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sábado, 20 de agosto de 2022

Os efeitos da violência em jogos de vídeos, filmes e programas de TV

Por Radiance Talley.


Um relatório de 2002 do Departamento de Educação dos Estados Unidos e dos Serviços Secretos examinou 37 incidentes de tiroteios e ataques em escolas ocorridos entre 1974 e 2000 nos EUA e descobriu que “mais da metade dos agressores demonstraram algum interesse pela violência através de filmes, jogos de vídeo, livros e outros meios.”

Será isto uma coincidência? Ou poderá a exposição a conteúdos violentos durante a infância provocar comportamento violento mais tarde na vida? Quais serão os efeitos negativos de jogos de vídeo violentos, programas de televisão e filmes no cérebro e no comportamento?

A Prevalência da Violência em Jogos de Vídeo, Filmes e Programas de TV


Uma “vida santa, com as suas implicações de modéstia, pureza, comedimento, decência e mente limpa, envolve nada menos do que o exercício da moderação em tudo o que diz respeito ao vestuário, à linguagem, às diversões e todas as vocações artísticas e literárias”, escreveu Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í.

Infelizmente, o consumo de jogos de vídeo, filmes e programas de TV ultrapassou os limites da moderação para a maioria das pessoas e tornaram-se partes significativas da vida das crianças.

De acordo com um artigo publicado em 2007 no “Journal of Adolescent Health”, “as crianças nos Estados Unidos passam uma média de 3 a 4 horas por dia a ver televisão” e “mais de 60% dos programas contêm alguma violência, e cerca de 40% deles contêm violência elevada.”

Os jogos de vídeo também estão presentes em 83% dos lares com crianças, e “94% dos jogos classificados (pela indústria de jogos) como apropriados para adolescentes são descritos como contendo violência”. Crianças entre 8 e 10 anos gastam em média 65 minutos por dia com jogos de vídeo, e 8,5% das crianças de 8 a 18 anos sofrem de “distúrbio de jogo” – o vício em jogos de vídeo que agora está incluído na Classificação Internacional de Doenças.

'Abdu’l-Bahá, uma das figuras centrais da Fé Bahá'í, disse que “há perigo de que o passatempo degenere em perda de tempo. A perda de tempo não é aceitável na Causa de Deus.” Esse consumo excessivo de entretenimento não apenas tira o tempo de servir a humanidade e progredir espiritualmente, mas também pode perverter o carácter e o comportamento de uma pessoa.

Os Efeitos a Curto Prazo da Violência em Jogos, Filmes e Programas de TV


As experiências provaram que “a exposição à violência mediática aumenta imediatamente a probabilidade de comportamento agressivo em crianças e adultos no curto prazo”.

Quer fossem crianças do ensino pré-escolar ou do ensino fundamental, adolescentes ou adultos que estavam a ser testados, aqueles que assistiram a imagens violentas comportaram-se de forma mais agressiva e adoptaram crenças mais tolerantes à violência. Isso acontece devido ao estímulo, aumento da excitação emocional e mimetismo que ocorrem ao nível neurológico.

Os psicólogos Brad Bushman e Craig Anderson descobriram que os jogos de vídeo violentos estavam relacionados ao aumento de pensamentos agressivos, crenças, atitudes, comportamentos e excitação fisiológica e diminuição do “comportamento pró-social (de ajuda)”.

Os Efeitos a Longo Prazo da Violência em Jogos, Filmes e Programas de TV


Os estudos também mostraram que “a exposição habitual precoce à violência mediática na meia-infância proporciona um aumento da agressividade 1 ano, 3 anos, 10 anos, 15 anos e 22 anos depois na idade adulta, mesmo controlando a agressividade precoce”.

E as crianças que achavam a violência que assistiam era realista e se identificavam com o agressor que a infligia eram especialmente propensas a adoptar crenças e comportamentos mais agressivos devido à aprendizagem observacional que ocorria. Por exemplo, um acompanhamento de 15 anos com essas crianças, que estavam “no quartil superior em relação à violência no meio da infância”, descobriu que “11% dos homens haviam sido condenados por um crime (em comparação com 3% para outros homens), 42% “empurrou ou agarrou o seu cônjuge” no ano anterior (em comparação com 22% dos outros homens) e 69% “empurrou uma pessoa” quando ficou com raiva no ano anterior (em comparação com 50% de outros homens). Para as mulheres, 39% das espectadoras de elevada violência “atiraram algum objecto contra o seu cônjuge” no ano passado (em comparação com 17% das outras mulheres) e 17% “esmurraram, espancaram ou estrangularam” outro adulto quando estavam com raiva no ano passado (em comparação com 4% das outras mulheres).”

“Ó amantes de Deus!”, escreveu ‘Abdu’l-Bahá, “Neste ciclo do Deus Omnipotente, a violência e a força, a coacção e a opressão, são todas condenadas.”

Se condenamos a violência, não deveríamos condenar também os jogos e os espectáculos que a promovem? A exposição à violência de jogos de vídeo, filmes e programas de TV aumenta o risco de comportamento violento, tal como crescer um ambiente cheio de violência real. Neurocientistas e psicólogos entendem hoje que esses efeitos a longo prazo são resultado da aprendizagem observacional e da dessensibilização que ocorre automaticamente em crianças que testemunham essa violência.

De acordo com o Dr. L. Rowell Huesmann, “as crianças adquirem automaticamente modelos para os comportamentos que observam ao seu redor na vida real ou nos meios de comunicação, juntamente com reacções emocionais e cognições sociais que apoiam esses comportamentos. Os processos de comparação social também levam as crianças a procurar outras pessoas que se comportam de maneira agressiva semelhante nos meios de comunicação ou na vida real, levando a um processo de espiral descendente que aumenta o risco de comportamento violento”.

Permitir que crianças assistam a espectáculos violentos é um sério risco para a saúde pública. Conforme declarado no “Journal of Adolescent Health”, a correlação entre violência nos meios de comunicação e agressão é maior do que a correlação entre tabagismo passivo no trabalho e cancro de pulmão, exposição ao chumbo e níveis de QI em crianças, adesivos de nicotina e cessação do tabagismo, ingestão de cálcio e massa óssea, trabalhos de casa e desempenho académico, exposição ao amianto e cancro de laringe e auto-exames e extensão do cancro da mama.

O Dr. Rowell Huesmann afirmou: “Embora a criança já agressiva que assiste ou joga muitos jogos violentos possa tornar-se o jovem adulto mais agressivo, a investiçaão mostra que mesmo as crianças inicialmente não agressivas se tornam mais agressivas ao ver a violência nos meios de comunicação”.

E acrescentou: “Em resumo, a exposição à violência nos meios de comunicação eletrónicos aumenta o risco de crianças e adultos se comportarem de forma agressiva a curto prazo, e das crianças se comportarem agressivamente a longo prazo”.

É claro que, como qualquer ameaça à saúde pública, nem toda criança exposta à ameaça assimilará a doença. No entanto, isso não diminui a necessidade de abordar o risco. Se queremos que a próxima geração seja bondosa, generosa e inocente, não podemos continuar a bombardeá-la com conteúdos agressivos e perversos. 'Abdu'l-Bahá escreveu:

Toda criança é potencialmente a luz do mundo — e simultaneamente a sua escuridão; portanto, a questão da educação deve ser considerada como de importância primordial.

Desde a sua infância, a criança deve ser cuidada no seio do amor de Deus e nutrida no abraço do Seu conhecimento, para que possa irradiar luz, crescer em espiritualidade, encher-se de sabedoria e aprendizagem e assumir as características do anjo hospedeiro.

As crianças nascem puras – e indefesas. Eles precisam da orientação e protecção da sua família e comunidade. Vamos fazer um esforço para evitar que essas luzes puras entre nós sejam extintas pelas trevas ao seu redor.

