sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Se Obama fosse Papa

Ruth Gledhill publicou hoje no seu blog a tradução de um artigo intitulado “If Obama were Pope” do professor Hans Kung. Trata-se de um texto onde se levantam questões muito pertinentes e se fazem comparações certeiras. Deixo aqui a tradução desse artigo na esperança que possa servir de debate e reflexão.
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Se Obama fosse Papa
pelo professor Hans Kung


O Presidente Barack Obama conseguiu num curto período de tempo retirar os Estados Unidos de um ambiente desânimo e apoiar reformas, apresentando uma visão credível de esperança e introduzindo uma mudança estratégica na política interna e externa deste grande país.

Na Igreja Católica as coisas são diferentes. O ambiente é opressivo, a pilha de reformas é paralisante. Após quase quatro anos no cargo, muitas pessoas vêem o Papa Bento XVI como outro George W. Bush. Não foi nenhuma coincidência que o Papa celebrasse o seu 81º aniversário na Casa Branca. Bush e Ratzinger não conseguem aprender nada em matérias de controlo de natalidade e aborto, não são propensos a realizar quaisquer reformas sérias, arrogantes e sem transparência na forma como exercem os seus cargos restringindo liberdades e direitos humanos.

Tal como Bush no seu tempo, o Papa Bento também sofre de uma crescente falta de confiança. Muitos católicos já não esperam nada dele. Pior ainda, com a retirada da excomunhão a quatro bispos tradicionalistas que consagravam ilegalmente, incluindo um que notoriamente nega o Holocausto, Ratzinger confirmou todos os receios que se levantaram quando foi eleito Papa. O Papa favorece pessoas que ainda rejeitam a liberdade de religião afirmada pelo Vaticano II, o diálogo com outras igrejas, a reconciliação com o Judaísmo, uma elevada estima pelo Islão e outras religiões mundiais e a reforma da liturgia.

Com o objectivo de promover a “reconciliação” com um pequeno grupo de tradicionalistas arqui-reaccionários, o Papa arrisca perder a confiança de milhões de Católicos em todo o mundo que continuam a ser leais ao Vaticano II. Por ser um Papa alemão que está a dar passos errados, acentua o conflito. As desculpas após o evento não conseguem juntar as peças.

O Papa teria um trabalho mais fácil do que o Presidente dos Estados Unidos ao adoptar uma mudança de rumo. Não tem ao seu lado nenhum Congresso como corpo legislativo, nem um Supremo Tribunal como magistratura. É chefe absoluto do Governo, legislador e juiz supremo na Igreja. Se quisesse, poderia autorizar imediatamente a contracepção, permitir o casamento dos padres, tornar possível a ordenação de mulheres e permitir a eucaristia partilhada com as Igrejas Protestantes. O que faria um Papa se agisse no espírito de Obama?

Claramente, tal como Obama, ele
  1. afirmaria claramente que a Igreja Católica está numa crise profunda e identificaria a origem do problema: muitas congregações sem padres, ainda insuficiente número de novos recrutas para o sacerdócio, e um colapso oculto de estruturas pastorais como consequência de fusões impopulares de paróquias, um colapso que frequentemente se desenvolveu ao longo de séculos;
  2. proclamaria a visão da esperança de uma Igreja renovada, um ecumenismo revitalizado, entendimento com os Judeus, Muçulmanos e outras religiões mundiais e uma avaliação positiva da ciência moderna;
  3. reuniria ao seu redor os colegas os mais competentes, e não os “yes-men” mas mentes independentes, apoiados por peritos competentes e destemidos;
  4. iniciaria imediatamente as medidas reformadoras mais importantes por decreto (“ordem executiva”); e
  5. convocaria um concílio ecuménico para promover a mudança de rumo.
Mas que contraste deprimente:

Enquanto o Presidente Obama, com o apoio do mundo inteiro, olha para a frente e está aberto às pessoas e ao futuro, este Papa encaminha-se o mais para trás possível, inspirado por um ideal de igreja medieval, céptico sobre a Reforma, ambígua sobre os direitos modernos de liberdade.

Enquanto o Presidente Obama se preocupa com uma nova cooperação com parceiros e aliados, o Papa Bento XVI, tal George W. Bush, está preso num raciocínio em termos de amigo e inimigo. Despreza os companheiros cristãos nas Igrejas Protestantes ao recusar reconhecer estas comunidades como Igrejas. O diálogo com os Muçulmanos não foi mais além do que uma mera confissão verbal de “diálogo”. As relações com o Judaísmo dizem-se profundamente danificadas.

