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terça-feira, 24 de março de 2015

Definição de anti-Cristo

Por Tom Tai-Seale.


Talvez a pior coisa que um Cristão pode dizer a uma pessoa que adere a uma nova religião é que ela está a seguir o "anti-Cristo".

A Bíblia tem quatro referências à palavra "anti-Cristo" e uma referência a "anti-Cristos." Nenhuma destas foi feita por Jesus. Quatro das cinco referências surgem na Primeira Carta de João. Esta carta foi escrita para proteger os cristãos inexperientes de falsas doutrinas que tinham surgido no seio do Cristianismo. Nas duas primeiras referências lemos: "Ouvistes dizer que há-de vir um anti-Cristo; pois bem, já apareceram muitos anti-Cristos; por isso reconhecemos que é a última hora." (1 Jo 2:18). Quem eram estes anti-Cristos, é descrito na referência seguinte onde se lê: "Quem é, então, o mentiroso? Quem é, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o Anticristo, aquele que nega o Pai e igualmente o Filho." (1 Jo 2:22).

A Fé Bahá'í sustenta firmemente que Jesus era o Cristo. Bahá'u'lláh escreve sobre a rejeição judaica do Messias, Jesus:
E quando os dias de Moisés terminaram, e a luz de Jesus, brilhando na alvorada do Espírito, envolveu o mundo, todo o povo de Israel se levantou em protesto contra Ele. Vociferavam que Ele cujo advento da Bíblia tinha predito devia necessariamente promulgar e cumprir as leis de Moisés, enquanto este jovem Nazareno, que reivindicou a condição de Messias divino, tinha anulado as leis do divórcio e do sábado - as mais significativas de todas as leis de Moisés. Além disso, onde estavam os sinais do Manifestante que estava por vir? Este povo de Israel, ainda no dia de hoje, está à espera do Manifestante que a Bíblia predisse! Quão numerosos os Manifestantes da Santidade, quão numerosos os Reveladores da eterna luz que apareceram desde o tempo de Moisés, e, no entanto, Israel, envolta nos mais densos véus de fantasia satânica e falsas imaginações, ainda aguarda que o ídolo da sua própria obra surja com sinais como ela própria concebeu! (Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. XIII).
E 'Abdu'l-Bahá, diz o seguinte sobre Cristo:
Vê quantos reis conquistadores existiram, quantos estadistas e príncipes, organizadores poderosos; todos eles desapareceram, enquanto as brisas do Cristo ainda sopram; a Sua luz ainda resplandece; a Sua melodia ainda ecoa; o Seu estandarte ainda flutua; os Seus exércitos ainda lutam; a Sua voz celestial ainda é docemente melodiosa; das Suas nuvens ainda chovem preciosidades; o Seu relâmpago ainda cintila; o Seu reflexo é ainda claro e brilhante; o Seu esplendor ainda é radiante e luminoso; e o mesmo acontece com aquelas almas que estão sob a Sua protecção e brilham com a Sua luz. (Respostas a Algumas Perguntas, cap. 38)
Os Bahá'ís não podem, de forma alguma, ser descritos como anti-Cristos. Na verdade, os Baha'is reverenciam Cristo e os Seus ensinamentos.

Imagem do anti-Cristo num Mosteiro Macedónio
João tinha uma preocupação particular quando escreveu os versículos sobre os anti-Cristos. Um grupo de cristãos conhecidos como docetistas alegava que a forma humana de Jesus era uma ilusão. João estava ansioso por rejeitar essa falsa noção. A sua preocupação com os ensinamentos docetistas reflecte-se claramente na última referência ao anti-Cristo na sua primeira carta:
Reconheceis que o espírito é de Deus por isto: todo o espírito que confessa Jesus Cristo que veio em carne mortal é de Deus; e todo o espírito que não faz esta confissão de fé acerca de Jesus não é de Deus. Esse é o espírito do anti-Cristo, do qual ouvistes dizer que tem de vir; pois bem, ele já está no mundo. (1 Jo 4,2-3)
Este mesmo tema continua na Segunda Carta de João, onde surge a quinta e última referência a um anti-Cristo: "É que apareceram no mundo muitos sedutores que afirmam que Jesus Cristo não veio em carne mortal. Esse é o sedutor e o anti-Cristo!" (2 Jo 1:7).

É claro que os Bahá'ís acreditam que Jesus veio na carne, como um ser humano de verdade, um Manifestante de Deus.

Na Bíblia, um anti-Cristo refere simplesmente aqueles que se opõem ou negam o Escolhido de Deus. Nos dias de Jesus, alguns quiseram negar o Seu papel como o Escolhido de Israel; outros, por razões teológicas, quiseram negar que Jesus tinha um corpo humano. Os Bahá'ís negam nenhuma das duas.

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Texto Original: Defining the Anti-Christ (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Jesus Cristo: os Nomes de Deus

Por Maya Bohnhoff 

Todos os ensinamentos dos Profetas são um só; uma só fé; uma Luz Divina brilhando em todo o mundo. Agora, sob o estandarte da unicidade da humanidade, todos os povos de todos os credos devem afastar-se dos preconceitos, tornar-se amigos e crentes em todos os Profetas. Tal como os Cristãos acreditam em Moisés, também os judeus deveriam crer em Jesus. Tal como os Muçulmanos acreditam em Cristo e Moisés, também os Judeus e os Cristãos devem acreditar em Maomé. Assim todas as desavenças desapareceriam, todos estariam unidos. Bahá’u’llah veio para este propósito. ('Abdu'l-Bahá, 'Abdu'l-Bahá in London, p. 40)
No início desta série textos referi que fui criada com a crença de que Jesus Cristo era a palavra final de Deus para o mundo. No entanto, quando eu própria procurei as escrituras, estas desafiaram sempre essa crença. Da mesma forma que Moisés anuncia o aparecimento de Cristo com as palavras "um profeta como eu" (algo que leva a perceber tipo de profeta foi Moisés), Cristo também fala de futuros manifestantes da Luz Divina.

Especificamente, Jesus refere o "Espírito da Verdade", a quem também se refere como "outro Consolador" em várias ocasiões no registo do Evangelho. Em João 16:12-15, Ele afirma:
Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender por agora. Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a Verdade completa. Ele não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há-de vir. Ele há-de manifestar a minha glória, porque receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer. Tudo o que o Pai tem é meu; por isso é que Eu disse: 'Receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer'.
Moisés retirado das águas, Nicholas Poussin
Lendo isto com cuidado, fiquei impressionada com o que Cristo dizia sobre este Espírito da Verdade: que Ele possui "tudo o que o Pai tem" tal como o próprio Cristo. Este excerto essencialmente diz que "Deus suscitará um profeta como Eu", num momento futuro, que proferirá a palavra de Deus, profetizando, glorificando-me e proclamando a minha mensagem. Noutro excerto (João 14:26), Cristo diz que o Espírito da Verdade "há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse" - tal como Cristo recordou os ensinamentos de Moisés aos que O ouviam, citando frequentemente Moisés quando Lhe era pedido que desse a conhecer a sabedoria divina.

Assim, Deus continua a falar à humanidade através destas almas preciosas; e tem falado “desde o começo do mundo” como afirmou Pedro. Deus nunca deixou de falar à humanidade; mas a humanidade tem uma audição selectiva.

