segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Orações adicionais reveladas por 'Abdu'l-Bahá



Tradução provisória para Português PT

* * * * * * * * *

Ó Senhor!

Planta esta delicada semente germinada no jardim das Tuas múltiplas dádivas, rega-a com as fontes da Tua amorosa benevolência e permite que possa tornar-se uma planta bondosa através das efusões do Teu favor e da Tua graça. Tu és o Forte e o Poderoso.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ele é o Mais Glorioso!

Ó meu Senhor misericordioso! Este é um jacinto que cresceu no jardim da Tua complacência e um galho que apareceu no pomar do verdadeiro conhecimento. Ó Senhor da bondade, fá-lo refrescar-se continuamente e em todos os tempos através das Tuas brizas vitalizadoras, e torna-o verdejante, viçoso e florescente com as efusões das nuvens dos Teus favores, ó Tu Senhor bondoso!

Em verdade, Tu és o Todo-Glorioso.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ele é Deus!

Ó Tu, Senhor bondoso! Somos pobres crianças, necessitadas e insignificantes; mas também somos plantas que nasceram com o Teu fluxo celestial e rebentos rompendo em flor na Tua primavera divina. Torna-nos viçosos e verdejantes com as efusões das nuvens da Tua misericórdia; ajuda-nos a crescer e desenvolver com os raios do sol dos Teus dons bondosos, e refresca-nos com a brisa vivificadora que sopra vinda dos prados da Verdade. Permite que nos tornemos árvores florescentes carregadas de frutos no pomar do conhecimento, estrelas brilhando no horizonte da felicidade eterna e lâmpadas brilhantes espalhando luz sobre a assembleia da humanidade.

Ó Senhor! Se o teu cuidado terno nos for concedido, cada um de nós será como uma águia voando até ao cume do conhecimento; mas se formos abandonados a nós próprios consumir-nos-emos e cairemos em perdição e frustração. O que quer que sejamos, de Ti procedemos e perante o Teu limiar procuramos refúgio.

Tu és o Concessor, o Generoso, o Todo-Afectuoso.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ele é Deus!

Ó Tu, Deus puro! Permite que estes rebentos que nasceram com o fluxo da Tua guia se tornem viçosos e verdejantes com as efusões das nuvens da Tua terna misericórdia; fá-los agitarem-se com os ventos suaves que sopram dos prados da Tua unicidade e permite que sejam revivificados com os raios do Sol da Realidade, para que possam crescer e florescer continuamente, e se cubram de flores e frutos.

Ó Senhor Deus! Concede compreensão a cada um; dá-lhes poder e força, e fá-los reflectir a Tua ajuda e confirmação divina, para que se possam tornar altamente distintos entre o povo.

Tu és o Forte e o Poderoso.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó Senhor!

Ajuda esta filha do Reino a ser enaltecida em ambos os mundos; fá-la afastar-se deste mundo mortal de pó e daqueles que fixaram os seus corações nele, e permite-lhe que entre em comunhão e associação estreita com o mundo da imortalidade. Dá-lhe poder celestial e fortalece-a com os sopros do Espírito Santo para que ela possa levantar-se para Te servir.

Tu és o Poderoso.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó Tu, Senhor bondoso!

Permite que estas árvores se possam tornar o adorno do Paraíso de Abhá. Fá-las crescer através da Tua generosidade celestial. Torna-as viçosas e verdejantes, e salpica-as com gotas de orvalho celestiais. Reveste-as com a túnica da beleza radiante e coroa as suas cabeças com flores deslumbrantes. Adorna-as com frutos graciosos e sopra sobre elas os doces aromas.

Tu és o Concessor, o Todo-Amoroso, o Mais Radiante, o Mais Resplandecente.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ele é Deus!

O Deus, meu Deus! Somos crianças que beberam o leito do conhecimento divino do peito do Teu amor e fomos admitidos no Teu Reino com tenra idade. Imploramos-Te, dia e noite, dizendo: “Ó Senhor! Torna firmes nossos passos em Tua Fé, defende-nos na fortaleza da Tua protecção, nutre-nos na Tua mesa celestial, permite que nos tornemos sinais de orientação divina e lâmpadas incandescentes com uma conduta íntegra e ajuda-nos com o poder dos anjos do Teu reino, ó Tu que és o Senhor da glória e majestade!

Em verdade, Tu és o Concessor, o Misericordioso, o Compassivo.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó Tu, Senhor da graça maravilhosa!

Concede-nos novas bênçãos. Dá-nos a frescura da primavera. Somos rebentos que foram plantados pelos dedos da Tua bondade e crescemos com a água e o barro do Teu afecto carinhoso. Estamos sedentos pelas águas vivificadoras dos Teus favores e dependemos das efusões das nuvens da Tua generosidade. Não abandones a si próprio este arbusto onde as nossas esperanças se elevam, nem lhes negues as chuvas da Tua benevolência. Permite que das nuvens da tua misericórdia caia uma chuva abundante de modo que as árvores das nossas vidas possam gerar frutos e nós possamos alcançar o mais acalentado desejo dos nossos corações.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó Tu, Deus puro! Sou uma criança pequena; permite que o peito da Tua benevolência seja o peito que eu acalento; deixa-me ser nutrida com o mel e o leite do Teu amor; cria-me no seio do Teu conhecimento, e concede-me nobreza e sabedoria enquanto ainda sou uma criança.

Ó Tu, Deus Suficiente por Si Próprio! Faz de mim um confidente do Reino do Invisível.

Em verdade, Tu és o Forte, o Poderoso.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó Senhor! Protege as crianças que nascem no Teu dia, que são nutridas no peito do Teu amor, e são criadas no seio da Tua graça.