Enquanto o Presidente Obama irradia a esperança, promove actividades cívicas e apela a uma nova “era de responsabilidade”, o Papa Bento XVI está encarcerado nos seus medos e quer limitar a liberdade humana tanto quanto possível, com o propósito de restabelecer uma “era de restauração”.

Enquanto o Presidente Obama se lançou na ofensiva usando a Constituição e a grande tradição do seu país como base para passos corajosos na reforma, o Papa Bento interpreta em direcção contrária os decretos do Concílio da Reforma de 1962, tendo em mente o Concílio conservador de 1870.

Mas porque, com toda a probabilidade, o Papa Bento XVI não será nenhum Obama, para o futuro imediato precisamos:

Primeiro: um episcopado que não oculte os problemas manifestos da Igreja mas mencione-os abertamente e aborde-os de forma enérgica a nível diocesano;

Segundo: teólogos que colaborem activamente numa visão futura da nossa Igreja e não tenham receio de falar e escrever a verdade;

Terceiro: pastores que opor as cargas excessivas impor constantemente pela fusão de muitas paróquias e que tomam corajosamente a responsabilidade como pastores;

Quarto: em particular as mulheres, sem as quais muitas paróquias entrariam em colapso, que com confiança empregam as possibilidades da sua influência.

Mas podemos nós realmente fazer isto? Sim, conseguimos.

Miguel Torga



Miguel Torga (que se dizia não crente) escreveu no volume 14 do Diário: «Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de O negar, mas nunca a força de O esquecer».

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Seis Bahá’ís e um Cristão presos no Irão

Segundo a AFP, um porta-voz do Ministério da Justiça do Irão anunciou hoje a detenção de seis baha’is e um cristão por alegada propaganda contra a República islâmica e insulto aos Islão.

"Estas pessoas não foram presas pela sua fé. Os seis Baha’is são acusados de insultar as santidades religiosas e o cidadão cristão é acusado de propaganda contra o sistema", afirmou Ali Reza Jamshidi aos repórteres. Acrescentou que os detidos estão a ser investigados, escusando-se a revelar as suas identidades e quando ocorreram as detenções.

Jinous Sobhani, a antiga secretária da Organização de Direitos da laureada Nobel Shirin Ebadi também é acusada de "propaganda contra o sistema e actos contra a segurança nacional", disse Jamshidi. A agência FARS revelou que Sobhani foi detida em meados de Janeiro por ligações à organização Baha’i.

A volta ao Mundo em 80 Fés

A BBC está a exibir um documentário intitulado “Around the World in 80 Faiths“. O apresentador e um vigário anglicano chamado Peter Owen Jones que visita diversos continentes para investigar as religiões crenças e tradições que caracterizam e expressam a natureza espiritual do ser humano.

No episódio nº 4, ele viaja até ao Médio Oriente para explorar as raízes das religiões em conflito na região. E curiosamente conclui o episódio a proclamar a Fé Bahá'í como uma mensagem de esperança e unidade. No final do episódio, o apresentador não resiste a um desabafo: "Espero que isto seja o futuro".

Apesar de uma pequenas incorrecções factuais, vale a pena ver este pequeno vídeo referente a esse episódio (começa no minuto 5:30)



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Fonte: Baha'i Perspectives

domingo, 25 de janeiro de 2009

Detenções e rusgas no Irão



A organização International Campaign for Human Rights in Iran afirmou a sua profunda preocupação pela situação do maior grupo religioso minoritário no Irão. Os Membros da Fé Bahá'í têm sido atingidos com uma frequência alarmante nos meses recentes, existindo um total de 36 bahá'ís que se encontram detidos nas prisões iranianas.

"A contínua hostilização de membros da comunidade Bahá'í é um indicador de um objectivo mais amplo de supressão de direitos humanos individuais por parte do Governo Iraniano. Todos os Baha’is detidos e presos não cometeram qualquer crime", afirmou Hadi Ghaemi, porta-voz da organização.

Na manhã de 14 Janeiro 2009, agentes do Ministério da Segurança invadiram as residências de 12 Bahá'ís em Teerão. Os agentes confiscaram livros, materiais, e fotografias relacionados com a Fé Bahá'í, assim como computadores e CDs. Os agentes prenderam Shahrokh Taef, Jinous Sobhani, Didar Raoufi, Aziz Samandari e Payam Aghsani. Actualmente encontram-se detidos e incomunicáveis na prisão de Evin. As suas famílias reuniram-se com a presidente do tribunal mas foi-lhes impossível visitar os seus parentes.

