quarta-feira, 29 de abril de 2020

Novo Templo Baha'i - Bihar Sharif (Índia)


Foi hoje apresentado o projecto de uma Casa de Adoração Bahá’í a ser contruído em Bihar Sharif (Índia). Este será o segundo templo Bahá’í na Índia. O anúncio foi feito pela Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá’ís da Índia.

A empresa que projectou este novo templo afirmou que o novo templo deve “ oferecer um espaço de experiência do divino e simultaneamente estar humildemente enraizada no meio envolvente”

"Bihar é uma zona fértil e as suas aldeias apresentam um cenário intemporal da vida rural indiana", declarou Suditya Sinha, um dos arquitetos. “A Casa de Adoração surgirá neste cenário rural exuberante. Inspirados pela arquitetura e artesanato tradicionais, optamos por usar tijolos feitos com materiais locais. A terra é literal e metaforicamente moldada na forma do templo.”

Com base nos padrões encontrados na arte popular Madhubani de Bihar e no antigo património arquitetónico da região, a empresa criou um projecto com um padrão repetitivo de arcos. O edifício terá uma abóbada com nove arcos na base, que se multiplicam até que cada segmento pareça fundir-se numa geometria única. As aberturas no centro da abóbada e em cada anel de arcos reduzirão o peso do tecto, permitindo a entrada de luz suave.

Reflectindo sobre o poder da oração, Naznene Rowhani, da Assembleia Nacional, afirma: “Nos tempos difíceis que estamos a viver, as pessoas estão a sentir mais do que nunca a necessidade de recorrer ao seu Criador. Assim, a construção do templo em Bihar Sharif tem agora um significado ainda maior, e sentimos que devemos desenvolver esse processo, garantindo a segurança e a saúde de todos os envolvidos na sua construção.”

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FONTE: Local Temple design unveiled in India (BWNS)

Não há paraíso mais maravilhoso...


sábado, 25 de abril de 2020

E se Deus fosse uma Mulher?

Por Nasim Mansuri.


A maioria das religiões refere-se a Deus com pronomes masculinos. Mas será que nos podemos dirigir a Deus como se fosse feminino?

Quando era criança, aceitei simplesmente que nos referíssemos a Deus como “Ele”, com todo o imaginário paternal mental que isso implica. Mas à medida que explorei o conceito Bahá’í de igualdade entre homens e mulheres, e participei em conversas sobre a linguagem de género, comecei a questionar a razão para haver um Deus “masculino”.

As Escrituras Bahá’ís têm muitas citações que abordam explicitamente a igualdade de género. Veja-se este exemplo: “Enquanto a realidade da igualdade entre homem e mulher não for plenamente estabelecida, o mais elevado desenvolvimento social não é possível”. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace). Mas as Escrituras também referem Deus com pronomes masculinos – e simultaneamente afirmam que Deus está para lá da imaginação humana:
Aquilo que imaginamos não é a Realidade de Deus; Ele, o Incognoscível, o Impensável, está muito além do mais elevado conceito do homem. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks)
Se Deus é incognoscível, porque O referimos com um pronome masculino, algo mundano como o género? (E também é verdade que a citação anterior também usa “homem” para se referir a toda humanidade. Falarei disso mais tarde)

Os ensinamentos Bahá'ís não descrevem Deus tal como Ele é frequentemente representado – um velho lá no céu. É mais correcto decrevê-Lo com outros termos populares, como “O Universo”, ou “A Verdade”, ou “Um Poder Superior”. Apesar de não serem muito precisos, estes termos fazem-nos lembrar algo muito mais intangível, muito mais abrangente.

Os ensinamentos Bahá'ís dizem claramente que Deus não tem uma forma física:
Dizer que Deus é uma realidade pessoal não significa que Ele tenha uma forma física ou que Se assemelhe a um ser humano. Manter essa crença seria mera blasfémia. (escrito em nome de Shoghi Effendi, numa carta a um crente Bahá’í)
No entanto, a humanidade durante muito tempo ao longo da sua história referiu-se a Deus com pronomes de género. No fundo, é mais fácil. E apesar de Deus não ser uma pessoa, Ele é uma realidade pessoal. Quando falamos da influência de Deus nas nossas vidas, do nosso sentido de lealdade e amor para com Deus, e dos ensinamentos de Deus, é muito mais fácil dirigirmo-nos a este Ser Supremos como se Ele fosse uma pessoa.

