sábado, 30 de novembro de 2019

O Poder e o Propósito da Aliança Bahá’í

Por Maya Bohnhoff.


Costumo dizer que o espírito da Aliança de Bahá'u'lláh entrou no meu coração tal como estas palavras das Escrituras Bahá'ís prometeram:
Ó amado de Deus, sabe que a constância e a firmeza nesta nova e maravilhosa Aliança é, de facto, o espírito que desperta os corações que transbordam com o amor do Senhor Glorioso; em verdade, é o poder que penetra nos corações dos povos do mundo! ('Abdu'l-Bahá, Baha'i World Faith, p. 357)
Que esta pessoa – 'Abdu'l-Bahá – que Bahá'u'lláh referiu como Mestre e Mistério de Deus seja o intérprete nomeado da revelação do seu Pai, é algo que me parece absolutamente espantoso. Durante milénios, o mundo das religiões tem sido dilacerado por cismas; aqui está um antídoto para esse conflito. O carácter da personagem era ainda mais inspirador. Penso que isso pode ficar claro com uma observação e uma nota histórica.

A observação: esta humilde pessoa em cujas mãos o profeta de Deus pôs o governo da sua Fé não se intitulava Mestre. Ele intitulava-se ‘Abdu'l-Bahá – o Servo de Bahá. Ele dizia que existia para servir e ajudar os outros:
O Meu Nome é 'Abdu'l-Bahá. A Minha Realidade é 'Abdu'l-Bahá. E o serviço a toda a raça humana é a minha religião perpétua… (de uma carta enviada aos Bahá'ís de Nova Iorque, 01/Janeiro/1907)
'Abdu'l-Bahá em New Hampshire (1912)
A nota histórica: um dos irmãos de 'Abdu'l-Bahá e a Sua família mais próxima recusaram-se a aceitar o estatuto de ‘Abdu'l-Bahá como Centro da Aliança de Bahá'u'lláh. Durante o tempo em que este grupo de violadores da Aliança possuía a mansão de Bahji - a casa em que Bahá'u'lláh viveu até ao fim da Sua vida – ‘Abdu'l-Bahá ia regularmente com um grupo de crentes até junto dos muros do jardim e orava pelas almas dos que estavam lá dentro. Aquelas pessoas enfrentavam e insultavam ‘Abdu'l-Bahá e os seus companheiros, mas Ele continuava a orar por elas.

Este homem, o Centro da Aliança, foi dado à humanidade – escreveu Bahá'u'lláh – como um exemplo perfeito do que significa ser Bahá'í. Vejamos outro exemplo: quando vivia em Acre, na Palestina, ‘Abdu'l-Bahá visitava diariamente um Muçulmano que padecia de uma doença tão repugnante, que a própria família o abandonara. Ele amaldiçoou ‘Abdu'l-Bahá todos os dias durante vinte e quatro anos, e até cuspia no Mestre quando Ele cuidava das suas necessidades. E passados vinte e quatro anos, este homem percebeu finalmente que ‘Abdu'l-Bahá era seu amigo, e não inimigo. Mesmo com a humanidade a entrar relutantemente na sua idade adulta, poucos de nós conseguimos algo semelhante. Mas temos consciência do objectivo e compreendemos que temos de o alcançar para bem da nossa espécie.

Graças à Aliança e ao seu Centro brilhante, os Bahá'ís têm a orientação para atingir esse objectivo. Se formos fiéis à Aliança, não andaremos à deriva no mundo, usando apenas o nosso ponto de vista pessoal como um modelo para a nossa existência. ‘Abdu'l-Bahá recorda-nos:
Se não fosse o poder protetor da Aliança para defender o forte inexpugnável da Causa de Deus, surgiriam entre os Bahá'ís, num único dia, milhares de diferentes seitas, tal como aconteceu em eras anteriores. Mas nesta Dispensação Abençoada, a bem da estabilidade da Causa de Deus e para evitar a discórdia entre o povo de Deus, a Beleza Abençoada … através da Pena Suprema escreveu a Aliança e o Testamento; Ele nomeou um Centro, o Intérprete do Livro e o anulador das disputas… O propósito explícito desta última Vontade e Testamento é pôr de lado as disputas no mundo. (‘Abdu'l-Bahá, Baha'i World Faith, p. 359)
Esta é uma grande ideia – um grupo diversificado de pessoas de todo o mundo veja um ponto único como guia central da sua fé porque o próprio Profeta assim o decretou. Também isto é único na história. Mas o propósito da Aliança de Bahá'u'lláh é muito mais do que unir os membros de uma religião. ‘Abdu'l-Bahá afirmou: “… que o eixo da unicidade da humanidade não é senão o poder da Aliança.” (citado por Shoghi Effendi em The World Order of Baha'u'llah, p. 239.)

