terça-feira, 10 de maio de 2005

Epístola de Maqsúd (3)

O terceiro post sobre a Epístola de Maqsud. Entre parentesis rectos indicam-se os números dos parágrafos. O primeiro parágrafo começa com as palavras "Ele é Deus, excelso é Ele, o Senhor de Majestade e poder".
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UMA NOVA ORDEM MUNDIAL

Depois de caracterizar os problemas da ordem política e social que afectam os povos da terra, Bahá'u'lláh sugere uma fórmula para se alcançar a paz e a tranquilidade entre os povos do mundo:
"Há de vir o tempo em que se compreenda universalmente a necessidade imperiosa de se convocar uma vasta assembleia de homens – assembleia essa, que a todos abranja. Os governantes e reis da terra devem forçosamente assisti-la e, participando das suas deliberações, considerar aqueles meios necessários e modos que possam lançar entre os homens os alicerces da Grande Paz do mundo. Tal paz exige que as Grandes Potências resolvam, para tranquilidade dos povos da terra, reconciliar-se plenamente entre si. Se algum rei recorrer a armas contra outro, todos unidos, deverão levantar-se e impedi-lo. Se isto for feito, as nações do mundo não mais precisarão de armamentos , excepto a fim de preservar a segurança de seus domínios e manter a ordem interna dentro de seus territórios. Isto assegurará a paz e o sossego de cada povo, governo e nação"[8].(a)
Será que podemos identificar a actual ONU
com a "vasta assembleia de homens..." preconizada por Bahá'u'lláh?

O parágrafo anterior é um dos mais citados na literatura baha'i. Contém uma fórmula que parece óbvia aos olhos de qualquer pessoa com um pouco de bom senso, nos dias de hoje. Na história recente já assistimos a algumas tentativas de pôr em prática planos semelhantes a este. A Liga das Nações e a Organização das Nações Unidas são os exemplos que mais rapidamente nos ocorrem. Estas duas organizações foram criadas na ressaca de Guerras Mundiais. De alguma forma, reflectiam um desequilíbrio mundial da época em que foram criadas; com o passar do tempo tornaram-se desajustadas às necessidades mundiais. Neste sentido, não é de admirar que hoje se clame por uma ONU mais equilibrada, mais interventiva, e mais representativa dos actuais equilíbrios mundiais. Na minha interpretação pessoal das palavras de Bahá'u'lláh, noto que este tipo organização mundial deveria reflectir o equilíbrio desejável entre as nações e não o equilíbrio vigente numa determinada época da história da humanidade (mas isto é uma interpretação muito pessoal!).

Os governantes são, de acordo com as palavras de Bahá'u'lláh, responsáveis pelo bem-estar e tranquilidade dos povos. Para qualquer homem de estado, a justiça deve ser a pedra angular dos seus actos; o objectivo de qualquer governante deve ser “o bem-estar, a protecção, a segurança e a protecção do género humano e salvaguardar vidas humanas[12]. Não deixa de ser interessante notar que, nesta Epístola, Bahá'u'lláh se refere aos reis e governantes como "símbolos do poder de Deus"[6], e lamenta que "o tabernáculo da justiça tenha caído nas garras da tirania e opressão"[10]. O reconhecimento da importância do estatuto dos governantes e a condenação dos tiranos são assuntos que já tinham sido abordado na Epístola aos Reis.

Na Epístola de Maqsúd, Bahá'u'lláh acrescenta que os governantes devem ter uma visão mundialmente abrangente. O serviço ao estado e à governação não pode ser feito apenas tendo como por objectivo levar benefícios a um determinado povo em detrimento de outros, beneficiar apenas um segmento da sociedade ou uma certa classe social. Bahá'u'lláh esclarece: "É homem, verdadeiramente, quem hoje se dedica ao serviço da humanidade inteira"[13]. E quanto aos nacionalismos vigentes: "que não se vanglorie quem ama o seu próprio país, mas sim quem ama o mundo inteiro. A terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos"[13]. Os Governantes devem estar conscientes deste sentido de justiça e de serviço à humanidade para levar os povos a perceber quais os seus melhores interesses.