Na história da maioria das culturas, o conceito de um ser todo-poderoso apenas poderia parecer plausível se fosse atribuído a uma figura masculina. E ao longo dos séculos, os Manifestantes de Deus ao transmitirem os Seus ensinamentos à humanidade também tiveram de usar uma linguagem que as pessoas entendessem. O conceito de um Deus “feminino” poderia ter sido excessivo numa altura em que as pessoas mal compreendiam a noção elementar de igualdade de entre homens e mulheres. Também poderia ter provocado mal-entendidos sobre Deus, levando as pessoas a acreditar que existe mais do que um.

As Escrituras Bahá'ís esclarecem que Deus é uma realidade que transcende os aspectos materiais, nomeadamente o género. E explicam que o uso de uma linguagem de género, particularmente nos casos em que se dirige a toda a humanidade como “homem” não é apenas uma questão de convenção. É uma questão de linguagem e tradução; mas isso não implica que as mulheres sejam inferiores aos homens:
Homem é um termo genérico que se aplica a toda a humanidade. A frase bíblica “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” não significa que a mulher não tenha sido criada. A imagem e semelhança também se aplica a ela. Em persa e em árabe existem duas palavras distintas que foram traduzidas para inglês como homem: uma significa homem e mulher colectivamente, a outra distingue homem como masculino e mulher como feminino. A primeira palavra e o seu pronome são genéricos e colectivos; a segunda aplica-se apenas ao masculino. Acontece o mesmo em hebreu. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace)
Adoro o facto dos ensinamentos Bahá’ís serem tão claros sobre a igualdade de homens e mulheres, mesmo no tema da linguagem. Tanto Mulheres como homens podem manifestar atributos divinos; nenhum deles está acima do outro. Aos olhos de Deus, o género dos seres humanos não tem significado:
Na realidade, Deus criou toda a humanidade, e na perspectiva de Deus não existe distinção entre homem e mulher. Aquele cujo coração é puro, é aceitável aos Seus olhos, seja homem ou mulher. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace)
A Casa Universal de Justiça diz-nos que a linguagem de género ao referir-se a Deus não tem significado. A nossa percepção é profundamente influenciada pelos padrões patriarcais que prevalecem na nossa sociedade:
No caso dos termos genéricos das traduções em inglês das Escrituras Bahá’ís, a tendência de considerar estes termos como sendo aplicáveis apenas a seres masculinos é um reflexo de uma sociedade dominada por homens, que prevaleceu durante muito tempo, e em relação à qual existe uma reacção das mulheres que pretendem igualdade e um reconhecimento legítimo… a linguagem é um fenómeno vivo e, sem dúvida, o significado desejado dos termos genéricos tornar-se-á mais evidente à medida que a influência do compromisso Bahá’í com a igualdade dos sexos se espalhar mais amplamente na sociedade humana. (em nome da Casa Universal de Justiça, 26 de Setembro de 1993)
A Fé Bahá’í reconhece que a linguagem é uma “coisa viva” – constantemente sujeita às mudanças na nossa cultura e na nossa compreensão da realidade. À medida que as nossas palavras mudam, também muda o nosso entendimento de palavras já existentes. Assim, à medida que transformamos a sociedade, o nosso entendimento sobre Deus também se aprofundará.

Com esta transformação, a sociedade pode começar a compreender que as qualidades “masculinas” normalmente associadas com Deus – força, poder, conhecimento – também são femininas. E pode começar a ver as qualidades “femininas” – como amor, carinho e compaixão – como inerentemente divinas e, portanto, tão dignas de louvor quanto as qualidades viris que tendemos a considerar masculinas.

E será que isto significa que podemos referir Deus com pronomes femininos? Penso que sim. Mas referir Deus com um género específico apenas para facilitar um diálogo nunca deve obscurecer a verdade: Deus está para lá da compreensão humana, para lá do género, para lá de uma forma física ou qualquer conceito humano que possamos ter.

Ao trabalhar para estabelecer a igualdade entre homens e mulheres em todos os aspectos das nossas vidas, vamos compreendendo Deus cada vez mais.

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Texto original: Is God a Woman? (www.bahaiteachings.org)

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Nasim Mansuri é uma apaixonada pela escrita. Nascida no Paraguai, tem servido a comunidade Bahá’í em vários países. Actualmente estuda Engenharia Química e Escrita Profissional no Massachusetts, onde é activa na dinamização de várias actividades Bahá’ís.

sábado, 18 de abril de 2020

Reflexões sobre a Revelação do Báb

Por Ingo Hoffman.


