sábado, 28 de outubro de 2023

Mamografias de rotina: um exemplo do nosso progresso espiritual colectivo

Por Michelle Goering.


No passado dia, 20 de Outubro, os EUA assinalaram-se o Dia Nacional da Mamografia. Ah, mamografias! As batas engraçadas e de tamanho único. As poses estranhas. A compressão! Quem gosta de fazer uma mamografia?

Ninguém gosta.

Mas quem está satisfeito por elas existirem, e estarem disponíveis para cada vez mais mulheres?

Eu sou uma dessas pessoas. Foi-me diagnosticado um cancro da mama (na fase 1) no dia 1 de Junho de 2020. Graças a uma mamografia anual de rotina foi encontrado um caroço de 0,6 cm. Eu não tinha histórico familiar de cancro da mama, não conseguia detectar esse pequeno nódulo no autoexame e sentia-me perfeitamente bem. O diagnóstico foi chocante e assustador; os procedimentos médicos intimidam e desgastam. Mas o meu tratamento foi excelente e minimamente invasivo devido à detecção precoce através da mamografia. Agora o cancro desapareceu e o meu prognóstico é excelente.

Ao recordar o meu diagnóstico e o tratamento, vejo-o como um exemplo do milagre da época em que vivemos, um milagre que creio ter sido provocado pelo poder libertado pelo aparecimento de Bahá'u'lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá'í. As Escrituras Bahá'ís proclamam que nos encontramos num momento especial na história da humanidade, e afirmam que as forças da revelação de Bahá'u'lláh “incutiram na humanidade a capacidade de atingir... [a] fase final do seu crescimento orgânico e evolução colectiva.

“...lançamos o sopro de uma nova vida em cada estrutura humana e incutimos em cada palavra um novo poder. Todas as coisas criadas proclamam as evidências desta regeneração mundial”, escreveu Bahá’u’lláh.

A libertação deste poder tem efeitos reais. 'Abdu'l-Bahá, filho e sucessor de Bahá'u'lláh, explicou:

Vede como, neste dia, o âmbito das ciências e das artes se alargou, e que maravilhosos avanços técnicos foram feitos, e a que grau os poderes da mente aumentaram, e que estupendas invenções surgiram. Esta era equivale, de facto, a uma centena de outras eras: se reunirem os resultados de cem eras e compararem isso com o resultado acumulado dos nossos tempos, o resultado desta era provará ser maior do que o de cem de eras anteriores. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l‑Bahá, #73)

O meu entusiasmo talvez não seja uma reação comum nesta época. Podemos facilmente ficar desiludidos com as disfunções do mundo quando vemos os meios de comunicação de todos os lados e o seu foco incansável naquilo que está claramente debilitado e obsoleto. Como resultado do que vemos e ouvimos, podemos sentir que os humanos têm objectivos contrários, que somos horríveis uns para com os outros, egoístas por natureza e mais interessados nas nossas próprias vantagens.

E ainda assim, veja-se o que conseguimos fazer! Fazemos descobertas científicas para o bem de todos. Desenvolvemos instrumentos e protocolos baseados em informações partilhadas, e melhoramos os testes e os resultados.

Todos os homens foram criados para levar avante uma civilização em constante progresso”, escreveu Bahá’u’lláh. Aqui está uma definição de civilização: “a fase de desenvolvimento e organização social e cultural humano que é considerado mais avançado”. Outra definição menciona “um nível relativamente elevado de desenvolvimento cultural e tecnológico”. Estamos, nesta fase do desenvolvimento humano, mais avançados do que nunca, mas o nosso trabalho não está concluído. O próprio objectivo da nossa criação, disse Bahá’u’lláh, é fazer a nossa parte para levar todos nós para um mundo melhor:

O Todo-Poderoso dá-Me testemunho: agir como os animais do campo é indigno do homem. As virtudes adequadas à sua dignidade são a paciência, a misericórdia, a compaixão e a benevolência para com todos os povos e raças da terra.

É evidente que nós, os seres humanos, podemos agir e agimos como os animais – por vezes, até pior. Mas uma ética de trabalhar para o bem comum é um valor que vem do âmago daquilo que somos como seres espirituais, a nossa verdadeira realidade. Como Bahá'í há mais de 30 anos, tento olhar para todos os aspectos da minha vida através da Fé Bahá'í e dos seus ensinamentos, que se focam na unidade humana e no nosso papel como indivíduos para servir o bem comum.

