quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Protestantismo versus Catolicismo

Convivência religiosa durante o Estado Novo.

Os parágrafos que se seguem são anotações pessoais de uma intervenção do Pastor Dimas de Almeida [Centro de Estudos de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona], durante o seminário "República e Religiões". A intervenção foi feita numa mesa dedicada ao tema "Resistência, reacção e renovação na convivência religiosa durante o Estado Novo". Espero que o texto completo da sua intervenção seja publicado em breve.

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No séc. XIX estabeleceram-se em Portugal as primeiras comunidades protestantes. Encontraram uma sociedade católica profundamente moldada pelo Concílio de Trento (séc. XVI). O protestantismo português não tem, portanto, raízes histórias que alcançam a Reforma (ao contrário de França onde existe uma minoria Protestante à qual podemos associar uma cultura Protestante).

O protestantismo português era frágil do ponto de vista teológico. Não havia um pensamento teológico sério nas comunidades protestantes, tal como não existia na Igreja Católica portuguesa. A este propósito, é interessante recordar as palavras do Cardeal Cerejeira a um padre que queria estudar teologia em Roma: “Quero nas minhas dioceses santos e não teólogos”.

Durante muitas décadas, a Igreja Católica anatemizou as Igrejas Protestantes, e vice-versa; essa atitude só terminou com o Vaticano II. O protestantismo, considerado como um corpo estranho na sociedade portuguesa reagiu com profundo anti-catolicismo. Só no final dos anos 60 se dão os primeiros passos - tímidos - no diálogo entre Protestantes e Católicos.

O protestantismo português esteve sempre marcado por uma dialética de rotura. Rotura em relação à Igreja de Roma; rotura entre fé e cultura; rotura entre uma teologia de coisas espirituais e uma teologia de coisas materiais. E durante o Estado Novo, esta proposta era tanto mais arriscada pois não havia liberdade religiosa e a PIDE estava à porta.

O Vaticano II e o 25 de Abril deram um grande contributo para a liberdade religiosa. Mas a liberdade religiosa que hoje se vive em Portugal ainda está condicionada pela Igreja Católica, dominante na nossa sociedade. A composição da Comissão da Liberdade Religiosa reflecte esse condicionamento. No entanto, o Vaticano II ainda tem algumas reservas em relação à liberdade religiosa. A Igreja Católica ainda identifica a religião católica como "a verdade"; "Fora da Igreja não há salvação" é um princípio dogmático que ainda não foi abolido.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

A Primeira República

Clericalismo e Anti-Clericalismo

Um dos momentos mais interessantes do Seminário "República e Religiões", organizado pelo Museu da Presidência da República no passado dia 16 de Dezembro, consistiu numa análise da questão religiosa durante a Primeira República. Uma ideia comum às intervenções dos palestrantes (António Araújo[Tribunal Constitucional], António Matos Ferreira[Centro de Estudos em História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa], António Reis[Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova]) assentou no facto do anti-clericalismo não ter sido um exclusivo, nem uma constante, da Primeira República. Os parágrafos que se seguem são algumas das minhas notas pessoais sobre as intervenções a que assisti.

No cenário da questão religiosa da Primeira República existem alguns aspectos que não se podem ignorar. Por um lado, a Igreja Católica da época era muito diferente da actual; vivia ainda marcada pela encíclica Quanta Cura, em que o Papa Pio IX se recusava a aceitar o progresso científico. Por outro lado, a sociedade portuguesa começava a modernizar-se e a secularizar-se; debatia-se qual o papel da religião na sociedade e no mundo. Outro aspecto não menos importante é que o anti-clericalismo se resumia a um anti-catolicismo, pois naqueles tempos não se concebia a diversidade religiosa (nem o ateísmo).

Os conflitos entre o Estado e a Igreja vinham já do tempo da Monarquia. As actividades dos Jesuítas foram questionadas várias vezes, e em 1834 tinham sido expulsos por Joaquim António de Aguiar (tal como em 1758 com o Marquês de Pombal). Ainda durante o tempo da Monarquia, os Jesuítas tinham-se envolvido com o Partido Nacionalista e atacado os Franciscanos. Os últimos governo da Monarquia atacaram a Companhia de Jesus, sendo, por vezes, mais radicais do que os posteriores governos republicanos.

A documentação da época mostra que os republicanos tinham medo dos jesuítas e acreditavam na sua propaganda, que exagerava a sua influência. Os jesuítas eram responsabilizados pela decadência intelectual do país, e três dias após a implantação da República, foram expulsos de Portugal (apesar da Lei da Separação apenas ter sido publicada no ano seguinte).

O laicismo do Partido Republicano teve a tendência de se tornar um laicismo anti-clerical. Em períodos de maior radicalismo anti-clerical, publica-se a Lei da Nacionalização da Propriedade Eclesiástica. Surgem as leis do registo civil e do juramento civil; o ensino torna-se neutro do ponto de vista religioso. O Natal é laicizado como Festa de Família. Em 1911, nenhum bispo exercia funções; estavam todos presos ou desterrados.

Mas a Primeira República também teve momentos de melhor convivência com a Igreja Católica. Com Bernardino Machado proclama-se uma amnistia religiosa e monárquica, e tenta-se o estabelecimento de relações com a Santa Sé. Em 1918, Sidónio Pais revoga algumas leis anti-religiosas e o Estado volta a apoiar a Igreja; em 1926, o Presidente Bernardino Machado fala numa homenagem a Pio XI e elogia-o. O Núncio Apostólico retribui o elogio com um jantar de homenagem.

A revolução de 28 de Maio de 1926 foi recebida com notório agrado por sectores mais conservadores da Igreja Católica. Durante o Estado Novo, a Igreja tentou recuperar privilégios, mas Salazar não deixou essa tentativa ir muito longe. Apesar de ter proclamado a leis como a “Lei dos Crucifixos” (1936), Salazar não revogou a Lei da Nacionalização da Propriedade Eclesiástica. A Concordata de 1940 considerava a devolução à Igreja de todo o património religioso que não tivesse sido afecto a fins públicos; mas, com isso os Jesuítas receberam apenas dois jazigos, pois todas as suas restantes propriedades eram então de uso público. Na prática, isto significou que os Jesuítas perderam definitivamente os seus privilégios com a Concordata de 1940.

sábado, 24 de dezembro de 2005

Boas Festas!

Para todos os que clamam por um Natal mais fraterno e mais humano... aqui fica uma imagem que sugere uma genuína regeneração do espírito natalício!