Há mais de um ano, com o aproximar do bicentenário do nascimento do Báb, senti que devia tentar escrever um livro – como se fosse uma homenagem pessoal – dedicado a esta celebração Bahá'í global.

Enquanto escrevia os vários capítulos desse livro, fui levado a reflectir sobre o advento da revelação do Báb e nos sinais que apontam para ela, no seio da minha herança cultural, no coração da Europa.

Tornou-se claro para mim que a minha viagem espiritual se iniciou no capítulo 13 do livro Respostas a Algumas Perguntas, de 'Abdu'l-Bahá, e me trouxe às minhas grandes preocupações sobre o aquecimento global – um caminho que não foi fácil de percorrer, como percebi ao longo deste ano!

Vivo num país – a Alemanha – onde existe um consenso esmagador em todos os segmentos da sociedade que as alterações climáticas provocadas pelo homem estão bem fundamentadas em factos e análises científicas, e que a humanidade deve tomar medidas e assumir responsabilidade pelo aquecimento global.

Estou confortável ao afirmar isto após uma longa carreira como físico e como crente convicto no princípio Bahá'í de equilíbrio entre ciência e religião, como duas formas complementares para entender a realidade. Também acredito que tendo crescido numa área – Munique – onde não posso ignorar o significado da arte Cristã, como materialização daquilo que incitou as pessoas no íntimo dos seus corações e das suas crenças religiosas; a outra face da moeda é a realidade científica. No decorrer deste processo, muitas coisas ficaram mais claras para mim: o termo “apocalipse” tem um significado muito mais amplo do que a maioria das pessoas pensam.

Tendo em consideração a cada vez maior percepção dos desafios à nossa frente – não apenas as alterações climáticas, mas também os crescentes desastres ambientais e o aumento das ameaças à paz mundial – comecei a perceber que se está a espalhar entre nós um novo tipo de ansiedade secular apocalíptica. Percebo uma preocupação global crescente sobre um possível colapso de toda a nossa civilização, juntamente com uma percepção de que o nosso espaço de acção está a diminuir. Assim, não é surpreendente que a palavra “apocalipse” tenha vindo a ser mais utilizada em debates públicos e opiniões, durante a última década.

Quando pensava em tudo isto, lembrei-me da interpretação de 'Abdu'l-Bahá sobre algumas das visões proféticas de S. João de Patmos no livro do apocalipse, o último livro do Novo Testamento. De facto, a crença comum da Cristandade – partilhada por crentes antigos e actuais – sempre viu estes sinais apocalípticos como relacionados com o fim da “velha terra e do velho céu”. Tradicionalmente, os Cristãos conhecem estas profecias relacionando-as com o regresso de Cristo e a “Nova Jerusalém” descendo do “novo céu”.

No entanto, no livro Respostas a Algumas Perguntas, 'Abdu'l-Bahá comenta que há sempre um significado exterior nos versículos do Apocalipse, mas também uma interpretação mais profunda e um significado simbólico:
De igual modo, [no Livro do Apocalipse] a religião de Deus é descrita como a Cidade Santa ou a Nova Jerusalém. Claramente, a Nova Jerusalém que desce do céu não é uma cidade de pedra e cal, de tijolo e argamassa, mas antes, a religião de Deus que desce do céu e é descrita como nova. ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised version, p. 77)
Referindo-se ao capítulo 12 do Livro do Apocalipse, 'Abdu'l-Bahá apresenta um significado totalmente novo, descrevendo-o como uma narrativa alegórica do nascimento da revelação do Báb.

Para pessoas habituadas à perspectiva Cristã, isto pode ser surpreendente: abre-se um novo capítulo de leitura do apocalipse bíblico que nos leva à história e tradição Islâmicas, e não se fica pelo Cristianismo. Obviamente, o Báb apareceu neste horizonte e declarou a Sua missão em 1844 como a “porta” para Bahá'u'lláh – e simultaneamente alargou ainda mais os significados do Livro do Apocalipse.

A interpretação incrível de 'Abdu'l-Bahá descreve a “mulher no céu” da visão de S. João, que está vestida como uma noiva vestida com o sol, e coma lua debaixo dos pés:
Esta mulher é essa noiva, a religião de Deus que desceu sobre Maomé. O sol com que ela se vestia, e a lua sob os seus pés, são os dois governos abrigados à sombra dessa religião: o persa e o otomano, pois o símbolo da Pérsia é o sol e o do Império Otomano é a lua crescente. (Idem)
No Livro do Apocalipse, a mulher simbólica dá à luz uma criança – a revelação do Báb – enquanto um dragão vermelho com sete cabeças se prepara para devorar o seu filho assim que nascer. Na verdade, o dragão é uma metáfora que representa a dinastia Omíada que nos primeiros anos do Islão, ansiava matar todos os descendentes de Maomé por temer perder o poder.

