sábado, 10 de janeiro de 2026

O Argumento Ambiental contra a Cremação e o Embalsamamento

Por David Langness.


No debate entre a cremação/enterro, os ensinamentos Bahá’ís posicionam-se decisivamente a favor do enterro, por três razões principais: a protecção do ambiente, a natureza humana e a dignidade dos nossos corpos.

Neste artigo analisaremos a primeira destas razões e examinaremos os argumentos ambientais contra a cremação e o embalsamamento.

'Abdu'l-Bahá, em resposta a uma pergunta sobre cremação feita pela pioneira Bahá'í americana Laura Clifford Barney, escreveu:

No que diz respeito aos fenómenos universais, por mais que o intelecto humano se esforce por encontrar os procedimentos correctos ou o sistema perfeito, nunca poderá descobrir algo semelhante à criação divina e à sua ordem de transferências e trajectórias dentro da cadeia da vida. Pois as transferências, as composições, os encontros e dispersões de elementos, de partes constituintes e de substâncias, sucedem numa cadeia poderosa e impecável. Observai as leis universais reais e vede quão solidamente estabelecidas, seguras e fortes são.

Tal como a composição, a formação, o crescimento e o desenvolvimento do corpo físico ocorreram gradualmente, também a sua decomposição e dispersão devem ser graduais. (Additional Tablets, Extracts and Talks)

Esta cadeia da vida, como lhe chamou 'Abdu'l-Bahá, refere-se também à "grande cadeia do ser", ou em latim, à scala naturae ou "escada da natureza". O conceito surgiu originalmente com Platão e Aristóteles, e constitui a base científica para ordenar e classificar a matéria viva e não viva, desde os minerais e as plantas aos animais e aos seres humanos.

A Grande Cadeia do Ser e a Hipótese Gaia

Nas palavras de ‘Abdu’l-Bahá, a grande cadeia do ser refere-se também à biologia evolutiva de toda a existência, à inter-relação de todos os seres e ao movimento e transmissão contínuos de elementos entre cada nível da vida. Numa palestra proferida em Paris, no início do século XX, ‘Abdu’l-Bahá elaborou – e, ao fazê-lo, propôs pela primeira vez – a " hipótese Gaia", o conceito de que a própria Terra manifesta vida:

Na criação física, a evolução ocorre de um grau de perfeição para outro. O mineral, com as suas perfeições minerais, passa para o vegetal; o vegetal, com as suas perfeições, passa para o mundo animal, e assim sucessivamente até ao da humanidade. Este mundo está repleto de aparentes contradições; em cada um destes reinos (mineral, vegetal e animal), a vida existe no seu grau; embora, comparada com a vida no homem, a Terra pareça morta, também vive e tem vida própria. (Paris Talks, p.66)

A hipótese Gaia, desenvolvida 60 anos mais tarde pelo pioneiro químico e ambientalista britânico James Lovelock e pela microbiologista evolucionista norte-americana Lynn Margulis, defende que os organismos vivos interagem constantemente com o meio inorgânico que os rodeia, formando um sistema sinérgico e auto-sustentável. Este sistema e o seu constante movimento de elementos perpetuam as condições para que a vida prospere no nosso planeta – o que significa que a própria Terra está viva.

Este sistema “poderoso”, como salientou 'Abdu'l-Bahá na sua resposta a Laura Clifford Barney, surge da ordem natural – o que significa que os corpos humanos, como parte integrante da criação física, devem poder regressar ao ecossistema de forma natural e gradual:

… a composição e a decomposição, o agrupamento, a dispersão e a deslocação de todas as criaturas devem ocorrer segundo a ordem natural, o governo divino e a grandiosa lei de Deus, para que nenhuma perturbação ou dano afecte as relações essenciais que emergem das realidades internas das coisas criadas. É por isso que, segundo a lei de Deus, nos é ordenado que sepultemos os mortos. (Additional Tablets, Extracts and Talks)

A cremação interrompe e anula violentamente estes processos naturais graduais, transformando imediatamente os corpos em dois subprodutos: as cinzas e a poluição atmosférica.

A revista National Geographic, num artigo de 2019 sobre os factos científicos da cremação, destacou que "a cremação requer muito combustível e resulta em milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono por ano – o suficiente para que alguns ambientalistas estejam a tentar repensar o processo".

A cremação de um corpo – afinal, os seres humanos são formas de vida baseadas no carbono – acrescenta mais de 225 kg de CO² à atmosfera. No mundo ocidental, a cremação utiliza combustíveis fósseis para gerar o calor acima dos 650 °C necessário para queimar os corpos. A maioria das cremações no mundo, que ocorrem em países hindus como a Índia, utiliza a madeira como combustível, o que também contribui para a desflorestação e aumenta a pegada de carbono. Além disso, o calor intenso necessário para a cremação resulta na vaporização tóxica de mercúrio proveniente de obturações dentárias, tornando-se uma das principais fontes da crescente poluição atmosférica por mercúrio no mundo.

Porque é que os Bahá'ís não embalsamam

O embalsamamento dos corpos dos mortos antes do enterro é uma prática secular. Basicamente, o embalsamamento consiste em drenar o sangue e injetar substâncias químicas e conservantes, como o formaldeído, o glutaraldeído e o metanol, no sistema arterial do falecido, além de remover cirurgicamente os fluidos internos do corpo. Embora o embalsamamento não seja obrigatório por lei na grande maioria dos países, os agentes funerários sugerem frequentemente aos familiares enlutados que o falecido seja embalsamado, talvez porque algumas agências funerárias lucrem consideravelmente com o procedimento.

O embalsamamento atrasa o processo natural de decomposição, permitindo funerais com caixão aberto, onde o defunto pode ser visto. No entanto, após o sepultamento, os fluidos tóxicos provenientes do embalsamamento acabam por ser absorvidos pelo solo em redor da sepultura e podem contaminar o lençol freático. Por esta razão, o embalsamamento tem sido questionado do ponto de vista ambiental.