O livro do Apocalipse contém outra confirmação da ideia de que Deus lança sobre nós a mesma Luz através de diferentes lâmpadas. João escreve no Apocalipse que o Espírito se refere a Si próprio como "Alfa e Ómega, o primeiro e o último" (compare-se com a frase de Krishna: "Eu sou o começo, e o meio e o fim de todas as coisas"). Ele também faz uma profecia enigmática:
Ao que vencer, fá-lo-ei coluna no templo do meu Deus. Entrará e não mais sairá dele. E gravarei nele o meu novo nome, o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu de junto do meu Deus. (Apocalipse 3:12)
Aqui, Cristo afirma que vai ter um nome diferente, um novo nome. E, embora eu também tenha sido ensinada que Jesus é o nome de Deus, não há qualquer versículo em qualquer livro da Bíblia que afirme tal coisa, nem sequer Jesus sugeriu isso.

Quando a minha amiga Bahá’í me anunciou que "Cristo voltou e o seu novo nome é Bahá'u'lláh", fiquei indignada, apavorada, espantada, fascinada, e, por fim, galvanizada, porque já não considerava enigmática a profecia de Cristo. O novo nome, escreveu Bahá'u'lláh, era "a Glória de Deus" - "Bahá'u'lláh" em árabe, "Baha-ela", em hebraico. E a Nova Jerusalém, a Cidade de Deus, era o Seu livro - o conjunto de ensinamentos de Deus, renovado com o aparecimento de cada Mensageiro.

Acabei por acreditar, que tal como Moisés se referiu a um futuro manifestante de Deus quando mencionou "um profeta como Eu", também Cristo se refere ao Seu regresso numa forma humana diferente, com um novo nome - a mesma luz numa lâmpada diferente.

As escrituras dizem-nos que Deus quer que Lhe obedeçam por amor, e não por medo. Não iria este espantoso e amoroso Deus - revelado por Cristo - mostrar esse amor desde o princípio que não tem princípio até ao fim que não tem fim? Será que Deus se revela brevemente apenas uma vez na história e depois remete-Se ao silêncio? Cristo diz que não.

Comecei esta série de textos, salientando que segui a linha da revelação de Moisés a Cristo (e depois d’Ele) para tentar refutar Bahá'u'lláh. Mas o que encontrei foram provas que confirmam a afirmação de Bahá'u'lláh ser o "outro Consolador" enviado por Deus, outra manifestação do Espírito da Verdade. Convido os leitores a ler as palavras de Cristo sobre o Espírito da Verdade e a reflectir em oração como estas caracterizam a relação entre Moisés e Cristo.

Que razões temos nós para acreditar que a revelação de Deus vai terminar, sobretudo quando mais precisamos dele?

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Texto Original: Jesus Christ: The Names of God (BahaiTeachings.org)
Texto Anterior: Jesus Cristo: o Caminho de Deus 
NOTA: Todas as citações biblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.
 
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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Jesus Cristo: o Pão da Vida

Por Maya Bohnhoff
Todos os profetas Se empenharam para que o amor se manifestasse nos corações dos homens. Sua Santidade Jesus Cristo procurou criar esse amor nos corações. Ele sofreu todas as dificuldades e provações para que o coração humano pudesse tornar-se a fonte nascente do amor. Portanto, devemos empenhar-nos com toda a nossa alma e coração que esse amor possa apossar-se de nós... ('Abdu'l-Bahá, Baha'i World Faith, pp 218-219).
O Baptismo (El Greco)
Nos dois últimos artigos, vimos uma profecia feita por Moisés na Torá (Deuteronómio 18:6-8), que foi cumprida por Jesus nos Evangelhos (João 5:45-47) - um cumprimento confirmado por Pedro nos Actos dos Apóstolos (3:19-26). Estes versículos definem que:
Jesus Cristo afirmou ser o Profeta que Moisés predisse na Torá. Jesus afirmou que Ele, como Moisés, recebeu a Sua revelação de Deus "frente a frente", algo que Ele confirmou em João 6:46. Os Seus discípulos, incluindo Pedro, entenderam Jesus como fazendo parte de uma série de Reveladores Divinos da palavra de Deus. (ver também, Hebreus 1:1,2)
Ao ser educada como cristã, foi-me ensinado que a palavra de Jesus foi a final - que não haveria qualquer outra revelação da palavra de Deus até ao "Fim dos Tempos". Quase dois mil anos depois desta suposta cessação do nosso diálogo com Deus, as minhas perguntas a qualquer clérigo eram: "Porque é que Deus falou directamente à humanidade apenas uma vez, há muito tempo e durante um tão curto espaço de tempo? E porque é que a Sua única mensagem teve lugar num momento em que não tínhamos a capacidade para registar e divulgar a sua mensagem de forma eficaz?"

Além disso, se Deus, como dizia Pedro no terceiro capítulo de Actos, tem enviado os Seus mensageiros "desde o começo do mundo", porque é que Ele parou? É certo que precisamos hoje da Sua orientação mais do que nunca, pois a nossa capacidade de autodestruição tem crescido exponencialmente.

A minha introdução à Fé Bahá'í - e através dela ao Islão, ao Budismo e a outras religiões - indicou que a revelação não havia sido limitada à missão de Cristo aqui na terra, ou mesmo ao que nós consideramos como as Religiões Abraâmicas. Além disso, os meus amigos Bahá’ís lembraram que as próprias palavras de Cristo eram prova disso.

A minha exploração sobre aquilo que a Fé Bahá'í ensinava (que era mais uma tentativa de refutá-la) levou-me a uma leitura atenta e devota da Bíblia. Fiquei especialmente impressionada com o que li no Evangelho de Mateus, capítulo 7. Aqui, Jesus pede aos Seus ouvintes que compreendam o tipo de Deus é o Seu Pai considerando a forma como nós - simples seres humanos - tratamos os nossos filhos:
«Pedi, e ser-vos-á dado; procurai, e encontrareis; batei, e hão-de abrir-vos. Pois, quem pede, recebe; e quem procura, encontra; e ao que bate, hão-de abrir. Qual de vós, se o seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará uma serpente? Ora bem, se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no Céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem.» (Mateus 7:7-11)
Pela primeira vez pensei nestas frases como mais do que uma referência reconfortante ao amor de Deus. Quem consegue imaginar que tendo vários filhos apenas mostra o seu amor para um deles? A um deles daríamos alimentação, roupas e educação; os outros passariam fome, não teriam roupa e seriam ignorantes, ou estariam condenados a viver com restos de comida, roupa velha e algum conhecimento, não vindos directamente de si, mas a partir do seu filho preferido? Se um pai humano realmente fizer essas coisas, a maioria de nós considerá-lo-á um criminoso. E, no entanto, eu acreditava que essa era a maneira que Deus agia.

Tive que me perguntar: Será que Deus dá o Pão da Vida apenas a um só povo favorecido e dá pedras a todos os outros? Será que Ele envia a Sua Palavra apenas para uma nação numa única ocasião em toda a história do mundo, e permite que os falsos profetas conduzam todos os outros? Se eu acreditava na palavra de Cristo, então a resposta era um sonoro "NÃO". Parecia claro das palavras e actos de Jesus que, como disse Pedro, "... Deus falou outrora pela boca dos seus santos profetas" desde o começo do mundo.

Tinha-me sido ensinado que Jesus foi a última revelação de Deus até ao fim de todas as coisas. No entanto, quem entre nós pode imaginar que um pai humano falasse com o seu filho uma única vez, quando ele fosse muito pequeno, e desde então permanecesse calado, sem lhe transmitir qualquer orientação ou palavras de amor, até que a criança estivesse no seu leito de morte?