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Texto original: The Effects of Violence in Video Games, Movies, and TV Shows (www.bahaiteachings.org)


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Radiance Talley é licenciada em comunicação pela Universidade de Maryland. Além da escrita, do desenho, e da comunicação em público, Radiance tem um profundo conhecimento da teoria da construção, técnicas de negociação, gestão de conflitos, comunicação organizacional e intercultural, antropologia e sociologia.

sábado, 17 de agosto de 2019

Só a Igualdade acaba com a Violência Doméstica

Por David Langness.

Nenhum marido Bahá’í deve alguma vez bater na sua mulher, ou sujeitá-la a qualquer forma de tratamento cruel; fazê-lo seria um abuso inaceitável da relação do casamento e contrário aos ensinamentos de Bahá'u'lláh. (Declaração sobre Violência contra Mulheres e Abuso Sexual, A Casa Universal de Justiça, 24 de Janeiro de 1993)
Quando trabalhava noutro país, a nossa filha reparou numa família que todas noites depois do trabalho regressava a casa. Via-os praticamente todos os dias e percebeu, após cumprimentar, sorrir e falar brevemente várias vezes com eles, que as duas crianças da família eram excepcionalmente educadas e bem-comportadas. Um dia elogiou a família pelo bom comportamento das crianças.

“As vossas crianças são tão educadas”, disse ela aos pais.

“Obrigado”, respondeu o pai agradado com o elogio. “Bato-lhes todas as noites. A minha mulher também.”

Aquela velha atitude, acreditem ou não, já tinha imperado em todo o mundo. Provavelmente já ouviram a expressão “poupar o chicote é estragar a criança”; mas alguma vez ouviram a expressão “the rule of thumb” (significa “regra de ouro” ou “regra prática”; literalmente significa “a regra do polegar”). Diz a tradição que esta expressão deriva da lei inglesa anterior a 1500, quando os maridos podiam legalmente bater nas mulheres com varas cuja espessura não fosse maior que o polegar do homem. Esse tipo de espancamento das mulheres, aceitável do ponto de vista legal e cultural, existiu durante milhares de anos. Só em 1982 é que a Comissão Americana para os Direitos Civis publicou um relatório pioneiro sobre abuso das esposas, intitulado “Under the Rule of Thumb” (“Sob a Regra do Polegar”).

O relatório da Comissão indicava que o abusa conjugal, físico ou psicológico, era assustadoramente comum. O Fundo das Nações Unidas para a População afirma que uma em cada três mulheres experimenta ataques físicos ou sexuais durante a sua vida – e a maioria destes tem lugar, não com estranhos, mas na relação conjugal.

Apesar de tudo isto, só muito recentemente é que tribunais, governos e polícia começaram a considerar a violência conjugal e doméstica como actos criminosos. Na verdade, ainda há muitos países que consideram a violência conjugal, os crimes de honra, o casamento forçado de crianças, os crimes de dote e o feminicídio como questões familiares e vez de ofensas criminais e violações dos direitos humanos. Se o marido é “dono” da mulher, tal como muitos sistemas legais o definem, então a escravatura doméstica abre as portas à violência doméstica.

Em resposta a este facto tão comum, as Nações Unidas publicaram em 1993 o documento Estratégias de Combate à Violência Doméstica: Um Manual de Recursos. Ali declarava:
... um grande número de países permite... a aplicação, por parte do marido, de castigos físicos moderados à respectiva esposa. Mais uma vez, a maioria dos sistemas legais não criminaliza as circunstâncias em que uma mulher é forçada, contra a vontade, a ter relações sexuais com o marido... De facto, no caso da violência conjugal sobre a mulher, existe a crença generalizada de que esta provoca, tolera ou até aprecia uma certa dose de violência por parte do marido.
Para contrariar estas atitudes prevalecentes em tantos locais, as décadas de 1980 e de 1990 testemunharam um grande movimento global para conter a onda de violência doméstica contra mulheres e uma resolução internacional: a Declaração das Nações Unidas sobre Eliminação de Violência contra Mulheres. Afirma:
… a violência contra mulheres é uma manifestação das relações de poder historicamente desigual entre homens e mulheres, que levou à subjugação e discriminação das mulheres pelos homens, e impediu o pleno progresso das mulheres; essa violência contra as mulheres é um dos principais mecanismos sociais pelos quais as mulheres são forçadas a uma posição de subordinação em relação aos homens.
A comunidade Bahá’í tem apoiado activamente a resolução da ONU e continua a defender relações de poder iguais entre homens e mulheres.
... saiba-se mais uma vez que enquanto mulher e homem não reconhecerem e conseguirem a igualdade, o progresso social e político não será possível aqui ou em qualquer outro lugar. Pois o mundo da humanidade consiste em duas partes ou membros: uma é a mulher e a outra é o homem. Enquanto estes dois membros não tiverem força igual, não se poderá estabelecer a unicidade da humanidade, e a alegria e felicidade da humanidade não serão uma realidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 76)
“Enquanto estes dois... não tiverem força igual”, afirma 'Abdu'l-Bahá, “a alegria e felicidade da humanidade não serão uma realidade”. Há quase dois séculos que os ensinamentos Bahá'ís defendem relações de poder iguais a que se referem as Nações Unidas.

Vários estudos científicos provam que abusos sexuais, ataques sexuais e as violações são tipicamente cometidas por homens que libertam a sua raiva sobre as mulheres, motivados pelo desejo de dominar e controlar, e também pelo desejo do prazer sexual. Esta combinação de motivações revela algo profundamente desigual na relação de autoridade e domínio entre homens e mulheres em muitas sociedades. Quando os homens têm mais poder – não apenas força física, mas também poder político e social – o poder é muitas vezes usado contra as mulheres “para as manter no seu lugar”.

Porque saímos de uma era passada na história humana em que a força física imperava, e iniciámos uma nova era em que a força intelectual, moral e física prevalecerá, temos agora a possibilidade de tratar ambos os géneros com igualdade – e acabar com os ataques sexuais.

O que podemos fazer para impedir os ataques sexuais e a violência contra as mulheres? Podemos mudar a equação de poder subjacente, e nesse processo fazermos tudo o que for possível para que homens e mulheres – como dizem os ensinamentos Bahá’ís - tenham “força igual”.

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Texto original: Only Equality Stops Domestic Violence (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 8 de setembro de 2018

Obrigado aos Jornalistas!

Por Jaine Toth.


A preocupação e a valorização das pessoas que nos protegem - militares, bombeiros e policias - é comum e por bons motivos. A nossa segurança é sua principal prioridade.

Eles protegem a nossa integridade física e os nossos bens; e porque o medo pode ter efeitos prejudiciais, as suas acções também servem como protecção para nossa saúde psicológica e emocional.

Poucos de nós têm o mesmo apreço pelos jornalistas - mas devíamos ter. Jornalistas de investigação e fotojornalistas colocam-se frequentemente em perigo para manter as nossas mentes livres e informadas - e também, para manter as nossas sociedades livres de mentiras e corrupção.

Um repórter que conheço, David Leeson, trabalhou como fotógrafo (para um jornal) e como fotojornalista de 1977 a 2008. Mesmo depois de ter sido ferido quando cobria os protestos no Panamá durante o período que antecedeu a queda de Manuel Noriega, Leeson continuou a cobrir acontecimentos em todo o mundo, e também aqui nos EUA. Recebeu prémios famosos, incluindo o Pulitzer em 2004 para Reportagem Fotográfica pela sua cobertura da guerra no Iraque, da qual a sua esposa e amigos ficaram aliviados quando ele regressou vivo e ileso.

No Arizona, onde eu vivo, basta dizer o nome Don Bolles e as pessoas fecham os olhos e abanam a cabeça, lembrando o seu assassinato. A maioria dos leitores pode não conhecer a história de Bolles; aqui fica um breve resumo do AZCentral.com:
Em 2 de Junho de 1976, uma bomba explodiu debaixo do carro do jornalista do Arizona Republic Don Bolles. Onze dias depois, ele morreu. Hoje, ainda há quem acredite que o assassinato de Bolles é um mistério. Os procuradores dizem que ele foi morto devido às suas histórias que atacavam o poderoso empresário Kemper Marley. Outros pensam que ele morreu devido ao que escreveu sobre o crime organizado. E há ainda quem acredite que o crime foi combinado pelos dois. A verdade está enterrada nas mentes, ou nos túmulos, dos que estiveram envolvidos.
Em numerosos países, os jornalistas geralmente não podem escrever ou filmar nada que não esteja de acordo com a posição oficial do governo; é o governo que decide aquilo que as pessoas podem (ou não) saber. Há criminosos que não querem que os seus crimes sejam divulgados; e também há políticos corruptos com a mesma atitude.