Os ensinamentos Bahá’ís proíbem o embalsamamento, a menos que seja exigido por lei, como explica esta carta de 1988 escrita em nome da Casa Universal de Justiça:

Bahá’u’lláh aconselhou que é preferível que o enterro ocorra o mais cedo possível após o falecimento. Quando as circunstâncias não permitam o sepultamento do corpo logo após a morte, ou quando há uma exigência da lei civil, o corpo poderá ser embalsamado, desde que o processo utilizado tenha o efeito de retardar temporariamente a decomposição natural por um curto período. Contudo, o corpo não deve ser submetido a um processo de embalsamamento que tenha o efeito de preservá-lo sem decomposição por um longo período; tais processos visam geralmente preservar o corpo indefinidamente.

As leis Bahá’ís sobre o enterro exigem que os corpos dos defuntos sejam tratados com bondade e cuidado, dado que outrora foram os repositórios do espírito humano. Isto significa simplesmente lavar o corpo, envolvê-lo numa mortalha limpa de algodão ou seda e sepultá-lo na terra num caixão de madeira nobre, cristal ou pedra. O enterro deve ocorrer logo após a morte, recomendam os ensinamentos Bahá’ís, e a uma distância de até uma hora do local do falecimento, para evitar o transporte de corpos por longas distâncias. No enterro, os Bahá’ís costumam ler e recitar a oração de Bahá’u’lláh pelos mortos, que começa assim:

Ó meu Deus! Esta é a Tua serva e filha da Tua serva, que acreditou em Ti e nos Teus sinais, e voltou o seu rosto para Ti, totalmente desapegada de tudo, excepto de Ti. Tu és, em verdade, dentre os que mostram misericórdia, o mais misericordioso.

Trata-a, ó Tu que perdoas os pecados dos homens e ocultas as suas faltas, como convém ao céu da Tua generosidade e ao oceano da Tua graça. Concede-lhe admissão nos recintos da Tua misericórdia transcendente que existia antes da fundação da terra e do céu. Não há outro Deus além de Ti, o Sempre Clemente, o Mais Generoso.

(Se a pessoa falecida for um homem, a oração é: “Ó meu Deus! Este é o Teu servo e filho do Teu servo…”, etc.)

Composição e Decomposição: O Ciclo Natural da Vida

As leis funerárias Bahá’ís preconizam a simplicidade e a dignidade no tratamento da morte, pois o embalsamamento ou a cremação de corpos humanos interrompem e desviam o ciclo natural da vida. Quando os seres vivos morrem, decompõem-se naturalmente, transformando-se nos nutrientes necessários a outras formas de vida. Os Bahá’ís acreditam que este processo ambiental natural — o ciclo da vida e a inter-relação de todos os seres vivos — deve ser permitido que ocorra de acordo com a intenção de Deus e da natureza. Em Respostas a Algumas Perguntas, 'Abdu'l-Bahá disse:

Quanto às coisas criadas, a sua vida consiste na composição e a sua morte na decomposição. Mas a matéria e os elementos universais não podem ser completamente destruídos e aniquilados. Não, a sua aniquilação é meramente uma transformação. Por exemplo, quando um homem morre, o seu corpo transforma-se em pó, mas não se torna absolutamente inexistente: conserva uma existência mineral, mas ocorreu uma transformação, e essa composição foi submetida a decomposição. O mesmo acontece com a aniquilação de todos os outros seres; pois a existência não se torna absolutamente inexistente, e a absoluta inexistente não adquire existência. (Respostas a Algumas Perguntas, cap. 53)

Este tipo de enterro compassivo e digno – que trata os nossos corpos como parte integrante e importante da teia da vida – faz sentido tanto do ponto de vista lógico como ecológico.

Ao observarmos belas árvores e plantas floridas a crescer nos cemitérios, podemos começar a reconhecer a grande beleza deste ciclo da vida e a compreender o seu significado ambiental e espiritual.

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Texto original: The Environmental Case Against Cremation and Embalming (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 3 de janeiro de 2026

O que a Cremação nos diz sobre a Morte

Por David Langness.


Os ensinamentos Bahá'ís referem-se à morte como uma "mensageira da alegria" – como o princípio de uma maravilhosa viagem rumo à vida eterna. 'Abdu'l-Bahá chegou mesmo a comparar a alma humana libertada a um pássaro que sai da gaiola:

Considerar que o espírito é aniquilado após a morte do corpo é imaginar que um pássaro preso numa gaiola morre quando se destrói a gaiola, apesar do pássaro nada ter a temer com a destruição da gaiola. Este corpo é como uma gaiola e o espírito é como o pássaro: vemos que este pássaro, liberto da sua gaiola pode voar livremente… não há maior paraíso para os pássaros agradecidos do que serem libertados da sua gaiola. (Some Answered Questions, newly revised edition, p. 262)

Com o passar dos anos, aprendi a aceitar e a acolher a morte, e, na verdade, agora aguardo pelo desmoronar da minha própria prisão. A morte virá no seu devido tempo, claro, e eu adoro estar vivo neste plano de existência, por isso não tenho pressa. Mas quando ela chegar, certamente, saciará a minha intensa curiosidade e expectativa sobre o que espera o meu ser interior na próxima fase da vida.

Mas, infelizmente, a nossa cultura cada vez mais parece encarar a morte de uma forma diferente. As pessoas não só a temem, como também desejam permanecer jovens para sempre; negam a existência da morte e apagam os seus vestígios eliminando completamente os corpos dos falecidos. O rápido aumento da cremação, segundo os especialistas, ilustra esta negação.

O jornal Washington Post noticiou recentemente, numa ampla investigação sobre o assunto, que "O que o impressionante aumento da cremação revela a mudança na concepção de morte nos Estados Unidos".