As palavras de ‘Abdu'l-Bahá sobre a Aliança dificilmente fariam sentido se esta não persistisse. Tal como o Seu Pai antes dele, ‘Abdu'l-Bahá, no Seu Testamento, nomeou um sucessor – o seu neto Shoghi Effendi, como Guardião da Fé. Esta sucessão atribuiu-lhe um conjunto de prioridades e prerrogativas consistentes com as necessidades da recém-nascida comunidade Bahá'í, e tornou-o intérprete autorizado dos ensinamentos Bahá'ís. ‘Abdu'l-Bahá deu a Shoghi Effendi a tarefa gigantesca de construir as fundações da ordem administrativa concebida por Bahá'u'lláh.

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Texto original: The Power and Purpose of the Baha'i Covenant (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 23 de novembro de 2019

Compreender a Aliança de Bahá’u’lláh

Por Maya Bohnhoff.


Os Bahá'ís acreditam que a característica mais distintiva da sua Fé é a providência específica que Bahá'u'lláh tomou ao nomear um centro da Sua aliança:
Quanto à mais grandiosa característica da Revelação de Bahá'u'lláh - um ensinamento específico que não foi dado por qualquer Profeta do passado – é a ordenação e nomeação do Centro da Aliança. Com esta nomeação e disposição, Ele salvaguarda e protege a religião de Deus contra diferenças e cismas, tornando impossível que qualquer pessoa crie uma seita ou facção de crença. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 455-456)
“A mais grandiosa característica da Revelação de Bahá'u'lláh”. Isto soa a algo muito importante, certo? Mas o que é que ‘Abdu’l-Bahá pretende dizer com “Centro da Aliança” e o que a torna tão importante e singular?

No passado nunca existiu qualquer instrução escrita para os crentes sobre a fonte da orientação após a ascensão do fundador da Fé. É certo que cada Profeta de Deus tinha um discípulo principal. Para Krishna, foi Arjuna; para Buda, foi Ananda; para Cristo, foi Pedro; para Maomé, foi Ali. A frase de Cristo dirigida a Pedro, dizendo “...tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha igreja” é entendida por alguns Cristãos como significando que Pedro foi nomeado por Cristo como líder da Fé. Esta crença está na base da Igreja Católica, mas as doutrinas Cristãs baseiam-se, essencialmente, nas cartas do apóstolo Paulo. Maomé nomeou verbalmente como sucessor o Seu genro Ali, mas os mais velhos entre os seus seguidores acharam que Ali era demasiado jovem para exercer um poder temporal e devia ser apenas líder espiritual.

Os estudantes de história e crentes aprofundados sabem certamente que as antigas religiões sofreram múltiplos cismas após o falecimento dos seus profetas. O Budismo dividiu-se quase imediatamente em duas grandes correntes, e posteriormente em vários ramos. Existem milhares de igrejas Cristãs, algumas nascidas após episódios de horrível violência entre Cristãos. O Islão dividiu-se nas facções pró e contra Ali – uma divisão que ainda hoje é motivo de conflito. Nenhuma destas religiões têm uma autoridade central única. Além disso, nenhum Profeta desde Moisés deixou um plano para as instituições que deveriam servir a comunidade dos crentes. Bahá’u’lláh, porém, aboliu o sacerdócio e – para proteger a unidade da Sua Fé – deixou instruções explicitas no Seu Testamento para os crentes se voltarem apenas para ‘Abdu’l-Bahá após a Sua ascensão:
A Vontade do Testador divino é esta: incumbe aos Aghsan, aos Afnan [descendentes de Bahá’u’lláh e do Báb] e aos Meus Parentes – todos sem excepção – voltar as suas faces para o Mais Grandioso Ramo [um dos títulos de ‘Abdu’l-Bahá]. Considerai aquilo que revelámos no Nosso Livro Mais Sagrado: “Quando o oceano da Minha presença tiver vazado e o Livro da Minha Revelação estiver terminado, voltai as vossas faces para Aquele Que Deus propôs, Que ramificou desta Raiz Antiga”. O objecto deste versículo sagrado não é outro senão o Mais Grandioso Ramo. (Bahá’u’lláh, Tablets of Bahá’u’lláh, p. 221)
Agora, poder-se-ia supor que com instruções claras como estas, ninguém que acreditasse em Bahá’u’lláh tentaria sequer violar esta Aliança explicita. Mas a verdade é que esta Aliança explicita tem sido repetidamente desafiada. A Aliança de Bahá’u’lláh não impede, como que por magia, que as pessoas a desafiem. No entanto, a sua função protectora tem garantido que todos os que surgem para a desafiar acabam por ser incapazes de destruir a unidade Fé Bahá’í.