Os ensinamentos Bahá’ís elogiam o jornalismo e enaltecem o seu papel numa sociedade livre e desenvolvida:
Podemos determinar o progresso, ou retrocesso, de uma nação pelo seu jornalismo... Os jornalistas devem escrever artigos relevantes, artigos que fomentem o bem-estar público. Se o fizerem, serão os primeiros agentes do desenvolvimento da comunidade. (‘Abdu’l-Bahá, from the Pennsylvania Public Ledger.  Texto de Mina Yazdani’s no livro Abdu’l-Baha’s Journey West)
Em todo o mundo, os jornalistas que concordam com estas palavras de ‘Abdu'l-Bahá e que arriscam as suas vidas para descrever factos reais aos seus leitores, por vezes acabam na prisão ou são executados. Morrem em guerras. Arriscam tudo para nos trazer a verdade.

Mesmo aqui nos Estados Unidos, há muitas pessoas poderosas que tentam subverter o trabalho dos jornalistas. E há jornalistas que enfrentam perigos para descobrir segredos incómodos que o público deve - e precisa - conhecer.

David Gilkey
Em 2016, um ataque no Afeganistão tirou a vida do fotógrafo e editor de vídeo da NPR, David Gilkey, e do repórter afegão Zabihullah Tamanna. Encontravam-se com um pequeno grupo de jornalistas da NPR e viajavam com uma unidade do exército afegão quando a sua coluna foi atacada.

O general do exército dos EUA, John W. Nicholson, comandante da missão de apoio dos EUA-NATO no Afeganistão emitiu uma declaração sobre os jornalistas mortos. Dizia: "Temos o maior respeito pelo seu trabalho, bem como o de outros que suportam as dificuldades que surgem quando se faz cobertura noticiosa em zonas de conflito".

Gilkey, que fazia a cobertura noticiosa da situação no Afeganistão desde os ataques de 11 de Setembro nos Estados Unidos, e que começou a trabalhar para a NPR em 2007, recebeu a honra de ser eleito Fotógrafo do Ano de 2011 pela Associação de Fotógrafos da Casa Branca.

Funcionários da NPR também falaram sobre a importância do trabalho feito por estes jornalistas e pelos seus colegas. "Ele dedicou-se a ajudar o público a ver essas guerras e as pessoas apanhadas por elas", disse Michael Oreske, vice-presidente e director da NPR. “Ele morreu mantendo esse compromisso... Como homem e como fotojornalista, o David trouxe a humanidade de todos ao seu redor. Ele permitiu-nos ver o mundo e ver-nos uns aos outros através dos seus olhos. ”

Jarl Mohn, presidente e CEO da NPR, afirmou: “Eventos horríveis como este lembram-nos o papel importante que os jornalistas têm na vida cívica dos Estados Unidos. Eles ajudam-nos a entender além dos cabeçalhos e títulos, e a ver a humanidade nos outros”.

Pessoas como Gilkey, Tamanna e os seus colegas jornalistas merecem o nosso mais profundo respeito e apreço. Os seus esforços mostram que o custo da guerra afecta as pessoas, especialmente as inocentes. Eles partilham as suas histórias para que o mundo preste atenção e entenda.

As escrituras Bahá’ís dizem-nos:
Incumbe a cada alma gastar estes poucos dias de vida na veracidade e justiça... (Bahá’u’lláh, Bahá’í Scriptures, p. 85)
… Devemos falar a verdade; de outra forma não agiremos com sabedoria… Os maiores talentos do homem são a razão e a eloquência de expressão. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 103)
Falar a verdade no jornalismo também pode ajudar a:
(…) extinguir, através do poder da sabedoria e da força da vossa palavra, o fogo da inimizade e do ódio que arde no coração dos povos do mundo. (Bahá’u’lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 12)
Assim, gostaria de agradecer a todos os jornalistas de investigação e fotojornalistas: vocês merecem a nossa mais profunda gratidão. A vossa coragem e integridade ajudam-nos a manter a nossa independência e ajudam-nos a dar-nos os factos que usamos para formar as nossas próprias opiniões e tomar as nossas decisões.

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Texto original: Thanking Journalists: First Responders for the Truth (www.bahaiteachings.org)

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Jaine Toth é actriz, escritora e formadora. Vive no Arizona (EUA), perto do Desert Rose Baha'i Institute. É autora de uma coluna semana num jornal.

sábado, 25 de agosto de 2018

Os Bahá’ís e as Armas de Fogo

Por David Langness.


Cresci a caçar e a pescar no estado de Washington (EUA). Os meus pais tinham cinco filhos, e pouco dinheiro; por isso, durante minha infância, apanhávamos ou matávamos muita de nossa comida.

O meu pai, oficial de infantaria nos fuzileiros durante a Segunda Guerra Mundial, ensinou-me a disparar com armas de fogo. Era um atirador experiente e tinha treinado fuzileiros no campo de tiro; preocupava-se profundamente com a segurança das armas. Eu era o mais velho dos seus filhos e ele ensinou-me a conhecer e a compreender o poder das armas, a usá-las com cuidado extremo e a respeitar o perigo grave que representavam.

Quando eu vinha da escola, a minha mãe costumava pedir-me para ir buscar o jantar. Não ia à loja. Em vez disso, pegava na minha espingarda de calibre 16 e no Jinx (o meu cão de caça) e andava pelos campos da quinta à procura de um faisão, um pato ou um ganso que pudéssemos comer naquela noite.

Não passávamos fome. À mesa durante o jantar, tinha um jogo com os meus irmãos e irmãs - enquanto comíamos os pássaros que meu pai ou eu tínhamos caçado, tentávamos ver quem encontrava na sua comida o maior número de chumbos da munição da espingarda. Juntávamos os nossos pratos e contávamos os chumbos. Quem encontrava mais chumbos comia a sobremesa primeiro.

Quando fiz 12 anos, chegou o momento do ritual padrão de passagem na vida de um menino na América rural - caçar o meu primeiro veado. O meu pai, que trazia suficiente carne de veado para casa todos os anos para nos alimentar durante o inverno, levou-me a caçar. Depois de um dia frio na floresta, vimos um grande macho. Apontei a minha arma. Então, de repente, percebi, ao olhar para aquele animal lindo através da mira telescópica na espingarda do meu pai, que não conseguia puxar o gatilho. Sabia que o animal representava comida para a minha família - mas, por alguma razão desconhecida, tomei a decisão de não disparar. Senti-me muito mal, mas o meu pai – honra lhe seja feita - compreendeu. Agora, olhando para trás, acredito que aquele momento representou o surgimento de algo espiritual em mim.

Naquele dia, larguei as armas para sempre.

Seis anos mais tarde, quando tinha 18 anos, tomei duas decisões importantes. Tornei-me Bahá’í e registei-me no recrutamento militar como objector de consciência. Os ensinamentos Bahá'ís ensinaram-me claramente que eu deveria perder a minha própria vida em vez de tirar a vida de outra pessoa:
Que ninguém lute contra outro, e que nenhuma alma mate outra; isto, em verdade, é o que vos foi proibido… O quê? Mataríeis aquele a quem Deus vivificou, a quem Ele dotou de espírito através do seu sopro? Severa seria, então, a vossa transgressão perante o Seu trono! (Bahá’u’lláh, The Kitab-i-Aqdas,¶73)
Quando li estas palavras no Livro Mais Sagrado de Bahá’u’lláh, percebi imediatamente que não podia matar outro ser humano. Assim, com o apoio dos Bahá’ís e da minha nova Fé, solicitei e recebi o estatuto de objector de consciência; isto significava que podia ser chamado para o Exército, mas não usaria armas, nem seria treinado para matar.