Portanto, vejo os rápidos avanços médicos e científicos do mundo como exemplos do espírito altruísta da época, e como evidência das poderosas energias libertadas pela revelação de Bahá’u’lláh. Olhando para a cronologia das descobertas do cancro da Sociedade Americana do Cancro, vemos o seu primeiro registo na década de 1770, depois nada até meados de 1800, no início da revelação de Bahá’u’lláh. A partir daí, há uma rápida sucessão descobertas incríveis até à actualidade.

'Abdu'l-Bahá aconselhou-nos: “Regozijai-vos e alegrai-vos por este dia ter amanhecido, tentem perceber o seu poder, pois é realmente maravilhoso!” O poder e a velocidade dos nossos avanços são surpreendentes. A minha avó teve cancro da mama na década de 1950. As mamografias não eram rotina, e por isso ela só recebeu o diagnóstico quando já estava muito doente. O seu tratamento foi mostarda nitrogenada, que prolongou a sua vida durante alguns anos. Ela morreu aos 51 anos. Em 1976, as mamografias foram recomendadas pela Sociedade Americana do Cancro. Agora são uma ferramenta importante ao nosso dispor. Os tratamentos continuam a ser melhorados à medida que aprendemos mais.

O nosso sistema de saúde funciona na perfeição? Claro que não. Fico frustrada e desiludida com a falta de acesso a um bom tratamento que muitas de nós enfrentamos, e com a forma como o nosso sistema muitas vezes coloca o lucro antes das pessoas. Sei também que ainda temos muito a aprender sobre saúde e cura. Dentro de uma ou duas décadas, iremos, sem dúvida, olhar para trás, para os nossos actuais tratamentos contra o cancro, e ficar surpreendidas com o quão pouco sabíamos! Esperamos ter feito grandes progressos na prevenção do cancro, e abordemos os factores ambientais que estão a levar à sua proliferação. Há muito trabalho a fazer.

No entanto, podemos estar gratas, porém, pelos avanços contínuos na nossa compreensão colectiva. Fiquei encorajada com minha colaboração com a minha actual oncologista, e com o espírito de serviço demonstrado pela cirurgiã que realizou a minha mastectomia. Ela olhou-me nos olhos, e disse que cuidaria de mim como se eu fosse a sua própria irmã. Estas experiências reforçam a minha fé na bondade inerente da humanidade, no nosso desejo de nos vermos uns aos outros a prosperar, e na nossa capacidade de trabalharmos juntos para a melhoria da humanidade e do mundo.

Assim, a propósito deste Dia Nacional da Mamografia, encorajo-a a si, que é uma mulher para quem a mamografia é indicada, a aproveitar a opção do exame de rotina. O CDC (Centers for Disease Control and Prevention) recomenda que as mulheres com risco médio façam uma mamografia a cada dois anos, entre os 50 e os 75 anos. As mulheres com antecedente familiar de cancro da mama ou mulheres que possuem certos genes associados ao cancro da mama podem trocar ideias sobre uma estratégia de exames com os seus médicos, talvez começando a realizar exames mais cedo ou com mais frequência.

E depois? Vá comer um gelado ou passear no parque. Façam isso! Faça uma oração de agradecimento por vivermos nesta era maravilhosa, uma época em que os segredos do universo estão a ser descobertos, uma época em que podemos ver o nosso progresso colectivo.

-----------------------------
Texto original: Routine Mammograms: One Example of Our Collective Spiritual Progress (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Michelle Goering cresceu numa quinta no Kansas (EUA). É poeta, ensaísta, cantora e violonista, com formação profissional no mercado editorial, é casada e mãe de filhos gêmeos em idade universitária.

domingo, 22 de outubro de 2023

Súriy-i-Haykal (8ª sessão): Rainha Vitória

8ª Sessão de Estudo da Súriy-i-Haykal (Epístola do Templo) revelada por Bahá'u'lláh.
- - - - - - - - - -

PARA REFLEXÃO:
1. Como podemos classificar a resposta da rainha Vitória? Rejeição, aceitação ou indiferença?
2. Porque é que “as acções do homem são aceitáveis depois de ele ter reconhecido [o Manifestante de Deus]”? (¶172)
3. Porque deve um representante eleito pelo povo numa terra preocupar-se com o bem-estar de toda a espécie humana (¶174)?
4. Que “causa universal” e que”Fé comum” podem ser o remédio soberano para os males do mundo (¶176)?
5. O que diz Bahá’u’lláh sobre despesas e armamentos dos governantes (¶179, ¶181)?

sábado, 14 de outubro de 2023

O Báb e Bahá’u’lláh: Turbilhão e Epifania

Por John Hatcher.