Se nós, que somos imperfeitos, sabemos dar coisas boas aos nossos filhos, quanto mais sabe o Deus revelado por Cristo dar coisas boas a quem Lhe pede?

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Texto Original: Jesus Christ: The Bread of Life (BahaiTeachings.org)
Texto Anterior: Jesus Cristo: Frente a Frente com Deus
NOTA: Todas as citações biblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Jesus Cristo: Frente a Frente com Deus

Por Maya Bohnhoff

Cristo está sempre no mundo da existência. Nunca desapareceu dali... Tende a certeza que Cristo está presente. A beleza espiritual que hoje nos rodeia é proveniente das fragrâncias de Cristo. (Mensagem de 'Abdu'l-Bahá escrita para The Christian Commonwealth, 29 de Setembro de 1911, 'Abdu'l-Bahá in London, p. 40.)
No texto anterior explorámos o testemunho de Moisés, do apóstolo Pedro e do próprio Jesus Cristo, que Cristo era um "profeta como Moisés" predito no livro do Deuteronómio (18:15 - "O Senhor Deus suscitar-vos-á um Profeta como eu, de entre os vossos irmãos. Escutá-lo-eis em tudo quanto vos disser... ").

O testemunho de Cristo encontra-se em João 5:45-47:
Não penseis que Eu vos vou acusar diante do Pai; há quem vos acuse: é Moisés, em quem continuais a pôr a vossa esperança. De facto, se acreditásseis em Moisés, talvez acreditásseis em mim, porque ele escreveu a meu respeito.
No livro dos Actos 3:19-26, o principal apóstolo de Cristo, Pedro, confirma a ligação entre Moisés e Jesus Cristo, dizendo que o Profeta que Deus suscitou não era outro senão "o Seu servo", Jesus.

Não posso exagerar a importância disto. Jesus está a fazer o que, para um judeu, teria sido uma tremenda declaração - que, ao invés de receber inspiração em visões e sonhos como os profetas menores fizeram, Ele, tal como Moisés, viu a "imagem" do Pai . A Torá diz claramente que distingue Moisés de profetas como Ezequiel ou Isaías. Moisés não recebeu meras visões ou indicações de Deus. Ele viu Deus, frente a frente:
Escutai bem as minhas palavras. Se existisse entre vós um profeta, Eu, o Senhor, manifestar-me-ia a ele numa visão. Eu me daria a conhecer em sonhos, falaria com ele. Não é assim com o meu servo Moisés! Eu estabeleci-o sobre toda a minha casa! Falo com ele frente a frente, à vista e não por enigmas; ele contempla a imagem do Senhor! (Números 12:6-8)
Jesus Cristo afirma explicitamente esta mesma distinção. Ele diz, em João 6:46, "Não é que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai." Nesta simples frase, Jesus Cristo estabelece a Sua própria autoridade, afirmando que Ele, tal como Moisés, viu o Pai.

Diga-se, a propósito que o nome "Moisés" é egípcio e significa "filho", enquanto Jesus é mencionado como o Filho de Deus. A alegação de filiação tinha um significado cultural profundo para os judeus, pois um filho mais velho tinha a autoridade para aceita contratos em nome do seu pai. Trata-se de uma declaração de autoridade única.

Fui educada com a doutrina típica da Igreja Cristã de que Jesus Cristo foi único em toda a criação e que a veracidade dos Seus ensinamentos dependia desta característica única - uma singularidade provada pela ressurreição física do Seu corpo. No entanto, as palavras da Bíblia, que eu tinha sido educada a reverenciar, desafiaram essa crença, e levaram-me a ajustar o meu entendimento de Moisés e Jesus.

Mas Cristo não só afirma um parentesco com Moisés e os Profetas que Pedro diz que Deus tem enviado "desde o princípio"; ele próprio anuncia que haverá futuras revelações do Deus de toda a humanidade.

Isso é o que eu gostaria de explorar no próximo texto, em resposta à minha pergunta infância: Porque é que Deus só falou uma única vez?

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Texto Original: Jesus Christ: Face to Face with God (BahaiTeachings.org)
Texto Anterior: Jesus Cristo: Um Profeta como Moisés
NOTA: Todas as citações biblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Jesus Cristo: Um Profeta como Moisés

Por Maya Bohnhoff

Se o mundo material é infinito no que toca às suas manifestações de vida, poderá o mundo espiritual ser finito? Os profetas de Deus surgiram continuamente em eras do passado e continuarão a surgir ao longo das eras do futuro. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 170)
Fui criada como Cristã sem denominação - ou Cristã com muitas denominações. Devido à insistência da minha mãe que quando os pastores se desviavam do significado claro e do contexto da Escritura nenhum Deus poderia surgir dali, frequentámos uma diversidade de igrejas: Baptista, Metodista, Presbiteriana, Episcopal, Católica e Luterana.

Em todas essas igrejas a ideia central sobre Cristo sustentava que Ele era fundamentalmente diferente de qualquer outro dos mensageiros de Deus.

Encontrei essa mesma ideia num debate recente com uma cristã devota num fórum online. Em resposta à minha afirmação sobre a missão profética de Cristo, ela declarou: "Cristo não afirmou ser um profeta."

Fiz o que minha mãe me ensinou - procurei os versículos em que Cristo fala da Sua relação com Deus. E encontrei no livro de S. João (5:45-47) as seguintes palavras de Jesus:
Não penseis que Eu vos vou acusar diante do Pai; há quem vos acuse: é Moisés, em quem continuais a pôr a vossa esperança. De facto, se acreditásseis em Moisés, talvez acreditásseis em mim, porque ele escreveu a meu respeito. Mas, se vós não acreditais nos seus escritos, como haveis de acreditar nas minhas palavras?
Onde é que Moisés fala de Cristo? Aqui está uma referência no Deuteronómio 18:15-16:
O Senhor, teu Deus, suscitará no meio de vós, dentre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deves escutar. Foi o que pediste ao Senhor, teu Deus, no monte Horeb, no dia da Assembleia...
No versículo 18, Moisés reitera esta profecia. De acordo com a Torá, Moisés anuncia um profeta semelhante a Ele que iria levar mais longe a mensagem divina. Que conclusão se pode tirar, senão que, quando Jesus afirma que Moisés escreveu sobre Ele, Ele está a referir-se à profecia do Deuteronómio e que Ele é, portanto, um profeta como Moisés?

Pedro, ensinando com João em Jerusalém após a ascensão de Cristo, confirma que esta profecia se refere a Cristo (Actos 3:19-26):
Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam apagados; e, assim, o Senhor vos conceda os tempos de conforto, quando Ele enviar aquele que vos foi destinado, o Messias Jesus, que deve permanecer no Céu até ao momento da restauração de todas as coisas, de que Deus falou outrora pela boca dos seus santos profetas. Moisés disse: 'O Senhor Deus suscitar-vos-á um Profeta como eu, de entre os vossos irmãos. Escutá-lo-eis em tudo quanto vos disser. Quem não escutar esse Profeta, será exterminado do meio do povo.' ... Foi primeiramente para vós que Deus suscitou o seu Servo e O enviou para vos abençoar e para se afastar cada um de vós das suas más acções.
Depois de todos os meus anos em congregações cristãs, fiquei surpreendida com esta ligação, pois nenhum pastor que alguma vez ouvi pregou um sermão sobre isto, e nenhum estudo da Bíblia alguma vez o tinha abordado. Deparei-me com ela durante as minhas tentativas para provar, ou refutar, a mensagem de Bahá'u'lláh e Fé Bahá'í do ponto de vista bíblico.

