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terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Uma Oração de ‘Abdu’l-Bahá por um Pai Falecido


O que se segue é uma tradução provisória (por outras palavras, não oficial) de uma oração de ‘Abdu’l-Bahá, cujo texto original foi publicado em Yárán-i-Pársí, p. 347 (selecção n.º 467).

Ele é Deus!

Ó Senhor que sustentas os Teus servos! Guia o pai deste ser amado ao mais alto Paraíso e perdoa as suas ofensas e pecados, para que, com um rosto radiante, possa juntar-se às almas nobres no mundo vindouro e se torne o receptor dos Teus favores graciosos. Tu és, em verdade, o Generoso, o Misericordioso, o Clemente, o Compassivo, o Amoroso.

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FONTE: A Prayer by ‘Abdu’l-Bahá for a Deceased Father (Adib Masumian)

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Traduzir as Escrituras Bahá’ís em Portugal

Uma reflexão sobre os perfis, as competências, os desafios, e as exigências dos tradutores Bahá’ís em Portugal.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Epístola de Bahá'u'lláh para Georg David Hardegg

Georg David Hardegg (1812-1879) foi co-fundador da Sociedade Alemã de Templários. Em 1868, este grupo religioso estabeleceu-se em Haifa, na Palestina otomana. Hardegg sobe que alguns Bahá’ís estavam presos em Akká (do outro lado da baía) e entrou em contacto com outros Bahá’ís que se tinham estabelecido em Haifa. Harder tentou perceber o que eram os princípios e ensinamentos Bahá’ís; pediu um encontro com Bahá’u’lláh, mas esse encontro nunca aconteceu. No entanto, teve a oportunidade de se encontrar com ‘Abdu’l-Bahá.

O texto que se segue é uma tradução provisória de uma Epístola de Bahá’u’lláh dirigida a Georg David Hardegg. A tradução oficial em inglês desta Epístola foi publicada ontem na Bahá’í Reference Library.

 

In the name of God, the Most Holy!

Em nome de Deus, o Santíssimo!

Thy sealed letter hath reached the presence of this Wronged One, and from it We have inhaled the sweet savour of thy devotion to God, the Omnipotent Protector, the Self-Subsistent. We beseech Him to make known unto thee that which is concealed within the Written Tablet, and to grant that thou mayest catch the accents of the Mystic Dove that singeth upon the celestial bough, and hear the soft murmur of the water that is life indeed as it floweth in a stream of utterance and wisdom from the fountainhead of the Will of Him Who is the Lord of all mankind.

A tua carta selada chegou à presença deste Injuriado, e dela inalámos o doce aroma da tua devoção a Deus, o Protector Omnipotente, o Que Subsiste por Si Próprio. Suplicamos-Lhe que te dê a conhecer o que está oculto na Epístola Escrita, e que permita que recebas os tons da Pomba Mística que canta no ramo celestial, e ouças o suave murmúrio da água que é realmente vida tal como ela flui numa corrente de expressão e sabedoria da fonte da Vontade d’Aquele Que é o Senhor de toda a humanidade.

O friend! It behoveth thee to reflect upon the Word of God, to ponder its greatness, and to meditate upon its sweetness. This Word, verily, is sufficient unto the peoples of the earth. The first one to believe in Him Who was the Spirit1 was so enraptured by the Word of God that, in his eagerness to embrace its truth, he detached himself from everything that men possess. Such is the condition of all who would be leviathans in the Most Mighty Ocean.

Ó amigo! Incumbe-te refletir sobre a Palavra de Deus, ponderar sobre a sua grandeza e meditar sobre a sua doçura. Esta Palavra, em verdade, é suficiente para os povos da terra. O primeiro a acreditar n’Aquele que era o Espírito [1] ficou tão extasiado pela Palavra de Deus que, na ânsia de abraçar a sua verdade, desligou-se de tudo o que os homens possuem. Essa é a condição de todos os que pretendem ser leviatãs no Mais Poderoso Oceano.

O thou learned doctor and percipient divine! Know that the people have, for the most part, been hindered by their passions from turning themselves to God, the Lord of all names. Whoso looketh with his inner eye, however, shall be granted vision, and shall testify to what he witnesseth, exclaiming: “All praise be unto my Lord, the Most Exalted!” The tidings of God’s loving-kindness have been announced to land and sea, and unto the nations hath been given the promise of the advent of Him Who shall heal their sicknesses, even Him Who shall build up the Temple of the Lord.2 Well is it with them who understand!

Ó tu, doutor erudito e sacerdote conhecedor! Sabe que as pessoas, na sua maioria, foram impedidas pelas suas paixões de se voltarem para Deus, o Senhor de todos os nomes. Quem observar com a sua visão interior, porém, receberá a visão e comprovará o que testemunha, exclamando: “Todos os louvores ao meu Senhor, o Exaltado!” As boas-novas da misericórdia de Deus foram anunciadas à terra e ao mar, e às nações foi dada a promessa do advento d’Aquele que curará as suas doenças, e mesmo Aquele que edificará o Templo do Senhor. [2] Felizes aqueles que entendem!

Lo, the appointed time is now arrived, and Carmel crieth out as if moved to ecstasy by the soul-stirring breezes of her Lord. Happy are those who hear her cry! Whoso hearkeneth with his inner ear shall hear the voice of the Rock3 as he beareth witness, with a mighty voice, to the Everlasting God. Blessed are they who perceive the savour of Divine utterance and, severing themselves from the world of being, advance towards the Kingdom. Behold! The things that had been mentioned in the Books of old have now appeared, and yet the people, though they look upon them, comprehend them not!

Eis que chegou a hora marcada, e o Carmelo brada como que levado ao êxtase pelas brisas comoventes do seu Senhor. Felizes aqueles que o ouvem clamar! Quem escuta com os ouvidos interiores ouvirá a voz da Rocha [3] ao dar testemunho, com uma voz poderosa, do Deus Eterno. Bem-aventurados aqueles que se apercebem do sabor da expressão Divina e, separando-se do mundo do ser, avançam para o Reino. Vede! As coisas que foram mencionadas nos Livros antigos apareceram agora, e, no entanto, as pessoas, embora as vejam, não as compreendem!