Ó Senhor, elas são, em verdade, ramos jovens nos jardins do Teu conhecimento, galhos que brotam nos arbustos da Tua graça. Concede-lhes uma porção das Tuas generosas dádivas, fá-las crescer e florescer na chuva que cai das nuvens do Teu favor.

Tu és, em verdade, o Generoso, o Clemente, o Compassivo!

-- ‘Abdu’l-Bahá

  * * * * * * * * *

Ó Deus! Concede o Teu favor e dá a Tua bênção. Outorga a Tua graça e dá uma porção da Tua bondade. Permite que estes homens testemunhem durante este ano o cumprimento das suas esperanças. Envia a Tua chuva celestial e providencia a Tua fartura e abundância. Tu és o Poderoso, o Forte.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ele é Deus!

Louvado sejas por teres acendido aquela luz na campânula da Assembleia no Alto, por teres guiado aquele pássaro da fidelidade ao ninho do Reino de Abhá. Uniste aquele rio perfeito ao oceano poderoso, devolveste ao Sol da Verdade o raio de luz que se expandia. Acolheste o cativo do isolamento no jardim da reunião e conduziste aquele que ansiava por Te ver à Tua presença no Teu brilhante lugar de luzes.

Tu és o Senhor de terno amor, Tu és o derradeiro objectivo do coração que anseia, Tu és o desejo querido da alma do mártir.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó meu Deus, ó meu Deus! Em verdade, esta planta gerou o seu fruto e manteve-se direita sobre o seu caule. Em verdade, tem surpreendido os agricultores e perturbado os invejosos. Ó Deus, rega-a com as chuvas da nuvem dos Teus favores e faz com que produza grandes colheitas que se amontoem como poderosas montanhas na Tua terra. Esclarece os corações com um raio que brilhe do Teu Reino de Unicidade, ilumina os olhos fazendo-os contemplar os sinais da Tua graça, e satisfaz os ouvidos fazendo-os ouvir as melodias dos pássaros das Tuas confirmações cantando nos Teus jardins celestiais, para que estas almas possam tornar-se semelhantes a peixes sedentos nadando nos lagos da Tua guia e semelhantes a leões acastanhados vagueando na floresta da Tua generosidade. Em verdade, Tu és o Generoso, o Misericordioso, o Glorioso e o Concessor.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó Deus compassivo! Ó Senhor dos Exércitos! Louvores a Ti por teres preferido estas pequenas crianças aos adultos maduros, e lhes teres concedido os Teus favores especiais. Tu guiaste-as. Tu foste bondoso com elas. Tu concedeste-lhes iluminação e espiritualidade. Dá-nos a Tua confirmação para que, quando crescermos, possamos envolver-nos no serviço ao Teu Reino, tornarmo-nos motivo de educação dos outros, arder como velas incandescentes e resplandecer como estrelas brilhantes. Tu és o Doador, o Concessor, o Compassivo.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó Tu, bem-amado do meu coração e da minha alma! Não tenho outro refúgio salvo Tu. Na alvorada, não ergo a minha voz salvo para a Tua comemoração e louvor. O Teu amor envolveu-me e a Tua graça é perfeita. A minha esperança está em Ti. Ó Deus, dá-me uma nova vida a cada instante, e concede-me os sopros do Espírito Santo em cada momento, para que eu possa permanecer firme no Teu amor, alcançar grande felicidade, perceber a luz manifesta e encontrar-me num estado de extrema tranquilidade e submissão.

Em verdade, Tu és o Doador, Aquele Que perdoa, o Compassivo.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó Deus, meu Deus! Dá-me de beber do cálice da Tua dádiva e ilumina a minha face com a luz da Tua orientação. Faz-me firme no caminho da tua fidelidade, ajuda-me a ser constante na Tua poderosa Aliança, e permite que eu seja contado entre os teus servos escolhidos. Abre perante a minha face, as portas da abundância, concede-me a libertação, e, com meios que não consigo perceber, sustenta-me com os tesouros dos céus. Permite que volte a minha face para o semblante da Tua generosidade e me dedique inteiramente a Ti, ó Tu que és misericordioso e compassivo! Para os que se mantêm firmes e constantes na Tua Aliança, Tu és, em verdade, gracioso e generoso. Todo o louvor a Deus, o Senhor dos mundos!

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó meu Deus! Ó Tu Que dotas todo o poder justo e domínio equitativo com glória permanente e poder eterno, com permanência e estabilidade, com constância e honra! Ajuda, com a Tua graça celestial, todo o governo que age justamente para com os seus súbditos, e toda a autoridade soberana, provinda de Ti, que protege o pobre e o fraco sob o estandarte da sua protecção.

Suplico-Te, pela Tua graça divina e bondade insuperável, que auxilies este governo, cujo pálio da autoridade se espalha sobre vastas e poderosas terras, e cujas evidências de justiça são aparentes nas suas regiões prósperas e florescentes. Ajuda, ó meu Deus, os seus exércitos a erguer alto as suas insígnias, concede influência à sua palavra e expressão, protege as suas terras, aumenta a sua honra, espalha a sua fama, revela os seus sinais, desfralda o seu estandarte através do Teu poder dominador e Teu poder resplandecente no reino da criação.

Tu, em verdade, auxilias quem quer Que desejes, e Tu és, em verdade, o Omnipotente, o Mais Poderoso.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó Tu, Deus bondoso!

Da América, esse país distante, precipitámo-nos para a Terra Santa e dirigimos os nossos passos a este Local sagrado. Alcançámos os dois Limiares abençoados e sagrados e ali obtivemos uma graça ilimitada. Viemos agora ao Monte Carmelo, que é o Teu jardim sagrado. A maioria dos Profetas voltou-se para Ti em oração nesta montanha sagrada, comungando contigo na maior humildade, à meia-noite.