É por isso que a “mais grandiosa característica” da Fé Bahá’í consiste numa cláusula que conserva e protege a sua unidade.

Não esqueçamos o carácter único do tempo em que vivemos. Possuímos instrumentos que podem destruir o mundo ou uni-lo. A tecnologia dá-nos armas poderosas, viagens rápidas, comunicações instantâneas, enormes populações que falam a mesma língua (ou línguas). Da mesma forma, devemos recordar-nos do derradeiro propósito da Fé de Bahá'u'lláh: unir a humanidade. Por isso, não é surpreendente que Bahá’u’lláh tenha deixado instruções escritas para a protecção da sua unidade:

Hoje o poder dinâmico no mundo da existência é o poder da Aliança que é como uma artéria que pulsa no corpo do mundo contingente e protege a unidade Bahá’í.

Aos Bahá’ís é ordenado que estabeleçam a unicidade da humanidade; se eles não se conseguirem unir em torno de um ponto, como conseguirão realizar unidade a humanidade?
O propósito da Abençoada Beleza ao criar esta Aliança e Testamento foi reunir todos os seres existentes em torno de um ponto para que almas imprevidentes – que em todos os ciclos e gerações têm sido causa de discórdia – não possam debilitar a Causa. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of 'Abdu'l-Bahá, #183)
Seguidamente iremos explorar o significado o significado desta função protectora única.

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Texto original: Understanding Baha’u’llah’s Covenant (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 16 de novembro de 2019

Aliança e Administração: um Projecto Divino

Por Maya Bohnhoff.


O dicionário define a palavra “aliança” como “laço entre pessoas ou entidades que se prometem mútuo auxílio; pacto; acordo”. Mas o que significa “aliança” num contexto religioso ou teológico?

Quando comecei a investigar a Fé Bahá’í, eu era abertamente hostil. A minha jornada até à fé teve diversas etapas de investigação. Talvez por isso os textos místicos de Bahá'u'lláh, “Os Sete Vales” e “Os Quatro Vales”, são os meus preferidos. Mas além do estudo da vida e Escrituras de Bahá'u'lláh e de 'Abdu'l-Bahá - e de as comparar e contrastar com a minha experiência pessoal de fé enquanto crente em Cristo - houve uma coisa que me pareceu surpreendente e revolucionária na Fé de Bahá'u'lláh: a ordem administrativa Bahá’í e a Aliança Bahá’í que a criou.

Como sabemos, a Fé Bahá’í não tem clero. A sua organização administrativa – constituída por instituições eleitas democraticamente a nível local, nacional e internacional – toma as decisões que governam a comunidade Bahá’í de uma forma única e sem precedentes: envolvendo todos os crentes.

Era diferente de tudo o que já tinha visto, ouvido, ou sonhado ser possível. Vou descrever essa ordem administrativa o melhor que puder, noutros artigos; mas por agora quero explorar a sua característica mais visível: os seus alicerces assentam numa Aliança entre Deus, Bahá'u'lláh, os Bahá'ís e toda a humanidade

Quando descobri os ensinamentos Bahá’ís, eu era Cristã e já compreendia o conceito de Aliança. As Escrituras que eu conhecia – a Bíblia – descrevem a nossa relação com Deus na forma de uma Aliança, simbolizada no arco-íris de Noé, a arca de Moisés, e aos rituais Cristãos do baptismo e da eucaristia. Mas a Fé Bahá’í pedia-me que entendesse este conceito de outra maneira.