Eu volto na terça-feira.
Agora a sério: sobre o porquê de um baha'i festejar o Natal, vejam este post que escrevi no ano passado.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Dhabihullah Mahrami: reacção da Amnistia Internacional

A Amnistia Internacional transmitiu ao Ayatollah Mahmoud Hashemi Shahroudi (o chefe do sistema judicial iraniano) a sua preocupação pelos contínuos abusos contra a comunidade bahá'í iraniana e instou-o a garantir que ninguém está detido devido às suas convicções religiosas, identidade cultural ou actividades pacíficas em prol da comunidade. A organização apelou ainda a uma investigação completa e imparcial sobre os motivos e circunstâncias da morte de Dhabihullah Mahrami, um prisioneiro de consciência que esteve detido durante 10 anos apenas devido à sua religião.

Dhabihullah Mahrami foi preso em 1995 e condenado à morte, por crime de apostasia, em 1996. A pena seria comutada para prisão perpétua em 1999. A Amnistia internacional adoptou-o como prisioneiro de consciência em 1996 e fez uma campanha pedindo a sua libertação imediata, elaborando um relatório com o título: Irão - Dhabihullah Mahrami: Prisioneiro de Consciência (AI Index: MDE 13/34/96).

Dhabihullah Mahrami foi encontrado morto na sua cela numa prisão de Yazd no dia 15 de Dezembro de 2005. O corpo foi entregue à sua família, tendo sido dado a informação que ele morrera devido a um ataque de coração. No entanto, sabe-se que ele nunca teve problemas cardíacos; poucos dias antes de morrer mostrava-se muito cansado devido aos trabalhos forçados a que era sujeito. Também se sabe que recebeu várias ameaças de morte.

A carta da Amnistia Internacional refere ainda um aparente recrudescimento nas perseguições aos bahá’ís do Irão. Só no ano de 2005 foram presos 66 membros desta comunidade; a maior parte foram libertados, mas pelo menos nove continuam detidos. Dois desses detidos - Mehran Kawsari e Bahram Mashhadi – foram condenados por terem dirigido uma carta ao antigo Presidente Khatami exigindo o fim das violações do direitos humanos contra os bahá'ís. Os outros - Afshin Akram, Shahram Boloori, Vaheed Zamani, Mehraban Farman-Bordari, Sohrab Hamid, Hooshang Mohammad-Abadi e Behrooz Tavakkoli - continuam detidos sem que tenha sido formulada qualquer acusação. A Amnistia Internacional acredita que são prisioneiros de consciência e que devem ser libertados imediata e incondicionalmente.

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Notícia completa (em inglês) no site da Amnistia Internacional: Iran: Inquiry needed in the death of Bahai prisoner of conscience.

ACTUALIZAÇÃO:
US Condemns Persecution of Iranian Religious Captive Who Died in Prison (Voice of America)
US slams Iran over religious freedom (HindustanTimes.com)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Luciano Amaral

(...)
O facto de ter sido vastamente ignorado no seu tempo de pregador não impediu Jesus Cristo de se tornar numa das mais importantes personalidades de todos os tempos. Não que Jesus se tenha afirmado fundador de um movimento religioso diferente do judaísmo. Mas a sua vida inspirou o maior movimento religioso da história da humanidade, aquele que ainda hoje mais fiéis congrega no mundo.
(...)
Antes da morte e ressurreição, foi um pregador judaico apocalíptico, como tantos outros que existiam na Palestina.
(...)


Luciano Amaral, O Mistério (Diário de Notícias), 22-Dez-2005
Não percebo como é que um cristão pode reduzir Jesus Cristo a um mero "pregador apocalíptico" que nunca teve pretensões a fundar uma religião. Se assim fosse, o Cristianismo seria um incrível equívoco histórico.

Postais da Enfermagem

Um pequeno conjunto de postais da Enfermagem produzindos no tempo da Primeira Guerra Mundial. É mais uma recordação do meu avô que está hoje no Antigamente...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Dhabihu'llah Mahrami

Dhabihu'llah Mahrami
Dhabihu'llah Mahrami era um bahá'í iraniano. Nascido em 1946 trabalhou como funcionário público até à revolução islâmica de 1979, altura em vários milhares de bahá’ís foram despedidos dos seus empregos. Desde então foi vivendo de biscates e pequenos serviços para sustentar a esposa e os quatro filhos.

Em 1995, foi detido sob a acusação de apostasia. Apesar de sempre ter sido bahá'í, em Janeiro de 1996, um Tribunal Revolucionário condenou-o à morte por alegadamente se ter convertido do Islão à religião Bahá'í; algumas fontes governamentais iranianas ainda alegaram que ele era uma "espião israelita", mas os documentos do tribunal indicavam que ele era apenas acusado de apostasia, um crime punido com a pena de morte, segundo a lei islâmica tradicional.

A sentença do tribunal despertou a atenção de alguns media internacionais. O Le Monde, o Liberation, a BBC, a Reuters e a France Press deram uma considerável atenção ao caso. E a União Europeia, assim como governos da Austrália, Brasil, Canadá, França, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos apresentaram vários protestos, referindo explicitamente o nome de Dhabihu'llah Mahrami. Esta pressão internacional permitiu que, em 1999, a sua pena fosse comutada para prisão perpétua.

Nas estatísticas recentes sobre a situação da comunidade bahá'í no Irão, Mahrami era contado entre os nove bahá’ís ainda detidos em prisões iranianas. No passado dia 15 de Dezembro, após dez anos de detenção, Mahrami faleceu na prisão de Yazd. O funeral realizou-se no dia seguinte, o mesmo dia em que a Assembleia Geral da ONU aprovava uma resolução em que expressava "profunda preocupação" sobre a situação dos direitos humanos no Irão e referindo especificamente os bahá’ís daquele país.

Os motivos da sua morte são desconhecidos. Sabia-se que Mahrami não tinha problemas de saúde, mas que esteve sujeito a trabalhos forçados e que recebeu várias ameaças de morte durante o cativeiro.

Agora Dhabihu'llah Mahrami - cujo único crime era professar a religião bahá'í - conta-se entre os mais de 200 crentes desta religião que foram executados ou morreram nas prisões iranianas desde o início da revolução islâmica.

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A LER:
Iranian Bahai dies after 10 years in prison (Reuters/Yahoo)Wrongly imprisoned Baha'i dies in Iranian jail (BWNS)
Dhabihullah Mahrami: Prisoner of Conscience (Amnistia Internacional - 1996)
Bahá'í Prisoners in Iran on Death Row for Apostasy (US House of Representatives)Iran Should Release Baha'i Prisioner (Freedom House - 2004)Court documents & government-related material (Baha'i Library)

Terra da Alegria

Hoje há Terra da Alegria.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

Um Estado Laico numa Sociedade Confessional

O meu artigo publicado no jornal "Público" no passado domingo(18-Dezembro).
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No mesmo fim-de-semana em que surgiu a “polémica dos crucifixos”, a Comissão de Liberdade Religiosa realizava o primeiro colóquio “A Religião no Estado Democrático”. O objectivo deste colóquio era fazer um balanço da aplicação da Lei da Liberdade Religiosa e fazer algumas comparações com lei equivalentes de outros países, nomeadamente, Alemanha, Reino Unido e Espanha.