A conclusão a que cheguei foi inevitável: Jesus Cristo foi, segundo três testemunhos distintos - Moisés, o próprio, e Pedro - um profeta como Moisés e um servo de Deus, como Moisés.

Isso levanta a questão: o que é que isto significa? Que tipo de profeta foi Moisés, e qual foi a natureza da servidão Ele partilha com Jesus?

Irei explorar estas questões nos próximos artigos.

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Texto Original: Jesus Christ: A Prophet Like Moses (BahaiTeachings.org)

ARTIGO SEGUINTE: Jesus Cristo: Frente-a-frente com Deus

ARTIGO RELACIONADO: Cristo é Deus?

NOTA: Todas as citações bíblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.

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Este texto é de autoria de Maya Bohnhoff, Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. Ela é também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Kitáb-i-Íqán (24)

O Sermão no Monte das Oliveiras (2ª parte)

No âmbito destes posts sobre o Kitáb-i-Íqán, apresento hoje o segundo post dedicado à análise dos parágrafos que Bahá'u'lláh dedica nesse livro a um excerto do sermão profético de Jesus(Mt 24:29-31). Neste post abordo os significados de alguns termos simbólicos existentes nesse excerto. Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo do Kitáb-i-Íqán. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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A QUEDA DAS ESTRELAS

Sabemos hoje que existem fenómenos astronómicos vulgarmente descritos como "queda de estrelas" ou "chuva de estrelas". Apesar da ciência explicar em que consiste uma chuva de meteoritos, torna-se difícil imaginar que um tal fenómeno possa ter uma influência significativa na história da humanidade.

Para explicar o significado das palavras "as estrelas cairão do céu", Bahá'u'lláh afirma que o termo "céu" é frequentemente usado para representar a religião, enquanto que o termo
"estrelas" é usado para simbolizar o clero e os líderes religiosos. Para o fundador da religião Bahá’í " a expressão «as estrelas cairão do céu» –refere-se à perversidade dos sacerdotes e à anulação das leis firmemente estabelecidas pela Revelação Divina, tudo o que foi predito, em linguagem simbólica, pelo Manifestante de Deus"[41]. Por outras palavras, esta expressão simboliza o declínio da liderança, dos valores e da prática religiosa.


Uma chuva de meteoritos, observada em Novembro de 1833.

O Kitáb-i-Íqán também descreve as estrelas referidas pelo evangelista como "estrelas da compreensão e da palavra"[73] e "Estrelas da Sabedoria divina"[74]. É interessante notar que Bahá'u'lláh também aplica a analogia estrelas/clero na Epístola aos Cristãos:
Ó assembleia de bispos! Sois as estrelas do céu do Meu conhecimento. A Minha misericórdia não deseja a vossa queda na terra. A Minha justiça, porém, declara: «Foi isso que o Filho decretou». E qualquer coisa que tenha procedido dos Seus lábios imaculados, verídicos, fidedignos, jamais será alterada.(a)

UM SINAL NO CÉU

Segundo Bahá'u'lláh, a expressão "...aparecerá o sinal do Filho do homem no céu" possui um significado literal e um significado simbólico. O fundador da religião bahá’í recorda vários relatos dos Textos Sagrados de religiões do passado onde a descrição do advento de um Manifestante de Deus é precedido por um fenómeno astronómico que não passa despercebido a alguns sábios. E recorda que isso aconteceu com Abraão[67], com Moisés[68], com Jesus[69, 70](b) e com Maomé[71] (c).

Mas o Kitáb-i-Íqán leva o leitor a perceber que mais importante que esse sinal físico, é o sinal espiritual. Assim, segundo Bahá'u'lláh, o sinal no céu deve ser entendido como uma voz profética que anuncia o iminente advento de um Novo Manifestante de Deus. Isso aconteceu no tempo de Moisés, quando "…também apareceu, na escuridão da noite, um sábio trazendo novas de júbilo ao povo de Israel, consolando-lhe a alma e tranquilizando-lhe o coração"[68]; aconteceu no tempo de Jesus quando o "...sinal no céu invisível – céu do conhecimento e da compreensão divinos – foi Yahyá(d), filho de Zacarias, quem deu ao povo as boas novas da Manifestação de Jesus"[70]; aconteceu no tempo de Maomé, quando "…apareceram quatro homens que sucessivamente anunciaram ao povo as boas novas de que nascera aquele Luminar divino"[71]; e relativamente a Si próprio, Bahá'u'lláh refere Sheik Ahmad(e) e Siyyid Kazim [72](f).

O CÉU

A palavra céu surge duas vezes no excerto do Evangelho citado por Bahá'u'lláh. Se esquecermos o seu significado literal(g) – a abóbada celeste visível da superfície terrestre – podemos identificá-lo como um nível de existência ou de conhecimento, que transcende a compreensão humana. Num sentido, Bahá'u'lláh identifica-o como toda a mensagem religiosa que surge com cada Manifestante de Deus, e as suas influências em diferentes sociedades ao longo dos tempos. E aplica esta analogia:
Sabe tu, que quaisquer corações sob os quais caiam as chuvas das graças misericordiosas provenientes do “céu” da Revelação Divina, a terra desses corações, em verdade, transforma-se na terra da sabedoria e conhecimentos divinos.[48]
Bahá'u'lláh acrescenta ainda que nas palavras dos Manifestantes do passado, o termo céu sempre teve múltiplos significados: "céu dos Mandamentos", o "céu da Vontade", o "céu do Propósito Divino", o "céu do Conhecimento divino", o "céu da Certeza", o "céu das Palavras", o "céu da Revelação", o "céu da Ocultação"[75] e outros.

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REFERÊNCIAS
(a) - Epístolas de Bahá'u'lláh, Epístola aos Cristãos, pag 22 [edição 1983]
(b) – Alusão ao episódio dos Reis Magos e da estrela. É possível admitir a historicidade do fenómeno se for identificado com o cometa Haley (12 a.C.) ou com um posicionamento de planetas (7 a.C.). Isto não significa que todos os cometas ou posicionamentos de planetas anunciem o aparecimento de um Profeta.
(c) – Alguns autores baha’is, como William Sears, sustentam que um cometa aparecido entre 1845-1846 também seria um sinal no céu anunciando um novo Manifestante de Deus.
(d) – João Baptista.
(e) – Shaykh Ahmad: O primeiro dos dois precursores do Báb, nascido no ano de 1753, fundador
da Escola Shaykhí e autor de 96 livros. Faleceu em 1831.
(f) – Siyyid Kázim: Principal discípulo de Shaykh Ahmad e seu sucessor. Mullah Husayn e outros
eminentes bábís se encontravam entre seus estudantes. Faleceu em 31 de dezembro
de 1843.
(g) – Nas escrituras bahá’ís, o texto traduzido em inglês a palavra é “heaven” que pode ser traduzido como paraíso ou céu. O mesmo se passa com o texto bíblico.