Regard thou, O friend, the mystery of the Great Reversal in the Sign of the Sovereign. Through this reversal He hath caused the exalted to be abased and the abased to be exalted. Call thou to mind how, in the days of Jesus, it was those who were distinguished for their learning, the men of letters and religion, who denied Him, whilst humble fishermen made haste to gain admittance into the Kingdom—this is the meaning of that which hath been expressed by symbol and allusion in the obscurities of words.

Considera, ó amigo, o mistério da Grande Reversão no Sinal do Soberano. Através desta reversão Ele fez com que os exaltados fossem humilhados e os humilhados fossem exaltados. Recorda-te de como, nos dias de Jesus, foram aqueles que se distinguiam pelo seu conhecimento, os homens de letras e de religião, que O negaram, enquanto humildes pescadores se precipitaram a conseguir ser admitidos no Reino - este é o significado daquilo que foi transmitido por símbolos e alusões na obscuridade das palavras.

Great, immeasurably great is the Cause! Peter, the Apostle, despite the pre-eminence of his rank and the loftiness of his station, when questioned held back from speaking. Wert thou, with thy thoughts centred wholly on God, to reflect upon the happenings of former times, thou wouldst see the light shining refulgently before thy face, and wouldst keep it constantly before thy gaze. The truth is, of a certainty, too evident to be enshrouded in a veil, the way too clear to be obscured by darkness, and certitude too manifest to be eclipsed by any fleeting whim. Those who have been debarred therefrom are the followers of their corrupt desires. Today they are reposing on their bed of slumber; erelong they shall awake and rush, without avail, to find the things that have escaped them. Well is it with them who have inhaled the Divine fragrance at the time when it was shed abroad: These, verily, have attained unto that which is the portion of the sincere among God’s servants.

Grande, imensamente grande é a Causa! Pedro, o Apóstolo, apesar da preeminência da sua posição e da sublimidade da sua condição, quando questionado, absteve-se de falar. Se tu, com os teus pensamentos totalmente centrados em Deus, reflectisses sobre os acontecimentos dos tempos passados, verias a luz a brilhar resplandecentemente perante o teu rosto e mantê-la-ias constantemente diante dos teus olhos. A verdade é, certamente, demasiado evidente para ser envolta num véu, o caminho demasiado claro para ser obscurecido pelas trevas, e a certeza demasiado manifesta para ser eclipsada por qualquer capricho efémero. Aqueles que foram excluídos disto são seguidores dos seus desejos corruptos. Hoje estão a repousar no seu leito de torpor; em breve acordarão e correrão, sem sucesso, para encontrar as coisas que lhes escaparam. Bem-aventurados aqueles que inalaram a fragrância Divina no momento em que ela foi espalhada: Estes, em verdade, alcançaram aquilo que é a parte dos sinceros entre os servos de Deus.

Know thou that We have seen the letter “Ṣád”, which appeareth in the word “ṣulḥ”,4 become embellished by the ornament of the upright Alif. This, verily, is that which hath been recorded in an outspread Tablet. No sooner were the splendours of that Divine Word revealed than the portals of heaven were unlocked, the Kingdom of Names made manifest, and all was brought to consummation by the appearance of the letter “Há”, which had been connected to the recumbent Alif, itself embellished by the Point from which had sprung the Treasured Name, the Hidden Secret, and the Guarded Symbol—that same Point from which all things have appeared and unto which they have all returned. Thereupon We saw the Word give utterance to a Word which was received by every people in accordance with its own particular tongue and language. As it spoke forth, there rose above the horizon of its utterance a Sun of such effulgent splendour that, overshadowed by its radiance, the celestial sun grew dark; then it cried out: “The brow of seventy hath been adorned with the diadem of forty and united with the seven before ten”; at this it sighed, and moaned aloud: “Alas, I see the house oblivious of its Master, the son unmindful of his Father, the seeker heedless of the sanctuary and refuge for which he yearneth.”

Sabe que vimos a letra “Ṣád”, que aparece na palavra “sulh”, [4] ser embelezada pelo ornamento do Alif íntegro. Isto, em boa verdade, é o que foi registado numa Epístola aberta. Assim que os esplendores dessa Palavra Divina foram revelados, os portais do céu foram abertos, o Reino dos Nomes manifestou-se, e tudo foi levado à consumação pelo aparecimento da letra “Há”, que tinha sido ligada ao Alif inclinado, ele próprio embelezado pelo Ponto de onde surgiu o Nome Estimado, o Segredo Oculto e o Símbolo Guardado - esse mesmo Ponto de onde todas as coisas apareceram e para o qual todas regressaram. Seguidamente, vimos o Verbo expressar uma Palavra que foi recebida por cada povo de acordo com a sua língua e dialecto próprio. Enquanto falava, ergueu-se no horizonte da sua expressão um Sol com esplendor tão radiante que, ofuscado pelo seu brilho, o sol celeste escureceu; depois bradou: “A fronte dos setenta foi adornada com o diadema dos quarenta e unida aos sete antes dos dez”; com isto, suspirou e gemeu alto: “Ah, vejo a casa esquecida do seu Mestre, o filho esquecido do seu Pai, o buscador inconsciente do santuário e refúgio pelo qual anseia”.

O thou who soarest in the atmosphere of understanding! Whoso perceiveth that which though solid, floweth; which though static, flieth; which is both manifest and hidden, both resplendent and obscure will be so enraptured by the effulgence of heavenly illumination that he will rise up on the wings of ardent longing into the empyrean of nearness, holiness, and heavenly reunion.

Ó tu que voas na atmosfera da compreensão! Quem percebe aquilo que, embora sólido, flui, que embora estático, voa, que está simultaneamente manifesto e oculto, simultaneamente resplandecente e obscuro, ficará tão extasiado com brilho da iluminação celestial que se elevará nas asas do desejo ardente para o empíreo da proximidade, da santidade e da reunião celestial.