Ao longo de dois mil anos de interpretação Cristã, esta mulher representou primeiramente a “verdadeira fé” (como mediador entre Deus e a Sua igreja), mais tarde representou a própria igreja e por fim representou Maria, a mãe de Jesus. O dragão foi sempre visto como o inimigo da igreja ou da verdadeira fé: nos primeiros anos era uma metáfora representando o rei Herodes ou o imperador Nero, e durante a Reforma era o Papa romano. Não esqueçamos o seguinte: no Livro da Revelação, S. João não atribui nomes às personagens das suas visões proféticas – provavelmente por uma boa razão. Isto abriu espaço para interpretações segundo as necessidades de cada época; mas o que acontece é que as profecias apenas ficam claras quando se cumprem.

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Texto original: Reflections on the Revelation of the Bab (www.bahaiteachings.org)

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Ingo Hofmann é doutorado em física pela universidade de Munique e professor na Goethe-University, em Frankfurt (Alemanha). Nos anos mais recentes trabalho como representante para assuntos externos da Comunidade Bahá'í da Alemanha É autor do livro Apokalypse im Umbruch der Zeit (BoD, 2019) onde apresenta e desenvolve o tema deste artigo.

sábado, 11 de abril de 2020

A bela e triste história de amor do Báb e Sua Esposa

Por Kathy Roman.


Sou uma pessoa muito sentimental e adoro ler uma emocionante história de amor - e quando a história é verdadeira, então ainda melhor!

Uma das minhas narrativas preferidas na história da Fé Bahá’í é a história do Báb e da mulher que Ele apreciava acima de todas as outras: a Sua esposa Khadijih Bagum.

Tudo começou quando o Báb e Khadijih eram crianças. Eram primos em segundo grau e brincavam juntos, até que chegaram à idade em que, segundo as tradições islâmicas da sociedade persa, já não era permitido que estivessem juntos e se vissem. Quando o Báb completou 23 anos, a Sua mãe começou a procurar uma esposa para Ele.

Na mesma ocasião, Khadijih, que tinha cerca de 20 anos, teve um sonho vívido:
Uma noite vi no mundo dos sonhos, Fátima, a filha de Maomé, vindo a nossa casa e desejando que uma de nós se casasse com o seu filho. Eu e as minhas irmãs recebemo-la com afecto e cortesia. Quando ela se sentou, olhou-nos intensamente; depois levantou-se, aproximou-se de mim e beijou a minha testa. (Munirih Khanum, Episodes in the life of Munirih Khanum, Marriage of Khadijah to the Bab, pp. 32-33.)
Khadijih, acrescenta:
Na manhã seguinte, levantei-me e senti-me leve e feliz, mas tinha vergonha de contar o meu sonho a alguém. Na tarde desse mesmo dia, a mãe do Báb veio a nossa casa. Juntamente com as minhas irmãs, recebemo-la, e para minha surpresa, tal como tinha visto no meu sonho, ela levantou-se, aproximou-se de mim sorrindo, beijou a minha testa e abraçou-me. Após uma conversa normal, ela saiu. A minha irmã mais velha segredou-me ao ouvido que ela tinha vindo pedir a minha mão para o filho. Respondi: “Tenho tanta sorte!” Depois relacionei o meu sonho da noite anterior e disse a realização do meu sonho tinha trazido imensa alegria ao meu coração. (Idem)
Carta do Báb à Sua Esposa
O Báb e Khadijih casaram logo a seguir; o jovem casal estava muito apaixonado. Mas pouco depois do casamento, Khadijih teve um sonho assustador. Um leão feroz apareceu no seu pátio e ela agarrou-o com os braços à volta do pescoço. O leão arrastou-a pelo pátio dando duas voltas e meia. Quando Khadijih acordou na manhã seguinte, contou o sonho horrível ao seu marido. Ele explicou-lhe o significado do sonho – as suas vidas juntas não durariam mais do que dois anos e meio. E assim começou uma mudança nas suas vidas, com o casal a preparar-se para as muitas adversidades que viriam.