Um denominador comum às intervenções de todos os oradores (maioritariamente cristãos), foi a defesa de um Estado laico e de uma Sociedade confessional. Pareceu claro que o Estado laico é aquele que não favorece, nem discrimina, as confissões religiosas; também consensual para todos os oradores era o facto das sociedades humanas serem confessionais. Sendo a religião um factor de identificação pessoal para a enorme maioria das pessoas, aliado ao factos dos seres humanos sentirem necessidade de se associar com aqueles com quem partilham os mesmos valores religiosos leva-nos a pensar que é utópico acreditar que as sociedades alguma vez deixarão de ser confessionais.

A história recente da humanidade mostra-nos casos diversas posturas dos Estados em relação ao fenómeno religioso. Assim poderíamos apontar exemplos de Estados Teocráticos (o actual regime iraniano, em que a lei religiosa é apresentada como legitimação da autoridade do Estado), os Estados Confessionais (as ditaduras portuguesa e espanhola, em que existia uma grande cumplicidade entre o Estado e a Religião Oficial), os Estados Ateus (o regime soviético, em que a religião era considerada um fenómeno obscurantista, e ferozmente perseguida).

Entre aqueles Estados que designamos como democráticos as atitudes em relação ao fenómeno religioso também são diversas. Nos Estados Unidos, o Governo adoptou um modelo de cooperação com as confissões religiosas; em França, existe uma indiferença (que assume, por vezes, um carácter de hostilidade) em relação à religião. E noutros países europeus, nomeadamente a Grécia, o Reino Unido, a Alemanha, a Finlândia e a Dinamarca, existem dispositivos legais que favorecem uma, ou mais, confissões dominantes.

Em Portugal, o Estado assumiu uma postura de cooperação com as Confissões Religiosas com a publicação da Lei da Liberdade Religiosa (16/2001). Esta lei proclama o princípio da não confessionalidade do Estado, afirma explicitamente que “o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes religiosas” e assume uma postura de colaboração com as diferentes confissões religiosas ao abrir o ensino da religião nas escolas públicas e os serviços públicos de televisão e radiodifusão às diversas confissões religiosas. A mesma lei estabeleceu a possibilidade de celebrações de acordos entre o Estado e as comunidades religiosas em matérias de interesse comum.

A acção do Estado deve caracterizar-se pela justiça e pela isenção; e é assim que deve ser entendido o recente “caso dos crucifixos”. Desta forma, não posso deixar de concordar com as palavras do Dr. Menéres Pimentel, presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, que ao referir-se a este assunto declarou representar “uma interferência da religião na esfera pública, intolerável, pouco consentânea com o princípio da separação entre o Estado e as confissões religiosas, com a liberdade religiosa dos membros de outras confissões religiosas e com a liberdade de consciência daqueles que não professem qualquer religião

Sabemos que o Estado coopera com diversos agentes culturais, políticos, financeiros desportivos e outros. A cooperação baseia-se sempre num princípio de equidistância, não discriminação e não favorecimento de nenhum desses agentes. Nas instalações dos organismos estatais (ou instituições dependentes do Estado) devem reflectir esse princípio de equidade. Que pensaria um contribuinte, ou um representante de qualquer empresa se ao entrar numa repartição de finanças encontrasse sempre afixado um cartaz de uma qualquer instituição financeira? Como reagiria um cidadão se ao entrar nas instalações de um organismo estatal responsável pelo desporto em Portugal visse constantemente afixado um símbolo de um clube desportivo? E o que dizer se nas instalações dos organismos governamentais estivessem continuamente afixados símbolos de uma mesma força política?

É, pois, à luz da Lei da Liberdade Religiosa que o recente “caso dos crucifixos” pode ser analisado com maior objectividade. Infelizmente a tentativa de aproveitamento político deste episódio e o teor claramente desinformado (quando não insultuoso) de alguns comentários que vieram a público, em nada contribuíram para uma análise serena desta questão.

Num momento em que esta polémica parece perder a intensidade retenho duas ideias essenciais:
  • "Ninguém é mais ou menos cristão por existirem, ou não, crucifixos nas salas de aula". Foi uma frase que ouvi de alguns amigos cristãos mais esclarecidos. Era importante que a maioria dos católicos também percebesse isso.
  • A retirada dos crucifixos surgiu aos olhos da opinião pública como resultado de uma iniciativa da Associação Republica e Laicidade (fazendo com isso despertar o fantasma jacobino e anti-religioso da Primeira República). Teria sido preferível que a Comissão da Liberdade Religiosa tivesse sido ouvida sobre a matéria. Talvez este episódio sirva para relembrar o Governo da importância desta Comissão e remediar a tremenda falta de meios com que esta trabalha.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

A Árvore da Vida

O meu texto de hoje na Terra da Alegria.
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A utilização de elementos da natureza como metáforas é algo comuns às Escrituras Sagradas de todas as religiões(1). Um exemplo disso é a forma como alguns Profetas e místicos usam a árvore como símbolo de uma mensagem de carácter espiritual, ou mesmo místico. Nos textos sagrados, a árvore é frequentemente representada como fonte de conhecimento e os seus frutos descritos como geradores de vida eterna.

No Hinduísmo, os Vedas e os Upanishads referem-se à Árvore da Vida como tendo raízes no submundo, um tronco que liga a terra e os céus, e ramos puros que crescem no Brahman. Trata-se de um símbolo de nascimento, maturidade, morte e renascimento. No Budismo, é mencionado o facto de Buda ter recebido a inspiração quando estava à sombra de uma árvore. A renovação anual da folhagem dessa árvore (chamada "Árvore do Verdadeiro Conhecimento") simboliza a necessidade de renascimento espiritual dos crentes.

Uma pessoa de origem judaico-cristã recordar-se-á provavelmente do livro do Génesis refere a “árvore da vida” no episódio de Adão e Eva; para os místicos do judaísmo, o conceito de árvore da vida está associado à Kabalistica e à Árvore de Sefirot. Já no Novo Testamento, o versículo "Eu sou a vinha e vós os ramos" (Jo 15:5) apresenta uma parábola em que associa Cristo a uma árvore. E no Alcorão, o episódio da Viagem Nocturna, refere-se que Maomé ao atravessar os sete céus passou pelo Sadrat al-Muntaha, o cedro divino que simboliza o fim do conhecimento mundano (Alcorão 53:14).

Um conceito muito semelhante encontra-se nas Escrituras Baha'is. Bahá'u'lláh refere-se a Si próprio como Sadrat al-Muntaha (a Árvore para lá da qual não existe passagem); trata-se um símbolo de orientação divina e limite de uma caminhada espiritual(2). Bahá'u'lláh também Se refere aos Seus filhos como "ramos" e às Suas filhas como "folhas".