Respecting thy comments on the question of “darkness”, We testify that it hath encompassed all mankind. Happy the man who hath been illumined by the light of Him Who hath shone forth resplendent from the horizon of the mercy of His Lord, the Most Holy. This darkness is naught but the idle imaginings of men, by which they have been prevented from directing themselves towards the Kingdom when, by the bidding of God, the Lord of the realm on high, it was made manifest.

Relativamente aos teus comentários sobre a questão das “trevas”, testemunhamos que elas envolveram toda a humanidade. Feliz o homem que foi iluminado pela luz d’Aquele que brilhou resplandecente no horizonte da misericórdia do Seu Senhor, o Santíssimo. Estas trevas não são mais do que as imaginações fúteis dos homens, com as quais foram impedidos de se dirigirem para o Reino quando, por ordem de Deus, o Senhor do reino no alto, se tornou manifesto.

As for thy mention of the opinion expressed to thee by a certain individual that, in so far as concerneth the Spirit, there existeth no difference between us, his assertion is correct, for the Spirit is too exalted either to admit of differences or to be comprehended by allusions. It is the revelation of the Light of God’s singleness amongst men, the Sign of His ancient eternity before the nations. Whoso turneth himself thereto hath turned himself unto Him Who sent it forth, and whoso turneth away therefrom hath turned away from the One by Whose power it hath been manifested and endowed with utterance. It hath not changed from age to age, and such as it hath been it shall remain. Such differences as may be witnessed in the effulgence of its light are to be attributed to the mirrors that receive it, and to the disparity, in form and colour, of the images they reflect.

Quanto à tua menção da opinião que te foi transmitida por um certo indivíduo de que, no que diz respeito ao Espírito, não existe diferença entre nós, a sua afirmação está correta, pois o Espírito é demasiado exaltado para admitir diferenças ou para ser compreendido por alusões. É a revelação da Luz da unicidade de Deus entre os homens, o Sinal da Sua antiga eternidade diante das nações. Quem se volta para isso, volta-se para Aquele que o enviou, e quem se afasta daí, afasta-se d’Aquele por Cujo poder se tornou manifesto e dotado de expressão. Não mudou de época para época, e tal como tem sido, assim permanecerá. As diferenças que se podem testemunhar no brilho da sua luz devem ser atribuídas aos espelhos que a recebem e à disparidade, na forma e na cor, das imagens que reflectem.

O friend! Were but a single token to be revealed of the Secret which hath lain wrapped in mystery, the hearts of all those who, clinging to the things of men, have cast away the things of God, would be thrown into perturbation. Shouldst thou, having meditated upon the words that We have addressed to thee, arise with perfect steadfastness to act in such wise as We have intimated, thou wouldst undoubtedly accomplish such things as have been witnessed in a former age.

Ó amigo! Se apenas um único sinal fosse revelado do Segredo que permanece envolto em mistério, os corações de todos aqueles que, apegando-se às coisas dos homens, rejeitaram as coisas de Deus, ficariam perturbados. Se tu, tendo meditado nas palavras que te dirigimos, te levantasses com perfeita firmeza para agir da forma que sugerimos, realizarias, sem dúvida, as coisas que foram testemunhadas numa época anterior.

O friend! This Bird lieth imprisoned beneath the talons of cruelty and malice; It seeth for itself neither nest wherein to shelter nor heavenly expanse in which to fly. In such a plight as this, it summoneth mankind unto everlasting life. Blessed then be the attentive ear!

Ó amigo! Esta Ave está aprisionada nas garras da crueldade e da malícia; não vê para si mesmo nem ninho onde se abrigar, nem vastidão celestial onde voar. Numa situação difícil como esta, chama a humanidade para a vida eterna. Abençoado seja então o ouvido atento!

We beseech God to unite us in one holy court, and to graciously assist us to do that which is pleasing and acceptable unto Him.

Suplicamos a Deus que nos una numa corte santa e que nos ajude graciosamente a fazer aquilo que Lhe agrada e Lhe é aceitável.

Bahá’u’lláh

Bahá’u’lláh

 

[1] - Jesus.

[2] - Cf. Zacarias 6:12–15.

[3] - Pedro.

[4] – Literalmente, “paz”.

 


terça-feira, 13 de agosto de 2019

"Chamado", "Chamamento" ou "Apelo"


O mais recente número do “Notícias Bahá'ís” chamou a minha atenção para um problema recorrente: o uso incorrecto da palavra “chamado”.

  • “O recente chamado da Casa Universal de Justiça...”
  • “…uma centena de pessoas – crentes e simpatizantes – respondeu ao chamado e participou na conferência...”

É óbvio que estas frases carecem de clareza e sentido. As instituições não fazem chamados; as instituições chamam, apelam, convocam; as pessoas podem sentir-se chamadas com esses chamamentos, apelos ou convocações.

A palavra “chamado” pretende caracterizar alguém que recebeu um convite ou uma convocação (“Porque muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”); também pode significar receber um nome ou designação (“Ele era chamado assim porque...”)

Por esse motivo, seria preferível usar palavras como “chamamento” ou “apelo”, que significam “convocação”, “invocação” ou “solicitação”. As frases acima referidas tornam-se mais claras se usarmos estas palavras:

  • “O recente apelo da Casa Universal de Justiça...”
  • “…uma centena de pessoas – crentes e simpatizantes – respondeu ao chamamento e participou na conferência...”

O mesmo se aplica à tradução portuguesa do livro Call to the Nations que foi traduzido para português como “Chamado às Nações”; o título mais correcto seria “Apelo às Nações” ou “Chamamento às Nações”.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

“Versículo” ou “verso”?

Recentemente, a minha atenção caiu na seguinte tradução de um excerto das escrituras Bahá’ís:

Fosse Eu relatar todos os versos que foram revelados com relação a este tema glorioso, cansaríamos o leitor e desviar-Nos-íamos do Nosso propósito. O verso seguinte bastar-Nos-á… (Bahá’u’lláh, Jóias dos Mistérios Divinos)

A utilização da palavra “verso” (tradução literal de “verse”, no inglês) nesta tradução parece-me incorrecta e descontextualizada. Infelizmente, não é a primeira vez que detecto este erro numa tradução de escrituras Bahá’ís.