Entre a Sua declaração em 1844 e a Sua execução em 1850, a vida do Báb e da comunidade Bábi foi um turbilhão de actividades e, pouco depois, um fogo incontrolável de perseguições, torturas e martírios.

A mensagem do Báb espalhou-se rapidamente entre os persas. Milhares e milhares de pessoas abraçaram-na em êxtase, e a Sua conversão criou receio e apreensão entre as elites governamentais e as lideranças islâmicas, que responderam com uma repressão cruel e perseguições mortais.

Em 1847, o Báb - que tinha estado várias vezes sob prisão domiciliar desde o Seu retorno da peregrinação a Meca e Medina em 1845 - foi preso na remota fortaleza montanhosa de Mah-Ku, no noroeste de Azerbaijão persa.

O Báb esteve ali preso durante nove meses, e posteriormente foi enviado para outra prisão, na fortaleza de Chihriq, também no Azerbaijão, onde permaneceu durante os dois anos. Em 9 de Julho de 1850, foi executado por um pelotão de fuzilamento na praça do quartel de Tabriz em circunstâncias milagrosas.

Mas durante os seis anos do ministério do Báb, Bahá’u’lláh, por ordem do Báb, guiou firmemente a Fé Bábi até onde foi capaz.

A Fé Bábi espalhou-se com uma incrível rapidez por toda a Pérsia, fazendo com que a monarquia, que estava estreitamente alinhada com os poderes do clero, sentisse uma necessidade frenética de reagir rápida e impiedosamente para destruir a Fé. Ao incitar o tumulto entre os cidadãos, os mulás encorajaram ataques às casas dos Bábis. Durante dois anos, entre 1848 e 1849, cerca de vinte mil Bábis foram massacrados, muitas vezes de formas perfeitamente atrozes. Os relatos chocantes destes ataques e a coragem e o heroísmo demonstrados por aqueles Bábis – que preferiram a morte em vez de renunciarem às suas crenças – encontram-se narrados detalhadamente em numerosas fontes.

Os aspectos mais significativos do papel de Bahá'u'lláh nestes acontecimentos são dignos de nota; a complexidade do Seu envolvimento tem, provavelmente, o melhor relato no livro Bahá'u'lláh: The King of Glory, de Hasan Balyuzi, livro que actualmente é a mais completa biografia de Bahá'u'lláh. No verão de 1848, Bahá’u’lláh convocou uma conferência de líderes e seguidores do Báb, aparentemente para consultar sobre como ajudar a retirar o Báb da prisão. Na realidade, a conferência teve um propósito mais subtil e profundo – proclamar aos Bábis que a revelação do Báb não foi uma tentativa de reforma ou purificação do Islão, mas uma nova revelação independente de Deus.

Em resumo: se continuassem a ser seguidores do Báb, não deveriam considerar-se Muçulmanos, mas sim Bábis, e deveriam reconhecer o Báb como dotado de uma condição espiritual equivalente à de Muhammad.

Num gesto simbólico nesta ocasião, todos receberam novos nomes ou títulos. Nessa ocasião, Mirza Husayn-Ali assumiu o título de “Bahá’u’lláh”. Esta importante conferência também desencadeou uma série de acontecimentos que, ao longo do ano seguinte, resultariam nos mais graves ataques às comunidades Bábis. O mais significativo foram o cerco das tropas governamentais ao forte de Shaykh Tabarsi, perto de Barfurush, ocorrido entre Outubro de 1848 e Maio de 1849; a revolta de Zanjan, que durou de 13 de Maio de 1850 a Janeiro de 1851; e a revolta de Nayriz, que começou em 27 de Maio de 1850 e terminou em 21 de Junho daquele ano. Em Julho de 1850, o próprio Báb foi executado.