Em Julho do ano seguinte, o Exército enviou-me para o Vietname e, durante um ano, vi o que as armas fazem aos seres humanos. Sim, elas matam pessoas, mas não apenas com balas. Elas também matam o espírito do assassino. A carnificina e a morte ao meu redor fizeram-me perceber a sabedoria do mandamento de Bahá’u’lláh.

Quarenta anos depois, infelizmente, as nossas sucessivas guerras ajudaram a transformar a América numa cultura de armas. Existem mais armas mortais do que pessoas no nosso país. As armas tornaram-se fáceis de obter e fáceis de usar, e nos EUA morrem mais pessoas devido a armas de fogo do que em qualquer outra nação industrializada.

Então, o que acreditam os Bahá’ís sobre armas? Primeiro, uma vez que Bahá’u’lláh disse que é melhor ser morto do que matar, os Bahá’ís não tiram a vida dos outros. Além disso, Bahá’u’lláh apelou ao desarmamento de todo tipo de armas, não apenas por nações, mas por indivíduos. Consequentemente, a lei Bahá’í apenas permite a posse e o porte de armas se for absolutamente necessário:
Bahá’u’lláh confirma uma determinação que torna ilegal o porte de armas, a menos que seja necessário fazê-lo. Em relação às circunstâncias em que o porte de armas pode ser “essencial” para um indivíduo, ‘Abdu’l-Bahá dá permissão a um crente para autoprotecção num ambiente perigoso. Há uma série de outras situações em que as armas são necessárias e podem ser legitimamente usadas; por exemplo, em países onde as pessoas caçam a sua comida e roupas, e em desportos como tiro desportivo, tiro com arco, e esgrima. (The Kitab-i-Aqdas, p. 240)
Descrevendo os Bahá’ís, Bahá’u’lláh disse:
Deus misericordioso! Estas pessoas não precisam de armas de destruição, na medida em que elas se prepararam para reconstruir o mundo. As suas hostes são as hostes das boas acções e as suas armas as armas da conduta íntegra. (Baha'u'llah and the New Era, p. 170)
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Texto original: Baha’is and Guns (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de junho de 2016

Após Orlando: defender os direitos humanos das pessoas LGBT

Por David Langness.

Bahá'u'lláh ensinou que um padrão comum de direitos humanos deve ser reconhecido e adoptado. Aos olhos de Deus todos os homens são iguais; não há distinção ou preferência por qualquer alma no domínio da Sua justiça e equidade. (‘Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 181)
Ontem à noite estive num comício e numa vigília com velas na minha pequena cidade no norte da Califórnia para lembrar as vítimas LGBT do massacre Orlando.

Eu fui para lamentar as jovens vidas tão tragicamente perdidas e os graves ferimentos sofridos; para digerir a minha própria mágoa com o horrível abuso da religião, que tipicamente os terroristas fazem para justificar os seus actos irreligiosos; e para sair em defesa de uma comunidade minoritária que sofreu severa perseguição e privação dos seus direitos humanos durante séculos. Fui porque o FBI diz que as pessoas LGBT são o grupo mais frequentemente atingido por crimes de ódio nos Estados Unidos. Fui porque acredito na unidade da humanidade.

Também fui porque a Casa Universal de Justiça, o corpo dirigente global (e democraticamente eleito) da Fé Bahá'í, afirmou o seguinte numa declaração em 2010:
Os Bahá’ís são intimados a eliminar das suas vidas todas as formas de preconceito e a manifestar o respeito para com todos. Portanto, considerar com preconceito ou desdém aqueles com uma orientação homossexual seria contra o espírito da Fé. Além disso, um Bahá’í é incitado a ser "um protector e defensor da vítima da opressão", e seria totalmente apropriado para um crente sair em defesa daqueles cujos direitos fundamentais são negados ou violados.
Enquanto estava ali na vigília com tanta gente, as bandeiras do arco-íris agitavam-se com a brisa, sentia o cheiro das velas acesas, e ouvia um estudante gay a recitar os nomes dos mortos, a minha mente, de repente, levou-me de volta para a Escola Lakeview Elementary, na cidade em que cresci: Moses Lake, Washington.

Na década de 1950, aquela pequena comunidade agrícola nos planaltos centrais do Estado de Washington mostravam todos os tipos de preconceitos comuns da época. Viviam lá duas famílias afro-americanas e a cidade mal os tolerava. Tínhamos uma família latino-americana em Moses Lake e a maioria das pessoas pensava neles como os "mexicanos nojentos". Todo mundo conhecia o agricultor japonês como "o Japa". As mulheres ficavam em casa e cozinhavam, a menos que fossem enfermeiras ou professoras (não havia outra profissão aceitável para as mulheres). Os homens eram homens - machistas, violentos e grosseiros - e qualquer afastamento do papel masculino padrão era visto como depravação ou pior. Os adultos em Moses Lake, com poucas excepções, tinha todos os fanatismos e ódios americanos comuns, e seus filhos normalmente herdavam-nos.

Irónico, não é? Moses Lake (Lago Moisés), uma cidade com o nome de um profeta de Deus, cheia de intolerância e ódio.

Durante a vigília, lembrei-me claramente de um rapaz na minha turma do 5º ano chamado Stanley, apesar de nunca ter pensado nele durante décadas. O Stanley era diferente. Ele tinha uma maneira efeminada e uma figura magra e própria de menina. Ele falava com uma pronúncia estranha. Mexia-se de uma forma delicada e não gostava de praticar desportos ou das brigas no pátio como os outros rapazes. Só fazia amizades com meninas. Os rapazes mais velhos chamavam-lhe "maricas", e eu, na minha inocência de 5º ano, não fazia ideia do que significava essa palavra depreciativa.

Um dia, depois da escola, um grande grupo de rapazes decidiu "apanhar aquele maricas" do Stanley e "dar-lhe uma lição". Estando ali e vendo o grupo a formar-se, tive um enorme desejo de fazer parte dele. Não queria magoar ninguém; só queria, como a maioria das crianças da minha idade, ser aceite, normal e convencional, ser um membro do grupo. Assim, apesar do meu próprio horror interior, corri atrás do Stanley com aquele grupo de rapazes que gritava e vociferava. Tal como uma cena do romance O Deus das Moscas de William Golding, a nossa multidão de cerca de vinte rapazes perseguiu o Stanley e tentou apanhá-lo. Corremos atrás dele, como uma alcateia de pequenos animais ferozes, tentando eliminar do rebanho um não-conformista. Tremo de vergonha, agora que escrevo isto, mas na altura dizia para mim próprio que apenas me estava a divertir, a perseguir alguém diferente para o fazer cumprir as mesmas regras a que todos obedecíamos.

Felizmente para o Stanley, ele foi rápido; correu mais do que nós. A meio da perseguição, porém, eu parei de correr. Não consegui evitar; senti-me profundamente degradado por dentro quando vi Stanley olhar para trás com pânico nos olhos. De alguma forma, percebi, naquele momento e naquele lugar, que nunca queria causar novamente esse tipo de medo e terror a outra pessoa. Não queria voltar a ser parte daquele grupo. Não queria odiar. Percebi, quando pensei nisto, que aquele momento representou um ponto de viragem na minha vida de jovem. No dia seguinte, na escola, encontrei o Stanley e disse-lhe que estava arrependido.

Na vigília pelas vítimas Orlando, fiquei a meditar sobre aquele incidente. Perguntei-me porque é que as pessoas fazem coisas como aquela em que vergonhosamente participei, para tentar levar alguém ou alguma coisa para um caminho diferente. Porque é que rejeitamos, demonizamos, repudiamos e destruímos aqueles que não se assemelham, agem ou crêem como nós? Porque é que os nossos preconceitos - a maioria herdados das nossas famílias e das nossas culturas - determinam as nossas acções tão previsivelmente?