Um ano mais tarde, Khadijih, grávida do primeiro filho, ficou muito doente durante parto, colocando em risco a sua vida e a vida do bebé. A mãe do Báb assustada pela mãe e pela criança, pediu ao Báb que salvasse ambos. O Báb pegou num espelho e escreveu nele uma oração. Pediu à sua mãe que segurasse o espelho em frente da sua esposa Khadiji. Seguidamente, nasceu um menino a quem deram o nome de Ahmad. Mas pouco depois do seu nascimento, o bebé morreu.

A mãe de Báb ficou muito zangada e perturbada por o filho não ter conseguido salvar a mãe e o bebé, mas o Báb explicou que Deus não o destinara a ter filhos.

Seguidamente o Báb, que amava imensamente a sua mulher, escreveu-lhe estas palavras de conforto:
Ó bem-amada!... Não serás uma mulher, como outras mulheres, se obedeceres a Deus na Causa da Verdade, a maior das Verdades… Sê paciente em tudo o que Deus decretou. Em verdade, o teu filho Ahmad está com Fátima, a Sublime, no Paraíso santificado. (H.M. Balyuzi, The Bab, p. 47)
Khadijih, iluminada e espiritualmente amadurecida, notou que o seu amado marido não era um homem como os outros. Mas não tinha percebido o quão diferente ele era, até uma noite inesquecível. Algum tempo antes do Báb declarar a Sua Missão, Khadijih Bagum teve um encontro fascinante com o seu marido. No meio da noite, o Báb levantou-Se da cama e não voltou durante horas. Preocupada, Khadijih foi à Sua procura.
... ela viu a sala superior da Casa imersa em luz. Perguntou a si própria qual seria a fonte de toda aquela luz, e de onde teriam vindo todas aquelas lamparinas. Mas esta não era luz tangível; era luz divina, e ela não estava a ver com os seus olhos físicos, mas com a sua visão interior… Ali viu um Sol que iluminava o mundo e uma lua brilhante no meio da sala, com as Suas mãos levantadas em direcção ao céu. Apesar dos seus olhos estarem fixos na luz deslumbrante que emanava do Seu ser, um sentimento de temor e medo apossou-se dela. Queria sair dali, mas não era capaz de se mover. O seu temor cresceu tanto que se sentia entorpecida. (citado por Baharieh Rouhani Ma’ani, Twin Divine Trees, p. 34)
Na manhã seguinte, o Báb disse-lhe:
Sabei que o Deus Omnipotente se manifesta em Mim. Eu sou Aquele Cujo advento o povo do Islão esperou durante mil anos. Deus criou-Me para uma grande Causa, e tu testemunhaste a revelação divina. Apesar de eu não ter desejado que Me visses nesse estado, Deus, porém, assim o quis para que não houvesse qualquer espaço no teu coração para dúvida ou hesitação. Idem, p. 35)
Khadijih Bagum disse que assim que ouviu O Báb a proferir aquelas palavras, ela acreditou n’Ele… e o seu coração ficou calmo e seguro. Posteriormente, o Báb revelou uma oração para a sua amada Khadijih, para ser recitada nos momentos em que Ele estivesse ausente ou quando ela receasse pela sua segurança. Ele disse:
Na hora da tua perplexidade, recita esta oração antes de ires dormir. Eu próprio aparecer-te-ei e afastarei a tua ansiedade. (Nabil, The Dawn Breakers, p. 143)
O Báb e a Sua esposa Khadijih partilharam uma vida intensa de sacrifício, num momento que seria mais tarde conhecido como “A Hora da Alvorada” – o início de uma nova religião mundial. Apesar da feroz perseguição religiosa, separação forçada, e perda trágica do filho recém-nascido, os dois permaneceram firmemente dedicados um ao outro, e a Deus. O Báb descreveu a mágoa que sentiu quando se separaram:
Meu doce amor... Deus é minha testemunha que desde o momento da nossa separação, a mágoa tem sido tão intensa que não se pode descrever... (H.M. Balyuzi, Khadijih Bagum: Wife of The Bab)
Os dois recém-casados, muito apaixonados, estiveram pouco tempo juntos neste mundo. Mas durante esse curto período de tempo apreciaram cada dia e superaram cada adversidade. O seu amor resistiu até ao fim do tempo e estarão unidos em todos os mundos de Deus.

Tal como o Báb predisse, dois anos e meio depois do sonho de Khadijih com o leão, Ele foi martirizado… mas essa é outra história bela e trágica.

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Texto original: The Bittersweet Love Story of The Bab and His Beloved Wife (www.bahaiteachings.org)

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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sábado, 4 de abril de 2020

A propósito da Quarentena, algumas analogias com Eventos na História Bahá'í

Por Irina Kenig.


