sexta-feira, 23 de junho de 2006

Kitáb-i-Íqán (21)

MOISÉS (1ª Parte)

No âmbito do estudo do Kitáb-i-Íqán, apresento hoje o primeiro de dois posts sobre a figura de Moisés nas Escrituras Bahá’ís. Apesar dos mais significativos Textos Sagrados da religião baha’i já se encontrarem traduzidos para inglês, tenho de reconhecer que este que este breve estudo ficou limitado a essas mesmas traduções, pois não conheço a língua árabe nem a língua persa. Não obstante essa limitação, espero que seja suficientemente elucidativo sobre a perspectiva bahá'í relativamente a Moisés.

Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver
Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.

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As primeiras conversões à religião bahá'í ocorreram entre muçulmanos desde 1844; na década de 1890, a Fé Bahá’í “chegou” ao Ocidente e a partir desse momento deram-se as primeiras conversões entre cristãos ocidentais(a). Não admira, pois, que nas Escrituras Bahá’is, se encontrem vários livros e epístolas reveladas como resposta a esses primeiros crentes, onde – fruto da necessidade de enquadrar as respostas em função dos valores e das convicções originais desses crentes – existem muitas referências a Cristo e a Maomé.

Desta forma, compreende-se que Cristo e Maomé sejam os fundadores das Religiões Mundiais mais referidos nas Escrituras Bahá’ís. Mas sendo a divindade de Moisés prontamente reconhecida quer por Cristãos, que por Muçulmanos, é com alguma naturalidade que, nesses livros e epístolas, encontramos uma significativa quantidade de referências ao fundador do Judaísmo.

Além do Kitáb-i-Íqán, onde o nome do fundador do Judaísmo é mencionado em trinta e uma ocasiões, existem ainda outros dois livros das Escrituras Bahá’ís onde o Seu nome é referido com frequência: Epístola ao Filho do Lobo (b) e Respostas a Algumas Perguntas (c).

Nas Escrituras reveladas por Bahá'u'lláh as referências a anteriores Manifestantes de Deus é acompanhada por título ou designações elogiosas. Mantendo este estilo, no Kitáb-i-Íqán, Moisés é descrito como uma "Árvore Sagrada"[12], "Cedro Divino"(d), "Guia Divino"[58], "Aquele que conversava com Deus"[68] e "filho de 'Imrán, um dos Profetas excelsos e Autor de um Livro divinamente revelado."[57]

Os Simbolismos
Comparativamente aos textos do Antigo Testamento, com a qual a maioria dos leitores ocidentais se encontra mais familiarizado, uma das primeiras diferenças que se nota nas palavras de Bahá'u'lláh é a ênfase no simbolismo de algumas descrições. Apesar de nunca negar a historicidade dos relatos contidos nos Textos Sagrados, o fundador da religião baha’i prefere levar o leitor perceber que a verdadeira riqueza do Texto se encontra nos múltiplos significados simbólicos ali contidos (e). A título de exemplo veja-se a seguinte referência a Moisés:

Armado com a vara do domínio celestial e adornado com a nívea mão do conhecimento divino, procedendo do Paran do amor de Deus e manejando a serpente do poder e da majestade eterna, Ele brilhou do Sinai da luz sobre o mundo.[12]
Nesta frase, a vara e a serpente(f) em que este se transforma são apresentados como símbolos do poder divino de Moisés. A luz que brilhou da sarça ardente(g) e o próprio Moisés são usados para representar o conhecimento divino transmitido pela revelação de Moisés; o Faraó representa o expoente máximo da oposição à Mensagem Divina, da injustiça e da descrença.


O Monte Sinai, numa ilustração de David Roberts, 1839

Algumas mais conhecidas do Êxodo dos Hebreus, como as pragas do Egipto ou a travessia do Mar Vermelho, encontram-se ausentes do Kitáb-i-Íqán; em contrapartida, Bahá'u'lláh enfatiza o confronto entre Moisés e o Faraó[12, 57, 92] como um choque entre os que acreditavam na mensagem Divina e os que lhe faziam oposição e a perseguiam. Mais do que um confronto entre hebreus e egípcios, Bahá'u'lláh descreve-o como um choque entre os crentes e os descrentes:
O tirano copta jamais participará do cálice tocado pelos lábios do clã da justiça, e o Faraó da descrença não poderá esperar reconhecer jamais a mão do Moisés da verdade.[16]

Rejeitando o Moisés do conhecimento e da justiça, aderiram ao Samiri
(h) da ignorância.[210]

A Mensagem de Moisés

Os ensinamentos de Moisés, tal como os ensinamentos de outros Manifestantes de Deus, têm por objectivo proceder ao renascimento espiritual dos povos. Ao contrário do que afirmam as tradicionais interpretações do Antigo Testamento, Bahá'u'lláh sustenta que a Mensagem de Moisés não se destinava apenas ao povo hebreu; nas palavras do fundador da religião bahá’í, Moisés "...chamou todos os povos e raças da terra para o reino da eternidade; convidou-os a participar dos frutos da árvore da fidelidade"[12].