Os dados estatísticos comprovam esta conclusão. Nos Estados Unidos, mais pessoas do que nunca estão a optar pela cremação. Em 2020, o Washington Post noticiou que “56% dos americanos que morreram foram cremados, mais do dobro dos 27% registados duas décadas antes…” e que estas “percepções em rápida transformação sobre o destino dos corpos também levaram a mudanças na forma como homenageamos os nossos entes queridos — e refletem uma nação cada vez mais secular, transitória e, segundo alguns, com fobia da morte”.

Assim, nesta breve série de artigos sobre a nossa morte física, sinto-me obrigado a examinar esta tendência, a debater os seus méritos e deméritos, e a apresentar o melhor argumento possível, tendo em mente os ensinamentos Bahá’ís, em defesa do enterro dos nossos corpos em vez da cremação.

Quando os Meus Pais Morreram

Recentemente, num belo dia de primavera, durante uma longa viagem de carro, à saída da minha casa nas florestas do norte da Califórnia, fiquei com fome. Parei num pequeno restaurante de comida para levar no caminho, pedi algo para comer num balcão e sentei-me no carro para almoçar.

Enquanto comia, através do para-brisas, pude ver do outro lado da rua, uma casa antiga, grande e bem conservada, num bairro residencial, rodeada de árvores frondosas e jardins impecáveis. Nas traseiras da casa, reparei numa grande chaminé e pude ver ondas de calor a sair dela, o que me fez pensar: porque é que alguém acenderia uma lareira ou um aquecedor num dia tão quente e ensolarado?

Intrigado, interrompi o almoço, saí do carro e atravessei a rua para dar a volta até à frente daquela curiosa casa. Já não era uma residência, como obviamente fora um dia, e a placa na frente dizia "Lakeside Colonial Chapel Funeral and Cremation Services" (Serviços Funerários e de Cremação da Capela Colonial Lakeside). Assim que vi a placa, percebi o que provocava aquelas ondas de calor que saíam daquela chaminé. Voltei para o carro, sem fome, deitei fora o resto do meu almoço e fui-me embora.

Como veterano de guerra, não tenho aversão à morte, mas aquela pira crematória em chamas fez-me lembrar a dolorosa morte dos meus pais, alguns anos antes. Os meus pais foram cremados, e embora eu tenha tentado dissuadi-los enquanto eram vivos, ambos insistiram na cremação por ser a opção mais barata e simples.

Lamento a sua decisão, não porque eu e a minha família não possamos visitar os túmulos dos meus pais, ou porque eu queira que exista algures uma recordação física da sua presença terrena, mas porque temo que isso possa ter dificultado o progresso das suas almas na próxima vida.

A Transição entre esta Vida e a Próxima

Se acredita que as nossas vidas terminam com a morte, então incinerar o corpo sem vida pode parecer fazer sentido. Mas e se a vida não terminar quando o coração deixa de bater? E se a alma humana seguir para uma existência espiritual superior, como prometem todas as religiões e filosofias metafísicas? E se este processo for gradual, com os nossos espíritos a desprenderem-se lentamente dos nossos corpos?

E se a morte for realmente um segundo nascimento?

Se for esse o caso, e lembrando que o nosso primeiro nascimento, saindo do ventre da nossa mãe, não foi uma transição fácil, então não faria sentido que a passagem deste mundo material para a vida após a morte, no reino espiritual, representasse também uma passagem difícil para a alma?

Muitas pessoas que tiveram experiências de quase-morte — que foram declaradas clinicamente mortas e depois reanimadas, regressando à vida — relatam que a sua consciência permaneceu, mas que a separação do corpo físico não foi fácil nem rápida. Tendemos a pensar nos nossos corpos como o nosso "eu" — mas quando o eu e o corpo se separam no final da nossa existência material, obviamente aprendemos que não é bem assim. Não somos os nossos corpos — em vez disso, temos consciência humana, uma realidade eterna a que alguns chamam alma.

Assim, quando a porta para a liberdade se abre, o pássaro, habituado apenas àquele ambiente restrito e familiar, pode sentir-se inclinado a permanecer ali, confinado na sua gaiola – mas, na hora da morte, não temos essa escolha.


Assim que soltamos o nosso último suspiro – o momento fatídico que, mais cedo ou mais tarde, chegará para cada um de nós – as nossas almas iniciam a sua viagem para o outro mundo. Os ensinamentos de todas as grandes religiões asseguram-nos, desde sempre, que o nosso espírito mais íntimo é imortal, destinado a continuar numa existência contínua e eterna. Nas Suas Escrituras, Bahá’u’lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá’í, fez a mesma promessa clara e explícita:

E agora, sobre a tua pergunta referente à alma do homem e à sua sobrevivência após a morte. Sabe decerto que a alma após a sua separação do corpo, continuará a progredir até atingir a presença de Deus, num estado e condição que nem a revolução dos séculos e das eras, nem as mudanças e casualidades no mundo, podem alterar. (SEB, LXXXI)

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que todas as pessoas farão esta viagem espiritual para o outro mundo, e ali, o que fizermos neste mundo determinará a nossa vida eterna. Os Bahá’ís não acreditam na existência de um lugar chamado inferno ou purgatório, e compreendem que cada alma entrará inevitavelmente no paraíso da existência seguinte. 'Abdu'l-Bahá escreveu: "...as almas dos filhos do Reino, após a sua separação do corpo, ascendem ao reino da vida eterna."

Devido à natureza da morte e à viagem espiritual que ela implica para cada um de nós, os ensinamentos Bahá’ís convidam-nos a ter uma atenção mais afectuosa, cuidadosa e gradual pela viagem transcendente que os nossos espíritos empreendem quando os nossos corpos expiram. De facto, estes ensinamentos oferecem sábias orientações e instruções sobre como garantir a passagem mais tranquila e pacífica do reino físico para o espiritual. Têm também em conta algo que poucas pessoas consideram quando pensam na morte: o importante impacto do destino dos nossos corpos físicos na teia interdependente da vida, da natureza e do ambiente.