Estas recentes detenções surgem na sequência de rusgas a outras 20 residências Bahá’ís em Semnan, em 15 de Dezembro 2008. Uma outra rusga a uma residência Baha'i em Yazd teve lugar no dia 11 de Dezembro. Três Baha'is foram presos em Ghaemshahr, Mazindaran, na semana de 18 de Novembro 2008, e um deles, Sr. Masou Ataiyan ainda se encontra detido. Em Outubro, o Sr. Ziaollah Allahverdi e a sua esposa Sonia Tebyani foram presos em Behshahr, Mazandaran. Outras detenções rusgas tiveram ocorreram em Agosto, em Mehrian.

Entre os muitos exemplos de detenções de Bahá'ís, a mais importante foi a do grupo de sete dirigentes Baha'is que estão na prisão há mais de sete meses. Estas sete pessoas não têm tido qualquer assistência legal ou jurídica; é-lhes permitido receber visitas de familiares apenas duas vezes por mês; essas visitas duram poucos minutos e decorrem sempre na presença dos guardas da prisão. Os cinco homens estão detidos na mesma cela, com uma área de pouco mais de 10 metros quadrados e nenhuma cama. A ordem da detenção do grupo de sete membros foi prolongada oficialmente por mais dois meses no passado dia 26 de Novembro 2008.

"A comunidade internacional deve condenar fortemente a perseguição de grupos religiosos minoritários no Irão. O Governo não mostra nenhum sinal de abrandamento na sua hostilização e perseguição aos Baha'is", afirmou Ghaemi.

Após a Revolução Islâmica em 1979, a hostilização de da comunidade Bahá’í de Irão subiu para níveis perigosos, tendo membros do seu órgão directivo nacional sido sequestrados e executados. Muitos outros Bahá'ís, por todo o Irão, tem sido executados desde então e a situação actual tem fortes semelhanças com esses casos.

Os actos do Governo Iraniano são uma violação dos padrões internacionais de direitos humanos e de liberdade religiosa e a organização apela ao governo iraniano para pôr termo à sua campanha da perseguição contra a Comunidade de Baha'i do Irão.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Luís Salgado de Matos: Estado e Religiões

Excertos de uma intervenção do Prof. Luís Salgado de Matos num colóquio organizado pelo Centro de Reflexão Cristã dedicado ao tema «Estado e Religiões: Liberdade, Autonomia e Laicidade».
O colóquio teve lugar nas instalações do Centro Nacional de Cultura, em Lisboa.





quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sousa e Brito: Estado e Religiões

Excertos de uma intervenção do Prof. José Sousa e Brito num colóquio organizado pelo Centro de Reflexão Cristã dedicado ao tema «Estado e Religiões: Liberdade, Autonomia e Laicidade».
O colóquio teve lugar nas instalações do Centro Nacional de Cultura, em Lisboa.



terça-feira, 20 de janeiro de 2009

44 Presidents of the United States



Another prayer I would like to hear at Obama's inauguration:

O Thou kind Lord! This gathering is turning to Thee. These hearts are radiant with Thy love. These minds and spirits are exhilarated by the message of Thy glad-tidings. O God! Let this American democracy become glorious in spiritual degrees even as it has aspired to material degrees, and render this just government victorious. Confirm this revered nation to upraise the standard of the oneness of humanity, to promulgate the Most Great Peace, to become thereby most glorious and praiseworthy among all the nations of the world. O God! This American nation is worthy of Thy favors and is deserving of Thy mercy. Make it precious and near to Thee through Thy bounty and bestowal.

‘Abdu'l-Bahá

Se eu fosse convidado...



É hoje que Barack Obama toma posse como Presidente dos Estados Unidos da América. Na cerimónia de inauguração estarão diversos convidados distintos, personalidades conhecidas da política, das artes e da religião. Entre as individualidades conhecidas ligadas às diversas comunidades religiosas dos Estados Unidos destacam-se um bispo episcopal gay, a presidente da Islamic Society of North America (que é uma mulher!), três rabis, o pastor de uma Mega-Igreja...