Quando penso no massacre de Orlando e no ódio terrível que este representa, parece-me que a nossa tarefa mais difícil consiste em libertar-nos daqueles velhos preconceitos profundamente enraizados. Mas isso é exactamente isso que os ensinamentos Bahá'ís nos apelam a fazer:
Por esta razão, todos os seres humanos devem apoiar-se fortemente uns aos outros e procurar a vida eterna; e por esta razão os amantes de Deus neste mundo contingente devem tornar-se as misericórdias e as bênçãos enviadas por aquele Rei clemente dos reinos visíveis e invisíveis. Que purifiquem a sua visão e vejam toda a humanidade como folhas, flores e frutos da árvore da existência. Que em todos os momentos se preocupem em fazer algo bondoso para um dos seus semelhantes, oferecendo a alguém o amor, a consideração, e a ajuda atenciosa. Que não vejam ninguém como inimigo, ou que lhes deseje mal, mas que pensem em toda a humanidade como seus amigos; que vejam o estrangeiro como um próximo, o estranho como um companheiro, libertando-se de preconceitos e não construindo barreiras. (‘Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, pp. 1-2)

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Texto original: After Orlando: Defending the Human Rights of LGBT People (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Orlando, as armas de assalto e os seus ferimentos

Por David Langness.


Durante os catorze meses que estive na guerra do Vietname, vi os ferimentos horríveis que as armas de assalto fazem.

Assim, hoje farei orações fervorosas pela recuperação muito difícil das 53 pessoas hospitalizadas em Orlando, Florida, que têm esses tipos de ferimentos. Vou orar também pelos médicos que têm de tratar esses ferimentos graves.

Infelizmente, a maior parte da cobertura mediática sobre a controvérsia das armas de assalto incide sobre as próprias armas, e não sobre os ferimentos que os seus projécteis causam. O recente ataque mortal em Orlando irá, sem dúvida, reacender o debate recorrente nos Estados Unidos sobre a proibição de armas de assalto; mas antes de tomar uma posição sobre o assunto, talvez lhe interesse saber alguma informação adicional que poderá desconhecer.

Esta informação, mesmo que sendo completamente factual, é difícil de digerir. Algumas pessoas ficarão impressionadas; por isso, se é sensível, não continue a ler.

Quando uma arma de assalto de estilo militar dispara o seu carregador circular, a bala é projectada mais rápido e mais longe do que a maioria das outras armas. As balas de armas automáticas AK-47 Kalashnikov chinesa ou de uma M16A1 ou A2 americana - os tipos mais comuns - foram concebidas para produzir altas velocidades de disparo, mas também foram projectadas para rasgar o tecido humano de uma forma única. Em vez de produzir um ferimento de entrada e saída ("through-and-through") - basicamente um orifício em forma de tubo com pequeno diâmetro, nos músculos, ossos ou órgãos - as balas de armas de assalto têm o que balística e médicos especialistas chamam "efeito de guinada". Isso significa que a bala foi concebida para "estraçalhar" ou destruir o corpo atingido, produzindo uma pequena ferida de entrada, mas a criando no corpo uma grande cavidade como ferimento de saída.

É assim que funciona: a bala de uma arma de assalto entra no tecido humano, penetrando 12 centímetros, amolgando-se e desfazendo-se antes de guinar 90ᵒ. Seguidamente, a secção traseira da bala fragmenta-se no corpo, como se fosse uma granada. Esses fragmentos penetram ainda mais no corpo, cerca de 7 cm num padrão circular. Depois, a bala e os seus muitos fragmentos saem do corpo, fazendo um buraco muito maior e mais irregular do que na entrada. Este efeito de guinada, amolgamento e fragmentação - que não ocorre com os revólveres ou espingardas normais usados para a caça - cria ferimentos de saída enormes e assustadores, o que naturalmente mata as vítimas com muito mais frequência do que faz uma arma normal não-militar.

Podemos visualizar o efeito desta maneira: o trajecto destrutivo de uma bala de arma de assalto cria, quando visto de lado, algo semelhante a um cone em vez de um tubo. Podemos imaginar o que isso faz a um corpo humano frágil.

Podemos não gostar de admitir, mas o objectivo principal de armas de assalto militares e das suas balas é produzir a maior carnificina e morte possíveis. Na minha opinião, uma arma de assalto não tem nenhuma utilização alternativa real; é feita para matar seres humanos, e não para ser usada como arma de caça. Uma bala normal atravessa o corpo humano ou animal, produzindo uma saída ferida não muito maior do que o orifício de entrada. Mas a bala de uma arma de assalto destrói a maior quantidade de tecido possível, tornando a morte por ferimento muito mais provável. Quando médicos e enfermeiros tentam curar essas feridas, percebem que são tremendamente mais difíceis de tratar e recuperar, porque fizeram um enorme estrago. Perguntem-me como é que eu sei.

Nos Estados Unidos, apesar das sondagens revelarem que cerca de três quartos da população apoiaria uma proibição total de armas de assalto de estilo militar, estas encontram-se disponíveis para venda e posse legal em quase todos os Estados. Hoje, após o massacre de Orlando, o presidente dos Estados Unidos afirmou: "Temos de decidir se esse é o tipo de país que queremos ser".

Os ensinamentos Bahá'ís designam estas armas de guerra - feitas exclusivamente para aniquilar outros seres humanos - "os frutos malignos da civilização material:"
Considerai! Estes navios de guerra que reduzem uma cidade a ruínas, no espaço de uma hora são o resultado da civilização material; da mesma forma, os canhões Krupp, as espingardas Mauser, a dinamite, os submarinos, os torpedeiros, os aviões armados e os bombardeiros - todas essas armas de guerra são os frutos malignos da civilização material. Se a civilização material tivesse sido combinada com a civilização divina, estas armas de fogo nunca teriam sido inventadas. Não, pelo contrário; a energia humana teria sido inteiramente dedicada a invenções úteis e ter-se-ia concentrado em descobertas louváveis. A civilização material é como uma lâmpada de vidro. A civilização divina é a própria lâmpada e o vidro sem a luz é escuro. A civilização material é como o corpo. Não importa o quão infinitamente gracioso, elegante e belo ele seja; ele está morto. A civilização divina é como o espírito, e o corpo obtém a sua vida do espírito; caso contrário torna-se um cadáver. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 303)
Os Bahá’ís apoiam a proibição da posse de armas de assalto de estilo militar por civis? Os Bahá’ís olham para a questão de uma perspectiva diferente, mais macroscópica; na verdade, em vez de simplesmente proibir as armas, os ensinamentos Bahá'ís pretendem transformar a sociedade em geral, que condena o seu uso. Em vez de um tratamento dos sintomas, os Bahá’ís querem curar totalmente a doença. Queremos criar uma cultura global pacífica, harmoniosa e unida. Os Bahá’ís querem combinar a civilização material com a civilização divina, e inculcar os valores espirituais que Bahá'u'lláh ensinou a todos os povos.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que se não conseguirmos fazer isso, iremos apenas enfrentar mais do mesmo:
A escuridão da noite encobriu todas as regiões, e toda a Terra se encontra velada por nuvens densas. Os povos do mundo estão submersos nas profundezas obscuras de ilusões vãs, enquanto os seus tiranos nadam em crueldade e ódio. Nada vejo salvo o clarão dos fogos devoradores e ardentes que se erguem nos abismos mais profundos; Nada ouço salvo o estrondo ameaçador do ribombar de milhares e milhares de armas de ataque impetuosas, enquanto toda a terra brada, em voz alta, na sua língua secreta: "As minhas riquezas de nada me valem e minha soberania pereceu!" ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 272)

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Texto original: Orlando, Assault Weapons and “Yaw” (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 10 de outubro de 2015

Pessoas e Armas de Fogo

Por Rodney Richards.


... os armamentos, até agora limitados, estão agora a crescer numa escala colossal. As condições estão a extremar-se, aproximando-se do ponto em que os homens combatem nos mares, combatem nas planícies, combatem na própria atmosfera com uma violência desconhecida em séculos anteriores. Com o crescimento do armamento e dos preparativos, os perigos são cada vez maiores. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 321)
A maioria de nós somos pessoas inteligentes em muitos aspectos; mas todos nós conhecemos a frase, "as pessoas inteligentes podem fazer coisas estúpidas". Eu sei que faço. Na verdade, conclui que a estupidez do homem só está limitada pelo desejo pessoal de agradar a si próprio.

