejum dá-nos a oportunidade de praticar um princípio fundamental para a construção de comunidades espirituais: o "acompanhamento", que significa apoiarmo-nos uns aos outros nos nossos esforços para servir Deus e a humanidade, e para viver uma vida espiritual:

Esta evolução na consciência colectiva é perceptível na crescente frequência com que a palavra “acompanhar” surge nas conversas… Assinala o fortalecimento significativo de uma cultura em que a aprendizagem é o modo de operação, um modo que fomenta a participação informada de cada vez mais pessoas num esforço conjunto para aplicar os ensinamentos de Bahá’u’lláh à construção de uma civilização divina. (A Casa Universal de Justiça, Mensagem dirigida aos Baha’is do mundo, Abril de 2010)

O jejum é uma ocasião natural para manter o contacto, estudar e reflectir em conjunto, e apoiarmo-nos mutuamente da forma que for necessária. Quando uma pessoa mais experiente é acompanhada por alguém que está a iniciar o jejum, a aprendizagem pode ser maximizada — ambos podem aprender lições valiosas um com o outro.

Dar no nosso melhor, um passo de cada vez

Embora beneficiemos do apoio e da aprendizagem mútua, o Jejum é também uma experiência profundamente pessoal e íntima, e a forma como é observado é, em última análise, uma questão entre o indivíduo e Deus. As Escrituras Bahá’ís pedem-nos simplesmente que façamos o nosso melhor e que deixemos os nossos corações serem fortalecidos e os nossos espíritos renovados ao cumprirmos esta lei espiritual. Ao darmos cada passo hesitante e imperfeito, podemos apoiar-nos uns aos outros nos nossos esforços e, claro, sabemos que Deus também está lá, à espera para nos estender a mão e nos guiar pelo resto do caminho.

Ao aproximarmo-nos do Jejum com este espírito, teremos muito mais hipóteses de alcançar as suas diversas fases e talvez desvendar alguns dos seus mistérios durante este período único e maravilhoso. Como Bahá'u'lláh escreveu numa das Suas orações para o jejum:

Dotaste cada hora destes dias com uma virtude especial. (Prayers and Meditations of Baha’u’llah, p. 143)

Se desejar saber mais sobre o Jejum Bahá’í, consulte este site: https://www.bahai.org/pt/beliefs/life-spirit/devotion/fasting

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Texto original: Beyond Food: The Real Purpose of the Baha’i Fast (www.bahaiteachings.org)

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Margaret Tash é nutricionista. Sempre teve interesse em estudar o impacto das escolhas alimentares na nossa saúde e em procurar soluções para acabar com os efeitos devastadores da fome no mundo.

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