No próximo ensaio desta série, começaremos a examinar esta orientação e tentaremos compreender a sua sabedoria.

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Texto original: What Cremation Tells Us about Death (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Os Bahá’ís e o Comunismo

Por Ming Tai-Seale.


Um novo amigo da China perguntou-me recentemente: "Posso ser Bahá'í e membro de um partido político, ou de alguma outra religião?"

Este visitante inquisitivo da China assistiu a um “fire-side”, uma reunião informal" em minha casa onde estavam Bahá’ís e amigos interessados em discutir a unidade da humanidade. Nestes encontros calorosos e sinceros, partilhamos experiências pessoais, reflectimos sobre temas como o propósito da vida, o que significa viver espiritualmente e o que nos acontece quando deixamos este mundo. Falámos sobre o porquê de existirem tantas religiões e sobre as semelhanças e diferenças entre estas religiões e outros sistemas de pensamento político e social, como o Cristianismo ou o comunismo.

Este novo amigo disse que se sentiu tão tocado pelos ensinamentos da Fé Bahá’í e pela amorosa comunidade Bahá’í que quis tornar-se Bahá’í. Recebemo-lo de braços abertos — a Fé Bahá’í é muito inclusiva e todos são bem-vindos. Alguns dias depois, contou-nos que tinha participado em estudos bíblicos e que também acreditava nos princípios do comunismo. Queria saber se poderia ser Bahá’í e, simultaneamente, membro de outra igreja ou de um partido político.

Adoro conhecer novos amigos que descobrem a Fé Bahá'í. As suas perguntas proporcionam-me frequentemente novas perspectivas para o meu próprio despertar espiritual e ajudam-me a viver melhor como Bahá'í. Lembro-me da emoção que senti quando descobri a Fé Bahá’í em Atlanta, Geórgia, consigo identificar-me com a sua profunda admiração ao descobrir esta nova fé.

Quando estudava em Emory, um clérigo convidou-me para estudos bíblicos. Recusei porque não me sentia uma ovelha perdida, nem que precisasse de ser salvo por um pastor sino-americano idoso e pela sua congregação. No entanto, o convite dos Bahá’ís para estudarmos juntos foi completamente diferente.

Os Bahá’ís que conhecia convidaram-me a construir um mundo melhor com eles — porque isso não pode acontecer sem a participação activa das pessoas de todo o mundo.

Nobre te criei”, disse-nos Bahá’u’lláh n’ As Palavras Ocultas. O meu coração identificou-se imediatamente com esta mensagem, especialmente porque a minha educação chinesa me incutiu a crença de que todos os seres humanos nascem puros e bondosos. A visão de trabalhar com parceiros afectuosos que me consideram um ser nobre, digno de ajudar a construir um mundo melhor – foi um convite que me senti honrado por aceitar. Afinal, uma das bandeiras na Praça Tiananmen (a Porta da Paz Celestial), que separava o antigo Palácio Imperial do povo de Beijing, diz: “Viva a unidade de todos os povos do mundo”.

Praça Tiananmen
À esquerda está escrito: “Viva a República Popular da China”,
enquanto à direita está escrito: “Viva a Grande Unidade dos Povos do Mundo”.

Desde o dia em que me tornei Bahá’í, os ensinamentos da Fé revelaram-me que somos seres espirituais que vivem temporariamente num mundo prático; não somos apenas seres materiais. Aprendi que os princípios espirituais podem impulsionar-nos a escolher a unidade e o sacrifício pessoal; por outro lado, as ambições materiais podem incitar acções egoístas prejudiciais à unidade da nossa família, local de trabalho e entre países. Através da leitura diária das Escrituras Bahá’ís, das orações e da meditação, os Bahá’ís aprendem a viver de acordo com os Ensinamentos de Bahá’u’lláh, que transformam os nossos pensamentos e acções para que se tornem velas brilhantes — e ajudem a construir um mundo melhor neste processo.

Então, como respondi ao meu novo amigo? Disse-lhe que a Fé Bahá’í incentiva com entusiasmo o estudo das outras religiões. Como acreditamos que todas as religiões provêm do mesmo Deus, os Bahá’ís amam e respeitam todas as religiões de igual forma. Expliquei que os Bahá’ís não pertencem outras religiões porque acreditamos que esta mensagem mais recente de Deus abrange todas elas.

E quanto ao comunismo? Bem, eu disse ao meu amigo que os Bahá’ís acreditam em Deus e esforçam-se por viver uma vida espiritual. Muitos Bahá’ís vivem em países comunistas com sistemas políticos de partido único – e os Bahá’ís são leais aos seus governos, seguindo diligentemente as exigências legais dos seus países. Se a lei do país exige que pertençam a um partido, os Bahá’ís cumprem – mas se tiverem escolha, os Bahá’ís abstêm-se de se envolver na política partidária. Mostrei ao meu amigo esta passagem do Guardião da Fé Bahá’í, que descreve o princípio Bahá’í da não participação na política:

Alguns dos princípios e ideais que animam as instituições políticas e eclesiásticas, todo o seguidor consciencioso da Fé Bahá’í pode, sem dúvida, subscrever prontamente. Contudo, ele não pode identificar-se com nenhuma dessas instituições, nem pode endossar incondicionalmente os credos, os princípios e os programas em que se baseiam. (The World Order of Baha’u’llah, p. 198)

O meu amigo entendeu. Está a continuar a estudar e a descobrir a beleza dos princípios Bahá'ís.

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Texto original: Baha’is and Communism (www.bahaiteachings.org)

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Ming Tai-Seale abraçou a Fé Bahá’í há muitos anos, quando era estudante de pós-graduação em Saúde Pública. Actualmente, como cientista sénior do Instituto de Investigação da Fundação Médica de Palo Alto (EUA), envolve doentes e médicos em projetos de investigação que visam a melhoria da qualidade dos cuidados.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Reconhecer o Espírito da Época

Por Kathy Roman.