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Kitáb-i-Íqán (22)

MOISÉS (2ª Parte)
O segundo de dois posts sobre a figura de Moisés nas Escrituras Bahá'ís.
Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver
Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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Os Primeiros Anos

Bahá'u'lláh refere que o advento de Moisés foi profetizado por magos egípcios e sábios hebreus. “Os adivinhos do Seu tempo advertiram o Faraó nestes termos: «Surgiu uma estrela no céu! Ei-la! Prognostica a concepção de uma Criança que segura nas mãos o vosso destino e o de vosso povo.» Assim também apareceu, na escuridão da noite, um sábio trazendo novas de júbilo ao povo de Israel, consolando-lhe a alma e tranquilizando-lhe o coração.”[68] Neste episódio vemos um paralelismo com o relato do Evangelho onde se descreve o aparecimento de uma estrela no céu nos dias que antecederam o nascimento de Jesus. (a) (Mt 2:1-2)

Num outro parágrafo do Kitáb-i-Íqán, é referido que Moisés "por quase trinta anos fora, aos olhos do mundo, criado na casa de Faraó e alimentado à sua mesa"[58]. Mas um episódio viria a mudar o rumo da Sua vida: "Um dia, Ele, ainda na juventude, antes de haver proclamado o Seu ministério, passava pelo mercado, quando viu dois homens lutando. Um deles pediu socorro a Moisés contra o adversário e então Moisés interveio e matou-o."[42]

O Vale de Jetro, no Sinai
O vale de Jetro, no Sinai.
Ilustração de H.Fenn, 1875.

A condição social de Moisés era um obstáculo para que a Sua mensagem fosse aceite quer por egípcios, quer por hebreus. Aos olhos dos egípcios, Ele era um assassino; aos olhos dos hebreus, Ele era um egípcio, um filho do povo opressor. A propósito disto, Bahá'u'lláh chama mais uma vez a atenção do leitor para o facto dos desígnios de Deus serem frequentemente contrários aos desejos dos seres humanos. Esses desígnios são verdadeiras provações que o Criador coloca à humanidade:

...como são múltiplas e estranhas as provações com que Ele experimenta Seus servos. Considera tu como Ele escolheu subitamente dentre Seus servos e Lhe confiou a exaltada missão de ser um Guia divino, Àquele conhecido como homicida, que confessara, Ele mesmo, a Sua crueldade e que por quase trinta anos fora, aos olhos do mundo, criado na casa de Faraó e alimentado à sua mesa. Não poderia Deus, o Rei Omnipotente, ter impedido a mão de Moisés de cometer assassínio para que isso não Lhe fosse atribuído, facto este que tanta perplexidade e aversão causou entre o povo?"[58]
A Sarça Ardente / A Revelação

É extremamente difícil perceber o momento em que o Manifestante de Deus toma consciência da Sua missão. Esse momento de íntima ligação entre Deus e o Manifestante é frequentemente descrito com metáforas e simbolismos que nos permitem apenas um vislumbre da intensidade espiritual desse momento. Os Livros Sagrados do passado afirmam que durante o exílio em Midian, Moisés recebeu a revelação de Deus e tomou conhecimento da Sua missão.

Segundo Bahá'u'lláh, "Moisés entrou no vale santo, na solidão do Sinai, e aí, da «Árvore que não pertence nem ao Este nem ao Oeste», teve a visão do Rei da glória. Ai Ele ouviu a Voz comovedora do Espírito, que Lhe falava do Fogo ardente..." [42]. Noutras epístolas reveladas anos mais tarde, Bahá'u'lláh apresentou descrições das palavras que Moisés ouviu de Deus noutras ocasiões:

Recorda tu os dias em que Aquele que conversou com Deus vigiava no deserto, as ovelhas de Jetro, Seu sogro. Escutou Ele a Voz do Senhor do género humano proveniente da Sarça Ardente que fora erguida na Terra Santa - Voz essa que exclamava: «Ó Moisés! Verdadeiramente, sou Deus, teu Senhor e o Senhor de teus antepassados, Abraão, Isaac e Jacob». (b) (cf. Ex 3:6)
Na Epístola ao Filho do Lobo, Bahá'u'lláh apresenta outras descrições dos momentos em que Moisés recebeu revelações divinas:

E quando Ele subiu até o fogo, uma Voz clamou-Lhe da Sarça, à direita do Vale, no Local sagrado: «Ó Moisés, eu, verdadeiramente, sou Deus, o Senhor dos mundos!» (c)
E ainda:
E quando chegou até o fogo, Ele foi chamado: «Ó Moisés! Verdadeiramente Eu sou Teu Senhor; tira portanto, Tuas sandálias, pois está no vale sagrado de Towa(d). E Eu escolhi-Te: dá ouvidos, então ao que Te será revelado. Verdadeiramente, Eu sou Deus, não há outro Deus além de Mim, Portanto, adora-Me.»(e) (cf. Ex 3:5)


O Monte Serbal, no Sinai.
Ilustração de J.D.Woodward, 1875.

Um Episódio Final

Um episódio ocorrido no final da vida de Moisés é mencionado por 'Abdu'l-Bahá no livro Respostas a Algumas Perguntas. Numa entrevista com uma das primeiras crentes ocidentais, o filho de Bahá'u'lláh esclarece que nos livros sagrados as repreensões dirigidas por Deus aos Seus Manifestantes são na verdade dirigidas ao povo. E entre os exemplos apresentados cita o Antigo Testamento:
... todo Profeta é a expressão do povo inteiro. Portanto, as promessas e as palavras que Deus Lhe dirige são dirigidas a todos. A linguagem da repreensão é, geralmente, muito severa para o povo, e também seria arrasadora. Assim, a Perfeita Sabedoria adopta esse modo de falar, como se encontra na Bíblia, por exemplo, quando os filhos de Israel se revoltaram e disseram a Moisés: «Nós não podemos lutar contra os amalecitas, porque eles são poderosos, fortes e corajosos.» Então, Deus repreendeu Moisés e Aarão, embora a obediência de Moisés fosse completa e Ele jamais se revoltasse. De certo que um tão grande homem – o mediador da Graça de Deus, incumbido de transmitir a Sua Lei – há necessariamente de obedecer aos mandamentos de Deus. (…)

E mais; em Números, capítulo XX, versículo 23: "E falou o Senhor a Moisés e a Aarão no monte de Hor, na costa da terra de Edom, dizendo: Aarão juntar-se-á ao seu povo, porque não entrará na terra que doei aos filhos de Israel,pois tende-vos revoltado contra a Minha Palavra nas águas de Meriba"(f); e no versículo 13: "Estas são as águas de Meriba, porque os filhos de Israel discutiram com o Senhor, Ele santificou-Se nelas".
Vejamos: o povo de Israel revoltou-se, mas aparentemente a repreensão foi dirigida a Moisés e Aarão. No Livro de Deuteronómio, capítulo III, versículo 26, está escrito: "Mas o Senhor indignou-se comigo por vossa causa, e não me ouviu. Em vez disso, disse-me: Baste-te, não Me fales mais nisto."

Ora, essas palavras e essas repreensões eram realmente para os filhos de Israel que, por se terem revoltado contra os mandamentos de Deus, tinham permanecido durante muito tempo, cativos no deserto árido, do outro lado Jordão, até o tempo de Josué – bendito seja! Essas repreensões, pois, destinavam-se ao povo de Israel, embora parecessem ser para Moisés e Aarão.(g)
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REFERÊNCIAS

(a) – Bahá'u'lláh refere que quando os Livros Sagrados mencionam a estrela que surge no céu anunciando o aparecimento de um Manifestante esses trechos podem ter uma leitura literal ou simbólica [68-73]. No sentido literal, tratar-se-á de um fenómeno físico; no sentido simbólico refere-se a figuras proféticas que anunciam o aparecimento do novo Manifestante (semelhante a João Baptista). Na religião baha'i, essas figuras foram Sheik Ahmad e Siyyid Kazim.
(b) – Epistolas de Bahá'u'lláh, pag. 292
(c) – Epistle to the Son of the Wolf, pag. 118
(d) – Alcorão 20:12. Também mencionado como o "Vale Sagrado"
(e) – Epistle to the Son of the Wolf, 117

(f) – 1 Num 20:2-13
(g) – Respostas a Algumas Perguntas, cap. 44

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Kitáb-i-Íqán (21)

MOISÉS (1ª Parte)

No âmbito do estudo do Kitáb-i-Íqán, apresento hoje o primeiro de dois posts sobre a figura de Moisés nas Escrituras Bahá’ís. Apesar dos mais significativos Textos Sagrados da religião baha’i já se encontrarem traduzidos para inglês, tenho de reconhecer que este que este breve estudo ficou limitado a essas mesmas traduções, pois não conheço a língua árabe nem a língua persa. Não obstante essa limitação, espero que seja suficientemente elucidativo sobre a perspectiva bahá'í relativamente a Moisés.

Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver
Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.

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As primeiras conversões à religião bahá'í ocorreram entre muçulmanos desde 1844; na década de 1890, a Fé Bahá’í “chegou” ao Ocidente e a partir desse momento deram-se as primeiras conversões entre cristãos ocidentais(a). Não admira, pois, que nas Escrituras Bahá’is, se encontrem vários livros e epístolas reveladas como resposta a esses primeiros crentes, onde – fruto da necessidade de enquadrar as respostas em função dos valores e das convicções originais desses crentes – existem muitas referências a Cristo e a Maomé.

Desta forma, compreende-se que Cristo e Maomé sejam os fundadores das Religiões Mundiais mais referidos nas Escrituras Bahá’ís. Mas sendo a divindade de Moisés prontamente reconhecida quer por Cristãos, que por Muçulmanos, é com alguma naturalidade que, nesses livros e epístolas, encontramos uma significativa quantidade de referências ao fundador do Judaísmo.

Além do Kitáb-i-Íqán, onde o nome do fundador do Judaísmo é mencionado em trinta e uma ocasiões, existem ainda outros dois livros das Escrituras Bahá’ís onde o Seu nome é referido com frequência: Epístola ao Filho do Lobo (b) e Respostas a Algumas Perguntas (c).

Nas Escrituras reveladas por Bahá'u'lláh as referências a anteriores Manifestantes de Deus é acompanhada por título ou designações elogiosas. Mantendo este estilo, no Kitáb-i-Íqán, Moisés é descrito como uma "Árvore Sagrada"[12], "Cedro Divino"(d), "Guia Divino"[58], "Aquele que conversava com Deus"[68] e "filho de 'Imrán, um dos Profetas excelsos e Autor de um Livro divinamente revelado."[57]

Os Simbolismos
Comparativamente aos textos do Antigo Testamento, com a qual a maioria dos leitores ocidentais se encontra mais familiarizado, uma das primeiras diferenças que se nota nas palavras de Bahá'u'lláh é a ênfase no simbolismo de algumas descrições. Apesar de nunca negar a historicidade dos relatos contidos nos Textos Sagrados, o fundador da religião baha’i prefere levar o leitor perceber que a verdadeira riqueza do Texto se encontra nos múltiplos significados simbólicos ali contidos (e). A título de exemplo veja-se a seguinte referência a Moisés:

Armado com a vara do domínio celestial e adornado com a nívea mão do conhecimento divino, procedendo do Paran do amor de Deus e manejando a serpente do poder e da majestade eterna, Ele brilhou do Sinai da luz sobre o mundo.[12]
Nesta frase, a vara e a serpente(f) em que este se transforma são apresentados como símbolos do poder divino de Moisés. A luz que brilhou da sarça ardente(g) e o próprio Moisés são usados para representar o conhecimento divino transmitido pela revelação de Moisés; o Faraó representa o expoente máximo da oposição à Mensagem Divina, da injustiça e da descrença.


O Monte Sinai, numa ilustração de David Roberts, 1839

Algumas mais conhecidas do Êxodo dos Hebreus, como as pragas do Egipto ou a travessia do Mar Vermelho, encontram-se ausentes do Kitáb-i-Íqán; em contrapartida, Bahá'u'lláh enfatiza o confronto entre Moisés e o Faraó[12, 57, 92] como um choque entre os que acreditavam na mensagem Divina e os que lhe faziam oposição e a perseguiam. Mais do que um confronto entre hebreus e egípcios, Bahá'u'lláh descreve-o como um choque entre os crentes e os descrentes:
O tirano copta jamais participará do cálice tocado pelos lábios do clã da justiça, e o Faraó da descrença não poderá esperar reconhecer jamais a mão do Moisés da verdade.[16]

Rejeitando o Moisés do conhecimento e da justiça, aderiram ao Samiri
(h) da ignorância.[210]

A Mensagem de Moisés

Os ensinamentos de Moisés, tal como os ensinamentos de outros Manifestantes de Deus, têm por objectivo proceder ao renascimento espiritual dos povos. Ao contrário do que afirmam as tradicionais interpretações do Antigo Testamento, Bahá'u'lláh sustenta que a Mensagem de Moisés não se destinava apenas ao povo hebreu; nas palavras do fundador da religião bahá’í, Moisés "...chamou todos os povos e raças da terra para o reino da eternidade; convidou-os a participar dos frutos da árvore da fidelidade"[12].

Bahá'u'lláh reforça esta universalidade da Mensagem de Moisés, ao citar o Alcorão descrevendo o caso de um familiar do Faraó que acreditou na Mensagem de Moisés: "E disse um homem da família do Faraó, que era crente mas ocultava a sua fé – Quereis matar um homem por dizer que o meu Senhor é Deus, quando já veio com sinais do vosso Senhor? Se for um mentiroso, sobre ele cairá a sua mentira, mas se for homem da verdade, uma parte daquilo que ele ameaça haverá de cair sobre vós. Em verdade, Deus não guia quem é transgressor ou mentiroso."(40:28) [12]

‘Abdu’l-Bahá, filho de Bahá'u'lláh, refere que a influência da Mensagem de Moisés perdurou vários séculos e a sua influência estendeu-se aos povos vizinhos. "Tão grande foi o desenvolvimento atingido por esse povo, que os sábios da Grécia chegaram a considerar os homens ilustres de Israel como modelos de perfeição. Sócrates, por exemplo, visitou a Síria, e recebeu dos filhos de Israel os ensinamentos relativos à unidade de Deus e à imortalidade da alma e, após seu regresso, disseminou-os por toda a Grécia."(i)

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REFERÊNCIAS


(a) – Sobre as conversões de outras minorias religiosas iranianas (judeus, cristãos e zoroastrianos) à Fé Bahá'í ver
The Conversion of Religious Minorities to the Bahá'í Faith in Iran de Susan Maneck.
(b) – Este livro foi revelado por Bahá'u'lláh em 1891, um ano antes de falecer. Nele, o fundador da religião baha’i recorda vários episódios da Sua vida, acontecimentos relacionados com os primeiros crentes e revela novamente textos revelados anteriormente. Neste livro o nome de Moisés é mencionado vinte e uma vezes.
(c) – Este livro contém o registo de várias conversas entre 'Abdu'l-Bahá e uma das primeiras crentes ocidentais (Laura Clifford Barney), durante a visita desta em 1907, a ‘Akká. Ao contrário do Kitáb-i-Íqán, onde Bahá'u'lláh aborda diversos temas islâmicos e cita frequentemente o Alcorão (não nos podemos esquecer que o destinatário deste livro era muçulmano), durante estas conversas, 'Abdu'l-Bahá abordou muitos temas cristãos e citou frequentemente a Bíblia. Neste livro, o nome de Moisés é mencionado trinta e duas vezes.
(d) –
Epistle to the Son of the Wolf, pag. 65. Sobre a representação dos Manifestantes de Deus como Árvores, ver o post A Árvore da Vida.
(e) – No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh apresenta um modelo de interpretação das Escrituras Sagradas que assenta na ênfase do simbolismo. Segundo este modelo, é particularmente importante procurar os significados simbólicos do Texto Sagrado sempre que o seu sentido literal possa ir contra o senso comum e a ciência. Sobre o propósito do simbolismo nas Escrituras, ver o post Para que serve o Simbolismo nas Escrituras?
(f) – Exodo 4:2-3, 7:9-12
(g) – Exodo 3:2-4
(h) – Um mago contemporâneo de Moisés.
(i) – Respostas a Algumas Perguntas, cap. 5