Com a pandemia do Coronavirus (COVID-19) a paralisar o mundo, parece que a vida fez uma pausa e deu-nos tempos para reflectir sobre a condições actuais do mundo e reavaliar aquilo que é importante para nós. Apesar de serem tempos desafiadores, também são ricos em oportunidades que podemos descobrir. Como Bahá'í, tento perceber o sentido nestes tempos incertos, vendo-os com um olhar espiritual e uma perspectiva histórica.

Do ponto de vista espiritual, vejo este tempo como uma extensão do mês do Jejum Bahá'í. Nos próximos meses, vamos experimentar a privação, e praticaremos a moderação, a generosidade e a paciência. Tal como no Jejum, este é um momento em que podemos reflectir profundamente sobre como a situação actual nos pode ajudar a ficamos mais ligados aos princípios da Fé Bahá'í e como podemos servir melhor a humanidade.

Nestes dias podemos escolher, com mais frequência do que anteriormente, orações especiais para procurar ajuda e orientação. Na Epístola de Ahmad, Bahá'u'lláh diz:
Lembra-te dos Meus dias durante os teus dias, e da Minha angústia e Meu exílio nesta remota prisão.
Este versículo levou-me a traçar paralelos entre os eventos da história da nossa Fé e a actual situação em que nos encontramos. Assim, se estou preocupada sobre as semanas em que terei de ficar no conforto da minha casa e na companhia da Netflix (ha ha ha) quer dizer, da minha família, então talvez deva lembrar-me de como Bahá'u'lláh e os Seus companheiros ficaram presos na fortaleza de Akká durante dois anos. Quem já esteve em peregrinação e teve o privilégio de ver, sabe que a cela de Bahá'u'lláh ocupou era do tamanho de um pequeno quarto. E se me perturba o facto de não podermos apertar as mãos uns dos outros e termos de manter uma distância de dois metros entre nós, então o que pensar daqueles peregrinos que caminhavam durante dois meses desde a Pérsia até Akká para se encontrarem com a Abençoada Beleza, mas era-lhes negado o acesso à cidade e apenas tinham a oportunidade de O ver através da janela da Sua cela, a uma grande distância, acenando-Lhe e depois regressando a casa? [1]

Muitos países fecharam as suas fronteiras e algumas famílias estão separadas sem saber quando estarão novamente juntas. Graças a Deus, muitos de nós temos formas de manter o contacto através do Skype ou do Viber. No entanto, esse não foi o caso do Báb, quando foi expulso e exilado de Shiraz. Ele teve de ficar separado da Sua jovem esposa com quem tinha casado recentemente, e da Sua respeitável mãe. Infelizmente, nunca voltaram a estar juntos. Na verdade, durante muito tempo, estas duas importantes mulheres da Sua vida não tiveram conhecimento da Sua execução.[2] Numa outra ocasião, Bahá'u'lláh, apesar ter recebido a ordem de exílio para a Sua família, teve de deixar o Seu filho Mirza Mihdi, que tinha três anos de idade, devido à saúde do menino. A família tinha medo de que a longa e dura viagem de Teerão para Bagdade, durante o inverno, fosse um perigo para a sua vida. Mirza Mihdi só se juntou à família oito anos mais tarde.[3] Esta longa separação dos seus pais seria muito dolorosa para uma criança, mesmo nos nossos dias em que temos tecnologias que nos mantêm ligados. Então, quão mais difícil deve ter sido viver algo semelhante, no meio do século XIX, quando não existiam essas tecnologias?

A varanda de uma familia Baha'i, em Itália
Durante uma quarentena voluntária, ainda posso fazer compras de bens essenciais ou sair para passear; no entanto, durante o Seu encarceramento em Akká, Bahá'u'lláh não tinha esta possibilidade. Podemos imaginar o quão imensamente feliz Ele ficou quando, após sete anos de prisão domiciliária, entrou pela primeira vez no Jardim de Ridvan, tão carinhosamente preparado para Ele por 'Abdu'l-Bahá, para que pudesse apreciar aquela vegetação deslumbrante.