Estamos na época festiva; árvores de Natal cheias de belos enfeites, ruas iluminadas com luzes cintilantes e a cidade decorada com cores vibrantes.

Estou imbuída do espírito natalício, em que diferentes religiões celebram esta época especial do ano. Como Bahá’í, acredito que todas as religiões provêm da mesma fonte divina, pelo que não vejo necessidade de escolher apenas uma tradição para vivenciar.

Ser Bahá’í significa simplesmente amar o mundo inteiro; amar a humanidade e procurar servi-la; trabalhar pela paz universal e pela fraternidade universal. (‘Abdu’l-Bahá, citado por J.E. Esselmont em Baha’u’llah and the New Era, p. 83)

Como nasci numa família cristã, ainda me encanto com as maravilhosas tradições dos meus antepassados. O meu filho sai para cantar canções de Natal com os amigos do seu grupo de teatro. Eu toco músicas de Natal e vejo os típicos filmes de Natal. O meu marido corta a árvore de Natal perfeita da nossa propriedade e celebramos o nascimento do menino Jesus com os nossos familiares.

O meu tio, um Bahá’í de origem judaica, ainda mantém vivas as tradições familiares do Hanukkah no seu coração. Os amigos Bahá’ís afro-americanos continuam a celebrar o Kwanzaa e, no Ano Novo, os amigos Bahá’ís persas celebram tradições da sua herança cultural que remontam a centenas de anos.

Os queridos amigos nativos americanos da Fé Bahá’í comemoram o Solstício de Inverno. Desde tempos remotos que, em todo o mundo, as pessoas reconhecem este importante evento astronómico e celebram o sucessivo "regresso" do Sol de diversas formas. As antigas tradições do solstício influenciaram até as festas que hoje celebramos, como o Natal e o Hanukkah. No solstício, um amigo nativo americano reúne um grande grupo de fiéis numa tenda na montanha para orações e meditações.

Há uma beleza rica em todas as celebrações e um motivo para reconhecermos a nossa unidade comum. A questão é que, como Bahá’í, sou livre para celebrar os dias sagrados de todas as religiões, mas não obrigada a fazê-lo, se assim o desejar. Reconheço a sua validade e valorizo os seus contributos. Os ensinamentos Bahá’ís aceitam e reconhecem inequivocamente os fundadores de todas as grandes religiões do mundo:

Quanto à posição do Cristianismo, diga-se sem qualquer hesitação, ou equívoco, que a sua origem divina é reconhecida incondicionalmente, que a Filiação e Divindade de Jesus Cristo são destemidamente declaradas, que a inspiração divina do Evangelho é plenamente reconhecida, que a realidade do mistério da Imaculabilidade da Virgem Maria é confessada, e o primado de Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, é mantido e defendido. 

O Fundador da Fé Cristã é chamado por Bahá'u'lláh como o "Espírito de Deus", é proclamado como Aquele que "apareceu do sopro do Espírito Santo" e é mesmo exaltado como a "Essência do Espírito". A Sua mãe é descrita como "aquele semblante velado e imortal, aquele belíssimo", e a posição do seu Filho é elogiada como "uma posição que foi exaltada acima da imaginação de todos os que habitam a Terra", enquanto Pedro é reconhecido como aquele de quem Deus fez fluir "os mistérios da sabedoria e da eloquência" (Shoghi Effendi, O Dia Prometido Chegou, pp. 109-110).

Assim, independentemente dos feriados que celebramos, o que é que estamos realmente a celebrar nesta altura do ano? Que espírito é comum a todas as crenças e religiões? Todos adoramos o mesmo Deus amoroso e esforçamo-nos por servir os nossos semelhantes. Esta é uma época em que podemos unir-nos para apreciar cada celebração alegre num espírito de amor e união absolutos.

Ó povos e tribos em contenda na terra! Voltai as vossas faces para a unidade e deixai que o esplendor da sua luz brilhe sobre vós. Reuni-vos e, por amor de Deus, decidi-vos a erradicar tudo o que seja causa de contenda entre vós. Depois, o brilho do grande Luminar do mundo envolverá toda a terra e os seus habitantes tronar-se-ão uma única cidade e ocupantes de um único trono. (Bahá'u'lláh, Gleanings, CXI)

Independentemente das nossas tradições de fim de ano, este é um momento maravilhoso para reconhecer os costumes e celebrações dos seus vizinhos e para se unir ao verdadeiro espírito da época, pelo qual todas as religiões anseiam:

Paz na Terra

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Texto original: Recognizing the Spirit of the Season (www.bahaiteachings.org)

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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Ser Optimista em Tempos Difíceis


Para a maioria das pessoas, parece óbvio que o mundo em que vivemos mergulhou no caos absoluto e, por vezes, parece estar à beira da aniquilação, especialmente nos últimos anos.

Como resultado, somos bombardeados por demasiada negatividade que nos pode distrair de nos focarmos nas coisas positivas das nossas vidas e até mesmo levar-nos a um estado de depressão.

Diariamente, deparamo-nos com notícias trágicas, desde o surto de uma pandemia mortal que ameaça vidas humanas até guerras que resultam na morte de civis e crianças inocentes. No meio de acontecimentos tão horríveis, pode ser difícil acreditar num futuro melhor. Como podemos manter o optimismo quando acontecem tantas coisas terríveis no mundo?

Os ensinamentos Bahá’ís realçam a importância do poder do pensamento. É o nosso pensamento que distingue os seres humanos dos animais e nos torna uma criação suprema. Se não fosse o nosso pensamento, não haveria qualquer diferença entre nós e os animais. Numa palestra em Paris, 'Abdu'l-Bahá disse: "... a realidade do homem é o seu pensamento, não o seu corpo material. ... Embora o homem faça parte da criação animal, ele possui um poder de pensamento superior ao de todos os outros seres criados."