À medida que estas perseguições brutais alastravam pela Pérsia, quase todos os líderes Bábis iam sendo executados. Perturbados pelo massacre de amigos e familiares, dois jovens Bábis decidiram assassinar Xá. Apesar do seu plano imprudente ter sido fortemente desencorajado por Bahá’u’lláh, os dois estiveram próximos de conseguir concretizar o seu propósito, mas a sua arma falhou. Foram rapidamente capturados, torturados e executados.

Embora tenham confessado que não tinham cúmplices, o turbilhão de perseguições ganhou mais uma vez força em toda a Pérsia e, o próprio Bahá’u’lláh, que era um dos poucos líderes Bábis ilesos, foi preso. Apesar da Sua condição de nobre e do Seu carácter respeitado, foi colocado na infame prisão subterrânea de Teerão, o Siyah-Chal, vulgarmente conhecida como o “Poço Negro”. Tratava-se de uma masmorra subterrânea, anteriormente usada como cisterna de água, que agora era uma prisão sem luz nem água. Com o pescoço acorrentado e os pés presos, Bahá’u’lláh foi amarrado juntamente com mais de oitenta prisioneiros, dos quais trinta e oito eram figuras destacadas na comunidade Bábi. O próprio Bahá’u’lláh faz uma descrição na sua Epístola ao Filho do Lobo, sobre as terríveis condições da prisão:

Após a Nossa chegada fomos primeiro levados ao longo de um corredor muito escuro, do qual descemos três íngremes lanços de escadas até ao local de reclusão que Nos foi atribuído. A masmorra estava envolta numa densa escuridão e os Nossos companheiros de cela contavam-se em cerca de cento e cinquenta almas: ladrões, assassinos e salteadores de estrada. Embora apinhado, não havia outra saída salvo a passagem por onde entrámos. Nenhuma pena pode retratar aquele local, nem língua alguma descrever o seu cheiro repugnante. A maioria daqueles homens não tinha roupas nem cama onde se deitar. Só Deus sabe o que Nos sucedeu naquele lugar terrivelmente nauseabundo e sombrio! (Epístola ao Filho do Lobo, ¶32)

Diariamente, um prisioneiro Bábi era escolhido, levado para o pátio e executado. Conforme narrado no livro The Dawn-Breakers (Os Rompedores da Alvorada), havia um ar de expectativa e celebração por parte dos outros prisioneiros Bábis cada vez que um era levado, pois Bahá'u'lláh “confortá-lo-ia com a certeza de uma vida eterna no mundo além”:

Logo após o martírio de cada um destes companheiros, éramos informados pelo carrasco, que se tinha tornado nosso amigo, das circunstâncias da morte da sua vítima, e da alegria com que suportara os seus sofrimentos até ao último momento.

Claramente, era apenas uma questão de tempo até que o próprio Bahá’u’lláh fosse executado.

No entanto, foi durante este mesmo período na prisão que Bahá’u’lláh recebeu o sinal de que tinha chegado o momento de iniciar a Sua própria revelação. Uma noite, num sonho, o Espírito Santo personificado na forma da Virgem Celestial surgiu-Lhe numa visão e assegurou-Lhe que Ele seria posto em liberdade, que libertaria uma revelação que iria superar todos os obstáculos, e que, com o tempo, a Sua revelação transformaria toda a civilização humana na Terra. As suas próprias palavras, registadas na sua epístola ao Xá Nasiri’d-Din, referindo este ponto de viragem, descrevem essa experiência incrível:

Ó Rei! Eu era um homem como os outros, adormecido no Meu leito, quando eis que as brisas do Todo-Glorioso foram sopradas sobre Mim, e Me deram a conhecer tudo o que existia. Isto não provem de Mim, mas daquele que é o Omnipotente, o Sapientíssimo. E Ele ordenou-Me que levantasse a Minha voz entre a terra e o céu, e por isso sucedeu-Me aquilo que fez fluir as lágrimas de todos os homens de compreensão. A erudição corrente entre os homens não a estudei; nas suas escolas não entrei. Pergunta na cidade onde residi, para que possas saber que não sou dos que falam falsamente. Esta é apenas uma folha que os ventos da vontade do teu Senhor, o Omnipotente, o Todo-Louvado, agitaram. (Súriy-i-Haykal, ¶192)

Transformação ou Revelação?