O meu amigo Phillipe Copeland pergunta-nos: se estivéssemos na cerimónia de inauguração que oração escolheríamos? A minha escolha seria uma oração revelada pelo Báb:
Glorificado és Tu, ó Senhor meu Deus!
És, em verdade, o Rei dos Reis.
Conferes soberania a quem quer que desejes e dela privas qualquer um que Tu queiras.
Exaltas a quem quer que desejes e rebaixas qualquer um que Tu queiras.
Tornas vitorioso quem quer que desejes e humilhas qualquer um que Tu queiras.
Concedes riqueza a quem quer que desejes e reduzes à pobreza qualquer um que Tu queiras.
Fazes que quem quer que desejes prevaleça sobre qualquer um que Tu queiras.
Em Tuas mãos seguras o império de todas as coisas criadas, e através da potência de Teu mandamento soberano chamas à existência quem quer que Tu desejes.
Em verdade, Tu és o Omnisciente, o Omnipotente, o Senhor de Poder.
Uma das formas como os bahá'ís descrevem a situação actual do mundo é dizer que se encontram em actividades dois processos: um de desintegração (da velha ordem mundial) e outro de integração (de uma nova ordem mundial). Olhando para os agentes políticos mundiais facilmente consigo identificar aqueles que contribuem para a desintegração do mundo e os que contribuem para um mundo melhor. A minha oração escolhida para a inauguração da Presidência de Barack Obama não é pelo seu sucesso pessoal ou político; é para que o seu trabalho o leve a ser recordado um dia como um homem que conseguiu dar um contributo para um mundo melhor. Nesse aspecto, todos os políticos eleitos merecem uma oração.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O acordo entre o Brasil e a Santa Sé

Programa Observatório da Imprensa emitido pela TV Brasil e pela TV Cultura (S. Paulo) emitido no dia 25 de Novembro de 2008.

Neste programa debateu-se a a cobertura dos meios de comunicação sobre o acordo assinado no dia 13 de Novembro entre o Governo Brasileiro e a Santa Sé, assinado durante a visita do Presidente Lula ao Vaticano. Os media deram pouca atenção a este facto. O tratado, que confere formato jurídico às relações entre o Executivo Brasileiro e a Igreja Católica, tem pontos polémicos.

O tratado prevê, por exemplo, o ensino religioso nas escolas públicas, com presença facultativa, e a possibilidade da anulação do casamento civil no caso do matrimónio religioso ser desfeito. Participaram no debate ao vivo, no estúdio do Rio de Janeiro, o Reverendo Guilhermino Silva da Cunha, pastor da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro, e a pesquisadora e professora da USP Roseli Fischmann. Em Brasília, participou o representante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Hugo Sarubbi Cysneiros.

O 3º vídeo faz referência às semelhanças entre este Tratado e a Concordata celebrada com o Estado Português em 2004. No 5º vídeo faz comparações entre o catolicismo brasileiro e os catolicismos português e argentino.










sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Fundamentalismo à solta!



Pelo menos seis Bahá'ís foram detidos ontem (15 de Janeiro) no Irão. As detenções ocorreram na sequência de rusgas a mais de uma dezena de residências de famílias Bahá'ís, nas quais foi foram confiscados computadores, fotos e diversos livros Baha’is.

Entre os detidos encontra-se a Sra Jinous Sobhani, que trabalhou como assistente para a Organização de Defesa de Vitimas de Minas e para o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, organizações fundadas por Shirin Ebadi.

Numa entrevista à CNN, a Sra Ebadi afirmou que Jinous Sobhani tinha sido dispensada das duas organizações após as rusgas que os agentes da autoridade efectuaram aos escritórios de Shirin Ebadi e terem encerrado os mesmos

"A detenção destas pessoas reflecte, não apenas a grave situação que os Baha’is enfrentam no Irão, mas também a situação geral dos direitos humanos naquele país", afirmou Diane Ali, a representante da Comunidade Internacional Baha’i junto das Nações Unidas em Genebra. "Tanto quanto sabemos estas pessoas foram detidas, principalmente, por serem baha’is".

Entretanto, outras fontes noticiaram a detenção de oito mulheres Baha’is na ilha de Kish, no golfo Pérsico. Essas mulheres teriam sido detidas sob a acusação de proselitismo Bahá’í, distribuição de literatura baha’is e tentativa de sedução de jovens muçulmanos.

E como se isto não fosse pouco, activistas de Direitos Humanos noticiaram que nove estudantes bahá'ís foram expulsos da Universidade de Kerman.