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Kitáb-i-Íqán (19)

As alegorias do Novo Testamento (2ª parte)
Outra das alegorias do Novo Testamento a que Bahá'u'lláh faz referência no Kitáb-i-Íqán está nas seguintes palavras de Jesus: "Passará o céu e a terra, mas as Minhas palavras não hão de passar" (Lc 21:33) [26]. O que poderá significar a expressão "Minhas palavras" no versículo citado? Poderá isto significar que todas as leis e ensinamentos do Cristianismo têm um carácter eterno e definitivo? Ou será que isto se aplica apenas a alguns ensinamentos de Jesus?

O fundador da religião bahá'í recorda que estas palavras levam a generalidade dos cristãos a pensar que as leis estabelecidas por Jesus jamais serão abolidas e que qualquer outro Manifestante de Deus teria obrigatoriamente de se manter fiel "à letra da lei do Evangelho"[26]. Ainda segundo Bahá'u'lláh, foi por este motivo que a maioria dos cristãos não aceitou Maomé.

É importante termos presente que os Manifestantes de Deus nos deixam dois tipos de ensinamentos: espirituais e ético-sociais. Os primeiros são comuns a todas as religiões e referem coisas como a existência de Deus, o respeito pelas religiões do passado, a necessidade de fazer o bem ao próximo e o respeito pelos valores familiares. Já os ensinamentos ético-sociais variam com as necessidades dos tempos e a maturidade dos povos a quem são reveladas as religiões.

No Judaísmo, podemos encontrar um exemplo de ensinamentos etico-sociais nas tradições diziam que os crentes deviam lavar as mãos antes das refeições. Aquilo que hoje nos parece uma medida de higiene cumprida por qualquer pessoa com um pouco de senso comum, foi apresentada aos hebreus como um preceito religioso. É de supor que a sua maturidade colectiva exigia que essa medida para ser cumprida devesse ser apresentada como uma lei divina.

Com o aparecimento de Jesus, algumas leis ético-sociais foram revogadas. Os textos dos Evangelhos relatam polémicas surgidas com as novas leis de Jesus: "Porque transgridem que os Teus discípulos a tradição dos antigos? Porque não lavam as mãos antes das refeições?" (Mt 15:2). Bahá'u'lláh refere que quando Jesus revogou algumas das antigas leis éticas e sociais do Judaísmo "...todo povo de Israel se levantou em protesto contra Ele. Clamaram que Aquele cujo advento a Bíblia tinha predito, haveria necessariamente de promulgar e cumprir as leis de Moisés, enquanto que este jovem nazareno, que tinha a pretensão de ser o divino Messias, anulara a lei do divórcio e a do sábado – as mais importantes de todas as leis de Moisés."[17]

No Islão, um dos ensinamentos ético-sociais é a proibição do consumo de carne de porco; sabemos que na Arábia daquele tempo as condições de higiene existentes tornavam muito perigoso para a saúde o consumo desse tipo de alimento. No Alcorão lemos: "Ele apenas vos proibiu a carne morta, e o sangue, e a carne de suíno e aquilo sob o qual tenha sido invocada qualquer outro nome para além do nome de Deus"(2:173)

Apesar deste tipo de leis ter condicionado o desenvolvimento de uma série de hábitos e costumes que diferentes sociedades foram cultivando, parece-me óbvio que se tratam de leis adequadas a determinados estágios de desenvolvimento humano; dificilmente poderiam ter uma aplicação universal ou eterna. Não creio que este tipo de leis éticas e sociais possua um carácter universal, eterno e definitivo.

Na minha opinião (e isto é apenas uma opinião pessoal!) o versículo que Bahá'u'lláh cita no Kitáb-i-Íqán, alude ao poder transformador da Palavra revelada pelo Manifestante de Deus e à influência visível que esta têm sobre a história da humanidade. Desta forma, as "palavras de Jesus" poderão ser entendidas tanto como uma referência aos ensinamentos ético-sociais, como uma referência aos ensinamentos espirituais revelados pelo fundador do Cristianismo.

Quando as "Palavras" se referem aos ensinamentos éticos e sociais, então podemos perceber uma influência prolongada (mas não universal ou definitiva) na história da humanidade. Pelo facto de se tratarem de palavras que influenciam e condicionam profundamente povos e civilizações durante vários séculos, então faz sentido dizer que "as palavras não passarão", apesar de serem revogadas com o aparecimento de um novo Manifestante. E quando as "Palavras" se referem aos ensinamentos espirituais, então podemos perceber que estes são comuns a todas as religiões reveladas, e portanto possuem uma influência universal e constante na história da humanidade. Nesta perspectiva faz ainda mais sentido pensarmos que estas "palavras não passarão".

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Kitáb-i-Iqán (6)

A Revelação Progressiva
E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob. (Lc 20:37)

Dizei: «Cremos em Deus, na revelação que nos enviou, e no que foi revelado a Abraão, Ismael, Isaac, Jacob e às Tribos, no que foi revelado a Moisés e a Jesus, no que foi revelado aos Profetas pelo seu Senhor. Não fazemos distinções entre qualquer um deles. Submetemo-nos a Deus. (Alcorão 2:130)
As citações anteriores, além de evidenciarem o tronco comum do Cristianismo e do Islão, mostram um conceito que é hoje enfatizado pela religião bahá'í: Deus tem-Se revelando progressivamente à humanidade. No entanto, a maioria dos seguidores destas religiões acredita que a revelação divina terminou (ou teve o apogeu) com o aparecimento do Profeta fundador da sua religião.

Mas num mundo cada vez mais multi-cultural e globalizado estas ideias são questionadas com frequência crescente. Porque é que Deus escolheria apenas um único povo e um único momento na história da humanidade para Se manifestar e dar a conhecer a Sua Vontade? Porque é que a enorme maioria dos adeptos de todas as religiões acredita que o seu Profeta foi o último que Deus enviou?

Na tentativa de procurar respostas a este tipo de questões podemos destacar dois tipos de reacções: o diálogo inter-religioso (procurando compreender as diferentes convicções e expressões religiosas) e a criação de comunidades e doutrinas religiosas estanques voltadas sobre si próprias e, de alguma forma, desajustada das realidades sociais que hoje vivemos.

Relativamente a este segundo tipo de reacção, é de notar que nestas comunidades religiosas estanques os adeptos reclamam duas coisas: a exclusividade (ou superioridade) da revelação divina proclamada pelo Profeta fundador da sua religião, e o fim da revelação divina (Deus não enviará mais Profetas). Esta perspectiva exclusivista e derradeira sob a natureza da mensagem religiosa fomentou durante muito tempo mal-entendidos, tensões e conflitos entre adeptos de diferentes religiões.