Afinal, os seres humanos são as únicas criaturas agraciadas com a capacidade de pensar de forma abstracta. Somos capazes de melhorar a vida, não só a nossa, mas também a dos outros. Se analisarmos a história humana, verificamos que o poder do pensamento é responsável por inúmeras invenções que trouxeram melhorias à qualidade de vida na Terra, como a electricidade, os computadores e as vacinas de RNA.

No seu livro Respostas a Algumas Perguntas, 'Abdu'l-Bahá explicou que "... a morte é a ausência de vida. Quando o homem deixa de receber vida, morre. A escuridão é a ausência de luz: quando não há luz, há trevas..." Podemos estender este conceito para explicar como a ausência de pensamentos positivos pode resultar em pensamentos negativos, tal como a ausência de luz produz trevas. Se desejamos realmente promover mudanças positivas no mundo, ou em pequena escala nas nossas vidas individuais, precisamos de impedir que os nossos pensamentos negativos assumam o controlo das nossas mentes.

Esta é apenas uma das razões pelas quais é importante não perdermos a esperança quando ouvimos notícias terríveis. Em vez de desesperarmos, precisamos de nos concentrar nas palavras de 'Abdu'l-Bahá:

Exorto-vos a todos a que concentrem todos os pensamentos do vosso coração no amor e na união. Quando surgir um pensamento de guerra, combatam-no com um pensamento de paz ainda mais forte. Um pensamento de ódio deve ser destruído por um pensamento de amor ainda mais poderoso. Os pensamentos de guerra trazem a destruição de toda a harmonia, bem-estar, tranquilidade e contentamento.

Isto não é fácil. Por vezes, a minha mente fica tão sobrecarregada de pensamentos negativos que duvido das minhas próprias capacidades. Pergunto-me como posso promover mudanças positivas numa sociedade repleta de inimizade. Quando me sinto sem esperança, não ignoro os meus pensamentos negativos; em vez disso, escuto-os e anoto-os para purificar a minha mente e, depois, recorro às Escrituras Bahá'ís, que nos asseguram que, por fim:

A luz do amor celestial brilhará e a escuridão sombria do ódio e da inimizade será dissipada tanto quanto possível. A paz universal erguerá o seu estandarte no âmago da criação e a abençoada Árvore da Vida crescerá e florescerá de tal forma que estenderá a sua sombra protetora sobre o Oriente e o Ocidente.

‘Abdu’l-Bahá aconselha-nos repetidamente a manter a esperança e a confiança no futuro:

Confiemos, pois, na generosidade e na dádiva de Deus. Que sejamos revigorados pelo sopro divino, iluminados e exaltados pelas boas novas celestiais... Aquele que conferiu o espírito divino em tempos passados é imensamente capaz e competente em todos os tempos e eras para conceder as mesmas dádivas. Portanto, tenhamos esperança. O Deus que deu ao mundo no passado, fá-lo-á agora e no futuro.

Os nossos pensamentos moldam a nossa realidade e, juntos, moldarão o futuro do mundo e das nossas vidas. Precisamos de estar atentos a eles e cultivar uma mentalidade positiva, em vez de nos concentrarmos nas nossas dificuldades. Por vezes, pode parecer que o mundo entrou num estado terrível, mas precisamos de compreender que temos o poder de trazer não só ordem, mas também harmonia às nossas próprias vidas e às vidas dos outros.

Nos momentos mais sombrios, devemos recordar que a humanidade sobreviveu, entre outros acontecimentos catastróficos, a duas Guerras Mundiais e a uma pandemia mortal. Não há nada que não possamos ultrapassar.

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Texto original: Staying Positive in Difficult Times (www.bahaiteachings.org)

sábado, 13 de dezembro de 2025

Os Benefícios Espirituais de uma Vida Livre de Drogas

Por David Langness.


Cresci no Arizona, por isso cresci rodeado de drogas. Nas rotas de contrabando vindas do México, as estradas que atravessam o sul e o centro do Arizona transportaram toneladas de canábis, cocaína, heroína e metanfetamina em direcção ao norte. Uma vez, ao caminhar pelo deserto, encontrei um enorme fardo de canábis, embrulhado em plástico e juta, que parecia ter caído de um avião que sobrevoava o local, ou talvez tivesse sido deixado por um contrabandista a caminho de um ponto de encontro.

Deixei-o ali e continuei a caminhada.

Noutra ocasião, durante a pós-graduação, tive um colega de quarto que era traficante de canábis. Quando soube o que ele estava a fazer, pedi-lhe que parasse de traficar ou que se mudasse. Nessa altura, no Arizona, a posse de mais de 56 gramas de canábis numa residência podia resultar numa pena de vinte anos para todos os residentes. O meu colega de quarto mudou-se no dia seguinte, mas não sem antes dois polícias baterem à minha porta de madrugada e perguntarem por ele. Que momento assustador — imaginava-me preso, a protestar a minha inocência atrás das grades durante as próximas duas décadas. Por sorte, os polícias tinham acabado de passar por lá para o multar por estacionamento irregular. Acontece que tinha deixado o carro aberto e parado no meio da rua quando regressou a casa na noite anterior. Conseguimos imaginar o motivo.

De qualquer forma, decidi desde cedo nunca ingerir qualquer substância psicotrópica. Muito antes de sequer ter ouvido falar da Fé Bahá’í — que pede aos seus seguidores que se abstenham de consumir drogas ou álcool, a menos que sejam prescritos por um médico — já tinha decidido que não queria correr riscos com a minha mente. Eu sabia que nunca seria uma estrela de cinema ou um atleta de classe mundial, por isso imaginei que o meu cérebro constituía o meu único bem fiável neste mundo. Depois, tive algumas experiências que confirmaram a minha decisão inicial de me manter longe de todas as drogas.