Ó Senhor! Estamos agora neste local abençoado. Suplicamos pelas Tuas dádivas infinitas e aspiramos a uma consciência feliz e tranquila. Desejamos firmeza na Aliança e procuramos o Teu bom agrado até ao nosso último suspiro.

Ó Senhor! Perdoa os nossos pecados e concede-nos os Teus múltiplos favores. Protege-nos no abrigo da Tua protecção. Guarda e protege estas duas crianças pequenas e nutre-as no abraço do Teu amor.

Tu és Aquele que Perdoa, o Resplandecente, o que Sempre ama.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Ó Tu, Deus Clemente! Perdoa os pecados da minha mãe amada, absolve as suas faltas, lança sobre ela o olhar da Tua providência graciosa, e permite-lhe que consiga entrar no Teu Reino.

Ó Deus! Desde os primeiros dias da minha vida, ela educou-me e nutriu-me, e, no entanto, não a recompensei pelas suas fadigas e trabalhos. Recompensa-a Tu, concedendo-lhe vida eterna e exaltando-a no Teu Reino.

Em verdade, Tu és o Clemente, o Que tudo Concede, e o Generoso.

-- ‘Abdu’l-Bahá

* * * * * * * * *

Texto em inglês: Additional Prayers Revealed by ‘Abdu’l-Bahá

sábado, 26 de janeiro de 2019

Deus tem alguma “Palavra Final”?

Por David Langness.


Nenhuma brisa pode se comparar às brisas da Revelação Divina, pois a Palavra que é proferida por Deus, brilha e flameja como o sol entre os livros dos homens. (Bahá’u’lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 42-43)
Ao longo da a minha vida, tenho tido um interesse constante por estas brisas da revelação divina e concentrei a minha atenção em coisas místicas.

Na verdade, a minha avó disse-me uma vez que eu costumava pegar a mão dela, puxava-a para o quarto vazio mais próximo, fechava a porta e dizia: "OK, agora vamos falar sobre Deus". Ela dizia-me que isto começou quando eu tinha quatro anos.

Não faço ideia como desenvolvi aquele tipo de interesse intenso, numa idade tão precoce. A minha família não era particularmente religiosa – o meu pai tinha sido um luterano não-praticante e tornara-se um ateu que ridicularizava a maioria das religiões; também não gostava muito do clero. A minha mãe, criada como católica, tinha abandonado a Igreja quando era jovem, acreditando que ela justificava abusos psicológicos e físicos. Apenas a minha avó - abençoado seja o seu coração terno - tinha um profundo sentido de fé. As suas convicções não estavam limitadas a nenhuma igreja ou sistema; ela apenas vivia um forte compromisso com a bondade e o amor que encontrou no Antigo e no Novo Testamentos.

Assim, talvez este cenário explique porque é que eu sempre senti que as palavras "final" e "religião" nunca deveriam ser usadas juntas na mesma frase. Quando descobri a Fé Bahá’í durante a adolescência, a minha primeira pergunta foi: esta religião é a final?

Nunca esquecerei a resposta que me deu o Jess, um amigo Bahá’í e professor de artes: "Nenhuma religião é definitiva", disse ele. “Elas fazem parte de uma revelação progressiva e contínua de um único Deus.” Essa resposta deu ao meu interior céptico a permissão de que eu precisava para investigar mais e, três anos depois, tornei-me Bahá’í.

Mais tarde, examinei todo este tema de finalidade, porque mantive contactos com pessoas que insistiam que a sua religião - hindu, budista, cristã, muçulmana ou muitas outras - era a palavra final em matéria de fé.

Aprendi que Bahá’u’lláh advertiu especificamente as “pessoas de discernimento” a não permitir que a sua devoção por uma única religião as cegasse para a validade, e para a verdade das outras. Acreditar que uma determinada religião é a final, escreveu Bahá'u'lláh, “tem sido… um teste penoso para toda a humanidade”. (O Livro da Certeza, ¶173) Na verdade, os ensinamentos Bahá'ís dizem que essa tendência - insistir que uma religião é correcta e final, e as restantes estão erradas ou são inválidas – tem causado enorme sofrimento, conflitos e dor ao longo da história. Bahá'u'lláh disse – pelo contrário - que todos os Profetas de Deus representam a mesma essência:
Se observares com olhar criterioso, verás todos habitando no mesmo tabernáculo, voando no mesmo céu, sentados no mesmo trono, proferindo as mesmas palavras e proclamando a mesma Fé. (O Livro da Certeza, ¶162)
Depois, descobri que Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í, usou as palavras “final” e “religião” numa única frase - quando ele escreveu estas palavras fortes sobre o assunto:
A Fé que se identifica com o nome de Bahá'u'lláh, rejeita a qualquer intenção de menosprezar qualquer um dos Profetas anteriores a Ele, de reduzir qualquer um dos seus ensinamentos, de obscurecer, ainda que levemente, o esplendor das suas Revelações, de expulsá-los dos corações dos seus seguidores, de abolir os fundamentos das suas doutrinas, de descartar qualquer um dos seus Livros revelados, ou de suprimir as aspirações legítimas dos seus seguidores. Repudiando a pretensão de qualquer religião ser a revelação final de Deus ao homem, negando a finalidade da Sua própria Revelação, Bahá'u'lláh inculca o princípio básico da relatividade da verdade religiosa, a continuidade da Revelação Divina, a progressividade da experiência religiosa. O Seu objetivo é alargar a base de todas as religiões reveladas e desvendar os mistérios das suas escrituras. Ele insiste no reconhecimento incondicional da unidade do seu propósito, reafirma as verdades eternas que elas consagram, coordena as suas funções, distingue o essencial e o autêntico, do não-essencial e espúrio nos seus ensinamentos, separa as verdades dadas por Deus das induzidas pelas superstições dos sacerdotes, e tendo isto como base proclama a possibilidade, e até profetiza a inevitabilidade, da sua unificação, e a consumação das suas maiores esperanças. (The Promised Day is Come, p. 108)
Estamos certamente na era da evolução e da relatividade na ciência; porque não na religião, também? "Bahá'u'lláh inculca o princípio básico da relatividade da verdade religiosa", escreveu Shoghi Effendi. Podemos designar este conceito poderoso como uma teoria religiosa da evolução, porque nega categoricamente que qualquer religião seja final, dizendo que toda a religião constitui um sistema único, progressivo e em constante evolução:
... É evidente que Deus destinou e pretendeu que a religião fosse a causa e o meio de esforço de cooperação e realização entre a humanidade. Para este objectivo, Ele enviou os profetas de Deus, os santos Manifestantes da Palavra, para que a realidade fundamental e a religião de Deus possam provar ser o elo da unidade humana, pois as religiões divinas reveladas por esses santos Mensageiros têm uma e a mesma fundação. (‘Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 338)
Quando começamos a reconhecer a semelhança, a unidade e a verdade que fundamenta toda grande Fé, como minha avó fazia instintivamente, começamos a entender que a noção estática de finalidade nunca pode se aplicar a um sistema em constante evolução. Assim como o processo inter-geracional de evolução física garante que nenhuma versão final da realidade possa existir, a revelação progressiva também garante que a Palavra de Deus nunca esgotará os seus significados ou aparecerá em qualquer versão final.