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Fontes:
Six Baha'is arrested in Iran; one worked for Shirin Ebadi's rights organizations (BWNS)
Iranian authorities arrest Nobel laureate’s secretary (CNN)
Iran Arrests Five Members Of Baha'i Faith (Radio Free Europe)
IRAN: Arrest of Ms. Jinus Sobhani, a member of the Defenders of Human Rights Centre (Payvand)
Irán: laureada con el Nobel denuncia arresto de ex secretaria (Yahoo! – AP)
Baha'i : Mensenrechten-activiste aangehouden in Iran (Politics.be)
Iran laureate says her former secretary detained (Taiwan News)
Eight Baha’i women arrested in Iran (IranVNC)
Iranian media report Baha'i missionary arrests (CNN)

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (9)



No livro "O Mundo Pós Americano", Fareed Zakaria chama a atenção para a diversidade religiosa do nosso planeta, assim como para as metamorfoses da demografia das religiões, e o inevitável contacto entre estas:

É claro que nenhuma civilização se desenvolve numa caixa hermeticamente fechada. Mesmo no que diz respeito à religião e à visão do mundo, os países têm bases mistas, com elementos locais sobrepostos a influências externas. Por exemplo, a Índia é um país hindu que foi dominado durante quatrocentos anos por dinastias muçulmanas e depois por uma potência protestante. A China não teve a experiência de domínio externo directo, mas o seu fundo confuciano foi brutalmente reprimido durante quarenta anos pela ideologia comunista. O Japão adoptou muitos estilos e conceitos americanos durante o último século. A África tem as suas tradições antigas, mas é também o continente com maior população cristã e a que está a aumentar mais rapidamente. Na América Latina, as igrejas continuam a ser vitais para a vida de cada país de uma forma inimaginável na Europa. Ouvimos falar de evangelismo protestante nos Estados Unidos, mas é no Brasil e na Coreia do Sul que ele está a crescer mais depressa. Se os valores cristãos estão no centro das tradições ocidentais, então como devemos caracterizar um país como a África do Sul, com mais de sete mil confissões cristãs? Ou a Nigéria, onde há mais anglicanos do que em Inglaterra?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Casamentos inter-religiosos ou inter-culturais ?

Sobre as declarações polémicas do Cardeal Patriarca de Lisboa, aqui ficam os vídeos ilustrativos do que se passou.





Penso que há um grande equívoco nas declarações do Cardeal Patriarca. Diria que existe muito mais tensão nos casamentos inter-culturais do que nos casamentos inter-religiosos. Conheço alguns casais em que apenas um dos cônjuges é muçulmano, e nunca percebi que a religião fosse motivo de discórdia entre eles. E também conheço diversos casais cujos conjugues possuem a mesma religião, mas provêm de culturas diferentes, e entre eles são muitas as coisas que provocam dificuldades e atritos entre os dois.

Mas se houve uma gaffe nas palavras do Cardeal, foi quando ele deu a entender que os muçulmanos que vivem em Portugal são todos emigrantes (“... a primeira vez que vá ao país dele...”). Na verdade, existem imensos muçulmanos portugueses, cujas famílias oriundas de Moçambique ou da Guiné, há muito se encontram em Portugal, e estão totalmente integrados na sociedade portuguesa. Alguns deles até combateram com o Exército português durante a guerra do colonial. Serão menos portugueses só porque são muçulmanos?

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A coisa teve eco na imprensa internacional:
Portuguese cardinal warns about Muslim marriages (IHT)
Cardenal de Portugal aconseja mujeres no casarse con musulmanes (Reuters)
Se marier à un musulman: "un tas d'ennuis", selon le cardinal de Lisbonne (La Croix)

O Mundo Otomano, no olhar de Eça de Queirós

Quando um Bahá’í português fala da sua religião, é inevitável que faça mencione a referência de Eça de Queirós ao Báb no livro «A Correspondência de Fradique Mendes». É natural que assim seja. Afinal, trata-se de um dos grandes nome da literatura portuguesa referindo as origens da nossa religião, pouco depois desta ter surgido em meados do século XIX na Pérsia.

Estranhamente, as referências que os Bahá’ís fazem a Eça de Queirós, esgotam-se nessa longa citação. Será que não há nada mais nos textos do autor português que seja relevante para a Fé Bahá’í?

Eça esteve no Egipto em 1869 e 1870, tendo assistido à inauguração do Canal do Suez. As suas impressões dessa viagem foram registadas e publicadas postumamente pelo seu filho num volume intitulado "O Egipto". Outras obras e personagens reflectem o interesse de Eça pelo Médio Oriente: “A Relíquia” possuiu uma narração de uma viagem do protagonista - Teodorico Raposo - à Terra Santa. E o cosmopolita Fradique Mendes não é imune a influências orientais.