Segundo dicionário, uma aliança religiosa é um “acordo que cria uma relação de compromisso entre Deus e o Seu povo”. Assim, temos duas partes nesta Aliança: Deus e a humanidade. Cada parte tem deveres na relação com esta aliança; cada um faz as suas promessas. Deus promete a guia eterna e uma existência espiritualmente enriquecida; Os crentes prometem obediência à Palavra de Deus.

Isto não é uma disposição arbitrária. Como Bahá'u'lláh escreve:
Aqueles que Deus dotou com discernimento reconhecerão prontamente que os preceitos estabelecidos por Deus constituem o meio mais elevado para manutenção de ordem no mundo e segurança dos seus povos. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CLV)
Como referi anteriormente, o conceito de aliança entre Deus e a humanidade está registada em Escrituras que têm milhares de anos. ‘Abdu’l-Bahá - o filho mais velho de Bahá’u’lláh e centro da Sua Aliança - descreveu-a assim:
Sua Santidade Abraão, que a paz esteja com Ele, fez uma aliança em relação a Sua Santidade Moisés e deu as boas-novas da Sua vinda. Sua Santidade Moisés fez uma aliança em relação ao Prometido, ou seja, Sua Santidade Cristo, e anunciou as boas novas da Sua Manifestação ao mundo. Sua Santidade Cristo fez uma aliança em relação ao Paracleto e deu as boas novas da Sua vinda. Sua Santidade o Profeta Maomé fez uma aliança em relação a Sua Santidade o Báb… O Báb fez uma Aliança em relação à Beleza Abençoada de Bahá’u’lláh e deu as boas novas da Sua vinda, pois a Beleza Abençoada era o Prometido por Sua Santidade o Báb. Bahá’u’lláh fez uma aliança em relação a um Prometido que se manifestará após mil ou milhares de anos. (Baha’i World Faith, p. 358)
Note-se que ‘Abdu’l-Bahá refere especificamente o lado de Deus na Aliança – Aquele que sempre guiará a humanidade. Os ensinamentos Bahá’ís descrevem como cada educador e guia da humanidade faz uma aliança com outro que surgirá no futuro:
Os Portadores da Confiança de Deus tornam-se manifestos aos povos da terra com Expoentes de uma nova Causa e Reveladores de uma nova Mensagem. Uma vez que estas Aves do Trono celestial são enviadas do paraíso da Vontade de Deus, e porque todos eles se erguem para proclamar a sua Fé irresistível, eles devem, portanto, ser considerados como uma alma e a mesma pessoa, pois todos bebem do Cálice do amor de Deus, e todos partilham o fruto da mesma Árvore da Unicidade. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, XXII)
Abraão, Krishna, Zoroastro, Buda, Cristo, Maomé e Bahá'u'lláh, cada manifestante de Deus (tal como Bahá’u’lláh os designa) faz parte de uma ponte prometida e eterna entre nós e Deus. Cada um destes avatares, educadores ou profetas universais que invariavelmente oferecem a vida espiritual eterna e em troca os seres humanos devem amar-se uns aos outros.

No próximo ensaio desta série vamos explorar a aliança de Bahá’u’lláh e a forma como esta constitui a base espiritual da ordem administrativa Bahá’í.

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Texto original: Covenant and Administration: A Divine Design (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 9 de novembro de 2019

Quem foram as Letras dos Viventes?

Por Soheila Mikkonen.
“Letras dos Viventes” é um título atribuído pelo Báb aos Seus primeiros 18 seguidores. O Báb era um comerciante de Shiraz, na Pérsia. O Seu nome próprio era Siyyid Ali-Muhammad Shirazi, mas ficou conhecido como “o Báb”, que significa “a Porta”; os Bahá’ís acreditam que Ele foi a porta simbólica entre a era passada da profecia e a nova era da realização da humanidade. Quando tinha 25 anos, o Báb anunciou ser um Profeta e o arauto de “Aquele que Deus tornará Manifesto” (Bahá’u’lláh).

A primeira pessoa a aceitar a declaração do Báb foi Mulla Husayn, um jovem estudante Shaykhi [1], que, tal como muitos outros Shaykhis, tinha partido em busca do Prometido. Em Maio de 1844, a busca de Mulla Husayn levou-o à cidade de Shiraz, onde encontrou o Báb, e uma noite ele tornou-se a primeira pessoa a acreditar no Báb.