Hoje se nos lamentamos pelo facto de termos de ficar em casa com todas as comodidades e na companhia dos nossos entes queridos, talvez seja útil lembrar o Báb. Privado de qualquer conforto, no frio intenso dos meses de inverno quando a Sua barba ficava coberta de gelo após as Suas abluções [4] e as Suas mãos gelavam e já não conseguia escrever, o Báb nem sequer tinha uma lamparina para iluminar o Seu quarto. Durante a maior parte do tempo de encarceramento em Mah-Ku, Ele apenas tinha um companheiro, Siyyid Husayn-i-Yazdi. [5] E se eu ficar sem víveres ou abastecimentos, tudo o que tenho de fazer é encomendar o que preciso com um clique do mouse. As minhas encomendas serão entregues à minha porta após algumas horas. No entanto, o Báb tinha de encomendar os abastecimentos através de um acompanhante de confiança, e tinha de esperar pela sua encomenda durante semanas ou meses. Numa ocasião, o Báb pediu que Lhe comprassem mel. Quando o recebeu, o Báb ficou desiludido porque tinha sido excessivamente caro. Pediu que o mel fosse devolvido e advertiu os comerciantes para que não cobrassem demasiado pelos seus produtos. [6] Isto é algo que podemos relacionar com estes tempos de crise, quando os retalhistas aumentaram os preços dos produtos mais essenciais.

Por fim, este tempo de angústia global faz-me pensar nos heróis de Shaykh Tabarsi. Isolados no interior do forte, privados de alimentos, comeram cintos de cabedal e ervas, mas não permitiram que os seus espíritos desanimassem ou que as suas mentes esquecessem o grande objectivo que pretendiam alcançar. [7] Sacrificaram-se tremendamente por todos nós, as futuras gerações de Bahá'ís que levariam o estandarte da unidade por todo o mundo. Que sejamos inspirados pelo seu heroísmo e sacrifícios, e guiados pelo seu exemplo, que consigamos espalhar os Ensinamentos de Bahá'u'lláh com que a humanidade encontrará consolo. Bahá'u'lláh deu-nos esta oração que podemos usar em momentos de crise:
Ó Tu Cujos testes são um remédio curador para aqueles que estão próximos de Ti, Cuja espada é o desejo ardente de todos os que Te amam, Cujo dardo é o desejo mais querido dos corações que por Ti anseiam, Cujo decreto é a única esperança dos que reconheceram a Tua verdade! Imploro-Te, pela Tua doçura divina e pelos esplendores da glória do Teu semblante, que faças descer sobre nós, do Teu retiro nas alturas, aquilo que nos permita aproximar de Ti. Torna firmes, então, os nossos pés na Tua Causa, ó meu Deus; e esclarece os nossos corações com o esplendor do Teu conhecimento, iluminando-os com o brilho dos Teus Nomes.

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NOTAS:
[1] - Baharieh Rouhani Ma'ani, Leaves of the Twin Divine Trees, p. 149
[2] - Idem, p. 40
[3] - Idem, p. 100
[4] - Nabil, The Dawn-Breakers, p 252
[5] - The Bab, Persian Bayan, Unit 2, chapter 1
[6] - Nabil, The Dawn-Breakers
[7] - Idem.
[8] - Baha'u'llah, Baha'i Prayers

Texto original: How Isolation Can Help Us Draw Parallels to Events in Baha'i History (www. https://www.bahaiblog.net/)

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Irina é uma Bahá'í que gosta de estudar a história da Fé Bahá'í. Vive na Califórnia com o marido e a filha. É artista, dedica-se à fotografia e dedica-se à escrita. Nos seus tempos livres gosta de cozinhar e de estar com a família. Aprecia o contacto com a natureza e cultiva árvores de fruto. Colecciona livros, lê muito e é visitante assídua de museus; gosta de viajar pelo mundo e explorar outras culturas.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O Coronavirus, os nossos Idosos e a nossa Obsessão pela Juventude

Por Michelle Schiefelbein.


Como resultado do recente surto de coronavírus, senti uma necessidade urgente de reflectir sobre os nossos idosos na sociedade americana.

Refiro-me a eles como idosos, e não como velhos, porque muitas vezes a palavra “velho” é usada como sinónimo de decrépito ou frágil. O termo idoso sugere um ser humano que possui um grande conhecimento, sabedoria e experiência de vida para partilhar connosco.

No contexto do vírus, considero como idosos aquelas pessoas com mais de 60 anos, o limite do grupo etário mais vulnerável ao coronavírus. Esta pandemia colocou os nossos idosos no centro das atenções, fazendo-nos pensar colectivamente neles de uma forma que raramente o fazemos. Esta consciência faz-nos pensar no papel dos nossos idosos na nossa sociedade, a forma como os protegemos e evitamos magoá-los.