-----------------------------
Texto original: Can the Word of God Ever Be Final? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 19 de janeiro de 2019

A carta de um Cristão para Bahá’u’lláh

Por Christopher Buck.


O primeiro Cristão que se tornou Bahá’í foi um médico Sírio chamado Faris Effendi; ele reconheceu Bahá’u’lláh e enviou-Lhe uma carta muito tocante e profunda.

Na Sua epístola a Raḍ’ar-Ruḥ, Bahá’u’lláh refere-Se à carta de Faris Effendi e afirma que “quem quiser pode lê-la”. Bahá’u’lláh tornou isto possível ao incluir o texto da carta de Faris Effendi no final da Sua Epístola. A carta de Faris está apenas traduzida parcialmente:
Ó Glória do Todo-Glorioso e Enaltecido do Mais Enaltecido…! Sinto-me honrado por escrever e enviar esta súplica à Tua presença. (…) Fizeram contigo o que fizeram a Jesus, o Manifestante da Sabedoria. (…) Eles dispersaram-se e tornaram-se ovelhas perdidas do rebanho. (…) Rogo-Te para que incluas o meu povo e eu próprio entre aqueles que estão cheios com as dádivas dos oceanos da Tua graça. (…) Tu és o Sempre-Eterno, a Fonte permanente de Pureza e Santidade. (…) Suplico-Te, pelo Teu mais íntimo Segredo, pelo Teu Kalim [“Interlocutor”, i.e., Moisés], pelo Teu Filho [Jesus], pelo Teu Habib [“Bem-Amado”, i.e., Maomé], e pelo Teu Precursor [o Báb] Que abraçou a Cruz devido ao Seu amor por Ti, (…) que não me prives a mim ou à minha pobre família de contemplar a luz do Teu Semblante. (…) Torna a nossa fé completa, escolhe-nos para servir os eleitos entre os Teus servos e aceita-nos como mártires que ofereceram o seu sangue por amor a Ti. (…)

Somos fracos, ignorantes e indignos; não nos deixes ser dos vencidos. (…) Dá-nos o dom do amor, fé e esperança, e permite-nos que arranquemos dos nossos corações aquilo que não Te agrada. (…) Faz-nos esquecer de nós próprios. Não te pedimos conforto, salvo naquilo que Te agrada. Tu és o Buscador de corações. (…) Uma embarcação de madeira transporta-Te. Como eu desejo intensamente estar na Tua companhia! (…)

Ó Mar! O que te aconteceu? Vejo-te perturbado. Será por temor ao teu Senhor, o Mais Grandioso? Ó Alexandria! Vejo-te triste devido à partida do Teu Senhor, o Vivo, o Mais Paciente. A cidade devoluta de Acre aplaude ao acolher-Te com grande alegria. Regozija-se porque pode receber a Maior de todas as Glórias. (Abu’l-Qasim Faizi, “From Adrianople to Akka,” in Conqueror of Hearts: Excerpts from Letters, Talks, and Writings of Hand of the Cause of God Abu’l-Qásim Faizí.)
Faris tem sido referido como “o médico” e também como “o sírio”. Também tem sido descrito como “um sacerdote”. Mas não há evidências disto no teor e palavras da carta de Faris para Bahá’u’lláh.

Adequada ao seu destinatário - Bahá’u’lláh - a carta de Faris é bastante formal, mas muito expressiva: é rica e está repleta de expressões teológicas e teofânicas de respeito e amor.

Depois de se dirigir a Bahá’u’lláh nestes termos altamente respeitosos, Faris compara Bahá’u’lláh a Jesus Cristo, reconhecendo ambos como mensageiros de Deus, tendo cada um sofrido perseguições. Os respectivos perseguidores rebeldes “dispersaram-se e tornaram-se ovelhas perdidas do rebanho”. Faris alarga esta comparação ao referir-se a Bahá’u’lláh como o mais recente de uma sucessão de profetas, incluindo Moisés, Jesus, Maomé e o Báb. Tão grande é a dedicação de Faris, que ele oferece a sua vida como “mártir”, se essa situação ocorrer.