Os Primeiros 18 Discípulos
Depois de Mulla Husayn, outras 17 pessoas reconheceram o Fundador da Fé Babi através da sua busca, entre Maio e Julho de 1844; o Báb atribuiu-lhes o título de “Letras dos Viventes”.

A expressão “Letras dos Viventes” em árabe é “Huruf-i-Hayy”. A palavra árabe “havy” corresponde numericamente ao número 18. As 18 Letras dos Viventes e o Próprio Báb são conhecidos como o Primeiro Vahid (unidade) da Dispensação Babi, que numericamente corresponde ao número 19.

O Báb escolheu especificamente a palavra “letras” para designa as primeiras pessoas que acreditaram n’Ele enquanto Manifestante de Deus. As letras actuam como um intermediário entre o Ponto – o Mensageiro de Deus – e as palavras e frases que florescem – a nova revelação – trazidas pelos Manifestantes de Deus.

As Letras dos Viventes – uma mulher e dezassete homens – eram:

  • Mulla Husayn-i-Bushru’i (o seu título era Babu’l-Bab, ou “A Porta da Porta”);
  • Muhammad Hasan (o seu irmão);
  • Muhammad-Baqir (o seu sobrinho);
  • Mulla Aliy-i-Bastami;
  • Mulla Khuda-Bakhsh-i-Quchani (posteriormente chamado Mulla Ali Razi);
  • Mulla Hasan-i-Bajistani;
  • Siyyid Husayn-i-Yazdi;
  • Mirza Muhammad Rawdih-Khan-i-Yazdi (ou Dhakir-i-Masa’ib);
  • Said-i-Hindi;
  • Mulla Mahmud-i-Khu’I;
  • Mulla Jalil-i-Urumi;
  • Mulla Ahmad-i-Ibdal-i-Maraghi’i;
  • Mulla Baqir-i-Tabrizi;
  • Mulla Yusif-i-Ardibili;
  • Mirza Hadi (filho de Mulla Abdu’l-Vahhab-i-Qazvini);
  • Mirza Muhammad-i Aliy-i-Qazvini;
  • Fatimih Baraghani (que recebeu o título Tahirih, que significa “a Pura”);
  • e Mulla Muhammad-Ali Barfurushi (intitulado Quddus, que significa “o Mais Santo”).


A Missão do Báb
Epístola do Báb à Primeira Letra dos Viventes
O Báb dedicou a Sua vida à transformação de velhos hábitos, normas e atitudes. Escreveu muitos livros durante a Sua vida, sendo o mais importante o Bayan (que significa “Expressão”). A palavra “Bayan” pode referir-se ao Bayan persa ou ao Bayan árabe. Tratam-se de dois textos distintos que foram revelados mais ou menos na mesma época (1847-1848), durante o quarto ano do Seu Ministério; também se pode referir à revelação do Báb como um todo.

O Bayan persa é considerado o Livro Mãe da Dispensação do Báb. Nele, o Autor explica que as mulheres têm um papel importante na sociedade e que ambos os sexos são iguais aos olhos de Deus. O Báb cultivava a compaixão e esforçava-se para criar alegria entre os seres humanos; a busca do discernimento e da ciência é elogiada, assim como a união entre conhecimento, acção e fé.

Abrigados à Sua Sombra
O Báb refere as Letras dos Viventes directa e indirectamente em muitas das Suas Escrituras. Por exemplo, Ele salienta que a crença no Manifestante e na unidade de Deus implica a crença nas Letras dos Viventes e vice-versa. Segundo o Báb, quem se volta para as Letras dos Viventes estará seguro, até ao aparecimento de “Aquele que Deus tornará Manifesto”.

O Báb encorajou a construção de locais de oração, não só em Seu nome, mas também em nome das Letras dos Viventes. No entanto, a sua condição é espiritual e simbólica. O Báb não lhes conferiu autoridade para interpretar ou legislar, não lhes atribuiu cargos ou missões entre a comunidade Babi.

Preparando o Caminho para a Fé de Bahá’u’lláh
O Báb pediu aos Seus discípulos que viajassem, espalhassem a Sua religião e preparassem o povo para o Prometido de Todas as Eras que viria depois d’Ele. O seu papel era dar a conhecer a Fé do Báb e este novo sistema de crença e de busca de conhecimento. A maioria das Letras dos Viventes permaneceram leais à causa do Báb e 12 deles foram mortos devido à sua fé, antes do nascimento da revelação de Bahá’u’lláh.