Tendo revisto brevemente alguns paralelismos na vida dos Manifestantes, centrando a nossa atenção na Sua assunção de títulos associados à declaração pública da Sua condição e missão, podemos agora abordar uma questão mais crucial, relativa à Sua ontologia, isto é, a natureza distinta das Suas condições ou seres. No que parecem ser momentos decisivos na vida dos profetas, será que eles passam por alguma transformação na Sua natureza essencial, ou revelam subitamente uma ascendência espiritual que estava oculta?

Apenas alguns destes pontos críticos de mudança são descritos em vários Livros Sagrados com muitos detalhes ou autenticidade verificável; no entanto, o ponto de partida de cada revelação parece resultar de um tipo de experiência semelhante.

Mas como os termos usados para descrever esses eventos são ambíguos, resta-nos resolver exactamente o mesmo problema que os clérigos enfrentaram no Concílio de Niceia: serão os mensageiros, profetas e manifestantes seres humanos comuns que são transformados por Deus em representantes, através dos quais Ele consegue transmitir a Sua vontade à humanidade – ou são estes Seres encarnações divinas da essência de Deus, que são capazes de assumir a forma humana? Ou existe uma terceira alternativa? Poderiam os manifestantes não ser seres humanos comuns, mas uma classe distinta de seres, emissários enviados do reino metafísico, e ainda assim essencialmente distintos do Criador, cuja realidade está inteiramente além da nossa compreensão?

Nos próximos artigos desta série vamos abordar esta questão crucial da ontologia – a realidade essencial – dos Manifestantes de Deus. Só depois de avaliarmos a realidade destes Seres, poderemos compreender o método com o qual o Criador decidiu educar-nos. Da mesma forma, só compreendendo a natureza dos profetas poderemos alcançar alguma compreensão sobre a nossa própria natureza e propósito, na realização do plano de Deus para a iluminação espiritual da humanidade, que acabará por resultar no estabelecimento de uma comunidade global capaz de defender a paz e a justiça duradouras.

-----------------------------
Texto original: The Bab and Baha’u’llah: Turmoil and Epiphany (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

John S. Hatcher é formado em literatura inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.

sábado, 7 de outubro de 2023

As Elites, os Populistas e as tentativas para nos dividirem

Por David House.



No início de cada empreendimento, deve-se olhar para o seu fim. (Tablets of Baha’u’llah, p. 168)

Os partidos políticos, onde quer que actuem, prosperam frequentemente com base na divisão.

Os partidos políticos tentam separar-nos em facções artificiais ou unidades tribais que se opõem a alguma coisa ou a outra pessoa, polarizando a população e colocando-nos uns contra os outros. Se eu sou democrata e o outro é republicano, ou se eu sou trabalhista e o outro é conservador, ou se eu sou socialista e outro é capitalista, ou se eu sou liberal e o outro é conservador, então nós dois rotulamo-nos com uma filiação partidária e desenha-se automaticamente uma linha divisória, criando uma fronteira e uma barreira entre nós.

Em última análise, isso não nos beneficia. Separa-nos em diferentes campos; produz conflito e divisão; gera ressentimentos e raiva; e pode até degenerar em polémicas e violência. Assim como o bom e o mau, ou o preto e branco, a realidade geralmente está algures num ponto intermédio. Mesmo que possamos rotular-nos como filiados num partido, podemos não estar tão afastados nos nossos pontos de vista; ou podemos concordar na maioria das coisas e discordar apenas em algumas. Os sistemas políticos, porém, enfatizam as nossas divergências. Promovem uma abordagem da vida baseada no grupo: ou estás no meu grupo ou no grupo adversário. Fazes parte do grupo certo; ou pertences aos Outros, que estão destinados a ser derrotados e esmagados.

Então, quem beneficia com o sistema político partidário? Bem, se seguirmos o conselho de Bahá’u’lláh e “olharmos para o fim” de cada esforço desde o início, poderemos ver que as divisões políticas partidárias, no fundo, beneficiam aqueles que desejam o poder. O sistema político partidário gera uma situação de constante desunião e conflito como forma de ganhar e manter o poder. Essas divisões políticas partidárias separam-nos, e isso mantém-nos a todos numa guerrilha constante de baixa intensidade, inconscientes e sem vontade de tentar uma abordagem mais unificada para resolver os nossos problemas comuns.