Akká, ilustração de 1880
Faris refere-se depois a um navio (uma “embarcação de madeira”) que leva Bahá’u’lláh para a fortaleza prisão de Akká. Numa linguagem metafórica, Faris personifica primeiro o “Mar”, depois Alexandria, e depois a cidade devoluta de Akká. Em tom poético, Faris apela a cada um destes três locais, dizendo que o próprio “Mar” sente a presença e o poder impressionantes de Bahá’u’lláh e agita-se no seu temor a Deus, tal como manifestado por Bahá’u’lláh A cidade de Alexandria é descrita como “triste” e inconsolável pelo facto de Bahá’u’lláh estar de partida. E a cidade prisão de Akká rejubila com a chegada iminente de Bahá’u’lláh.

Tudo isto ocorre de forma metafórica, invisível e espiritual, num modo que mostra que a própria criação reconhece o poder e autoridade de Bahá’u’lláh, do qual todas as pessoas – excepto alguns – estão inconscientes.

O martírio do Bab é comparado directamente à “Cruz” onde Jesus Cristo sofreu e morreu. Esta comparação vai além do fato de serem ambos Mensageiros de Deus, e de ambos terem sido martirizados no caminho de Deus. Ao estabelecer uma equivalência histórica entre Cristo e o Báb, Faris conclui que o Báb também deu a Sua vida pelos pecados do mundo.

A carta de Faris a Bahá’u’lláh é uma declaração de fé e de dedicação a Bahá’u’lláh. Sem renunciar ao seu passado Cristão - e sem renunciar à sua ligação a Jesus Cristo – Faris afirma que Bahá’u’lláh representa o cumprimento das promessas de Cristo, e que Bahá’u’lláh manifesta o “espírito e poder” de Cristo, cumprindo simbolicamente as profecias de Cristo e as de todos os Manifestantes e Profetas de Deus:
Depois, os companheiros e discípulos de Jesus perguntaram-Lhe sobre aqueles sinais que deviam necessariamente assinalar o regresso da Sua manifestação. Quando, perguntaram eles, acontecerão estas coisas? Várias vezes questionaram aquela Beleza incomparável e, cada vez que Ele deu uma resposta, definiu um sinal especial que deveria anunciar o advento da prometida Dispensação. Disto são testemunho os quatro Evangelhos. (Bahá’u’lláh, O Livro da Certeza, ¶21)

Julgai honestamente: se as profecias registadas no Evangelho se cumprissem literalmente, se Jesus, Filho de Maria, acompanhado de anjos, descesse do céu visível sobre as nuvens, quem se atreveria a não acreditar, quem se atreveria a rejeitar a verdade e mostrar desdém? Pelo contrário! Tamanha consternação se apoderaria de todos os moradores da terra que nenhuma alma se sentiria capaz de proferir uma palavra, muito menos rejeitar ou aceitar a verdade. (Bahá’u’lláh, O Livro da Certeza, ¶88)

É claro e evidente para ti que todos os Profetas são os Templos da Causa de Deus, Que apareceram vestidos com diversos trajes. Se observares com olhar criterioso, verás todos habitando no mesmo tabernáculo, voando no mesmo céu, sentados no mesmo trono, proferindo as mesmas palavras e proclamando a mesma Fé. Assim é a unidade dessas Essências do ser, esse Luminares de esplendor infinito e imensurável. Portanto, se um destes Manifestantes da Santidade proclamasse: “Eu sou o regresso de todos os Profetas,” Ele, de facto, diria a verdade. De igual modo, em cada Revelação subsequente, o regresso da Revelação anterior é um facto cuja verdade está firmemente fundada. Uma vez que o regresso dos Profetas de Deus, conforme é atestado pelos versículos e tradições, foi convincentemente demonstrado, o regresso dos seus eleitos também está definitivamente provado. (Bahá’u’lláh, O Livro da Certeza, ¶162)

------------------------------------------------------------
Texto original: The First Christian Baha’i, and His Letter to Baha’u’llah (www.bahaiteachings.org)

Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Bahá’u’lláh recebe o primeiro Cristão

Por Christopher Buck e Joshua Hall.


No artigo anterior falámos de Faris, o médico sírio que se tornou o primeiro Bahá’í de origem cristã, em 1868.

Também referimos o conhecido escritor e historiador Bahá’í, Nabil-i A’zam, ou Nabil-i Zarandi (1831–1892), que ‘Abdu’l-Bahá elogiou nos seguintes termos:
Este homem distinto era erudito, sábio e tinha um discurso eloquente. O seu génio nato era pura inspiração, o seu dom poético era como um fluxo de cristal. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, p. 35)
O relato de Nabil sobre a decisão de Faris em tornar-se Bahá’í prossegue da seguinte forma:
Em resposta às nossas petições, havia uma Epístola, em caligrafia de Revelação [a escrita rápida que Mirza Aqa Jan registava à medida que Bahá’u’lláh falava], uma Carta do Mais Grandioso Ramo, e um papel com nuql [rebuçado] de amêndoas... Na Epístola, Faris,o médico, era particularmente elogiado.
Um dos presentes escreveu:
Várias vezes testemunhei evidências de um poder que nunca conseguirei esquecer. E assim aconteceu hoje. O navio estava em movimento, quando vimos um barco ao longe. O capitão parou o navio, e este jovem relojoeiro chegou até nós, e gritou pelo meu nome. Aproximámo-nos e ele deu-nos o teu envelope. Todos os olhares estavam sobre nós, os exilados. No entanto, ninguém questionou a acção do capitão. (Nabil-i A’zam, de uma história não publicada, traduzida por H.M. Balyuzi, Baha’u’llah, The King of Glory, p. 268)
E agora a narrativa completa de Bahá’u’lláh, escrita pouco depois da Sua chegada a Akká:
Em nome de Deus, o Eterno, o Imutável.