"As Cartas de Inglaterra" (publicadas na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, entre 1880 a 1896) e as "Crónicas de Londres" (publicadas no jornal portuense A Actualidade”, entre 1877 a 1878) reúnem um conjunto de análises sobre a vida inglesa e vários comentários sobre acontecimentos internacionais. Nestes textos são particularmente interessantes as descrições da guerra Russo-Turca (1877-1878) e a Crise no Egipto (que culmina com o bombardeamento de Alexandria, 1882).

Constantinopla, sec. XIX

Nas vésperas do conflito militar com a Rússia, Eça descreve o Império Otomano com as seguintes palavras:
Há um ano que a Sublime Porta vive num estado de humilhação permanente. A Europa tem-na tratado como um seu subalterno dependente e inconsciente: impõe-lhe constituições, governa as suas finanças, discute a sua administração, usa da sua capital como de uma sala de hotel para instalar conferências, manda comissões impertinentes investigar os seus massacres domésticos, dá razão às províncias que se insurreccionam, força-a a constantes renovações do funcionalismo, censura as suas despesas, decide nos seus tribunais, obriga-a a nomear um parlamento, repreende-a, diz-lhe «chut!», desacredita-a, ralha-lhe, ameaça-a, não admite que ela tenha um espírito de raça, uma tradição histórica, uma necessidade religiosa e trata-a absolutamente como se ela fosse uma povoação de negros perdida no Sul da África.

Esta situação não podia durar. O Turco é inteligente, orgulhoso, bravo, teimoso, fanático; um dia viria em que, enfastiado de ver em roda de si tantos pedagogos a querer dirigi-lo e tantos ferrabrases a franzirem-lhe a testa – devia necessariamente dar dois passos a trás e meter a espingarda à cara.

Foi o que sucedeu.
Em 1882, após diversas pressões exercidas pela Inglaterra e França sobre o Egipto, ocorrem motins na cidade de Alexandria onde são mortos dezenas de Europeus. Em resposta, a frota britânica bombardeou a cidade, sob o pretexto de impedir que os egípcios reforçassem umas fortificações portuárias. Após o bombardeamento, deflagraram fogos na cidade, e durante vários dias reinou o caos.

Bombardeamento de Alexandria, 1882

Eça foi profundamente irónico ao descrever o comportamento dos ingleses e não escondeu o seu choque pelo sucedido:
Hoje, à hora em que escrevo, Alexandria é apenas um imenso montão de ruínas. Do bairro europeu, da famosa Praça dos Cônsules, dos hotéis, dos bancos, dos escritórios das companhias, dos cafés-lupanares resta apenas um confuso entulho sobre o solo, e aqui e além uma parede enegrecida que se vai aluindo.

Pela quarta vez na história, Alexandria deixou de existir.
Estes são apenas duas das muitas referências que Eça de Queirós faz ao mundo Otomano do final Séc. XIX e aos seus problemas com as potências europeias. O Império era acossado a norte pela Rússia, a sul pela Inglaterra e a oeste pelos austrohúngaros. A isto somavam-se as tensões inevitáveis que existiam num império multi-étnico e culturalmente diversificado.

Era este o contexto de tensão política e social em que Bahá'u'lláh, e o pequeno grupo de exilados que O acompanhavam, viveram durante os exílios em Adrianoplolis e Akká. E é exactamente para nos ajudar a perceber um pouco desse contexto, que o livro “Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres” merece uma leitura atenta por parte dos Bahá’ís que falam português.

domingo, 11 de janeiro de 2009

A Fé Bahá’í e a questão da Palestina

O actual conflito militar em Gaza e no sul de Israel tem suscitado todo o tipo de análises e comentários apaixonados. Abundam os que vêem este conflito como uma luta David contra Golias, os que invocam um qualquer direito divino e/ou histórico como justificação para diversos actos, os que descrevem o conflito apenas com expressões do tipo "terrorismo" e "colonialismo" e os condenam apenas uma das partes e abertamente toma partido por outra. Infelizmente, é raro encontrar opiniões racionais e equilibradas sobre este assunto.