Após o Martírio do Báb, os Seus seguidores recorriam cada vez mais a Bahá’u’lláh. Encontravam n’Ele o mesmo espírito e sabedoria que observaram nos ensinamentos do Báb. Bahá’u’lláh só declarou publicamente a Sua Missão em Abril de 1863. Apenas uma das Letras dos Viventes viveu o suficiente para abraçar a Causa de Bahá’u’lláh: Mulla Baqir-i-Tabrizi. Ele tinha acompanhado Bahá’u’lláh ao Forte de Shaykh Tabarsi, e esteve presente na Conferência de Badasht, em 1848 – dois momentos ímpares no início da história da Fé Bahá’í.

O Significado das Letras
Segundo o Bayan, as Letras dos Viventes são o regresso das essências e atributos da Sagrada Família do Islão. As correspondentes 18 figuras chave do Islão Xiita são o Profeta do Islão, Maomé; o Seu genro, Ali; a Sua filha, Fátima; 11 Imams da Sagrada Família; e quatro representantes do Imam Oculto ou os quatro anjos responsáveis pela criação, subsistência, morte e existência.

O Báb também deixou claro que as Letras dos Viventes tinham influência espiritual enquanto estivessem voltados para o Sol da Verdade, mas que perderiam esse poder quando se afastassem. Nem todos permaneceram leais ao Báb. Estar mais próximo do Manifestante de Deus também significa estar exposto a testes mais severos. Por exemplo, Mirza Hadi, uma das Letras dos Viventes, distanciou-se dos Bábis e acabou por se tornar um infiel.

A maioria das Letras dos Viventes permaneceu na vanguarda da Dispensação Babi e temos muito a aprender com a sua dedicação. O Bab usava a palavra “letra” para se referir a todos os Seus crentes, e não apenas os 18. Ele apelava a toda a humanidade para que se juntasse a uma nova civilização, uma forma revitalizada de pensar – um estado de espírito vivo a que todos podemos aspirar:
Quem actua em conformidade com o que ali [no Bayan] está revelado, viverá no Paraíso, na sombra da Sua afirmação e será contado entre as mais sublimes Letras na presença de Deus. [2]

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NOTAS 
[1] - https://en.wikipedia.org/wiki/Shaykhism
[2] - Selections from the Writings of the Bab, pag. 102

Texto original: Who Were the Letters of the Living? (www.bahaiblog.net)

sábado, 2 de novembro de 2019

Como as Leis do Báb afectam a actual vida Bahá’í

Por Christopher Buck.


Os conselhos e as leis apresentados nas Escrituras Bahá’ís moldam a vida Bahá’í. Isto inclui não só as convicções, mas também actos e práticas, especialmente na forma de leis espirituais.

A maioria das leis Bahá’ís foram expostas por Bahá’u’lláh no Seu Livro Mais Sagrado. Mas sabiam que existem várias leis Bahá’ís que já existiam como leis do Báb, sendo anteriores ao advento de Bahá’u’lláh?

Claro que Bahá’u’lláh foi discreto na adopção e adaptação das leis do Báb para os Bahá’ís de hoje, tal como Ele próprio explicou:
O nosso Exaltado arauto [o Báb] – que a vida de todos salvo Ele seja oferecida por Sua causa – revelou certas leis. No entanto, no domínio da Sua Revelação estas leis estavam sujeitas à Nossa sanção, e por isso este Injustiçado colocou algumas em vigor ao incorporá-las [no Livro Mais Sagrado] com palavras diferentes. Outras colocámo-las de parte. Ele tem a autoridade na Sua mão. Ele faz o que deseja e ordena o que Lhe agrada. Ele é o Omnipotente, o Todo-Louvado. Também existem preceitos recém-revelados. Bem-aventurados os que os conseguem. Bem-aventurados os que observam os Seus preceitos. (Tablets of Bahá’u’lláh, p. 132)
Vejamos então alguns exemplos de leis Bahá’ís cujas origens estão no Bayan persa e noutros ensinamentos do Báb. Cada uma das “notas” explicativas abaixo são citações de traduções autorizadas e comentários ao Livro Mais Sagrado, precedidos pela lei original de Bahá’u’lláh em letras maiúsculas.