Ou, como disse Albert Einstein: "Há duas coisas que são infinitas: o universo e a estupidez humana; mas não tenho certeza sobre o universo". Claro que isto é uma frase irónica de um dos nossos maiores pensadores e cientistas; e ele nem sequer via exemplos sucessivos de estupidez nos noticiários na TV todas as noites, ou diariamente quando conduzia um carro numa estrada. Talvez nas nossas próprias palavras e acções impensadas ou descuidadas, todos nós tenhamos feito algo estúpido recentemente. Exemplos da vida real abundam quando consideramos a nossa própria estupidez e a dos outros, ou melhor, acções estúpidas.

Felizmente, sabemos que as pessoas têm capacidade para se elevar acima de palavras e acções estúpidas:
O poder do intelecto é uma dos maiores dádivas de Deus aos homens; é o poder que o torna uma criatura maior do que o animal. Enquanto, século após século, era após era, a inteligência do homem cresce e torna-se mais perspicaz, a do animal permanece a mesma. Eles não são mais inteligentes hoje do que eram há mil anos! Existe uma prova maior do que esta para mostrar a dissimilaridade do homem para a criação animal? É, certamente, claro como o dia. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 72)
Os seres humanos podem ter uma natureza animal inferior, mas a nossa vontade e inteligência podem superar e dominar os nossos instintos, vontades e desejos mais básicos. Os nossos espíritos-inatos - os nossos corações, mentes e almas - podem superar a natureza mais baixa, a velha natureza, da humanidade como um todo.

Por exemplo: vejamos o desejo aparentemente interminável por armas aqui nos Estados Unidos, onde vivem mais de 311 milhões de pessoas. De acordo com uma sondagem (2007 Small Arms Survey), nos Estados Unidos, existem 88,8 armas por 100 residentes, um valor superior ao existente na Sérvia, Iémene, Arábia Saudita ou Iraque. De facto, os EUA estão em primeiro lugar. A Tunísia, o último classificado, tem um décimo de uma arma por 175 habitantes. A partir de 2009, "o número total estimado de armas de fogo disponíveis para civis nos Estados Unidos aumentou para cerca de 310 milhões: 114 milhões de pistolas, 110 milhões de espingardas e 86 milhões de caçadeiras."

Isto significa que, estatisticamente, cada homem, mulher e criança nos EUA tem agora uma arma de fogo.

Você, eu e a maioria dos americanos conhecemos estas estatísticas, e conhecemos cada vez mais tragédias pessoais devidas ao uso de armas de fogo. A nossa inteligência informa-nos sobre os factos, e nós queremos conter a onda de violência armada. A mudança está a chegar devagar; aparentemente não chega a algumas áreas, mas atinge rapidamente outras.

Mas as leis e regulamentos não nos levarão até onde precisamos ir. Em vez disso, precisamos reformar e renovar a própria natureza do homem: velho contra novo; crueldade contra simpatia; ódio, raiva e ganancia contra amor e generosidade e tranquilidade.


Quando era jovem fiquei impressionado com o facto dos polícias britânicos não andarem armados. Não sabia que alguns esquadrões de elite usam armas, mas, em geral, os polícias ainda não usam armas de fogo. Para citar a Wikipédia, "No ano de 2011-12, havia 6756 Agentes Autorizados com Armas de Fogo, houve 12.550 operações policiais, em toda a Inglaterra e País de Gales, em que foram autorizadas armas de fogo e 5 incidentes em que foram utilizadas armas de fogo convencionais. Desde 2004, as forças policiais têm usado cada vez mais tasers (armas de electrochoque) contra assaltantes armados. Os tasers são considerados pelas autoridades como uma alternativa não-letal às armas de fogo."

Então, é verdade! Existem alternativas às armas de fogo para manter a ordem social - quando a população não está mais armada do que a polícia. E mais importante que isso: a população tem de confiar na polícia, um tema sob um escrutínio nos EUA após as notícias de assassinatos cometidos pela polícia e, também, assassinatos de agentes da policia. Porque devem os cidadãos ser desconfiados? Este tema fracturante está agora a ser amplamente debatido com os proprietários e não-proprietários de armas de fogo. A rápida propagação da violência armada suscitou conversas abertas sobre a posse de armas letais (incluindo por agentes policiais) neste país.

Os Estados Unidos têm participado em negociações sobre desarmamento com outras nações durante décadas e a maioria tem sido bem sucedida. Porque não começar agora as suas próprias negociações internas sobre desarmamento? As alternativas - ainda mais armas e ainda mais assassinatos - não é em nada desejável para ninguém, excepto para os fabricantes de armas. Assim em vez de sermos estúpidos, podemos ser mais espertos sobre a nossa sociedade, e tentar encontrar uma maneira de desarmá-la.

Algo drástico tem de mudar nas nossas ideias sobre liberdade pessoal e o "direito à posse de armas". Nos nossos braços devemos levar os nossos filhos para os seus berços e camas; não para as suas sepulturas.

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Texto original: The Right to Bear Babies, Not Arms (www.bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O Islão e a questão da Violência

Por Dan Gebhardt.


... Por isso ordenámos aos filhos de Israel, que aquele que mata uma alma, que não tenha matado uma alma ou cometido maldade na terra, será como se tivesse assassinado toda a humanidade; mas aquele que salvou uma alma viva, será como se tivesse salvado a vida de toda a humanidade. Os Nossos apóstolos anteriormente vieram a eles, com milagres evidentes; depois disso, houve muitos deles que cometeram transgressões na terra. (Alcorão 05:32)
Este versículo do Alcorão é a minha resposta à questão sobre se o Islão é inerentemente violento - uma pergunta suscitada por terríveis actos de assassínio e terror que actualmente são cometidos em nome de Deus.

Numa leitura atenta, a resposta que este versículo apresenta parece mista. Apesar do valor supremo que coloca na vida humana, o Islão abre uma excepção: "aquele que mata uma alma, que não tenha matado uma alma ou cometido maldade na terra (fasād fi-l-arḍ)". O Islão não é uma religião pacifista e, em alguns casos, define guerra e os castigos corporais (incluindo a pena capital) como justos.

Para ser mais específico sobre a questão do Islão e da violência é necessário investigar as várias escolas de pensamento islâmico. Obtemos diferentes respostas consoante as escolas que consultamos - embora as escolas islâmicas tradicionais concordem amplamente que o terrorismo e violência são por si próprias a "maldade na terra".

Surpreendentemente para algumas pessoas no Ocidente, esta situação não difere muito do Cristianismo. Podemos identificar a atitude "Cristã" apenas em alguns assuntos bastante genéricos, mas as especificidades sobre crença e prática, e até mesmo as noções particulares para justificar a violência e a guerra, são frequentemente muito diferentes entre as diversas seitas, denominações ou tradições.

Para um observador externo, qual é a interpretação "verdadeira"?

Como Baha'i, acredito que os ensinamentos Bahá'ís contêm a verdadeira interpretação, apresentada de forma lógica e clara no princípio Baha'i da revelação progressiva. A Revelação Progressiva mostra-nos que todas as religiões, ao longo do tempo, acabam por se tornar reflexos da fragilidade humana e ambição mundana, levando à distorção da mensagem original. Essa distorção corrompe o propósito pacífico e espiritual dos mensageiros originais e fundadores das grandes religiões - e resulta na revelação progressiva da próxima grande religião. Se você realmente quer saber o que Maomé (ou Jesus, ou o Buda) ensinou, recomendo que veja o que as Escrituras Bahá'ís dizem que Eles ensinaram, comparando-as com o registo das Escrituras existentes e raciocinando a partir daí.