Ó tu que colocaste o teu olhar sobre o semblante divino, dando ouvidos à voz d’Aquele que sofreu o encarceramento várias vezes no caminho de Deus, o teu Senhor e Senhor dos mundos. Sabe, pois, que a Beleza Antiga partiu da Terra do Mistério devido àquilo que as mãos dos opressores forjaram. Anteriormente, Ele caminhara na terra, revelando a cada momento os versículos que arrebataram o povo ao Concurso no Alto, e expondo provas que fizeram desfalecer os anjos próximos de Deus.

Por Deus, as brisas perfumadas da Revelação divina foram sopradas sobre as regiões do oriente e do ocidente, e isto, em verdade, é uma graça abundante. Ao perceber estas fragrâncias, o osso decomposto despertou e ressuscitou, de acordo com a permissão de Deus, o Rei, o Omnipotente, o Belíssimo. Sob todas as condições, colocámos sob cada pedra, pérolas de palavras perspícuas e jóias de explicação; em breve, levantar-se-á Aquele que proclamará perante todas as pedras: “Ele é, em verdade, o Bem-Amado dos Mundos!”

Os dias passaram até que chegámos à beira-mar. Quando o Mais Grandioso oceano embarcou na Arca, os habitantes do Mais Alto Paraíso gritaram o nome de Deus, por Cuja ordem foi posta em movimento e dirigiram-se à Arca dizendo: “Bem-Aventurada sejas, pois Aquele que é a Esperança dos Mundos pôs os pés sobre ti”.

Seguidamente, a Arca começou a navegar sobre o mar, e ouvimos de cada uma das suas gotas aquilo que nenhum homem consegue ouvir, e o teu Senhor conhece bem a verdade daquilo que digo. Quando chegámos a uma das cidades da terra, percebemos-lhe a fragrância do Todo-Misericordioso, e assim que inalámos as brisas da santidade que dali sopravam, o mar acalmou-se e a Arca parou sobre ele. No entanto, por Deus, as ondas deste mar não ficarão calmas para sempre.

Perante o Rosto Divino veio um de entre a comunidade de Cristo com uma eloquente missiva em mão. Ao quebrar o selo, percebemos os perfumes de santidade daquele que se incendiou com o fogo do amor pelo teu Senhor, o Todo-Misericordioso. Tão arrebatado estava pelos êxtases da Revelação, que ele se separou de todas as coisas e segurou-se firmemente ao cordão que estava suspenso entre o céu e a terra. Lemos as palavras da sua missiva, e quem desejar, poderá lê-las para que possa observar como os dedos do poder do teu Senhor, o Mais Exaltado, o Omnipotente, o Todo-Poderoso, podem voltar os corações dos homens para Ele.

Que bom seria se tivesses estado perante Nós e escutado o Jovem a recitar aquela missiva na entoação de Deus, o Omnipotente, o Todo-Poderoso, o Sapientíssimo! Desta forma, Deus cria o que deseja como sinal do Seu poder; mas as pessoas, envoltas nos véus do ego estão entre os desatentos. Por Deus! A criação desse homem é maior aos olhos de Deus do que a criação dos céus e da terra. Quando leres a sua missiva, exclama: “Exaltado seja Deus, que desperta quem Ele deseja no Seu poder; Ele, em verdade, é o Revivificador dos Mundos!” (tradução provisória de Joshua Hall)
Esta notável epístola de Bahá’u’lláh começa por se dirigir ao destinatário, Rad’ar-Ruh (ou “Espírito Contente”, um nome dado a Mulla Muhammad-Rida-yi Manshadi por Bahá’u’lláh)

Provavelmente, naquele tempo, não houve contacto directo com o próprio Faris Effendi, mas esta epístola de Bahá’u’lláh (a “Beleza Antiga”) refere os seus múltiplos encarceramentos no passado e o primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í. A caminho de um novo encarceramento, Bahá’u’lláh continuou a revelar escrituras de sabedoria divina, agitando as almas dos ouvintes receptivos.

Bahá’u´lláh caracteriza a Sua revelação como tendo âmbito universal (“as brisas perfumadas da Revelação divina foram sopradas sobre as regiões do oriente e do ocidente”) e tendo poder para revivificar os espiritualmente mortos (“o osso decomposto despertou e ressuscitou, de acordo com a permissão de Deus”). Esta referência à ressurreição tem um significado espiritual, e não físico.

Depois Bahá’u’lláh usa metáforas como “pérolas” e “jóias” colocadas sob “cada pedra” (corações empedernidos). Seguidamente, Bahá’u’lláh compara o navio a vapor da Austrian-Lloyd à Arca de Noé, o que, na simbologia Bahá’í, representa a comunidade dos espiritualmente despertos – neste caso, os seguidores de Bahá’u’lláh.

O texto prossegue com a alusão a Alexandria (“uma das cidades da terra”). O “um de entre a comunidade de Cristo” que veio à presença de Bahá’u’lláh era Constantino, o relojoeiro, que trouxe “uma eloquente missiva em mão”, a carta de Faris Effendi para Bahá’u’lláh.

O texto da epístola de Bahá’u’lláh não distingue claramente entre Constantino e Faris. Num certo sentido, estes dois indivíduos aparecem juntos, cada um representando o outro. Alcançar a presença de Bahá’u’lláh e sentir a Sua majestade divina e o Seu poder carismático, teve um grande efeito em Constantino, que ficou agitado até às profundezas da sua alma com os “êxtases da Revelação”. Quanto à carta de Faris, Bahá’u’lláh afirma que “Quem desejar, pode lê-la”. Mas como? Ao anexar o conteúdo da carta ao final da Sua epístola, Bahá’u’lláh disponibiliza-a a todos nós. No próximo artigo desta série vamos ler a carta de Faris.