Em muitos lugares, simplesmente aceitamos e não questionamos este estado de coisas. A maioria das pessoas passa a vida inteira sem nunca questionar o modelo do sistema político partidário, ou considerar quaisquer alternativas. Mas os ensinamentos Bahá’ís questionam esse sistema, e pedem-nos também que o questionemos:

Não pronuncies palavra alguma sobre política; a tua tarefa diz respeito à vida da alma, pois, em verdade, isso é o que leva à felicidade do homem no mundo de Deus. A não ser que seja para elogiá-los, não faças menção alguma dos reis da Terra e dos governos do mundo. Em vez disso, limita as tuas palavras à divulgação das ditosas novidades do Reino de Deus, e à demonstração da influência do Verbo de Deus, e da santidade da Causa de Deus. Fala da felicidade permanente, dos deleites espirituais e das qualidades divinas, e de como o Sol da Verdade Se ergueu sobre os horizontes da Terra; fala do sopro do espírito da vida no corpo do mundo. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, #53)

Os ensinamentos Bahá’ís pedem que nos concentremos na unidade e não na desunião; e acrescentam que primeiramente devemos dirigir a nossa atenção para o nosso próprio carácter interior e para as nossas almas:

Que se submetam voluntariamente a todo rei justo e sejam bons cidadãos para todo o governante generoso. Que obedeçam ao governo e não se intrometam em questões políticas, mas que se dediquem à melhoria do carácter e do comportamento, e fixem o seu olhar na Luz do mundo. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, #236)

Com estas frases em mente, vejamos a mais recente manobra divisiva e de diversão que o sistema político começou a utilizar em muitos lugares do mundo: criar uma distinção falsa e divisiva entre as elites e os populistas. As definições convencionais destes dois termos geralmente são as seguintes: as elites representam os ricos, os instruídos e os poderosos; e os populistas representam as pessoas comuns. Mas hoje esses termos foram manipulados e distorcidos com outro sentido: as elites representam agora aqueles eleitos para governar os nossos países e o mundo; e os populistas representam subitamente aqueles que querem um regresso ao nacionalismo. As elites mundiais, de acordo com a nova definição, querem um governo global que retire os direitos das pessoas; e os populistas querem o governo independente e o direito de fazer o que quiserem. Nesta estratégia inteligente de desinformação, as elites equivalem ao mal e os populistas equivalem ao bem. Até o rótulo – elites – cheira a propaganda, pleno de carga emocional, concebido para gerar oposição e desprezo.

Ultimamente, os políticos que se dizem populistas usam esta estratégia divisionista para criar medos nas pessoas e, em última análise, para atingir as suas próprias ambições autoritárias. Não acreditem nisso – essa é a definição clássica de demagogo: alguém que tenta despertar as emoções das pessoas para ganhar poder.

Na realidade, esta nova táctica, que pretende mais uma vez dividir-nos uns contra os outros, explora ressentimentos e queixas de classe. Portanto, quando ouvirem as palavras elites ou populistas, tenham cuidado. Tal como as antigas divisões, estas novas têm como objetivo manipular as nossas emoções e brincar com os nossos medos – e manter-nos divididos.

Para conseguirmos alguma unidade social real e resolver verdadeiramente os nossos problemas, precisaremos de ir além destes tipos de falsas categorias binárias, filiações partidárias e as antigas dicotomias liberais versus conservadoras. Precisaremos descobrir a realidade profunda da nossa unidade, encontrar um terreno comum e unificar a humanidade:

O primeiro ensinamento é que o homem deve investigar a realidade, pois a realidade é contrária às interpretações dogmáticas e às imitações de formas ancestrais de crença, às quais todas as nações e povos aderem tão tenazmente. Estas imitações cegas são contrárias à base fundamental das religiões divinas, pois as religiões divinas, nos seus ensinamentos centrais e essenciais baseiam-se na unidade, no amor e na paz, ao passo que estas variações e imitações sempre produziram guerra, rebeldia e conflito. Portanto, todas as almas deveriam considerar que é sua responsabilidade investigar a realidade. A realidade é uma só; e quando encontrada, unificará toda a humanidade. A realidade é o amor de Deus. A realidade é o conhecimento de Deus. A realidade é a justiça. A realidade é a unidade ou solidariedade da humanidade. A realidade é a paz internacional. A realidade é o conhecimento das verdades. A realidade unifica a humanidade. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 372)

------------------------------------------------------------
Texto original: Elites versus Populists: the New Attempt to Divide Us (www.bahaiteachings.org)