Para os que me convidam a tomar partido ou expressar uma opinião, deixo aqui uma tradução de excertos de uma carta (datada de 09 de Julho de 1947) de Shoghi Effendi, em resposta ao Presidente do Comité Especial das Nações Unidas para a Palestina, que lhe solicitava um esclarecimento sobre a relação da Fé Bahá’í com a Palestina e a atitude Baha’i face a qualquer alteração futura no estatuto do país.
"A posição Bahá’í em relação a este país, em certa medida, é única: se por um lado Jerusalém é o centro espiritual da Cristandade, não é o centro administrativo nem da Igreja de Roma, nem de qualquer outra denominação cristã. De igual modo, apesar de ser vista como o segundo santuário mais sagrado do Islão, o local mais sagrado da Fé de Maomé e centro das suas peregrinações encontra-se na Arábia, e não na Palestina. Apenas os Judeus apresentam algum paralelismo no apego que os Bahá’ís têm por este país, pois Jerusalém contém os restos do seu Templo Sagrado, e foi sede tanto das suas instituições políticas como religiosas associadas à sua história passada. Mas mesmo o seu caso difere dos Bahá’ís num aspecto, pois é no solo da Palestina que as três Figuras centrais da nossa Religião estão sepultadas, e não é apenas centro de peregrinações Bahá’ís provenientes de todo o mundo, mas também sede permanente da Ordem Administrativa que eu tenho a honra de chefiar.

A Fé Bahá’í é inteiramente não-política e nós não tomamos posição na actual trágica disputa sobre o futuro da Terra Santa e seu povo, nem temos qualquer declaração a fazer, nem conselho a dar sobre qual deve ser a futura natureza política deste país. O nosso propósito é o estabelecimento da paz universal neste mundo e o nosso desejo é que a justiça prevaleça em todos os domínios da sociedade humana, incluindo o domínio da política. Como os aderentes da nossa Fé são tanto de origem Judaica como Muçulmana, não temos preconceitos contra qualquer destes grupos e ansiamos pela sua reconciliação para seu bem comum e para bem do país.

O que nos preocupa, porém, em qualquer decisão que possa afectar o futuro da Palestina, é o facto de ser reconhecido, por quem quer que exerça soberania sobre Haifa e Acre, que nesta área existe um centro mundial administrativo e espiritual de uma Fé mundial, e que a independência dessa Fé, o seu direito a gerir os seus assuntos a partir desta fonte, o direito dos Bahá’ís de todo e qualquer país do globo a visitar como peregrino (neste aspecto, gozando o mesmo privilégio que Judeus, Muçulmanos e Cristãos usufruem ao visitar Jerusalém), sejam reconhecidos e permanentemente salvaguardados."
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FONTE: Letter to the United Nations Special Committee on Palestine (BIC-UN)

sábado, 10 de janeiro de 2009

Quem tem medo da BBC?

No próxima semana terão início as emissões de um novo cana de TV britânico: a BBC Persian TV. Estes canal será emitido em língua persa para o Irão, Afeganistão e Tadjiquistão; estará disponível para os milhões de pessoas que possuem antena parabólica. Os seus rivais serão os canais de TV iranianos (rigorosamente controlados pelo Governo), a Voz da América e diversos canais pouco conhecidos cuja programação alterna entre a propaganda anti-governamental e variedades.

As autoridades iranianas apressaram-se a descrever o canal como “suspeito e ilegal” e acrescentando que “trabalha contra os interesses da República Islâmica”. A agência IRNA advertiu que a BBC está a recrutar iranianos para trabalho de “espionagem e guerra psicológica”. Em Teerão o embaixador britânico tem sido acusado de fomentar uma “revolução de veludo” e os funcionários locais da BBC têm sido vigiados e hostilizados pela polícia secreta. E para compor o ramalhete, os Guardas da Revolução aconselham a população a evitar o canal e advertem que este tem ligações a membros da Comunidade Bahá’í.

Este tipo de acusações mostra o óbvio: o actual regime iraniano tem medo da liberdade de imprensa. Um dos editores da BBC Persian TV não tem dúvidas: "A reacção em Teerão é de desespero pois não consegue impedir o fluxo livre de informação. Não é surpreendente. O governo tem encerrado jornais, websites, detido jornalistas e bloggers. Estão a tentar manter o Irão como numa sociedade fechada".

A BBC não obteve autorização para abrir um escritório em Teerão (apenas têm um correspondente local), e isso condiciona o acesso a imagens e reportagens em directo. Mas mesmo assim, um especialista sobre Media iranianos afirma: "A BBC Persian TV, potencialmente, pode ser um inimigo poderoso do Estado Iraniano se conseguir apresentar informação e análises precisas e objectivas".

O bloqueio das emissões não se afigura como uma opção realista por parte das autoridades; no passado os Guardas da Revolução usaram equipamento cubano para bloquear as emissões de TV estrangeiras mas não tiveram grande sucesso.