------------------------------------------------------------
Texto original: Baha’u’llah’s Welcome to the First Christian Baha’i (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Joshua Hall é um Bahá’í que vive no Montana (EUA). Os seus interesses incluem linguística e estudo de religiões comparadas. Tem uma paixão especial pelo estudo e tradução de textos árabes das Escrituras Bahá’ís.
Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

"Utterance": Palavra ou Elocução?


“Este é o dia em que o Pássaro da Elocução gorjeou a sua melodia sobre os ramos, em nome do seu Senhor, o Deus de Misericórdia.” (Bahá’u’lláh, Epístola ao Filho do Lobo)

A citação acima – colocada na primeira página do mais recente “Notícias Bahá’ís" – despertou a minha atenção pelo uso da expressão “Pássaro da Elocução”. O termo “Elocução” torna difícil de perceber o significado da frase. Para quem está habituado a fazer traduções das Escrituras Bahá’ís, é relativamente fácil perceber que houve dificuldade em traduzir a palavra “Utterance”.

A frase no texto fonte em inglês é: “This is the day on which the Bird of Utterance hath warbled its melody upon the branches, in the name of its Lord, the God of Mercy”.

A metáfora usada nesta frase (“Bird of Utterance”) parece-se ser uma alusão ao Manifestante de Deus (cujas palavras têm uma influência vivificadora e transformadora) e não apenas a uma figura com bela capacidade de expressão.

A palavra “utterance” no contexto religioso descreve muito mais do que uma capacidade retórica ou de expressão de pensamentos; trata-se, acima de tudo de proferir algo que é divinamente inspirado e que é capaz de transformar profundamente outras pessoas.

Também é importante notar que esta palavra (“utterance”) é usada na versão King James da Bíblia como significando palavra (ou expressão) inspirada por Deus ou pelo Espírito Santo. Nos mesmos versículos bíblicos da tradução de João Ferreira de Almeida, é usado o termo “Palavra”.

Por estes motivos, parece-me redutor traduzir “Bird of Utterance” por “Pássaro da Elocução”; seria mais adequado traduzir esta expressão como “Ave da Palavra” ou “Pássaro do Verbo” (“Verbo” significa palavra revelada, ou palavra criativa de Deus).

O que dizem os dicionários.

Segundo o Dicionário de Português da Porto-Editora, “Elocução” pode ter os seguintes significados:
1.           forma da enunciação do pensamento através de palavras
2.           estilo
3.           parte da retórica que ensina a maneira de expressar os pensamentos com ordem e elegância

O Dicionário Inglês-Português da Porto-Editora apresenta as seguintes possibilidades para a tradução da palavra “Utterance
1.           expressão; enunciação
2.           pronúncia; dicção
to have a defective utterance
ter uma pronúncia defeituosa
3.           LINGUÍSTICA enunciado; elocução
4.           fala; expressão oral
5.           (moeda falsa) emissão

Note-se que este dicionário afirma que é possível traduzir a palavra “utterance” como “elocução”, mas num contexto de linguística.

Já a palavra “Utterance” surge no dicionário Merriam-Webster com os seguintes significados:
1 : something uttered; especially : an oral or written statement : a stated or published expression
2 : vocal expression : SPEECH
3 : power, style, or manner of speaking


Outras Traduções

É interessante notar que a tradução espanhola usa o termo “Expresión” e a tradução francesa usa o termo “parole”.

Este es el día en que el Ave de la Expresión ha gorjeado su melodía sobre las ramas, en el nombre de su Señor, el Dios de Misericordia.

C'est en ce jour que l'oiseau de la parole a chanté sa mélodie sur les branches, au nom de son Seigneur, le Dieu de miséricorde.


sábado, 5 de janeiro de 2019

O primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í

Por Christopher Buck.


Gostaria que conhecessem o Dr. Faris Effendi, um médico sírio que foi o primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í.

A história de como o Dr. Effendi percebeu que Bahá’u’lláh era Aquele que Cristo tinha predito – em termos espirituais e simbólicos tinha cumprido as profecias – é muito interessante.

Em Agosto de 1868, Bahá’u’lláh era um prisioneiro do Império Otomano e foi exilado de Edirne (antes conhecida como Adrianópolis) para Gallipoli, e dali para a cidade-prisão de Akka (hoje “Acre” ou “Akko”) na Palestina (hoje Israel).

Na manhã de 21 de Agosto de 1868, Bahá’u’lláh e a Sua comitiva – todos eles prisioneiros – foram colocados a bordo de um navio a vapor da companhia Austrian-Lloyd. Os exilados – que seriam 72 segundo um relato – eram acompanhados por uma escolta militar constituída por dois oficiais e dez soldados.

A bordo do navio, Bahá’u’lláh, em tom de gracejo, disse para os Seus companheiros: “Não seria divertido se o navio se afundasse?” E apressou-Se a acrescentar – com total confiança e evidente presciência – esta garantia: “Mas não se afundará, mesmo que seja atingido por todas as ondas.”

Segundo um relato, inicialmente, Bahá’u’lláh e os Seus companheiros não sabiam o seu destino. Todo o que lhes tinham dito é que iam ser levados para “uma prisão desconhecida, numa terra desconhecida”. (ver Hasan M. Balyuzi, Bahá’u’lláh: The King of Glory (Oxford: George Ronald, 1980), p. 264.) Mais tarde foi dito aos exilados que iam ser levados para Akka.

As condições a bordo do navio eram indescritíveis e posteriormente foram referidas como “onze dias de horror”. Com pouca comida, o convés sobre-lotado e espaço insuficiente até para dormir, a maioria dos exilados ficou “muito indisposta”. Um dos companheiros adoeceu e teve de ser levado para o hospital em Esmirna, onde faleceu. ‘Abdu’l-Bahá organizou-lhe um funeral simples.