Bahá'u'lláh reforça esta universalidade da Mensagem de Moisés, ao citar o Alcorão descrevendo o caso de um familiar do Faraó que acreditou na Mensagem de Moisés: "E disse um homem da família do Faraó, que era crente mas ocultava a sua fé – Quereis matar um homem por dizer que o meu Senhor é Deus, quando já veio com sinais do vosso Senhor? Se for um mentiroso, sobre ele cairá a sua mentira, mas se for homem da verdade, uma parte daquilo que ele ameaça haverá de cair sobre vós. Em verdade, Deus não guia quem é transgressor ou mentiroso."(40:28) [12]

‘Abdu’l-Bahá, filho de Bahá'u'lláh, refere que a influência da Mensagem de Moisés perdurou vários séculos e a sua influência estendeu-se aos povos vizinhos. "Tão grande foi o desenvolvimento atingido por esse povo, que os sábios da Grécia chegaram a considerar os homens ilustres de Israel como modelos de perfeição. Sócrates, por exemplo, visitou a Síria, e recebeu dos filhos de Israel os ensinamentos relativos à unidade de Deus e à imortalidade da alma e, após seu regresso, disseminou-os por toda a Grécia."(i)

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REFERÊNCIAS


(a) – Sobre as conversões de outras minorias religiosas iranianas (judeus, cristãos e zoroastrianos) à Fé Bahá'í ver
The Conversion of Religious Minorities to the Bahá'í Faith in Iran de Susan Maneck.
(b) – Este livro foi revelado por Bahá'u'lláh em 1891, um ano antes de falecer. Nele, o fundador da religião baha’i recorda vários episódios da Sua vida, acontecimentos relacionados com os primeiros crentes e revela novamente textos revelados anteriormente. Neste livro o nome de Moisés é mencionado vinte e uma vezes.
(c) – Este livro contém o registo de várias conversas entre 'Abdu'l-Bahá e uma das primeiras crentes ocidentais (Laura Clifford Barney), durante a visita desta em 1907, a ‘Akká. Ao contrário do Kitáb-i-Íqán, onde Bahá'u'lláh aborda diversos temas islâmicos e cita frequentemente o Alcorão (não nos podemos esquecer que o destinatário deste livro era muçulmano), durante estas conversas, 'Abdu'l-Bahá abordou muitos temas cristãos e citou frequentemente a Bíblia. Neste livro, o nome de Moisés é mencionado trinta e duas vezes.
(d) –
Epistle to the Son of the Wolf, pag. 65. Sobre a representação dos Manifestantes de Deus como Árvores, ver o post A Árvore da Vida.
(e) – No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh apresenta um modelo de interpretação das Escrituras Sagradas que assenta na ênfase do simbolismo. Segundo este modelo, é particularmente importante procurar os significados simbólicos do Texto Sagrado sempre que o seu sentido literal possa ir contra o senso comum e a ciência. Sobre o propósito do simbolismo nas Escrituras, ver o post Para que serve o Simbolismo nas Escrituras?
(f) – Exodo 4:2-3, 7:9-12
(g) – Exodo 3:2-4
(h) – Um mago contemporâneo de Moisés.
(i) – Respostas a Algumas Perguntas, cap. 5

2 comentários:

João Moutinho disse...

"Moisés "...chamou todos os povos e raças da terra para o reino da eternidade; convidou-os a participar dos frutos da árvore da fidelidade""
- Falas de um assunto perante o qual já me questionei várias vezes.
É que mesmo segundo o Evangelho de São Mateus (pelo menos em algumas passagens) Jesus veio para salvar o Povo Eleito. Todos nós (os não judeus) surgiamos como "gentios".

Marco disse...

Joao Moutinho,
Essas frases do Evangelho devem ser enquadradas em função dos destinatários do texto sagrado.
Se o Evangelho de S. Mateus se destinava a partilhar a mensagem de Jesus com comunidade judaicas, então essa frase faz sentido.
Da mesma forma que percebemos o sendo de expressões diferentes no Evangelho de S. Marcos, provavelmente escrito para comunidades não judaicas.