Esta atitude em relação ao fenómeno religioso enferma de várias contradições:

  • Fará sentido acreditar num Deus Omnipotente que "tem as mãos atadas"(a) e não pode enviar mais Mensageiros?
  • Fará sentido acreditar num Deus Misericordioso, cuja Mensagem nunca chegaria a determinados povos do mundo?
  • Todos os Profetas elogiaram os Seus antecessores. Porque devem os Seus seguidores entrar em contenda?
  • Todas as religiões anunciam uma nova revelação e um Prometido em termos profundamente elogiosos. Porque haveremos de pensar que a intervenção divina terminou?


No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh descreve como a revelação divina é contínua, e que nunca a humanidade esteve, ou estará, privada dos Seus Mensageiros:
... em todos os tempos, as múltiplas graças do Senhor de todos os seres têm abrangido a terra e todos os que nela habitam, através dos Manifestantes de Sua Essência Divina. Nem por um momento sequer, negou Ele a Sua graça; jamais as chuvas da Sua benevolência cessaram de cair sobre a humanidade.[14]
Tal como os alunos de uma escola que vão adquirindo conhecimentos ao longo dos anos, através de sucessivos professores, também a humanidade vai amadurecendo e evoluindo ao longo dos séculos, graças aos ensinamentos de sucessivos Profetas. E semelhante a uma escola, onde os professores continuam o trabalho dos anteriores e anunciam novos professores, também os Profetas continuam o trabalho dos Seus antecessores e anunciam um Sucessor.

O tema da revelação progressiva é recorrente nos livros e epístolas do fundador da religião baha'i(b). Um único Deus é a fonte de todos os Profetas fundadores das grandes religiões mundiais; a sequência de Profetas enviados pelo Criador deve ser vista como um processo evolutivo destinado a inspirar o progresso humano e civilizacional.

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NOTAS
(a) – "A mão de Deus está presa por correntes" (Alcorão 5:64) Esta era a resposta dados pelos Judeus da Arábia perante a pretensão de Maomé ser Profeta. Curiosamente, hoje a grande maioria dos muçulmanos acredita que a Revelação Divina terminou com Maomé.
(b) – Um dos excertos mais citados das escrituras Bahá'ís sobre este assunto é a seguinte: "Contempla tu com a vista interior a corrente de sucessivas Revelações que ligou a Manifestação de Adão com a do Báb. Dou testemunho perante Deus de que cada um desses Manifestantes foi enviado através da operação da Vontade e Desígnios Divinos, que cada um foi o Portador de uma Mensagem específica, que a cada um se confiou um Livro divinamente revelado e foi incumbido de desvendar os mistérios de uma Epístola poderosa." (Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, XXXI).

quinta-feira, 16 de junho de 2005

As interpretações simbólicas de S. Paulo

Como mostrei no post anterior, a ênfase no simbolismo não é uma inovação baha’i. Depois do simbolismo nas palavras atribuídas a Jesus, encontramos outros simbolismos nas palavras de S. Paulo. Na sua Primeira Epístola aos Coríntios, ele enfatizou a importância de captar o sentido espiritual das escrituras:
Não falamos dessas coisas em palavras doutas, de humana sabedoria, mas com aquelas que o espírito ensina e que exprimem as coisas espirituais em termos espirituais. Porque o homem natural não entende as coisas do Espírito de Deus, pois, para ele são loucuras. Não as pode compreender porque devem ser julgadas espiritualmente. [I Cor 2:13-14]
As epístolas de S. Paulo contêm algumas interpretações alegóricas do Antigo Testamento, que mostram como a Escritura pode ter múltiplos significados - significados espirituais que podem não ser evidentes ser forem interpretados literalmente. No exemplo seguinte, S. Paulo identifica uma série de simbolismos que não são aparentes no sentido literal:
Pois está escrito que Abraão teve dois filhos: um da escrava e outro da mulher livre. Mas o da escrava nasceu segundo a carne, e o da mulher livre, em virtude da Promessa. Isto foi dito por alegoria, pois as duas mulheres representam as duas alianças: Uma, a do monte Sinai, que gera filhos para a escravidão, é Agar. Ora, o Sinai é um monte da Arábia e corresponde a Jerusalém actual, que é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém, lá do alto, é livre, e esta é nossa mãe. [Gal 4:22-26]
S. Paulo refere-se ao livro do Génesis [Cap. 3]. No tempo de S. Paulo, Jerusalém estava sob domínio romano. S. Paulo usa este domínio, ou escravidão, para expressar metaforicamente a escravidão dos Judeus à lei de Moisés. S. Paulo vê Agar como símbolo de Jerusalém, porque Agar era uma escrava, e Jerusalém estava sob jugo romano. S. Paulo via, portanto, em Sarai e Agar, no Monte Sinai e em Jerusalém, significados simbólicos que não são aparentes no sentido literal do texto.

Outro exemplo: «Eu estarei diante de ti sobre o rochedo de Horeb. Baterás no rochedo e dele jorrará água: então, o povo poderá beber». Moisés assim fez na presença dos anciãos de Israel. [Ex. 17:6]

S. Paulo ultrapassa o sentido literal e mostra-nos os significados espirituais deste versículo: Não quero que ignoreis, irmãos, que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem e que todos passaram através do mar. Todos foram baptizados em Moisés, na nuvem e no mar: todos comeram do mesmo alimento espiritual e todos comeram da mesma comida espiritual. De facto, todos bebiam de um rochedo espiritual que os seguia, que era Cristo. [I Cor 10:1-4]

S. Paulo vê Cristo neste relato do Êxodo, apesar do autor do Livro do Êxodo não dar qualquer indicação de que aquelas frases são simbólicas ou que não devem ser entendidas num sentido exclusivamente literal.

Também no Êxodo encontramos outra história, aparentemente literal, que S. Paulo interpreta simbolicamente. Aí, descreve-se como Moisés depois de falar com Deus, a Sua face brilhava tão intensamente que o povo de Israel tinha medo de se aproximar d'Ele. Isto fez com que Moisés colocasse um véu na face quando falava aos Israelitas [Ex., 34]. S. Paulo interpreta simbolicamente este relato do Êxodo, explicando porque é que os Judeus não compreendem as Escrituras tal como os Cristão as compreendem:
Tendo, pois, esta esperança, agimos com plena segurança. Não fizemos como fazia Moisés, que punha um véu sobre o Seu rosto, a fim de que os filhos de Israel não fixassem o fim que era passageiro. Mas o seu entendimento ficou obscurecido, e ainda hoje quando lêem o Antigo Testamento, esse mesmo véu permanece por levantar, porque é só em Cristo que ele deve ser levantado. Por isso esse véu persiste até hoje nos seus corações, todas as vezes que lêem Moisés. Quando, porém, se converterem ao Senhor, então o véu será tirado. [II Cor 3:12-16]
Neste caso, S. Paulo vê o véu na face de Moisés como um símbolo da não aceitação de Cristo e, consequentemente, a sua incapacidade para compreender a verdadeira mensagem das Escrituras.

Concluindo: em cada um deste exemplos S. Paulo ultrapassa o significado literal e revela um significado oculto. No entanto, não há indicação no texto de que essas passagens devem ser interpretadas de um modo que não o literal. Tal como hoje na perspectiva baha'i, S. Paulo acreditava que as Escrituras continham significa dos ocultos, mesmo quando pareciam perfeitamente literais.