Na literatura religiosa em língua portuguesa, chamamos versículos às pequenas frases ou parágrafos que constituem um texto sagrado. O dicionário da Porto-Editora apresenta os seguintes significados para a palavra “versículo”:
  1. (RELIGIÃO) cada uma das divisões de um capítulo da Bíblia
  2. palavras extraídas da Escritura, seguidas de responso, que se rezam ou cantam nos ofícios divinos, verseto
  3. subdivisão de um artigo, parágrafo, etc.

A palavra “verso”, por seu lado, refere-se a textos poéticos, cujas linhas tradicionalmente obedecem a certas normas rítmicas.

Acrescente-se ainda que os dicionários Inglês-Português da Porto Editora e da Collins sugerem que a palavra “verse” – num contexto religioso – seja traduzido como “versículo”.

Penso que é óbvio para todos que, no texto acima traduzido, Bahá’u’lláh refere-Se a excertos das escrituras; por esse motivo, a tradução – respeitando a língua e cultura portuguesa, e mantendo-se fiel ao sentido original da tradução em inglês – deveria usar a palavra “versículo”.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

"Utterance": Palavra ou Elocução?


“Este é o dia em que o Pássaro da Elocução gorjeou a sua melodia sobre os ramos, em nome do seu Senhor, o Deus de Misericórdia.” (Bahá’u’lláh, Epístola ao Filho do Lobo)

A citação acima – colocada na primeira página do mais recente “Notícias Bahá’ís" – despertou a minha atenção pelo uso da expressão “Pássaro da Elocução”. O termo “Elocução” torna difícil de perceber o significado da frase. Para quem está habituado a fazer traduções das Escrituras Bahá’ís, é relativamente fácil perceber que houve dificuldade em traduzir a palavra “Utterance”.

A frase no texto fonte em inglês é: “This is the day on which the Bird of Utterance hath warbled its melody upon the branches, in the name of its Lord, the God of Mercy”.

A metáfora usada nesta frase (“Bird of Utterance”) parece-se ser uma alusão ao Manifestante de Deus (cujas palavras têm uma influência vivificadora e transformadora) e não apenas a uma figura com bela capacidade de expressão.

A palavra “utterance” no contexto religioso descreve muito mais do que uma capacidade retórica ou de expressão de pensamentos; trata-se, acima de tudo de proferir algo que é divinamente inspirado e que é capaz de transformar profundamente outras pessoas.

Também é importante notar que esta palavra (“utterance”) é usada na versão King James da Bíblia como significando palavra (ou expressão) inspirada por Deus ou pelo Espírito Santo. Nos mesmos versículos bíblicos da tradução de João Ferreira de Almeida, é usado o termo “Palavra”.

Por estes motivos, parece-me redutor traduzir “Bird of Utterance” por “Pássaro da Elocução”; seria mais adequado traduzir esta expressão como “Ave da Palavra” ou “Pássaro do Verbo” (“Verbo” significa palavra revelada, ou palavra criativa de Deus).

O que dizem os dicionários.

Segundo o Dicionário de Português da Porto-Editora, “Elocução” pode ter os seguintes significados:
1.           forma da enunciação do pensamento através de palavras
2.           estilo
3.           parte da retórica que ensina a maneira de expressar os pensamentos com ordem e elegância

O Dicionário Inglês-Português da Porto-Editora apresenta as seguintes possibilidades para a tradução da palavra “Utterance”
1.           expressão; enunciação
2.           pronúncia; dicção
to have a defective utterance
ter uma pronúncia defeituosa
3.           LINGUÍSTICA enunciado; elocução
4.           fala; expressão oral
5.           (moeda falsa) emissão

Note-se que este dicionário afirma que é possível traduzir a palavra “utterance” como “elocução”, mas num contexto de linguística.

Já a palavra “Utterance” surge no dicionário Merriam-Webster com os seguintes significados:
1 : something uttered; especially : an oral or written statement : a stated or published expression
2 : vocal expression : SPEECH
3 : power, style, or manner of speaking


Outras Traduções

É interessante notar que a tradução espanhola usa o termo “Expresión” e a tradução francesa usa o termo “parole”.

Este es el día en que el Ave de la Expresión ha gorjeado su melodía sobre las ramas, en el nombre de su Señor, el Dios de Misericordia.

C'est en ce jour que l'oiseau de la parole a chanté sa mélodie sur les branches, au nom de son Seigneur, le Dieu de miséricorde.


sábado, 1 de julho de 2017

Traduções de Escrituras Bahá’ís e Traduções da Bíblia



É sabido que, actualmente, as Escrituras Bahá’ís são inicialmente traduzidas para inglês, e essas traduções em inglês são usadas como base para a tradução para outras línguas.

Também sabemos que as primeiras traduções oficiais das nossas Escrituras foram feitas por Shoghi Effendi. E sabemos que Shoghi Effendi ao traduzir as Escrituras Bahá’ís para inglês, adoptou o estilo literário da Bíblia versão King James.

A adopção desse estilo reflecte-se, entre outras coisas, na forma como são construídas algumas frases e na terminologia adoptada na tradução de alguns termos. Além disso, podemos perceber que quando os textos das escrituras Bahá’ís incluem uma citação bíblica, o texto dessa citação é igual ao que consta da tradução KJV.

Para o leitor de língua inglesa e de origem cristã, torna-se relativamente fácil identificar citações, reconhecer paralelismos entre os textos, identificar algumas raízes cristãs da Fé Bahá’í e apreciar a beleza das nossas Escrituras.

Assim, é legítimo questionarmos: se as traduções inglesas das Escrituras Bahá’ís reflectem um determinado estilo de linguagem bíblica, então que estilo de linguagem bíblica deveriam reflectir as traduções portuguesas das Escrituras Bahá’ís?

Encontrar uma resposta para esta questão deve preceder qualquer trabalho de tradução das Escrituras Bahá’ís para português.

Apesar das minhas limitações - não sou biblista, nem linguagista, nem exegeta e os meus estudos formais em religião são limitados - proponho-me fazer uma reflexão que ajude à escolha de um estilo para a tradução das Escrituras Bahá’ís e mostrar algumas consequências dessa escolha.