Ironicamente, comecei a beber álcool por volta dos 14 anos. Sim, o álcool é uma droga. Eu sabia disso? Não. O consumo de álcool do meu pai era algo normal no seu dia a dia, e ele começou a dar-me goles da sua cerveja quando eu tinha cinco anos, por isso eu pensava que as pessoas normais bebiam a toda a hora. Nessa altura, trabalhava num restaurante com um monte de estudantes universitários que compravam e bebiam álcool todas as noites, por isso simplesmente entrei na onda, sem me aperceber dos danos que causavam à minha jovem mente e ao meu corpo. Aliás, depressa descobriria que o álcool é a droga mais abusada e, provavelmente, a mais perigosa do mundo.

Descobri isso quando uma noite conduzi bêbado para casa. Por sorte, não magoei ninguém, nem bati em nenhum carro, mas no dia seguinte percebi que não me lembrava de nada da noite anterior. Um amigo disse-me que eu tinha tido um apagão alcoólico, uma perda permanente de memória provocada por uma overdose. "O que é que esperavas?", perguntou o meu amigo, "sabes que cada bebida mata cerca de 500 células cerebrais, certo?". De repente, percebi que o lento declínio mental que tinha visto em adultos alcoólicos também poderia acontecer comigo. Na noite seguinte, fui à minha primeira reunião dos Alcoólicos Anónimos. Não bebo desde essa reunião, há 47 anos.

Quando tive o meu primeiro contacto com os Bahá’ís, perguntei: "Os Bahá’ís bebem?" O meu amigo Bahá’í entregou-me esta citação de Bahá'u'lláh, o profeta e fundador da Fé:

Acautelai-vos para que não troqueis o Vinho de Deus pelo vosso próprio vinho, pois isso vos entorpecerá a mente e vos desviará o rosto da Face de Deus, o Todo-Glorioso, o Incomparável, o Inacessível. Não vos aproximeis dele, pois foi-vos proibido por ordem de Deus, o Exaltado, o Omnipotente. (de uma epístola de Bahá’u’lláh citada no Kitab-i-Adqas, P.266[EN])

"Nem mesmo vinho?", perguntei. O meu amigo respondeu: "Nada que te possa afastar de Deus."

Depois, um ano mais tarde, com apenas 18 anos, pouco depois de decidir tornar-me Bahá’í, consegui um emprego num grande hospital psiquiátrico estatal. Fui destacado para trabalhar numa ala de esquizofrénicos do sexo masculino, que também incluía homens com danos cerebrais causados por alcoolismo e overdose de drogas. Um dia, internamos um conhecido meu, um amigo da faculdade, que tinha descoberto que uma dose de LSD (a droga alucinógena) era tão boa que ele deve ter tomado dez. O meu amigo — vou chamar-lhe Sebastian — nunca recuperou. Ficou com danos cerebrais permanentes e viveu durante o resto da vida numa instituição para pessoas com lesões cerebrais graves.

Vi então a “agulha e o estrago feito”, como canta Neil Young, e decidi que não iria permitir que este tipo de estrago me acontecesse. Livre de drogas e álcool, e muitas vezes obrigado a ser o “condutor de serviço”, ainda assim testemunhei muitas tragédias relacionadas com drogas entre amigos — pelo menos duas mortes por condução sob o efeito do álcool, um suicídio, detenções e penas de prisão, vidas gravemente arruinadas, overdoses ainda mais devastadoras e inúmeros corações despedaçados. Uma overdose particularmente grave quase matou alguém próximo de mim — descobriu-se que um traficante lhe tinha vendido estricnina, um veneno mortal, afirmando ser outra coisa. Ele nunca mais foi o mesmo.

Depois, à medida que me fui envolvendo cada vez mais com os Bahá’ís, percebi que a minha decisão de me livrar do vício e da dependência também começou a trazer-me alguns benefícios espirituais internos.

Aos poucos, fui aprendendo que a clareza mental me permitia focar no meu espírito, compreender a minha própria alma e captar melhor a verdadeira realidade das coisas. Muitas vezes, desejava uma breve pausa no meu lado racional e lógico, mas, em vez de recorrer temporariamente às drogas ou ao álcool, aprendi gradualmente a procurá-la como um estado mais permanente na oração, na meditação e na contemplação. Sendo introvertido por natureza, descobri que a abstinência me obrigava a esforçar-me por ser sociável e comunicativo, em vez de estimular artificialmente essa sociabilidade com o "lubrificante social" do álcool. Cedo percebi quanto tempo, energia e dinheiro os meus amigos e conhecidos gastavam na procura das suas drogas preferidas; e quanto eu não gastava. Pesquisei os efeitos do consumo de drogas na saúde e aprendi como os abstémios vivem vidas mais longas e saudáveis. Mais importante ainda, cheguei à conclusão de que uma vida sem drogas me permitia viver uma existência muito mais enriquecedora espiritualmente, abrindo a minha percepção, livre de amarras e límpida, à beleza natural do mundo e das pessoas que me rodeavam.

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Texto original: The Spiritual Benefits of a Drug-Free Life (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Quem foram as Pessoas Mais Influentes na História?

Por David Langness.


Pense um pouco nestas questões: quem foram as pessoas mais influentes na história? Quem teve maior influência sobre toda a humanidade?