Radicais Islâmicos em Londres
Infelizmente, algumas pessoas olham para as acções de uma pequena minoria de extremistas muçulmanos e de governos repressivos que hoje alegam representar o Islão, e perguntam se o Islão tem sequer um lugar na revelação progressiva. Tivemos Abraão, tivemos Moisés, tivemos Jesus - mas aconteceu alguma coisa errada depois disso? O Islão é inerentemente mais violento do que as religiões anteriores, como o Judaísmo e o Cristianismo? Acredito que a resposta a esta pergunta é um claro "não".

Todas as três religiões prescrevem um modo de vida global que, pelo menos em teoria, não reconhece qualquer fronteira impermeável entre Igreja e Estado (uma ideia muito moderna). Todas as três religiões já fizeram uso da força (incluindo força letal) para atingir objectivos religiosos.

As tradições da Lei Islâmica (Sharia) não definem mais crimes merecedores de capital do que a Torá judaica ou as leis canónicas cristãs que serviram de base às leis europeias da Idade Média - na verdade, definem menos. Permitem mais liberdades individuais, como o divórcio e um novo casamento, a realização de negócios ao sábado, e permitem que judeus e os cristãos continuem a praticar a sua fé. Podemos facilmente argumentar que os ensinamentos originais do Islão permitem menos violência do que os seus antecessores, e não mais.

Por exemplo, a instituição islâmica de dhimma - em que de certas religiões do passado podiam praticar a sua fé e obter isenção do serviço militar num estado Islâmico em troca do pagamento de um imposto - é hoje amplamente condenada pelos seus abusos, mas originalmente tratou-se de um avanço nos direitos gozados pelas minorias religiosas nos tempos medievais. Ser um dhimmi sob o Islão era certamente uma opção melhor do que enfrentar a tortura da Santa Inquisição, e a nova lei levou a emigrações em massa de judeus da Europa para terras islâmicas.

Alguns cristãos argumentam que essas coisas não tinham nada a ver com os ensinamentos pacíficos de Cristo - que as cruzadas lideradas pela Igreja, os massacres e as conversões pela espada em toda a Europa, Américas e noutros lugares não eram "verdadeiramente cristãs". Esse é o mesmo argumento usado hoje pela maioria dos muçulmanos: que o terrorismo e as perseguições não representam verdadeiro Islão. Provavelmente, ambos têm razão.

Cristo ensinou amar os inimigos e a responder ao mal com o bem (como fez Maomé - Alcorão 41:34; 7:199; 60:7). No entanto, Cristo também disse: "quem não tem espada venda a capa e compre uma." (Lucas 22:36). São Paulo descreveu a autoridade do Império Romano pagão como estando "ao serviço de Deus, para te incitar ao bem ... ela traz a espada. De facto, ela está ao serviço de Deus para castigar aquele que pratica o mal." (Rom 13: 4). Estas palavras pareciam aplicar-se ainda mais depois do imperador Constantino se ter tornado cristão. A tendência humana a recorrer à violência para resolver problemas tornou inevitável que a profecia de Cristo "Não vim trazer a paz, mas a espada" (Mat. 10:34) fosse literalmente e abundantemente cumprida durante séculos nos actos dos seus seguidores. Apesar dos ensinamentos pacíficos de Cristo, a Bíblia não contém uma declaração de liberdade de consciência tão directa como esta do Alcorão:
Não há coerção na religião. A direcção certa é doravante distinta do erro. E aquele que rejeita falsas divindades e crê em Deus segurou-se firmemente àquilo que nunca se vai quebrar. (Alcorão 2: 256)
Esta omissão tornou fácil para a Igreja a entregar judeus, muçulmanos, hereges e rebeldes nas mãos do poder temporal, para receber o castigo infernal neste mundo pelos seus pecados observados.

Porque é que hoje nós vemos tanta opressão com motivações religiosas em terras islâmicas, e comparativamente pouca em países maioritariamente cristãos? Talvez devêssemos procurar a resposta na história, em vez da teologia. Talvez devêssemos, também, olhar para a mais recente e mais progressiva das religiões do mundo global, a Fé Bahá'í, e procurar nova orientação espiritual sobre a questão de guerras e violência:
Que ninguém lute com outro, e que nenhuma alma mate outra; isto, em verdade, é o que vos foi proibido... O quê?! Quereis matar quem Deus despertou, aquele que Ele dotou de espírito através do Seu sopro? Grave, pois, seria a vossa ofensa diante do Seu trono! Temei a Deus, e não levanteis a mão da injustiça e da opressão para destruir o que Ele próprio ergueu; não, trilhai o caminho de Deus, o Verdadeiro. (Bahá'u'lláh, O Livro Mais Sagrado, parag. 73)

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Texto Original: Islam and the Question of Violence (bahaiteachings.org)

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 Dan Gebhardt é professor de filosofia e religião na Universidade de Nevada-Reno (EUA).

domingo, 9 de novembro de 2014

Os Judeus na Alemanha Nazi, os Bahá’ís no Irão

Por David Langness.

O próprio Deus foi, de facto, destronado dos corações dos homens, e um mundo idólatra saúda e adora clamorosa e apaixonadamente os falsos deuses que as suas próprias vãs fantasias criaram com tamanha insanidade... Os seus sacerdotes são os políticos e os especialistas do mundo, os chamados sábios da época; o seu sacrifício são a carne e sangue das multidões massacradas; os seus encantamentos são costumes obsoletos e fórmulas insidiosas e irreverentes; o seu incenso é o fumo da angústia que se eleva nos corações dilacerados dos desamparados, dos amputados, dos desalojados. (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, p. 113.)
Todos ouvimos falar do Holocausto, das atrocidades genocidas de horror indescritível a que o povo Judeu chama Shoah, quando os Nazis exterminaram seis milhões de Judeus durante a 2ª Guerra Mundial.

Mas apenas alguns sobreviventes e historiadores compreenderam o que levou às mortes em massa. O partido Nazi não começou a exterminar imediatamente os Judeus; em vez disso, quando tomaram o poder, aprovaram uma série de leis e emitiram memorandos internos secretos, dando inicio a uma campanha geral que gradualmente privava os Judeus alemães dos seus direitos.

Tudo começou no dia 27 de Fevereiro de 1933, quando agentes do partido Nazi incendiaram o edifício do Reichstag, a sede do Governo alemão, e posteriormente atribuíram a culpa aos “comunistas”. A opinião pública alemã, revoltada com o ataque às suas tradições e à sua democracia, insistiu que os Nazis respondessem àquela “crise” fabricada.

E assim, no dia 1 de Abril de 1933, apenas uma semana depois do Parlamento Alemão ter aprovado a Lei de “Concessão de Plenos Poderes” que transformava o Chanceler em Ditador, Hitler ordenou que os alemães boicotassem bancos, lojas, empresas e estabelecimentos que fossem propriedade de Judeus. Inicialmente o boicote não funcionou, porque a maioria dos alemães o ignorou - o que levou Hitler a cancelá-lo após três dias. Mas depois deste boicote inicial falhado, os governantes Nazis implementaram de forma agressiva um conjunto de oito leis severas que gradualmente eliminaram os direitos, a cultura e as vidas de todos os Judeus alemães.

Estas medidas do governo provocaram a ostracização dos Judeus alemães, empurrando-os para as margens da sociedade, isolando-os e tornando-os alvos de futuras perseguições.

Estas leis iniciais levaram ao posterior extermínio de toda uma população, culminando num dos maiores genocídios da história. Vejamos a lista:
  • A primeira lei anti-semita alemã exigiu que todos os funcionários públicos e governamentais fossem “arianos”. Isto levou à expulsão de todos os judeus que trabalhavam na administração pública.
  • A segunda lei ilegalizou os pagamentos do Estado a médicos e advogados judeus.
  • A terceira lei, pretensamente para aliviar as escolas com demasiados alunos, tornou praticamente impossível que as crianças Judias frequentassem as escolas públicas.
  • A quarta lei impedia que os dentistas judeus exercessem a sua profissão.
  • A quinta lei excluiu os professores Judeus das Universidades.
  • A sexta lei declarava que os conjugues dos “não-Arianos” não podiam trabalhar na administração pública.
  • A sétima lei impedia os Judeus de participar em actividades culturais e de entretenimento, incluindo a literatura, o cinema, os teatros e as artes.
  • E a oitava lei afastou todos os jornalistas Judeus da sua profissão - e colocou todos os jornais alemães sob controlo nazi.
Com estas leis aprovadas e implementadas num curto espaço de seis meses, os Nazis transformaram os preconceitos anti-semitas da maioria da população alemã em campanhas legais destinadas a marginalizar, oprimir e exterminar a minoria Judaica. Na prática, juntamente com as infames leis de Nuremberga, que os Nazis implementaram dois anos mais tarde, em 1935, estas tornaram ilegal ser judeu.