As traduções da Bíblia para português

A primeira questão que podemos colocar é: quais são as principais traduções da Bíblia em Português.

Poderíamos identificar algumas das principais traduções integrais:
Não incluo a tradução do Prof. Frederico Lourenço nesta lista apenas porque ainda não está completa.

A maioria dos comentários e opiniões que recolhi junto de amigos e conhecidos - que considero entendidos na matéria - indicam que a tradução de João Ferreira de Almeida (JFA) é preferível em relação às restantes.

Não vou contestar ou apoiar esse ponto de vista. Mas há um aspecto sobre a tradução JFA que me parece relevante: foi publicada em 1693. O seu estilo manteve-se e foi aceite por muitas igrejas. Tal como a tradução inglesa KJV (datada de 1611), a tradução de JFA parece ter passado o teste do tempo.

Note-se ainda que existem variantes da tradução JFA, nomeadamente a Revista e Corrigida (RC), a Revista e Actualizada (RA) e a Corrigida Fiel (CF). A variante RC é considerada a King James em língua portuguesa.

Assim, parece-me que existem algumas justificações para usar a tradução da Bíblia de JFA, na Edição Revista e Corrigida de 1898 (actualizada em 1968 e 2001) publicada pela Sociedade Bíblica de Portugal, disponível online aqui.

Vejamos alguns exemplos dos reflexos literários nos textos em inglês e as opções que temos em português.

A expressão Day of Judgment

Na tradução inglesa do Livro da Certeza, encontramos a seguinte frase no parágrafo 117:
… they have idly contended that whereas the Day of Judgment is inevitable…
Pergunta: qual a melhor tradução para a expressão Day of Judgment na frase citada?

O dicionário da Porto-Editora apresenta as seguintes possibilidades para o termo Judgment:
1. julgamento;
2. sentença; decisão judiciária
3. discernimento; espírito crítico; bom senso;
4. opinião; parecer;
5. juízo
Perante estas possibilidades, é interessante lembrar que a expressão Day of Judgment é usada na tradução KJV. Vejamos alguns exemplos:

Mt 12:36
But I say unto you, That every idle word that men shall speak, they shall give account thereof in the day of judgment.
2Pe 2:9
The Lord knoweth how to deliver the godly out of temptations, and to reserve the unjust unto the day of judgment to be punished:
1Jo 4:17
Herein is our love made perfect, that we may have boldness in the day of judgment: because as he is, so are we in this world.

Estes versículos, na tradução JFA(RC) são:

Mt 12:36
Mas eu vos digo que, de toda a palavra ociosa que os homens disserem, hão de dar conta no dia do juízo.
2Pe 2:9
Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia de juízo, para serem castigados;
1Jo 4:17
Nisto é perfeito o amor para connosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós, também, neste mundo.

Estes três versículos levam-me a optar pela expressão “Dia do Juízo” para tradução da expressão Day of Judgment. Outros versículos bíblicos onde surge este termo confirmam esta opção.

Assim, a tradução para a frase da Livro da Certeza poderia ser:
…defenderam futilmente que como o Dia do Juízo é inevitável…

O termo Foolish

Na tradução inglesa do Livro da Certeza, encontramos a seguinte frase no parágrafo 28:
… when the reins of mankind will have fallen into the grasp of the foolish and ignorant.
Perguntamos: qual a melhor tradução para a palavra foolish na frase citada?

O dicionário da Porto-Editora apresenta as seguintes possibilidades para o termo foolish:
1. néscio, insensato, tolo
2. disparatado
3. louco
4. ridículo
Tendo presente estas possibilidades, é interessante ver como a palavra foolish é usada na tradução KJV. Podemos perceber que a palavra surge com mais regularidade na literatura sapiencial, nos textos de Jeremias e no Evangelho de S. Mateus. Vejamos alguns exemplos:

Pr 14:7;
Go from the presence of a foolish man, when thou perceivest not in him the lips of knowledge.
Je 5:4
Therefore I said, Surely these are poor; they are foolish: for they know not the way of the LORD, nor the judgment of their God.
Mt 25: 1-2
Then shall the kingdom of heaven be likened unto ten virgins, which took their lamps, and went forth to meet the bridegroom. And five of them were wise, and five were foolish.

As traduções JFA destes versículos são:

Pr 14:7
Vai-te à presença do homem insensato, e nele não divisarás os lábios do conhecimento.
Je 5:4
Eu, porém, disse: Deveras estes são uns pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do Senhor, o juízo do seu Deus.
Mt 25:1-2
Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo. E cinco delas eram prudentes, e cinco loucas.

Estes três versículos levam-nos a optar pelos termos “louco” ou “insensato” para tradução da palavra foolish. Outros versículos bíblicos onde surge este termo confirmam esta opção.

Assim, a tradução para a frase da Livro da Certeza poderia ser:
… quando as rédeas da humanidade tiverem caído nas mãos dos loucos e dos ignorantes.

O termo Chalice

Na tradução inglesa do Livro da Certeza, encontramos a seguinte frase no parágrafo 15:
By their sanction and authority, every Prophet of God hath drunk from the chalice of sacrifice…
Perguntamos: qual a melhor tradução para a palavra chalice na frase citada?

O dicionário da Porto-Editora apresenta as seguintes possibilidades para o termo chalice:
1. taça
2. RELIGIÃO cálice
Conhecendo estas possibilidades, constatamos depois que o termo chalice não consta na tradução KJV. No entanto, existe um episódio bíblico em que o conceito é referido, apesar de ser usada outro termo.

Lc 22:42
Saying, Father, if thou be willing, remove this cup from me: nevertheless not my will, but thine, be done.

Este versículo, na tradução JFA é:

Lc 22:42
Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálix, todavia não se faça a minha vontade, mas a tua.