Expressões Artísticas
Uma símbolo religioso tão forte como este não podia deixar de ser alvo da atenção de vários artistas em diferentes culturas.

A figura seguinte apresenta uma ilustração hindu da árvore da vida. As flores simbolizam a fertilidade. Geralmente esta árvore é apresentada ladeada por crentes ou animais. Nesta figura surgem os pavões como símbolos de imortalidade, fertilidade, realeza e protecção.


No ícone abaixo, Cristo está representado como sendo o tronco central da árvore e os discípulos são os ramos. Acima do próprio Cristo encontra-se o Espírito Santo (representado por uma pomba) e Deus.


Na imagem seguinte, apresenta-se uma caligrafia de uma artista baha'i, Mishkin Qalam, onde além da árvore notamos a dupla presença de outro poderoso símbolo místico existentes nas escrituras bahá'ís: o pássaro do paraíso que entoa melodias divinas.


As semelhanças este trabalho de caligrafia e a ilustração hindu apresentada anteriormente são claras. E se tivermos presente que o trabalho de Mishkin Qalam foi elaborado em 1905, em Bombaim, creio que não podemos excluir a hipótese de alguma influência da cultura hindu sobre este calígrafo.

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NOTAS:

(1) - Sobre a utilização da Árvore como símbolo noutros cultos e em religiões antigas ver: The Tree of Life: The Uniter of Worlds
(2) – Sobre as referências ao Sadrat’ul-Muntahá ver:
Sadrat’ul-Muntahá, The Tree beyond which there is no passing e também: The Sidrah (Lote-Tree) and Sidrat al-Muntahā

domingo, 18 de dezembro de 2005

Pela 18ª vez...

Pela 18ª vez desde 1985, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução expressando "profunda preocupação" pela situação dos direitos humanos no Irão, e referindo especificamente a corrente perseguição à comunidade baha’i daquele país. A resolução foi apresentada pelo Canadá e apoiada por 46 países, incluindo a União Europeia, Estados Unidos e Austrália. Foi aprovada por 75 votos contra 50, no passado dia 16 de Dezembro.

Entre outras coisas, a resolução apela ao Irão para "eliminar na lei e na prática todas as formas de discriminação baseadas na religião, etnia ou base linguística e outras violações de direitos humanos contra minorias, incluindo árabes, curdos, baluchis, cristãos, judeus, sunitas e baha’is..."

A resolução refere especificamente o ressurgimento das perseguições contra a comunidade baha'i iraniana, mencionando a "escalada e frequência crescente da discriminação e outras violações de direitos humanos contra os baha’is, incluindo casos de detenções arbitrárias, negação de liberdade religiosa ou expressão pública de assuntos comunitários, desrespeito por direitos de propriedade, destruição de locais de importância religiosa, suspensão de actividades sociais, educativas e comunitárias, negação de acesso ao ensino superior, emprego, pensões, alojamento adequado e outros benefícios..."

A resolução também encoraja várias agências das da Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos a continuar a trabalhar para melhorar a situação dos direitos humanos no Irão e simultaneamente apela ao governo iraniano para cooperar com estas agências.

Bani Dugal, a representante da Comunidade Internacional Baha'i junto das Nações Unidas expressou o seu agradecimento pelo apoio da comunidade internacional sobre o assunto dos direitos humanos no Irão: "Este foi um ano em que as violações dos direitos humanos contra baha’is e outros grupos no Irão se agravaram significativamente, e o acompanhamento e apoio da comunidade internacional tem sido praticamente o único instrumento para protecção de pessoas inocentes no Irão."

"Para os baha’is que são perseguidos no Irão apenas por motivos religiosos, este foi um ano muito difícil." Várias dezenas de baha’is foram alvo de detenções arbitrárias e no final de Outubro pelo menos nove ainda permaneciam detidos. Entretanto os jovens continuam a ver negado o acesso à universidade. As detenções têm como objectivo intimidar a comunidade baha'i; mas se se considerar todo o leque de discriminações de que são alvo, podemos perceber que existe uma política de estrangulamento social e económico da comunidade baha'i do Irão.

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Relacionados:
Notícia original no BWNS:
UN calls on Iran to stop persecution of Baha'is
Post do ano passado:
Pela 17ª vez...

sábado, 17 de dezembro de 2005

Deixem os bahá'ís estudar!

Há dois dias atrás, um artigo publicado no Le Monde, dava conta do facto de alguns intelectuais e cientistas franceses terem lançado um apelo contra o facto dos jovens baha’is iranianos serem impedidos de frequentar as universidades no seu país (ver este site brasileiro sobre o assunto). Uma iniciativa que me faz pensar se alguma vez veremos algo semelhante em Portugal.

Aqui fica o texto completo do artigo.
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Laissez étudier les baha'is!
LE MONDE 15.12.05

En Iran, les membres de cette importante minorité religieuse sont interdits d'université. Quinze intellectuels et scientifiques de France et d'ailleurs lancent ici un appel pour que cesse une discrimination intolérable.

Les journaux ont rapporté récemment l'indignation des gouvernements de nombreux pays, dont le nôtre, quand Mahmoud Ahmadinejad déclarait, le 26 octobre 2005, vouloir rayer Israël de la carte. Cette déclaration du président nouvellement élu de la République islamique d'Iran ne devrait pourtant étonner personne. Elle ne fait que révéler ce qui est le fondement de la nouvelle société iranienne. Depuis vingt-cinq ans, le régime islamique iranien nie l'existence de ceux qu'il ne veut pas voir, qu'ils vivent hors d'Iran ou sur son sol. Ainsi le régime iranien actuel pratique la discrimination selon des critères religieux. Il reconnaît deux catégories de citoyens : les musulmans chiites – et dans une moindre mesure les sunnites – et les fidèles de religions antérieures à l'Islam (zoroastriens, juifs et chrétiens), citoyens de seconde zone. Les autres, en particulier les baha'is, les agnostiques et les athées, sont des non-citoyens.


Les fidèles de la religion baha'ie, sont ainsi décrits par Antoine Spire dans la Chronique d'Amnesty de février 1993 : ils cherchent "à concilier science et religion" et à promouvoir à la fois "l'égalité de l'homme et de la femme, l'abandon des préjugés de classe, de race et de religion, en s'appuyant sur une éducation universelle obligatoire, chacun étant incité à rechercher personnellement la vérité". En Iran, les baha'is sont victimes de ségrégation à tous les stades de leur vie. Il en est une qui nous préoccupe, nous chercheurs et enseignants : ils n'ont pas droit aux études supérieures.