Os historiadores fizeram muitas listas classificando as pessoas mais influentes de sempre, mas há alguns anos a revista Time colocou esta questão, fez uma análise baseada em dados e até a submeteu a algum rigor científico:

Quando nos propusemos classificar a importância das figuras históricas, decidimos não abordar o projecto da mesma forma que os historiadores, através de uma avaliação baseada em princípios das suas realizações individuais. Em vez disso, avaliamos cada pessoa agregando milhões de traços de opiniões numa análise computorizada centrada em dados. Classificamos as figuras históricas da mesma forma que o Google classifica as páginas web, integrando um conjunto diversificado de métricas sobre a sua reputação num único valor consensual. (Who’s Biggest? The 100 Most Significant Figures in History, por Steven Skiena e Charles B. Ward, Time Magazine, 10 de Dezembro de 2013)

De longe, a maior percentagem de indivíduos na lista da Time das 100 pessoas mais significativas da história — um quarto deles — eram grandes figuras religiosas ou filósofos, os influentes profetas e mensageiros cujos conceitos, ideias e acções influenciaram milhões e milhões de pessoas ao longo de muitos séculos. Eis os cinco primeiros classificados pela Time:

  • Jesus
  • Napoleão
  • Muhammad
  • William Shakespeare
  • Abraham Lincoln

É fácil compreender porque é que Cristo e Maomé ocupam posições tão elevadas nesta lista: porque deram origem a religiões globais com milhares de milhões de adeptos e porque é que os seus ensinamentos tiveram um impacto tão profundo nos seus seguidores, em múltiplas civilizações e na própria história da humanidade ao longo dos séculos. A posição de Napoleão em segundo lugar reflecte, sem dúvida, o facto de ele ter mudado a face da Europa durante a sua era, mas, afinal, tanto Cristo como Maomé mudaram a face do mundo inteiro — durante milhares de anos.

A lista da Time, como muitas listas semelhantes, tem reconhecidamente algum pendor ocidental — várias pessoas nela incluídas são presidentes americanos, por exemplo, e figuras históricas seminais como Buda e Moisés ocupam posições muito aquém do esperado —, mas tem em conta o enorme impacto dos fundadores das religiões do mundo. Podemos contar pelos dedos das mãos os profetas e mensageiros mais conhecidos: Krishna, Abraão, Moisés, Buda, Zoroastro, Cristo, Muhammad e agora Bahá’u’lláh, todos fundadores de religiões globais que inspiraram milhões de seguidores e, de facto, mudaram o pensamento da humanidade e, consequentemente, o progresso.

Assim, aqui fica uma ideia: e se modificássemos um pouco a Teoria do Grande Homem da história, considerando esta perspectiva espiritual, e lhe chamássemos a teoria dos Profetas de Deus? E se começássemos a ver estes profetas e mensageiros como os verdadeiros fundadores não só da religião, mas da própria civilização?

A leitura da história leva-nos à conclusão de que todos os homens verdadeiramente grandes, os benfeitores da raça humana, aqueles que levaram os homens a amar o certo e a odiar o errado e que causaram progressos reais, todos estes foram inspirados pela força do Espírito Santo.

Nem todos os Profetas de Deus se formaram nas escolas de filosofia erudita; na verdade, eram frequentemente homens de origem humilde, aparentemente ignorantes, homens desconhecidos e sem importância aos olhos do mundo; por vezes, nem sequer tinham conhecimentos de leitura e de escrita.

O que elevou estes grandes seres acima dos homens, e pelo qual puderam tornar-se Mestres da verdade, foi o poder do Espírito Santo. A sua influência sobre a humanidade, em virtude desta poderosa inspiração, foi grande e profunda.

A influência dos filósofos mais sábios, sem este Espírito Divino, tem sido relativamente insignificante, por mais extenso que seja o seu conhecimento e profunda a sua erudição.

Os intelectos fora do comum, por exemplo, de Platão, Aristóteles, Plínio e Sócrates, não influenciaram tanto os homens ao ponto de estes se mostrarem desejosos de sacrificar as suas vidas pelos seus ensinamentos; por outro lado, alguns destes homens simples comoveram de tal forma a humanidade que milhares de homens se tornaram mártires dispostos a defender as suas palavras; pois estas palavras foram inspiradas pelo Espírito Divino de Deus! (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 164-165)

O filósofo Hegel concordou quando disse: “Estes são os grandes homens históricos — cujos objetivos particulares envolvem aquelas grandes questões que são a vontade do Espírito do Mundo.

É claro que apenas mencionei o mais conhecido dos grandes fundadores da Fé. Cada cultura e civilização teve o seu próprio mensageiro divino, herói cultural ou profeta, o líder espiritual que conduziu as pessoas em direcção à paz, à unidade e ao amor ao próximo. Cada povo e cultura indígena tem pelo menos um destes mensageiros espirituais. Poderá ter ouvido falar de alguns deles — o mensageiro maia Quetzlcoatl, por exemplo, ou Deganawida, o Grande Pacificador, o venerado profeta dos Haudenosaunee, da Confederação Iroquesa —, mas os nomes de muitos outros perderam-se com o passar do tempo:

Repetidamente vos enviei os meus servos, os profetas, que insistiram convosco para mudarem de procedimento e fazerem o que é recto. Preveniram-vos para que não prestassem culto nem servissem a outros deuses… (Jeremias 35:15)

E a todos os povos enviámos um apóstolo. (Alcorão 16:38)

Deus tem levantado profetas e revelado livros tão numerosos como as criaturas do mundo, e continuará a fazê-lo por toda a eternidade. (The Bab, Selections from the Writings of the Bab, p. 125)

Sabei que a ausência de qualquer referência a eles [Profetas anteriores a Adão] não é prova de que, de facto, não tenham existido. O facto de actualmente não existirem registos disponíveis sobre eles deve ser atribuído à sua extrema distância, bem como às imensas mudanças que a Terra sofreu desde então. (Bahá’u’lláh, Gleanings from the Writings of Bahá’u’lláh, LXXXVII)

Quando observar este padrão histórico ao analisar todo o âmbito da história humana, e avaliar a influência destes imponentes líderes espirituais, começará a reconhecer o seu poderoso impacto.

Mas… e se levássemos esta teoria da história dos Profetas de Deus um pouco mais longe — como fazem os ensinamentos Bahá’ís — e começássemos a considerar cada um destes mensageiros divinos como um só?

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Texto original: Who Were History’s Most Influential People? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.