Alguns dias mais tarde, na manhã de 27 de Agosto de 1868, o navio austríaco chegou ao porto de Alexandria. Ali, Bahá’u’lláh e os Seus companheiros foram transferidos para outro vapor austríaco.

Porto de Alexandria (Egipto) em meados do séc. XIX
Entretanto, sem que os exilados soubessem, Nabil-i A'ẓam – um dos dezanove Apóstolos de Bahá’u’lláh e famoso historiador Bahá’í – tinha ido ao Egipto apelar ao governador turco para que libertasse outros sete ou oito prisioneiros Bahá’ís que ali se encontravam detidos (ver Shoghi Effendi, God Passes By, p. 178). Ninguém, entre os Bahá’ís, sabia exactamente onde é que esses crentes se encontravam presos em Alexandria.

Quando o navio austríaco ancorou na baía de Alexandria, vários exilados Bahá’ís desembarcaram para ir comprar mantimentos. Por sorte, um dos exilados, Aqa Muhammad-Ibrahim-i-Nazir, passou perto da prisão. Nabil, reconheceu-o ao longe e gritou-lhe.

Nessa prisão, Nabil tinha conhecido um Cristão que tinha tentado “salvar” a sua alma, tentando convertê-lo ao Cristianismo. Mas, segundo Nabil, os papeis inverteram-se rapidamente. “O médico estava naquela prisão. Ele tentou converter-me à Fé Protestante. Tivemos longas conversas e ele tornou-se Bahá’í.” Tratava-se do Dr. Effendi, também conhecido como “Faris, o sírio”, que estava preso devido a grandes dívidas. Nabil registou a sua narrativa:
No octogésimo primeiro dia do meu sonho, do terraço da prisão, vi Aqa Muhammad-Ibrahim-i-Nazir a passar na rua. Chamei-o e ele subiu. Perguntei-lhe o que fazia ali e ele disse-me que [Bahá’u’lláh] e os companheiros estavam a ser levados para Akka… e que ele tinha desembarcado na companhia de um polícia para fazer algumas compras.

O polícia, disse ele, “não me vai deixar ficar aqui muito mais tempo. Vou e informarei [‘Abdu’l-Bahá] da tua presença aqui. Se o barco se demorar aqui mais tempo, talvez venha visitar-te outra vez”. Ele deixou-me em brasas e foi-se embora.

O médico [Faris Effendi] não se encontrava ali nessa ocasião. Quando apareceu, encontrou-me lavado em lágrimas e recitando as seguintes palavras: “O Bem-Amado está ao meu lado e eu estou longe d’Ele; estou nas margens das águas da proximidade, e, no entanto, estou privado. Ó Amigo! Leva-me, leva-me a um lugar no navio da proximidade. Estou desamparado, estou vencido, sou um prisioneiro”.

Foi à noite que Faris... veio e viu a minha agonia. Disse-me: “Dizias-me que no octogésimo primeiro dia do teu sonho devias receber um motivo de regozijo, e que hoje é o octogésimo primeiro dia. Agora, pelo contrário, vejo-te profundamente perturbado”.

Respondi: “Na verdade, a causa de regozijo aparecei, mas ai de mim! A data está na palmeira e nossas mãos não podem alcançá-la”. Ele disse: “Conta-me o que aconteceu; talvez eu possa fazer alguma coisa”.

E assim, contei-lhe que [Bahá’u’lláh] estava no navio. Ele, tal como eu, ficou profundamente perturbado e disse: “Num dos próximos dias que não seja Sexta-feira… podemos, nós dois, obter permissão para ir a bordo do navio e estar na Sua presença. E ainda podemos fazer mais alguma coisa. Escreve o que quiseres; eu também vou escrever. Amanhã, um conhecido meu vem cá. Nós entregamos-lhe estas cartas para ele as levar ao navio”.

Escrevi a minha história e juntei alguns poemas que tinha escrito na prisão. Faris, o médico, também escreveu uma carta e descreveu a sua grande mágoa. Era muito comovedor. Colocámos tudo num envelope, que entregámos a um jovem relojoeiro chamado Constantino, para entregar ao início da manhã. Dei-lhe o nome do Khadim [Mirza Aqa Jan] e de alguns outros companheiros, disse-lhe como os podia identificar, e salientei que não devia entregar o envelope enquanto não encontrasse um deles.

Ele saiu de manhã. Nós ficámos a ver no topo do telhado. Primeiramente ouvimos um sinal e depois o barulho do movimento do navio; ficámos perplexos, com medo de não termos conseguido. Depois o navio parou e começou novamente após quinze minutos. Estávamos na expectativa quando, de repente, chegou Constantino. Entregou-me um envelope e um pacote embrulhado num lenço e gritou: “Por Deus! Eu vi o Pai de Cristo!”

Faris, o médico, beijou os seus olhos e disse: “O nosso destino foi o fogo da separação, o teu foi a bênção de ver o Bem-Amado do Mundo.” (Nabil-i A'ẓam, de uma história não publicada, traduzida por H.M. Balyuzi, Baha’u’llah, the King of Glory, pags. 267–268.)
Imagine-se o quão surpreendido deve ter ficado Constantino, o relojoeiro, ao contemplar Bahá’u’lláh pela primeira vez! Aquela primeira impressão tornou-se uma impressão permanente, quando ele – pleno de espanto e admiração – gritou para Faris: “Por Deus! Eu vi o Pai de Cristo!”

Estávamos no dia 28 de Agosto de 1868. Três dias mais tarde, Faris foi libertado da prisão, conforme prometido por Bahá’u’lláh. O segundo navio austríaco, com Bahá’u’lláh e os seus companheiros a bordo, partiu para Haifa.

------------------------------------------------------------
Texto original: The First Christian to Become a Baha’i (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.