Depuis vingt-cinq ans, les fils et les filles de la minorité religieuse la plus importante du pays se contentent du baccalauréat. En Iran, c'est ainsi. Pour avoir le droit de s'inscrire à l'université, il faut s'y présenter comme musulman, juif, zoroastrien, ou chrétien, seules religions reconnues. Les autres citoyens n'existent pas. Les baha'is refusent, par principe, de feindre la conversion. Ils n'ont donc pas droit aux études. Depuis vingt-cinq ans, une génération, et la rentrée 2005 n'a pas failli à la règle. Nous, chercheurs et enseignants de France et d'ailleurs, refusons de nous y résigner.

Nous, qui avons eu la chance de poursuivre les études qui nous ont fait ce que nous sommes, voulons rappeler ici une évidence : l'accès à la connaissance est un droit fondamental de la personne humaine. Et nous ne pouvons que regretter que le gouvernement iranien, après avoir promis "de rendre accessible à tous, en pleine égalité, en fonction des capacités de chacun, l'enseignement supérieur, sans discrimination", y compris "religieuse", en signant la convention de l'Unesco contre la discrimination dans l'éducation, manque à sa parole.

De quoi s'agit-il ? Depuis l'avènement de la République islamique en 1979, les quelque 300 000 baha'is d'Iran sont considérés comme des "infidèles non protégés", (…) des non-personnes, et n'ont ni droits, ni protection", indique la Fédération internationale des droits de l'homme (FIDH) dans son rapport de 2003 sur les discriminations religieuses en Iran. Ils n'ont pas le droit de percevoir de retraite, d'être fonctionnaires, d'inscrire un nom sur la tombe de leurs défunts, d'hériter, de se réunir pour pratiquer leur culte. Leurs lieux saints et leurs cimetières sont détruits. Les biens de nombreux baha'is confisqués. Des patentes de certains commerçants retirées. Des pressions sont exercées sur les employeurs pour licencier les salariés baha'is. Pourquoi ? Leur foi, qui a vu le jour en Iran, au XIXe siècle, est postérieure à l'islam, et à ce titre, elle n'est pas considérée comme une véritable religion par le régime. Notons que le sort des autres religions n'est pas non plus très enviable. Les zoroastriens, juifs, et chrétiens, et à un degré moindre, les sunnites, sont, eux des "citoyens de seconde zone", souligne la FIDH. Victimes principalement de discrimination à l'emploi, ceux-ci ont toutefois le droit de pratiquer leur culte, et de fréquenter l'université, et ne sont pas, à notre connaissance, soumis à une pression constante pour renier leur foi.

Dans les années qui ont suivi la révolution, la répression contre les baha'is a été féroce. Au début des années 1980, plus de 200 baha'is, parmi les membres les plus actifs, ont été exécutés pour avoir refusé de se convertir à l'islam. L'indignation de la communauté internationale a ralenti cette répression. Mais elle n'a jamais réussi à la stopper : la lutte contre les baha'is est désormais larvée. Un document interne signé, en 1991, de la main d'Ali Khamenei, guide suprême de la République islamique, détaille une série de recommandations pour régler ce que les autorités appellent "la question baha'ie" : "Le gouvernement traitera les baha'is de telle sorte que leur progrès et leur développement soient bloqués. (…) Il faut les expulser des universités, soit lors du processus d'admission, soit au cours de leurs études, une fois découvert qu'ils sont baha'is. (…) L'accès à l'emploi, s'ils s'affichent comme baha'is, doit leur être refusé. Toute position d'influence, dans le secteur éducatif par exemple, doit leur être refusée."

La France figure au 6e rang des pays accueillant les boursiers iraniens. Parmi ceux-là, à coup sûr, pas un seul baha'i. Les échanges de coopération entre les deux pays comprennent des partenariats inter-universitaires, comme le programme Gundishapur – en référence à une académie des sciences qui fit la renommée de cette ville du VIe au VIIIe siècle – qui développe une coopération scientifique et technique de haut niveau entre des équipes de recherche des deux pays en soutenant la mobilité des chercheurs. Parmi les bénéficiaires de ce projet, à coup sûr, côté iranien, pas un seul baha'i. Certes, nous ne pouvons que nous réjouir de ces échanges fructueux entre les deux pays. Mais nous refusons de cautionner, par notre silence, cette discrimination envers les étudiants et étudiantes baha'is. Elle n'a que trop duré.

La vie intellectuelle et professionnelle des baha'is d'Iran a été mise en sommeil, de la manière la plus subtile qui soit. La majorité des médecins, juristes, comptables, architectes ou ingénieurs baha'is d'Iran aujourd'hui sont proches de la retraite, et leurs enfants, sans avenir. Une violence qui ne dit pas son nom, et d'autant plus cruellement ressentie que les fidèles de cette religion considèrent l'acquisition du savoir comme un devoir sacré : selon les commandements baha'is, la connaissance, en particulier celle des arts et des sciences, est la base du progrès de l'homme.


Ils n'ont d'ailleurs pas renoncé à éduquer leurs fils et leurs filles. Depuis 1987, ils agissent, à leur échelle. Ils ont mis en place une université gratuite, dirigée par des enseignants bénévoles, dans l'intimité des maisons, avec ses ordinateurs personnels, ses bibliothèques, et même ses examens. Cette université virtuelle est soumise au harcèlement de l'Etat, qui confisque du matériel, des copies d'examen, voire arrête ses responsables. Malgré cela, ses diplômes en psychologie, informatique, comptabilité, lettres, biologie, pharmacie, droit, études dentaires, sont reconnus par certains employeurs en Iran, et par certaines universités à l'étranger. Mais les ressources sont faibles, comparées au millier de jeunes à former par an. Un bachelier baha'i sur dix peut en bénéficier aujourd'hui : seuls les plus autonomes et les plus brillants sont formés dans ces écoles supérieures artisanales et très sélectives. Les 90 % qui restent grossissent les rangs de la génération sacrifiée.

Le sort des étudiants baha'is d'Iran n'est pas une fatalité. D'abord parce que l'Iran a les ambitions et les moyens d'une société moderne : le niveau d'études de sa population, dans le pays d'Avicenne, de Hafez, et de certains des plus grands cinéastes contemporains, est un des plus élevés de cette région du monde. La qualité de son système universitaire est reconnue. Il accorde par ailleurs une large place aux femmes : contrairement aux idées reçues, les étudiantes sont plus nombreuses que les étudiants en Iran. Le sort des jeunes baha'is n'est pas une fatalité, enfin, parce que le gouvernement iranien est sensible plus qu'on ne le pense à la pression des défenseurs des droits de l'homme.

Tout être humain a droit au savoir, quelles que soient ses origines. Nous sommes solidaires de ces jeunes qui ont soif de connaissance. Nous demandons au gouvernement iranien d'accueillir dans les universités du pays tous les jeunes qui ont passé avec succès l'examen d'entrée, sans exception. Pour que cesse enfin la ségrégation culturelle.