Outro ensinamento apresentado nesta Epístola consiste na adopção de uma língua auxiliar internacional: "Aproxima-se o dia em que todos os povos terão adoptado um idioma universal e uma escrita comum. Quando isto for realizado, não importa a que cidade um homem viajar, será como se estivesse entrando em sua própria casa"[10]. Trata-se de mais uma medida destinada a aumentar o entendimento e a concórdia entre os povos do mundo. As nações da terra devem nomear homens de sabedoria que, mediante diálogo e consulta, deverão escolher "uma língua entre as várias línguas existentes, ou criarem uma nova, a ser ensinada às crianças em todas as escolas do mundo"[9]. (b)

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NOTAS
(a) – 'Abdu'l-Bahá reitera este ensinamento : "Os soberanos do mundo devem firmar um tratado obrigatório e estabelecer um convénio, cujas disposições serão claras, invioláveis e definitivas. Devem proclamá-lo a todo o mundo e obter a sanção da raça humana... Todas as forças da humanidade devem ser mobilizadas para assegurar a estabilidade e permanência deste Mais Grandioso Convénio... O princípio fundamental subjacente a este Pacto solene deve ser tão forte que, se qualquer governo, mais tarde, violar qualquer das suas provisões, todos os governos da terra se devem levantar para o reduzir à absoluta submissão, ou melhor, a raça humana como um todo deve decidir, com todo o poder ao seu dispor, destruir esse governo." 'Abdu'l-Bahá citado em World Order of Bahá'u'lláh, 192
(b) - Este ensinamento tem sido motivo de aproximação entre bahá’ís e esperantistas. Ver post sobre Lidia Zamenhof.

8 comentários:

Anónimo disse...

Tens de fazer páginas de menor qualidade. A explanação está demasiado objectiva. Os textos estão muito bem escolhidos, não há nada a criticar...e a "clientela" foge.
Podes lançar para a discussão qual será a lígua universal, o Esperanto? O Português? Ou uma qualquer outra?

João Moutinho

Anónimo disse...

Há uma questão que gostaria de colacar, embora (ainda) não me aflija.
Tudo leva a crer que a actual superpotência emergente, a China, virá a possuir uma força descomunal face aos restantes países, nada que se compare com a actual posição dos Estados Unidos na cena internacional. Será que teremos uma ONU suficientemente forte? E o que esperar da China daqui a algumas décadas?
É provável que a "Guerra dos Boxers" ainda não esteja esquecida.
Um Eixo Pequim - Nova Deli, o que poderá daí advir?

João Moutinho

Marco disse...

A especulação sobre a evolução política mundial fica para os especialistas dessa matéria.
Experimenta ver os programas dos analistas políticos. Pode ser que encontres algumas respostas... ou que fiques com mais questões por responder...

Pedro Fontela disse...

Eu não quero estar a ser chato mas... acho que Kant adiantou-se no que toca propor um modelo realista da "paz perpétua".

Marco disse...

Pedro,
É óbvio que não estás a ser chato. Eu desconhecia isso. Nunca li nada de Kant. O teu comentário até me deixou curioso...
Aliás já encontrei paralelismos muito interessantes entre alguns textos baha'is, princípios aristotélicos e textos de S. Tomás.

Anónimo disse...

Não, não és nada chato. Esse comentário é muito bem vindo - até parece que eu sou o autor do blog. O Kant considerou mesmo que não fazia sentido matar os nossos clientes (parceiros comerciais).
A exclusão dos grandes pensadores em nome da religião jamais ocorrerá, é pelo menos essa a minha convicção.
Séneca, uma grande pensador romano, era de uma época contemporânea de Jesus, talvez de uma data um pouco posterior, provavalemente mais coincidente com Paulo.
Nunca poderemos saber qual a influência que um Manifestante de Deus tem sobre a humanidade, pois ela extende-se muito além do visível.
Já agora, Kant era originário de Konisberg, actual Kalingrado, que fica no enclave russo entre a Polónia e Lituãnia, não é?
Talvez ajude a iluminar a Rússia, um país que tanto sofreu no século passado.

João Moutinho

Pedro Fontela disse...

João,

Penso que a teoria de Kant de paz perpétua é muito mais vasta que simples associações comerciais. Sim a sua cidade de origem está no enclave Russo. O problema Russo é um pouco mais vasto do que falta de filosofia... os russos nunca tiveram outro sistema que não fosse a autocracia - e segundo estudos recentes não estão muito interessados em mudar.

Anónimo disse...

Infelizmente a ONU também não se comporta de acordo com o propósito para que foi criada e muitas vezes "o espirito" por muito que queira actuar, não consegue porque as barreiras retrógradas, conformistas e interesseiras são muitas. Acho que isto é só um ensaio de orquestra! A orquestra ainda está a vir de novos homens com novas posturas. Homens mais espiritualizados do que comendados pelo vil metal o que é dizer pelo "ouro negro"!
Até, ainda temos que passar muito, mas tudo isso vai fazendo parte da nossa aprendizagem como seres humanos falíveis que somos.

Luz