Mas esta horrível cadeia de acontecimentos não pode voltar a acontecer outra vez, certo? Agora sabemos demasiado para permitir que este tipo de adulterações da justiça ocorram no século XXI, não é verdade? Infelizmente, a resposta é não.

Mas é exactamente o mesmo padrão que se está a desenvolver actualmente no Irão, onde o governo, de forma sistemática e discreta, tenta destabilizar, marginalizar e exterminar a comunidade Bahá’í. Na verdade, para quem conhece a forma como começou o Holocausto na Alemanha Nazi, os paralelismos são surpreendentemente familiares.

Cinema Rex, em Abadan, após o incêndio
Durante o verão de 1978, na cidade de Abadan, no sul do Irão, quatro indivíduos bloquearam as portas de um cinema e incendiaram-no, matando mais de 400 pessoas fechadas no interior. Posteriormente, manifestantes islamitas incendiaram cerca de 180 cinemas no Irão. Os revolucionários, com a sua fúria, culparam o Xá, e o público revoltado acreditava neles. Seguiram-se grandes manifestações, e o governo do Xá caiu passados alguns meses. Mais tarde, alguns militantes islamitas admitiram ter lançado o incêndio que alimentou a revolução.

Em Janeiro de 1979, o governo fundamentalista islâmico tomou o poder com a promessa de responder à “crise” social do Irão – uma crise gerada e inflamada por greves e manifestações por pessoas que se curvaram perante a criação de uma teocracia autoritária, usando as mesmas tácticas que os nazis usaram 46 anos antes.

Quando o domínio fundamentalista dos ayatollahs se estabeleceu no Irão, rapidamente foram postos em prática planos para destruir a comunidade Baha’i. Devido aos ideais Baha’is progressistas - entre eles, a unidade da humanidade, a igualdade entre homens e mulheres, a unidade das religiões - os ayatollahs conservadores denunciaram e demonizaram publicamente os Bahá’ís; então, a campanha governamental tornou-se mortal. O regime prendeu, torturou e enforcou centenas de Bahá’ís, incluindo jovens adolescentes e idosos. Expulsaram estudantes Bahá’ís das escolas, expropriaram empresas pertencentes a Baha’is, destruíram lugares sagrados e cemitérios Baha’is, recusaram-se a processar judicialmente assassinos e agressores de Baha’is, e ilegalizaram a Fé Baha’i tal como os Nazis ilegalizaram o Judaísmo.

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Texto original: Iran and the Baha’is; Nazi Germany and the Jews (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de outubro de 2014

O que podemos aprender com Sobreviventes de Ataques Sexuais

Por Donna Hakimian.
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A coragem é um aspecto da condição humana que me tem intrigado há muito tempo. As maneiras como se constrói, as maneiras como se perde e, em seguida, se encontra novamente, e a forma como é simultaneamente tão comum à experiência humana, mas também, de alguma forma, milagrosamente sagrada.

A pessoa mais corajosa com que falei nas últimas semanas foi Lilly, uma sobrevivente de ataque sexual com 22 anos de idade. Lilly e eu conhecemo-nos em 19 de Setembro, na Casa Branca. Naquele dia, um grupo de pessoas reuniu-se para o lançamento da campanha "It’s On Us" (em português, É Connosco). A campanha aborda o tema da agressão sexual no campus, de uma forma multifacetada e com os diferentes elementos dispostos no site itsonus.org. Uma série correspondente de acções estão programadas para se realizarem nos campus de todo o país.


A beleza no interior da Casa Branca é cativante - arte, ornamentação e a história que se desenrolou dentro das suas paredes não se podem registar adequadamente em vários volumes de livros. Mas o que aumentava a beleza desse dia era o facto de estar rodeada por tantos indivíduos comprometidos. Homens e mulheres, jovens e idosos, de várias áreas, estavam todos lá em solidariedade com os sobreviventes e reuniam-se para garantir que a praga da agressão sexual, especialmente nos campus universitários, é debatida e termina.

Lilly, que apresentou o Vice-Presidente, subiu ao palco com a postura de uma rainha e narrou a sua história angustiante de ter sido violada durante o seu primeiro ano de faculdade. Depois partilhou graciosamente como reconstruiu a sua vida. Poder-se-ia ouvir um alfinete cair na sala. Esta história fez-me lembrar rapidamente, quando, há alguns anos na minha investigação de pós-graduação, ouvi muitas horas de histórias de mulheres que tinham sido presas e torturadas, e muitas que perderam os seus entes queridos no Irão, por serem membros da Fé Bahá'í. Testemunhei como o pior da capacidade humana para infligir crueldade foi enfrentada com coragem indescritível, a mesma coragem que Lilly também mostrou naquele dia. Já descrevi a minha obsessão com este tipo de coragem. Como é que as pessoas não desistem diante destas experiências? O que os incita a continuar?

Deixei a Casa Branca perguntando a mim própria: Como é que nós, enquanto sociedade, mudamos a nossa forma de retratar as mulheres e os homens? Como é que nos afastamos de um entendimento da natureza humana que assume que todos nós somos gananciosos, animalescos e egocentristas, para entender que a violência não é caracterizadora da nossa natureza enquanto seres humanos? O Presidente Obama também falou sobre o assunto no seu discurso, afirmando: "Desde as ligas desportivas à cultura pop e à política, a nossa sociedade não valoriza suficiente as mulheres", e acrescentou: "Ainda não condenamos agressão sexual tão veementemente como deveríamos."

Como ficou claro no evento, e desde o momento que comecei a fazer a defesa da igualdade de género, que isto é um assunto de todos. Mulheres e meninas são prejudicadas pela violência desenfreada e pelas injustiças estruturais e sociais que enfrentam; tal como são os homens e os rapazes, que também sofrem violência, marginalização e abuso. Ninguém está imune ao mal que a desigualdade provoca, mas a boa notícia é que, à medida que as nossas sociedades se tornam mais justas, todos beneficiam.

A minha própria experiência pessoal no ensino superior foi inestimável, marcada por altos e baixos, pelas novas amizades, desilusões e por um esforço académico pessoal maior do que alguma vez pensei ser possível. Tragicamente, para uma em cada cinco mulheres, e também para muitos homens, após uma experiência de ataque sexual, a atenção muda da busca da excelência académica para como reconstruir a vida.

Legislação governamental, como a The Violence Against Women Act, Title IX e a The Cleary Act tem proporcionado uma tremenda protecção social e psicológica na nossa sociedade, ao criar uma maior equidade de género. Estas ferramentas são valiosas como sempre, e o que é mais esperançoso é que agora, além das leis, há uma vaga de fundo constituída por pessoas, faculdades, empresas, entidades governamentais, celebridades e atletas que ecoam a necessidade de protecção e igualdade na nossa sociedade.

Espero que essa vaga de fundo continue a crescer e a ganhar força, e que todos possamos conhecer as Lillys do mundo não apenas como sobreviventes de ataques sexuais, mas antes como amigas, colegas e concidadãos.

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Texto original (em inglês): What We Can Learn From Survivors of Sexual Assault (HuffingtonPost.com)

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Donna Hakimian, é representante dos Bahá'ís dos Estados Unidos para Igualdade de Género e Avanço das Mulheres. Tem um Mestrado em Women's Studies pela Universidade de Toronto um um bacharelato em Religious and Middle Eastern Studies pela McGill University. Tem trabalhado em temas relacionados com violência de género e escrito diversos trabalhos sobre direitos das mulheres no Irão.