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Rosine Haguenauer, directeur de recherche au CNRS en biologie,
Pr Jean-Pierre Vernant, historien, professeur au Collège de France,
Pascal Lederer, directeur de recherche au CNRS, physicien,
Pr Pierre Gilles de Gennes, professeur au Collège de France, Prix Nobel de physique,
Stéphane Robert, directeur de recherche au CNRS, linguiste,
Jean-Antoine Lepesant, directeur de recherche au CNRS en biologie,
Myriam Chimènes, directeur de recherche au CNRS, musicologue,
Pr Sophie Vriz, enseignant-chercheur en biologie,
Miguel Angel Estrella, pianiste, ambassadeur auprès de l'Unesco,
Pr Michel Volovitch, enseignant-chercheur en biologie,
Sophie Vassilaki, enseignant chercheur, linguiste,
Pr Claude Cohen-Tannoudji, professeur au Collège de France, Prix Nobel de physique,
Pr. François Jacob, professeur au Collège de France, Prix Nobel de médecine,
Pr Francois Gros, professeur au Collège de France en biologie,
Pr Isabelle This-Saint Jean, enseigant-chercheur, économiste,
et la Fédération internationale des droits de l'homme (http://www.fidh.org/).

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Kitáb-i-Iqán (10)

Motivos da Oposição aos Profetas (2ª parte)

O RECEIO DOS PODERES INSTITUÍDOS
Os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um depoimento falso contra Jesus, a fim de O condenarem à morte, mas não o encontraram embora se tivessem apresentado muitas falsas testemunhas. Apresentaram-se por fim, duas, que declararam: «Este homem disse: Posso destruir o Templo de Deus e reedificá-lo em três dias» Ergueu-se, então o sumo sacerdote e disse-Lhe: «Não respondes nada? Que dizes aos que depõem contra Ti?» Mas Jesus continuava calado. O sumo sacerdote disse-Lhe: «Intimo-Te, pelo Deus vivo, que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus» Jesus respondeu-lhe: «tu o disseste. E Eu digo-vos: Vereis um dia o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu» Então o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo: «Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Acabais de ouvir a blasfémia.» (Mt 26:59-65)
Na história das religiões percebemos que a oposição aos Mensageiros de Deus foi fomentada pelos poderes políticos e religiosos do Seu tempo. Nas religiões semitas, isso é muito claro nos textos e tradições religiosas que nos referem Moisés e o faraó, Jesus e os sacerdotes hebreus, Herodes e Pilatos, e Maomé face aos sacerdotes judeus e cristãos e ainda os lideres tribais do Seu tempo.[16]

Podemos identificar alguns motivos para o confronto entre os Profetas e o poder político do tempo e local onde exercem a Sua Missão. Talvez o mais frequente, seja o facto do poder político ser instigado pelo poder religioso a punir o Mensageiro, e a acreditar que Ele é um factor de perturbação social.

No que toca aos dirigentes religiosos[a], percebe-se que a sua oposição ao novo Mensageiro de Deus assenta na sua incapacidade para compreender os significados dos textos sagrados. Nas palavras do novo Profeta vêem uma ameaça à sua posição de poder e prestígio social; curiosamente, esses dirigentes religiosos possuem dúvidas em relação a questões teológicas profundas, mas não hesitam em condenar o novo Mensageiro e afirmar que ainda não se cumpriram os sinais relativos à vinda do prometido.[90]

Sobre este assunto, Bahá'u'lláh escreveu no Kitáb-i-Íqán:

Os lideres da religião, em cada era, têm impedido seu povo de atingir as margens da salvação eterna, na medida em que sustiveram as rédeas da autoridade nas suas poderosas mãos. Alguns pela luxúria da liderança, outros por falta de conhecimento e compreensão, têm sido o motivo da privação do povo. Com a sua aprovação e autoridade, todo o Profeta de Deus bebeu o cálice do sacrifício e alçou voo para os cumes da glória. Que crueldades indescritíveis, eles que ocuparam os tronos da autoridade e do conhecimento infligiram sobre os verdadeiros Monarcas do mundo, aquelas Jóias da virtude divina! Contentaram-se com um domínio transitório, e privaram-se de um soberania eterna.[15]
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NOTAS

[a] – Os dirigentes religiosos são frequentemente condenados nas escrituras baha’is. Veja-se a
Epístola os Reis.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Terra da Alegria

Hoje na Terra da Alegria retive esta frase do Rui Almeida: "Tenho um amigo padre que costuma dizer que Jesus Cristo não nos tolerou, amou-nos e amou-nos até às últimas consequências."

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

A experiencia religiosa e o enquadramento humano

A maioria das pessoas que tem uma experiência religiosa a qualquer nível assume que se trata de uma experiência pura que lhes chega do exterior; por outras palavras, a sua forma e conteúdo têm origem numa outra realidade e não são afectadas pelas particularidades da pessoas a quem ocorre. Isto tem sido descrito como a erupção do sagrado no profano. Um exame cuidadoso mostra que as coisas não são exactamente assim.

A primeira coisa que vale a pena notar é que as experiências religiosas tendem a possuir uma conformidade com as expectativas culturais e religiosas. As raparigas da aldeia em Portugal têm visões da Virgem Maria e não da deusa indiana Kali. Os nativos norte-americanos nas suas transes têm visões de animais norte-americanos e não de animais africanos. Assim, parece que as experiências religiosas por muito intensas e arrebatadoras que sejam, estão sujeitas a constrangimentos por parte das normas culturais e religiosas da pessoa a quem ocorre. Outra forma de olhar para isto é dizer que não pode existir algo como uma experiência pura. Uma experiência ocorre sempre a uma pessoa, e essa pessoa já possui um enquadramento interpretativo através do qual vê o mundo. Assim, a experiência e a interpretação estão sempre combinados e interligados.

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pags. 114

NOTA: sobre as aparições de Fátima já deixei aqui a minha opinião em dois posts (Fátima, Ainda sobre Fátima)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Mapa da Poluição na Europa


Cientistas holandeses recorreram a imagens do satélite Aura para elaborar mapas que mostrar a distribuição da poluição na Europa e noutras regiões do mundo. As imagens reflectem os níveis da poluição na camada mais baixa da atmosfera (aquela em que nós vivemos!). Na imagem anterior as manchas assinalam a presença de dióxido de nitrogénio (NO2), um precursor da produção de ozono ao nível do solo.

Notícia completa na BBC.

sábado, 10 de dezembro de 2005

Mundial de 2006

Fazendo uso da minha condição de treinador de bancada - que me é conferido pela minha condição de cidadão português - aqui fica o meu primeiro comentário ao resultado do sorteio do Mundial de 2006: cuidado com os iranianos. São desconhecidos para nós. Mas têm vários jogadores a jogar no estrangeiro. Têm potencial para vir a ser uma desagradável surpresa.