Apesar do texto em inglês não usar o mesmo termo, podemos perceber o texto bíblico e Livro da Certeza referem o mesmo conceito. Por esse motivo, parece-me correcto usar a palavra “cálice”. Assim, a tradução para a frase da Livro da Certeza poderia ser:
Com a sua sanção e autoridade, todo o Profeta de Deus bebeu do cálice do sacrifício…

Conclusão

Em diversos textos das Escrituras Bahá’ís podemos encontrar citações de textos bíblicos devidamente referenciados; mas também podemos identificar alusões a episódios bíblicos e uso de conceitos bíblicos, apesar de não estarem referenciados na tradução inglesa.

Tal como dissemos anteriormente, se tradução inglesa reflecte o texto bíblico, então é expectável que a tradução portuguesa também o faça. Isto exige que o tradutor esteja familiarizado com os textos bíblicos e os seus diversos estilos literários, e as traduções actualmente existentes.

Actualmente, não existem na Comunidade Bahá’í de Portugal, biblistas, linguagistas, ou pessoas com estudos formais em religião que possam dar uma opinião devidamente fundamentada sobre a adopção de um estilo de tradução das nossas Escrituras.

Assim as opções que se tomarem em termos de adopção de um estilo de tradução poderão ser sempre questionadas. No entanto, e por uma questão de consistência, penso que as traduções em curso para português de Portugal deverão seguir um único estilo. E como referi acima, todas as informações que recolhi levam-me a acreditar que esse estilo seja o JF Almeida (Revisto e Corrigida).

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Referências:

-- Translation and provisional translations
-- Translating the Bahá’í Writings
-- When Baha'u'llah's writings were translated into English in the late 19th century/early 20th century, why did they not translate it into 20th century English
-- The King James Bible's Impact on the Translation of Scriptures in English

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

“Princípio” ou “Começo” ?

A referência ao início (ou origem) da criação (ou do mundo) é comum aos textos sagrados do Judaísmo, Cristianismo e Islão. Trata-se de uma alusão a um momento que está para lá dos registos históricos ou da compreensão humana. Tentando entender alegoricamente, diríamos que se trata de uma referência à “Primeira Causa”, ou a algo que, sendo a origem de tudo, está para lá do tempo, tal como o entendemos. E se considerarmos a criação como eterna (tal como nos dizem as Escrituras Bahá’ís), podemos dizer que se trata de um momento de transformação primordial, em que a criação começa a assumir a forma que tem hoje.

No texto bíblico este conceito é descrito com a palavra “princípio”. Vejamos alguns exemplos da tradução de João Ferreira de Almeida:

No princípio criou Deus os céus e a terra… (Gn 1:1)

Como falou pela boca dos seus santos profetas, desde o princípio do mundo (Lc 1:70)

Porém, desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea (Mc 10:6)

Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver. (Mt 24:21)

Eu sou o Alfa e o Omega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há-de vir, o Todo-Poderoso. (Ap 1:8)

As traduções Capuchinhos e Figueiredo (1821) também usam a palavra “princípio” para descrever este conceito. Note-se ainda que o próprio Pe. António Vieira também usa a palavra “princípio” para aludir à origem do mundo (ver Sermão de Sto. António aos Peixes).

Na tradução inglesa da Bíblia (King James Version) – cujo estilo é modelo para as traduções das Escrituras Bahá’ís – este conceito é descrito com a palavra “beginning”.

O dicionário Inglês-Português da Porto Editora apresenta os seguintes significados para a palavra inglesa beginning:

(nome) começo; princípio; início;
at the beginning of no princípio de;
at the very beginning mesmo no início;
from the beginning desde o princípio;
in the beginning no princípio
from beginning to end do princípio até ao fim

No entanto, nas traduções portuguesas das Escrituras Bahá’ís, este conceito foi traduzido com a palavra “começo”. Vejamos alguns exemplos:

E foi esta incomparável Fonte de sabedoria que no começo da fundação do mundo ascendeu a escada do significado interior e, entronizada no púlpito da expressão, através da operação da Vontade divina, proclamou duas palavras. (Epístolas de Bahá’u’lláh, Palavras do Paraíso)

Perguntaste sobre o assunto da Volta. Sabe tu que o fim é semelhante ao começo. Assim como consideras o começo, de igual modo deves considerar o fim, e ser daqueles que verdadeiramente percebem. Não, antes, considera tu o começo como sendo o próprio fim, e assim, inversamente, a fim de poderes adquirir uma percepção clara. (Epístolas de Bahá’u’lláh, Súriy-i-Vafá)

As maravilhas de Sua generosidade não podem cessar, e jamais será detido o fluxo de Sua graça misericordiosa. O processo de Sua criação não teve começo, nem poderá ter fim. (Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, XXVI)

Poderá ele conceber para esses Luminares Divinos, essas Luzes resplandecentes, um começo ou um fim? (Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, XXVII)

Desde o começo que não tem começo, a insígnia que proclama as palavras "Ele faz qualquer coisa que Lhe apraza" tem sido desdobrada em todo o seu esplendor diante de Seu Manifestante. (Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, CII)

Percebe-se que, ao usar a palavra beginning, a tradução inglesa das Escrituras pretende reflectir o mesmo conceito que existe no texto bíblico. Para o leitor de língua inglesa, minimamente familiarizado com a Bíblia, torna-se fácil perceber que o conceito é comum ao Cristianismo e à Fé Bahá’í.

No entanto, para o leitor de língua portuguesa, familiarizado com a Bíblia, a utilização da palavra “começo” em vez de “princípio” pode levá-lo a questionar se o conceito é comum ao Cristianismo e à Fé Bahá’í. Assim, é legítimo questionarmos porque é que a tradução inglesa reflecte um conceito bíblico e a tradução portuguesa não o faz.

Lembro que uma tradução não é uma mera substituição de termos de uma língua por outra. Os contextos culturais das línguas de origem e destino devem ser considerados sempre que se faz uma tradução. E tratando-se de uma tradução de um texto religioso, é fundamental que os tradutores estejam familiarizados com a literatura religiosa em ambas as línguas, de forma a garantir a qualidade e o rigor das traduções.

Espero, pois, que futuras edições destas traduções portuguesas das Escrituras Bahá’ís sejam corrigidas e a palavra “princípio” seja usada para descrever este conceito de origem da criação.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Aliança ou Convénio?