Calendário Bahá’í
Nota 147. O NÚMERO DE MESES NUM ANO, DETERMINADO NO LIVRO DE DEUS, É DEZANOVE: O ano Bahá’í, de acordo com o calendário Badi [do Báb], consiste em dezanove meses de dezanove dias cada, acrescido de alguns dias intercalares (quatro em anos normais, cinco em anos bissextos) entre o décimo-oitavo e o décimo-nono mês para ajustar o calendário ao ano solar. O Báb deu aos meses nomes de alguns atributos de Deus. O ano novo Bahá’í (o Naw-Ruz) é astronomicamente fixo e coincide com o equinócio da primavera. (The Most Holy Book, p. 228)

Festa de Dezanove Dias
Nota 82. NA VERDADE, É-VOS ORDENADO QUE OFERECEIS UMA FESTA, UMA VEZ EM CADA MÊS: Esta determinação tornou-se a base para a realização das festividades Bahá’ís mensais, e como tal constitui a ordenação da Festa de Dezanove Dias. No Bayan árabe o Báb apela aos Seus seguidores que se reúnam uma vez em cada dezanove dias para mostrar hospitalidade e camaradagem. Aqui Bahá’u’lláh confirma isto e salienta do papel unificador dessas ocasiões. (Ibid., p. 202)

O Jejum de Dezanove Dias
Nota 26. E NO SEU FINAL DESIGNÁMOS O NAW-RUZ COMO UMA FESTA. O Báb introduziu um novo calendário conhecido como Calendário Badi ou calendário Baha’i. Segundo este calendário, o dia é o período de decorre entre o nascer e o pôr-do-sol. No Bayan, o Bab decretou que o Mês de Ala fosse o mês do jejum, ordenando que o dia do Naw-Ruz assinalasse o término desse período, e designando o Naw-Ruz como Dia de Deus. Bahá’u’lláh confirmou o calendário Badi onde o Naw-Ruz é designado como uma festa. O Naw-Ruz é o primeiro dia do ano novo. Coincide com o equinócio de primavera no hemisfério norte, que geralmente ocorre a 21 de Março. (Ibid., p. 177)

Oração Bahá’í pelos Mortos
Nota 11. SEIS EXCERTOS ESPECÍFICOS FORAM ENVIADOS POR DEUS, O REVELADOR DE VERSÍCULOS: As frases que fazem parte da Oração [Bahá’í] pelos Mortos contêm seis repetições da saudação “Alláh’u’Abhá” (Deus é o Todo-Glorioso), cada uma seguida por dezanove repetições de cada um dos versículos especificamente revelados. Estes versículos são idênticos aos revelados pelo Báb na Oração pelos Mortos, no Bayan. Bahá’u’lláh acrescentou súplica que precede estas frases. (Ibid., p. 170)

Proibição do Uso de Púlpitos
Nota 168. É-VOS PROIBIDO FAZER USO DE PÚLPITOS...: Estas disposições têm o seu antecedente no Bayan persa. O Báb proibiu o uso de púlpitos para proferir sermões ou ler o Texto. Em vez disso, Ele especificou que, para permitir que todos ouvissem claramente a palavra de Deus, a cadeira do orador devia ser colocada sobre uma plataforma. (Ibid., p. 237)

A lei Bahá’í que teve origem no Báb, também alude ao facto dos Bahá’ís não terem clero e, portanto, não elevam nenhum crente em particular acima de outro.

Esta lista de leis Bahá’ís baseadas em leis anteriores reveladas pelo Báb não é exaustiva. Sabemos que o falecido Dr. Ahang Rabbani identificou trinta e duas leis do Báb que se reflectem no Livro Mais Sagrado.

Esta pequena lista mostra a influência das leis do Báb nas leis Bahá’ís contemporâneas. Bahá’u’lláh descreveu, com uma metáfora primorosa, o significado espiritual e social de todas as leis que Ele promulgou:
Não penseis que vos revelámos um mero código de leis. Pelo contrário, abrimos o Vinho escolhido com os dedos do poder e do domínio. Disto dá testemunho aquilo que a Pena da Revelação revelou. Meditai nisto, ó homens de discernimento! (Ibid., p. 21)

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Texto original: How the Bab’s Laws Affect Modern Baha’i Life (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.