Por Peter Terry.
Como é que o grande escritor russo Lev Tolstói ouviu falar pela primeira vez dos ensinamentos Bahá’ís?
Para responder a esta questão, vamos analisar a vida e a obra de uma autora e dramaturga praticamente esquecida do final do século XIX e início do século XX, que procurou traduzir o “espírito e os ensinamentos” Bahá’ís nas suas obras de ficção e teatro.
A escritora russa de origem judaica, Beyle (Berta) Friedberg (1864-1944), filha de Abraham Shalom Friedberg (1838-1902), um prolífico autor em língua hebraica, nasceu em Grodno, na Rússia (actual Bielorrússia). Quando tinha 19 anos, o seu pai mudou-se para São Petersburgo, uma das capitais da arte e da literatura russas. Ela acompanhou-o, imergindo-se nos círculos literários judaicos.
O pai de Beyle Friedberg, Abraham, foi obrigado a mudar-se para Varsóvia em 1886, mas Beyle permaneceu em São Petersburgo, tendo casado em 1886 com Mordechai Spector (1859-1925) em 1886. Eram uma família artística e literária, sendo o seu marido um autor judeu tão eminente em língua iídiche como o seu pai era em hebraico.
Ainda jovem, Beyle parece ter adotado o pseudónimo Isabella Grinevskaya por volta dos vinte anos, e sob esse pseudónimo publicou os seus primeiros romances.
| Beyle Friedberg (Isabella Grinevskaya) |
Em 1894, quando Beyle/Isabella completou trinta anos, publicou outro romance, desta vez por uma editora de Varsóvia, na Polónia. Ela e o marido, Mordechai, mudaram-se para Odessa, na Rússia, na década de 1890, e foi aparentemente nesta altura que começou a escrever em russo. Embora não haja data registada para o divórcio do casal, o marido voltou a casar em 1920 e mudou-se para Nova Iorque em 1921, pelo que, nessa altura, já não estavam casados.
Em 1903, Beyle/Isabella parece ter regressado a São Petersburgo. Nessa altura, ela já tinha escrito e publicado uma peça baseada na vida de Siyyid Ali Muhammad Shirazi, conhecido desde então como "O Báb", o fundador da religião Bábí e o arauto e precursor de Bahá'u'lláh e da Fé Bahá'í.
No ano seguinte, em 1904, a peça de Isabella Grinevskaya foi apresentada em palco. (Foi também repetida em 1916-17). Tolstói leu a peça e reagiu fortemente:
O Conde Tolstói conheceu os ensinamentos Bahá’ís através da literatura… Ouviu falar pela primeira vez do Movimento Bahá’í em Maio de 1903, quando a Sra. Isabel Grinevsky apresentou em Leninegrado (a antiga capital da Rússia, então chamada São Petersburgo) um grande drama chamado Báb; era em verso e narrava a história iluminada do Precursor do Movimento Bahá’í, um jovem chamado Báb, e dos seus discípulos, conhecidos por Letras dos Viventes; as cenas passavam-se na Pérsia. Este drama foi apresentado num dos principais teatros de São Petersburgo, em janeiro de 1904, e teve uma recepção notável. Alguns críticos foram bastante elogiosos. Por exemplo, o poeta Fiedler (que posteriormente traduziu o drama para alemão) disse: “Recebemos dos cinco atos do drama poético Bab mais informações sobre o Movimento Bahá’í do que das profundas pesquisas científicas do Professor Edward G. Browne, de Gobineau e de cientistas e historiadores russos…”. Raramente a fama de uma peça precedeu a sua representação como aconteceu com a da Sra. Grinevsky. (Valentin Bulgakov, secretário do Conde Lev Tolstói, numa entrevista de 1927 a Martha L. Root, Star of the West, Volume 10, pag. 302)
Tolstói trocou então correspondência com Isabella e enviou também a sua carta aos meios de comunicação russos:
O Conde Tolstói leu o drama Bab com grande interesse e enviou uma carta à Sra. Grinevsky elogiando o seu trabalho e dizendo-lhe que simpatizava com os ensinamentos do Movimento Bahá’í. A sua carta foi publicada na imprensa russa.
Seguidamente, o Conde Tolstói leu um opúsculo do Sr. Arakewian que descrevia com mais pormenor a história dos primeiros seguidores do Báb e apresentava um breve relato dos ensinamentos. Estudou-o com grande interesse… O coração e a alma do Conde Tolstoi estavam em todos os movimentos universais, como o Movimento Bahá’í, que visam a unidade de toda a humanidade. (Idem, pags. 303-304)
A arte fala à alma de formas que o intelecto não consegue, e os Bahá’ís acreditam que a Fé Bahá’í se espalhará rapidamente:
… quando o seu espírito e os seus ensinamentos forem apresentados no palco ou na arte e literatura como um todo. A arte pode despertar estes nobres sentimentos de forma mais eficaz do que a racionalização fria, especialmente entre as grandes massas do povo. (carta escrita em nome de Shoghi Effendi a um crente individual, 10 de Outubro de 1932)
No início do século XX, muito antes de o cinema e a televisão se tornarem tão proeminentes, ‘Abdu’l-Bahá previu que a forma dramática iria sofrer um ressurgimento:
O teatro é de primordial importância. Foi uma grande ferramenta educativa no passado e voltará a sê-lo. (‘Abdu’l-Bahá in London, p. 93)
Os ensinamentos Bahá’ís exaltam também o poder da música, e a peça de Grinevskaya sobre o Báb incorporou uma bela partitura. O compositor arménio Grikor Mirzaian Suni (1856-1939) vivia em São Petersburgo nessa época, e estudou com Rimsky-Korsakov, Glazunov e Lyadov. Suni compôs a música para a peça de Isabella, após vencer um concurso, mas o seu triunfo artístico revelou-se efémero:
Em 1904, participou num concurso de música baseado no poema dramático "Bab", de Isabella Grinevskaya, que retrata a vida persa, e, entre mais de trinta musicólogos concorrentes, Suni ganhou o primeiro prémio. Em dez dias, a obra teve doze apresentações, após as quais o governo proibiu quaisquer outras apresentações e confiscou o texto, juntamente com 18 peças musicais. (The Sun Project Music Preservation)
Em 1910, Beyle/Isabella mudou-se para Constantinopla e, entre 1910 e 1911, visitou ‘Abdu’l-Bahá no Egipto. Talvez já em 1903, e certamente nessa altura, Beyle se considerava e era considerada uma Bahá'í.
Durante estes últimos anos, ela escreveu um ensaio sobre o seu encontro com ‘Abdu’l-Bahá e uma peça sobre Bahá’u’lláh. Manteve também correspondência com intelectuais russos e Bahá’ís do Oriente e do Ocidente, viajando para França, Azerbaijão e Egipto. Faleceu em Constantinopla em 1944.
Beyle foi a primeira escritora a escrever uma obra dramática baseada na vida do Báb, que causou sensação internacional na sua estreia – e talvez tenha um impacto ainda maior quando for novamente encenada.
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Texto original: What Happens When Tolstoy Reviews Your Play (www.bahaiteachings.org)
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Peter Terry é um académico independente, músico e professor. É autor dos livros A Prophet in Modern Times (uma biografia do Bab), In His Own Words (uma biografia de Baha'u'llah), Proofs of the Prophets (uma compilação e comentário sobre as 40 provas da condição de Profeta), Proofs of the Prophets: Lord Krishna e Proofs of the Prophets: Baha'u'llah.