A literatura Bahá’í traduzida no Brasil e a terminologia usada pelos Bahá’ís de Portugal apresentam a palavra inglesa Covenant traduzida como Convénio.

No entanto, a palavra “convénio” é rara na literatura religiosa portuguesa. Não consta nas duas traduções mais comuns da Bíblia para português-PT (Capuchinhos e João Ferreira de Almeida), nem português-BR (Bíblia de Jerusalém). Também não a encontro nas obras do Pe. António Vieira.

Nestas traduções Bíblicas - e na esmagadora maioria de literatura religiosa em Português - este conceito é descrito como Aliança. Assim, penso que é legítimo questionar a utilização do termo convénio na literatura Bahá’í.

Vamos começar por ver o que nos dizem os dicionários sobre o significado destas palavras.

No dicionário Inglês-Português da Porto-Editora, encontramos as seguintes traduções possíveis para a palavra Covenant:

covenant, 1. s. ajuste, pacto, tratado; convénio || Ark of the C. (bíbl.) Arca da Aliança || land of the C., terra Prometida; 2. vt. e i. concordar, convir

Podemos perceber que a tradução literal da palavra covenant para convénio está correcta. Mas num contexto religioso também é adequado usar a palavra aliança.

No dicionário de Língua Portuguesa da Porto-Editora (2004) encontramos as seguintes definições:

aliança s.f. 1. acto ou efeito de aliar; 2. laço entre pessoas ou entidades que se prometem mútuo auxílio; pacto; acordo; 3. anel de casamento; 4. casamento

convénio s.m. 1. convenção política; 2. pacto internacional; 3. ajuste; acordo

Graças a estas definições, percebemos que a palavra Aliança tem um significado mais amplo do que Convénio. Mais do que um mero acordo, uma Aliança implica um laço, uma ligação entre as partes envolvidas.

Vejamos agora como são usadas estas palavras na Bíblia.

Na tradução Capuchinhos (português-PT) da Bíblia encontramos diversas referências à aliança de Deus com os que aceitam a revelação do Seu Manifestante. Como sabemos, esta é a Eterna Aliança que se renova com o aparecimento de cada Manifestante de Deus. Vejamos alguns exemplos:

Abrão tinha noventa e nove anos, quando o Senhor lhe apareceu e lhe disse: «Eu sou o Deus supremo. Anda na minha presença e sê perfeito. Quero fazer uma aliança contigo e multiplicarei a tua descendência até ao infinito. (Gn 17: 1-2)

Deus respondeu: Vou fazer uma aliança contigo: na presença de todo o povo, realizarei prodígios, como jamais se fizeram em parte alguma, nem em nenhuma nação; e o povo que te cerca há-de ver então a obra do Senhor, porque espantosas são as coisas que vou fazer por teu intermédio. (Ex 34:10)

Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos. Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados. (Mt 26:27-28)

As traduções de João Ferreira de Almeida (português-PT) e Jerusalém (português-BR) também usam a palavra Aliança para definir este mesmo conceito. A palavra Convénio nunca está presente nestas traduções. Nas traduções inglesas da Bíblia, este conceito é descrito com a palavra covenant.

No entanto, esta mesma Aliança é referida como Convénio nas traduções Bahá’ís em português-BR e em português-PT.

Na minha opinião, a utilização da palavra convénio como tradução da palavra inglesa covenant, é uma tradução literal que empobrece e descontextualiza os textos.

Recordemo-nos que uma tradução não é apenas uma conversão de um texto de uma língua para outra. Frequentemente a tradução exige também a transposição de uma cultura para outra e até mesmo uma fusão de culturas.

No caso da tradução da palavra covenant para português, é necessário fazer a transposição cultural. O uso do termo convénio - estranho à cultura religiosa e à literatura religiosa portuguesa - não só empobrece o texto (retirando-lhe o significado mais correcto e abrangente) como também o torna mais difícil de perceber por pessoas de origens cristãs.

Uma tradução que considera o contexto religioso do texto - i.e., onde é feita a transposição cultural - leva-nos a usar a palavra aliança para descrever a ligação estalecida entre Deus e a Humanidade desde os tempos de Abraão (a “Eterna Aliança”) e a ligação estabelecida entre Bahá’u’lláh e os Seus seguidores para preservar a unidade da Comunidade (a “Aliança de Bahá’u’lláh”).

Por último, recordemo-nos que a Fé Bahá’í é herdeira das religiões do passado; por esse motivo deve usar terminologia conhecida quando se trata de designar os conceitos comuns a essas religiões.

Por todos estes motivos, sugiro que sejam corrigidas as traduções existentes.


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Exemplos de utilização da palavra “Aliança” na literatura Bahá’í.

Nas Escrituras do Báb

O Senhor do universo jamais levantou um profeta, nem fez descer um Livro, sem que tivesse estabelecido a Sua aliança com todos os homens, apelando à sua aceitação da Revelação seguinte e do Livro seguinte…  (Selections from the Writings of the Bab, pag. 88)

Nas Escrituras de Bahá’u’lláh

Recitai os versículos de Deus cada manhã e noite. Quem não os recita, em verdade falhou no seu compromisso com a Aliança de Deus e Seu Testamento, e quem, neste dia, se afastou deles, afastou-se de Deus desde os tempos imemoriais. (Spiritual Foundations, p. 1)

Este é o Dia, ó meu Senhor, que revelaste a toda a espécie humana como o Dia em que revelarias o Teu Próprio Ser... Além disso, celebraste uma aliança com eles, nos Teus Livros e nas Tuas Escrituras, nos Teus Pergaminhos e nas Tuas Epístolas, sobre Aquele que é a Alvorada da Tua Revelação, e nomeaste o Bayán para ser o Arauto do Teu Mais Grandioso e Todo-Glorioso Manifestante... (Prayers and Meditations, pag. 275)

... Os que violaram a Aliança de Deus desobedecendo aos Seus mandamentos e voltando as costas, esses têm errado severamente aos olhos de Deus, o Possuidor de Tudo, o Altíssimo. (GWB, CLV)