O calendário dos jogos:

11/Jun 17:00 Nuremberga México - Irão
11/Jun 20:00 Colónia Angola - Portugal
16/Jun 20:00 Hannover México - Angola
17/Jun 14:00 Frankfurt Portugal - Irão
21/Jun 20:00 Gelsenkirchen Portugal - México
21/Jun 20:00 Leipzig Irão - Angola

O site da BBC tem um bom resumo de informações sobre as diferentes selecções.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Esther Mucznik

A recente polémica sobre os crucifixos nas escolas levanta uma questão interessante: porque razão não se ouve uma única voz representativa das confissões não católicas no coro exigindo a retirada desses símbolos? Será por medo? Pelo hábito ancestral do silêncio? Por solidariedade institucional? Ou será porque estão de acordo com a presença desses símbolos religiosos?

Sem obviamente pretender falar em nome de ninguém, acho que não é por nenhuma destas razões. Mais simplesmente diria que o "combate" de uma associação como a Associação República e Laicidade - que denunciou a existência de crucifixos em determinadas escolas - não é o mesmo do das confissões não católicas, que na sua maioria não se revêem no "militantismo" laico que se dedica a esquadrinhar o país à caça de símbolos católicos para os erradicar do espaço público.

Gostaria de dizer com toda a clareza que, de uma forma geral, não sou favorável à proliferação desses ou de outros símbolos religiosos nos edifícios públicos. Liberdade religiosa e liberdade de manifestação religiosa nem sempre coincidem e há momentos em que determinadas manifestações religiosas podem colidir com a liberdade religiosa alheia. Mas não faço disto uma questão principal e decisiva e acredito que, mais do que a legislação, é o bom senso que deve prevalecer.


Esther Mucznik, Público, 09-Dezembro-2005
Comentário:
As questões levantados no primeiro parágrafo são muito pertinentes. Não me admirava que se a denúncia da existência de crucifixos em certas escolas públicas tivesse partido da Comissão de Liberdade Religiosa, várias confissões tivessem feito ouvir a sua voz sobre esta matéria. Talvez valha a pena recordar as palavras de Menéres Pimentel, presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, que ao referir-se à presença de crucifixos nas salas de aula das escolas públicas declarou representar "uma interferência da religião na esfera pública, intolerável, pouco consentânea com o princípio da separação entre o Estado e as confissões religiosas, com a liberdade religiosa dos membros de outras confissões religiosas e com a liberdade de consciência daqueles que não professem qualquer religião".

Bagão Felix

É obvio que nenhum crente deve impor a sua fé ou prática religiosa a outrem. Mas de igual modo e ainda que sob a capa de "neutralidade" (não confundamos neutralidade com imparcialidade...), nenhum ateu ou agnóstico deve impor o seu ateísmo ou agnosticismo como regra para os outros. Ou será que ser ateu ou agnóstico confere - para a tal neutralidade objectiva – algum estatuto superior e prévio?

António Bagão Felix, Público, 09-Dezembro-2005

Comentário:
É verdade que nenhuma crença (seja maioritária, ou não) possui esse estatuto superior e objectivo no que toca à aplicação da lei da liberdade religiosa. Creio que o organismo mais imparcial e neutro que talvez exista seja a Comissão da Liberdade Religiosa.

A retirada dos crucifixos das escolas públicas surgiu nos media como resultado de uma iniciativa da Associação Republica e Laicidade (fazendo com isso despertar o fantasma jacobino e anti-religioso da Primeira República). Teria sido preferível que a Comissão da Liberdade Religiosa tivesse sido ouvida sobre a matéria. Talvez este episódio sirva para relembrar o Governo da importância desta Comissão e remediar a tremenda falta de meios com que esta trabalha.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Kitáb-i-Iqán (9)

Motivos da Oposição aos Profetas (1ª parte)
Mas hoje, amanhã e depois, devo seguir o Meu caminho porque não se admite que um Profeta pereça fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes Eu quis juntar os teus filhos como uma galinha junta a sua ninhada debaixo das asas e não quiseste. (Lc 13:33-34)

Oh! a miséria dos homens! Não lhes é enviado Mensageiro algum, que não seja objecto do seu escárnio. (Alcorão 36:30)
As citações anteriores são exemplos de um aspecto comum a todas as religiões: a oposição aos Profetas. Invariavelmente, ao longo da história, cada vez que surgiu um Profeta, Ele foi perseguido, não obstante existirem tradições e profecias que anunciavam o Seu aparecimento. Este paradoxo é abordado por Bahá’u’lláh em vários parágrafos do Kitáb-i-Íqán.

SÍMBOLOS, METÁFORAS E PARÁBOLAS

Nas Sagradas Escrituras de todas as religiões podemos encontrar, na forma de símbolos, metáforas e parábolas, alusões ao aparecimento de um novo profeta. “Dia da Ressurreição”, “Juízo Final”, “Regresso de Cristo”, “Dia de Deus” são algumas das expressões usadas para descrever esses momentos únicos na história da humanidade. No entanto, os crentes nem sempre entendem o significado deste tipo de expressões e por vezes até os interpretam literalmente. E assim, quando o prometido Profeta surge, a maioria dos crentes revolta-se contra Ele, por considerarem que não se cumpriram os sinais que deviam acompanhar o Seu aparecimento.

Poder-se-ia argumentar que as indicações deixadas pelos Profetas do passado estão incompletas. Mas se essas indicações estivessem incompletas, Deus iria castigar alguém por não reconhecer o novo Mensageiro? Isso não estaria de acordo com a Sua misericórdia [14].

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh questiona: se o que está escrito nos textos sagrados sobre a vinda de um novo Mensageiro de Deus se cumprisse literalmente, quem se atreveria a descrer? E como se poderia isso cumprir se é contra as leis da natureza? Sobre os textos que anunciam o regresso de Jesus Cristo, Bahá'u'lláh declara:
Julgai imparcialmente: se as profecias registradas no Evangelho fossem cumpridas literalmente, se Jesus, Filho de Maria, acompanhado de anjos, descesse do céu visível sobre as nuvens, quem se atreveria a descrer, quem ousaria rejeitar a verdade e se tornar desdenhoso? Não, tamanha consternação logo se apoderaria de todos os que habitam a terra, que nenhuma alma se sentiria capaz de pronunciar uma palavra e, muito menos, de rejeitar ou aceitar a verdade.[88]
Assim, se o texto se cumprisse literalmente, o aparecimento de Jesus não seria um teste à fé de cada ser humano, mas um evento que deixaria todos estarrecidos. Percebe-se que as expectativas dos crentes quando se baseiam em interpretações literais acabam ser um obstáculo ao reconhecimento do novo Profeta, e ao acesso ao conhecimento espiritual que emana das Palavras de qualquer Mensageiro de Deus.