Apesar de alguns jovens não prestarem atenção a estes idosos, mostrando imprudência, a maior parte dos grupos sociais americanos está agora de olho nos nossos idosos. Sejam pai ou mãe, avós, tios ou tias, ou um colega precioso, ou um mentor ou amigo, todos estamos provavelmente a pensar nos idosos que queremos ajudar a sobreviver a esta pandemia. Tal como sugerem os ensinamentos Bahá’ís, devemos considerar destes idosos nas nossas vidas como parentes próximos:
Não fiqueis satisfeitos enquanto cada um daqueles com vos preocupais seja para vós como um membro da vossa família. Considerai-vos uns aos outros como um pai, ou como um irmão ou como uma irmã, ou como uma mãe, ou como um filho. Se conseguirdes isto, as vossas dificuldades desvanecer-se-ão, e sabereis o que fazer. Este é o ensinamento de Bahá’u’lláh. ('Abdu'l-Bahá, Abdu’l-Baha in London)
Ao reflectir sobre os nossos idosos, penso essencialmente no seu valor, comparado com a posição em que a nossa sociedade os coloca na hierarquia social. De uma forma geral, a nossa cultura, com as suas normas sociais orientadas aos jovens e a sua natureza materialista, não parece valorizar ou respeitar de alguma forma os nossos idosos.

Estou a falar de uma forma geral, porque existem certamente na nossa sociedade indivíduos, famílias e micro-sociedades que valorizam os seus idosos, e que têm um grande respeito pelas suas opiniões, experiência e sabedoria que partilham. Nestas circunstâncias, os idosos são vistos como parte de um todo – um valor que nos leva a procurar os seus conselhos e opiniões.

Mas a sociedade americana em geral não funciona assim. Em vez disso tende a privilegiar os jovens em vez dos idosos, e consequentemente, desvaloriza a sabedoria e a experiência adquirida. Se querem um exemplo, vejam a mentalidade “OK, boomer”, para usar o slogan que despreza e rejeita os pensamentos e opiniões de toda uma geração mais velha.

Claro que os Estados Unidos, devido ao seu colonialismo inicial, são uma sociedade essencialmente materialista, predominantemente liderada homens brancos jovens. Têm dúvidas? Prestem atenção aos programas de TV, filmes, administradores de empresas, apenas como exemplo. Os ensinamentos Bahá'ís dizem-nos que neste momento da história humana temos tendência a centrar as nossas atenções nos aspectos materiais da vida e não nos espirituais.
O amor é o princípio fundamental do propósito de Deus para o homem, e Ele ordenou que nos amassemos uns aos outros tal como Ele nos ama. Todas estas discórdias e litígios que ouvimos em toda a parte apenas tendem a aumentar o materialismo.

A maior parte do mundo está afundada no materialismo, e as bênçãos do Espírito Santo são ignoradas. Existem tão poucos sentimentos espirituais verdadeiros, e o progresso do mundo é maioritariamente material. Os homens estão a tornar-se como bestas mortais, pois sabemos que não têm sentimentos espirituais – não se voltam para Deus, não têm religião! Estas noções pertencem apenas ao homem e se ele não as tiver, ele torna-se um prisioneiro da natureza e não é melhor que um animal. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks)
Embora sempre tenha estado claro para mim, quanto mais velha fico, especialmente sendo mulher, mais óbvio para mim se torna este facto: a desvalorização e minimização dos nossos idosos. A maioria dos idosos confirma isso. Pessoalmente, considero o envelhecimento fascinante, especialmente quando começo a perceber as perspectivas que apenas a idade me pode dar.

Conhecemos uma fórmula que se aplica de forma geral à sociedade americana: Juventude + Beleza = Poder

Há muito tempo que isto é uma verdade. Claro que as definições de beleza variam, assim como as razões para as pessoas idosas terem um papel menos relevante na sociedade. Por exemplo, os idosos em cargos proeminentes na sociedade são maioritariamente homens brancos – incluindo a maioria dos 500 CEOs da revista Fortune – e o seu estatuto sénior pode apenas indicar que já foram jovens naquela mesma posição. Algumas mulheres também chegam lá, mesmo não sendo jovens ou bonitas; mas não são a norma.

Talvez seja necessária uma pandemia para mudar tudo isto - para nos fazer tomar consciência dos contributos poderosos e profundos que os idosos podem ter.

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Texto original: Coronavirus, Our Elders and a Youth-Obsessed Society (www.bahaiteachings.org)

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Michelle Schiefelbein tornou-se Baha’i em 1998. Vive no Missouri com a sua família. É assessora jurídica, proprietária de uma empresa e foi directora executiva da Thunder Eagle Ridge Youth Camp & Retreat, Inc