Nas Escrituras de ‘Abdu’l-Bahá

Enquanto não atingirdes esta condição, não podereis dizer ter sido fiéis à Aliança e Testamento de Deus. Pois Ele, através de Textos irrefutáveis, celebrou uma Aliança vinculativa com todos nós, exigindo que agíssemos de acordo com as Suas sagradas instruções e conselhos". (SWAB, #35)


Quanto à referência n'As Palavras Ocultas sobre a Aliança estabelecido no Monte Paran, isto significa que aos olhos de Deus, o passado, o presente e o futuro são um só e o mesmo... E é um princípio básico da Lei de Deus que em cada Missão Profética, Ele estabelece uma Aliança com todos os crentes – uma Aliança que se mantém até ao fim dessa Missão, até ao dia prometido em que a personagem estipulada no início da Missão se torna manifesta. Considerai Moisés... Em verdade, no Monte Sinai, Moisés estabeleceu uma Aliança referente ao Messias, com todos aqueles que viveriam no tempo do Messias. E essas almas, apesar de terem aparecido séculos depois de Moisés, estavam - no que se refere à Aliança que é intemporal - ali presentes com Moisés. (SWAB, #181)

... com a Sua própria pena Ele escreveu o Livro da Sua Aliança, dirigindo-se aos Seus familiares e a todos os povos do mundo, dizendo: «Em verdade, nomeei Aquele que é o Centro da Minha Aliança. Todos devem obedecer-Lhe; Ele é o Explicador do Meu Livro, e Ele está informado sobre o Meu propósito. Todos se devem voltar para Ele. Qualquer coisa que Ele diga está correcto...» O propósito desta afirmação é que nunca exista discórdia ou divergência entre os Bahá'ís, mas que estejam sempre unidos e em concórdia... Assim, quem obedece ao Centro da Aliança nomeado por Bahá'u'lláh obedece a Bahá'u'lláh; e quem Lhe desobedece, desobedece a Bahá'u'lláh... (PUP, pag. 322-323)

Os verdadeiros amantes da beleza de Abhá, e aqueles que sorveram do Cálice da Aliança, não temem calamidade, não desanimam na hora da provação... (SWAB, #229)


Nos textos de Shoghi Effendi

[Existe uma] Aliança geral que, conforme inculcam os ensinamentos Bahá'ís, o próprio Deus estabelece com a humanidade quando inaugura uma nova Dispensação. (WOB, pag. 137)

Então, [quando se estabelecer a Comunidade Mundial Bahá'í] a maturidade de toda a espécie humana será proclamada e celebrada por todos os povos e nações da terra. Então, o estandarte da Mais Grandiosa Paz será hasteado. Então, a soberania mundial de Bahá'u'lláh - o Fundador do Reino do Pai predito pelo Filho, e antevisto pelos Profetas de Deus antes e depois d'Ele - será reconhecido, aclamado e firmemente estabelecida. Então, uma civilização mundial nascerá, florescerá e perpetuar-se-á, uma civilização com uma plenitude de vida como o mundo nunca viu, nem pode ainda conceber. Então, a Eterna Aliança cumprir-se-á plenamente. Então, a promessa contida nos Livros de Deus será redimida, e todas as profecias proferidas pelos Profetas do passado cumprir-se-ão, as visões dos videntes e poetas realizar-se-ão. Então, o planeta... será... capaz de cumprir esse destino indescritível que lhe foi determinado desde tempos imemoriais, pelo amor e sabedoria do Seu Criador". (PDC, pag. 123-124)

No que respeita ao significado da Aliança Bahá’í, duas formas de Aliança... A primeira é a Aliança que todos os Profetas fazem com... o Seu povo para que aceite e siga o Manifestante seguinte... A segunda forma de Aliança é do género que Bahá'u'lláh fez com o Seu povo para que aceitassem o Mestre. Isto é apenas para estabelecer e fortalecer a sucessão de uma série de Luzes que surgem após cada Manifestante. Sob a mesma categoria encontra-se a Aliança do Mestre feita com os Bahá'ís para que aceitassem a Sua administração depois d'Ele... (Escrito em nome de Shoghi Effendi, Lights of Guidance, pag. 147)


Nos textos da Casa Universal de Justiça

Existe, por exemplo, a Grande Aliança que todos os Manifestantes de Deus fazem com os Seus seguidores, prometendo que na plenitude dos tempos será enviado um novo Manifestante, e recebendo deles o compromisso de O aceitarem quando isso ocorrer. Também existe a Aliança Menor que o Manifestante de Deus faz com os Seus seguidores para que depois d'Ele aceitem o Seu sucessor nomeado. (The Power of the Covenant, Part II, 4)

[É] a Aliança de Bahá'u'lláh… que liga o passado e o futuro com etapas progressivas em direcção ao cumprimento da antiga Promessa de Deus... Concentração neste tema permitir-nos-á a todos obter uma mais profunda apreciação do significado e propósito da Sua Revelação As questões a que este estudo cuidadoso deverá responder devem indubitavelmente incluir o significado da Aliança Bahá'í, a sua origem e qual deve ser a nossa atitude em relação a ela" (Mensagem de Ridván, 1987)


Cada Bahá'í é livre, ou melhor, é instado, a expressar livremente a sua opinião e compreensão sobre os Ensinamentos, mas tudo isto está numa categoria totalmente diferente de um Bahá'í que se opõe claramente aos Ensinamentos de Bahá'u'lláh, ou que expressa a sua opinião como uma interpretação correcta e autorizada dos Ensinamentos, e que ataca ou opõe-se às próprias instituições que Bahá'u'lláh criou para proteger a Sua Aliança. Quando uma pessoa declara a sua aceitação de Bahá'u'lláh como Manifestante de Deus, ela torna-se parceira da Aliança, e aceita a totalidade da Sua Revelação. Se ela depois muda de posição, ataca Bahá'u'lláh ou a instituição central da Fé, ela viola a Aliança. Se isto acontece, devem-se fazer todos os esforços para ajudar essa pessoa a ver o erro e falta de lógica das suas acções; mas se ela persistir, de acordo com as instruções do próprio Bahá'u'lláh, ela deve ser afastada como violadora da Aliança. (carta de 23/Março/1975)