TRADIÇÕES RELIGIOSAS

Além das interpretações literais sobre textos alusivos ao aparecimento de novos Profetas, também existem conceitos baseados em certas interpretações das Escrituras podem funcionar como obstáculos ao reconhecimento de um novo Mensageiro Divino.

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh refere que os sacerdotes cristãos agarraram-se ao sentido literal das palavras de Jesus e não perceberam a grandeza de Maomé [25]. No Evangelho de S. Lucas, as seguintes palavras são atribuídas a Cristo: "Passará o céu e a terra, mas as Minhas palavras não passarão" (21:33). Este versículo levou a maioria dos sacerdotes cristãos a acreditar que a Lei do Evangelho nunca seria alterada. Não compreenderam esta frase à luz da dupla condição dos Profetas. Acreditam que o Prometido manterá todos os ensinamentos éticos e sociais estabelecidos por Cristo. Foi essa interpretação que os levou a repudiar Maomé.[26]

De igual forma, o versículo do Alcorão em que Maomé se proclama "Selo dos Profetas"(33:40) é invariavelmente interpretado como uma indicação de que Deus não enviará mais Profetas. Também a maioria dos muçulmanos não compreende o significado deste versículo de acordo com a dupla condição dos Profetas, e por esse motivo rejeitam todas as religiões que possam surgir após o Islão.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

Almoço



Hoje almocei com o João Tunes, a Guida Alves, o Raimundo Narciso e o Lutz. Um bom bife e muita conversa sobre as eleições e a campanha, as máquinas partidárias, o livro do Pacheco, o Khadaffi, o Saddam, as categorias de alemães que vivem em Portugal, a Guiné, os filhos, o novo livro sobre o João Amaral, o Cavaco e o Cunhal. A conversa foi boa. Muito boa.

Terra da Alegria

Hoje há Terra da Alegria!

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

Rituais

Os seres humanos organizam grande parte das suas interacções sociais em padrões rotineiros formais. Por exemplo, no Ocidente, quando se conhece alguém pela primeira vez é costume dar-se um aperto de mão e trocar algumas palavras. Um ritual consiste num conjunto de práticas rotineiras formalizadas e relacionados com a religião. Para os seguidores de uma religião, porém, o ritual, tal com a escritura, é uma hierofania; é uma aparição do sagrado. Através da realização do ritual, o sagrado é evocado, O ritual pode incluir a leitura ou cântico das escrituras, hinos, certas acções, certos sons (como gongos, címbalos e sinos), certos cheiros (como o incenso) símbolos religiosos e música, todos eles contribuindo para a evocação do sagrado.

O ritual é provavelmente a fonte mais comum de experiência religiosa para a maioria das pessoas. Na verdade, para um número significativo de povos, o ritual é a própria religião. Para muitos indianos, japoneses xintoístas e povos tribais, a religião consiste quase exclusivamente em vários rituais (nomeadamente rituais de passagem, e rituais diários ou sazonais). Apesar destes rituais implicarem algumas crenças, estas tendem a ser uma interpretação dos académicos e normalmente não estão presentes na consciência das pessoas comuns que participam num ritual.

O ritual pode ser considerado como uma importante parte do conhecimento que o crente tem da sua religião. Enquanto que o conhecimento cognitivo pode fornecer ao indivíduo factos sobre a sua religião, o ritual dá-lhe um conhecimento do “sentimento” ou do "ambiente" da religião; transmite-lhe informação afectiva não-cognitiva (aquilo que alguns poderão designar por conhecimento holístico). Em algumas correntes do Cristianismo, o simples facto de um crente se ajoelhar perante uma imagem da Virgem Maria pode transmitir-lhe muito mais informação sobre a religião do que horas de pregação e formação conseguiriam. As atitudes em relação a si próprio, em relação a outras pessoas e em relação à Última Realidade conseguem ser transmitidos de forma mais directa e poderosa através de rituais do que qualquer outro meio. Seja o ritual realizado numa igreja a cheirar a incenso onde o sacerdote transforma o pão e o vinho no corpo e sangue de Cristo, ou técnicas de meditação que conduzem a um estado alterado de consciência, o resultado pode ser uma experiência directa do sagrado. Assim, para os novos convertidos, o ritual pode ser uma fonte de aprendizagem de factos sobre a nova religião. (...) O ritual também reforça o sentido de experiência religiosa comunitária, o sentimento de unidade e solidariedade de grupo, o sentimento de pertença a algo que é maior do que os indivíduos incluídos no grupo.

Existem numerosas formas de rituais: ritos de purificação, regeneração, agradecimento, auto-negação, penitência e propiciação. Por vezes é difícil distinguir o ritual da magia; ambos implicam um processo supra-natural. Os rituais são frequentemente ritos de passagem (isto é, relacionados com o ciclo da vida: nascimento, puberdade, casamento, morte) ritos relacionados com o calendários (rituais semanais, rituais de primavera, das colheitas, do inverno e do Ano Novo), ou encenações formais de uma história ou evento sagrado.

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pags. 104-105

domingo, 4 de dezembro de 2005

Gostei de ler...

"É tempo de percebermos que o discurso da «diferença» e do «multiculturalismo» não é mais do que um palavreado paternalista infinitamente demagógico que retira às pessoas esse direito fundamental, que é o da igualdade. É tempo de abandonarmos o discurso protector das «minorias étnicas» e entendermos que um cientista, um artista, um filósofo negro devem ser ouvidos sobre as suas áreas de interesse e especialização e não só sobre o facto de... serem negros. Há pelo menos uma geração inteira de portugueses negros que são tratados como estrangeiros. Se sobreviverem à marginalidade e quiserem ir para a universidade, não têm bolsas nem apoios de ninguém: para Portugal são estrangeiros, para os países dos seus pais são emigrantes sem retorno."

Inês Pedrosa, Expresso (Revista Única), 03-Dezembro-2005

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

Na Maternidade

Com o anestesista:
- Então você é que é o pai do calmeirão?
- Pois... é verdade...
- O miúdo é giro, sim senhor. Mais um benfiquista na família, hein?!...
- Quê? Não me diga que vocês trocam os bebés aqui na maternidade?

Com um tio:
- O miúdo é giro. Bem mais giro do que tu, quando nasceste...
- Ah sim ?!...
- Claro. Tu eras mais magro e tinhas o cabelo em pé. Parecias um piaçaba!

Com a esposa:
- Sabias que os bebés têm uma pulseira com um dispositivo electrónico que permite detectar a sua localização?
- É essa pulseira que ele tem no pé?
- Sim. Ontem à noite apareceu aí o segurança porque tinha sido detectado um bebé fora da zona dos recém-nascidos. Depois houve uma enfermeira que descobriu que a mãe tinha levado o bebé para passear no elevador...