Video Promocional da BBC Persian TV

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Sobre este assunto:
BBC to launch TV channel for Iran (BBC)
Iran's fear of prying eyes: BBC accused of hiring spies to work for Farsi TV channel on the eve of its launch (The Guardian)
BBC to launch Farsi language television (AFP)
IRAN: Authorities upset about BBC Persian channel (LA Times)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Prisioneiros Bahá'ís castigados por não participar em cerimónias Xiitas



As notícias sobre os Bahá’ís no Irão raramente são boas. É algo a que nos habituámos desde que a Fé Bahá’í nasceu. Nos últimos anos tem-se acentuado este tipo de notícias, onde o preconceito, o vandalismo, a brutalidade e o ódio já não surpreendem. A única coisa que me surpreende mesmo é o nível de maldade, tão próximo da insanidade mental

Hoje, através da Muslim Network do Baha'i Rights, descobri um relatório de uma organização chamada Human Rights Activists in Iran que dá conta de um caso verdadeiramente absurdo recentemente ocorrido no Irão.

Em Abril de 2008, dois Baha’is da cidade iraniana de Sari - Fuad Na’imi e Faizollah Roshan - foram detidos por foram levados para a prisão da cidade por agentes do Departamento de Segurança da província de Mazandaran, que os acusaram de serem “membros de um grupo de khademin” (uma comissão ad hoc de baha’is existente em cada cidade que organiza os encontros espirituais baha’is), e “actividades contra a segurança nacional”. Posteriormente, o tribunal condenou-os a penas de prisão e exílio da cidade.

O início do mês de Muharram (Dezembro 2008) foi assinalado com várias festividades no mundo Xiita que celebram o martírio de Ali, o neto do Profeta Maomé. Antes das celebrações, o Director da prisão de Sari pressionou-os a participar nestas cerimónias. Após se recusarem, o Director ordenou que lhes rapassem o cabelo e que fossem transferidos para o Sector 8, que é designada como a zona do castigo. Neste Sector, os prisioneiros estão impedidos de usar telefone, não podem receber visitas, nem podem gozar saídas temporárias.

E para que não se pense que a autoridade xiita é intolerante, o director já anunciou que estes prisioneiros poderão sair do Sector do Castigo se prometerem que no futuro participarão em festividades e celebrações muçulmanas.

Depois desta notícia, lembrei-me de Régis Debray que, ao analisar a ascensão e decadência do Islão, afirma que o mundo islâmico teve o seu Renascimento antes da sua Idade Média. O Irão actual dá-lhe razão.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (8)



Fareed Zakaria escreve no seu livro "O Mundo Pós Americano":
A questão com que os reformadores não ocidentais se debatiam no século XX regressou como questão central do futuro: é possível ser moderno sem ser ocidental? Qual a diferença entre ser moderno e ser ocidentalizado? Será a vida internacional substancialmente diferente num mundo em que as potências não ocidentais tenham um peso enorme? Terão essas novas potências valores diferentes? Ou o processo de enriquecimento torna-os parecidos? Estas ideias não são ociosas. Dentro de poucas décadas, três das quatro maiores economias do mundo serão não ocidentais (o Japão, a China e a Índia). E a quarta , os Estados Unidos, será crescentemente moldada pela sua população não europeia. (p.76)
Fareed Zakaria tem o mérito de colocar as questões certas. O facto de existirem potências em crescimento que vivem sob regimes ditatoriais (China) ou “democracias musculadas” (Rússia) e desses regimes se regerem por valores diferentes dos nossos não pode deixar de ser uma fonte de preocupação. Afinal basta ver o que dizem os relatórios de diversas organizações internacionais afirmam sobre a situação dos Direitos Humanos nesses países.

A questão étnica não é grave; a questão dos valores, essa, sim, pode representar uma fonte de preocupação.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

COLÓQUIO: Estado e Religiões – Liberdade, Autonomia e Laicidade

O Centro de Reflexão Cristão vai realizar no próximo dia 13 de Janeiro (terça-feira) um colóquio dedicado a um tema que me parece apelativo

ESTADO E RELIGIÕES – LIBERDADE, AUTONOMIA E LAICIDADE

Dia 13 de Janeiro de 2009, terça-feira, às 18h30m
* José de Sousa e Brito
* Luís Salgado de Matos
Local: Centro Nacional de Cultura - Galeria Fernando Pessoa
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)

O CRC promoveu em 2008, as Conferências de Maio sobre o tema "Questões sobre Laicidade", que pode consultar no blogue do CRC.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A Invenção de Cristo

«Cristo nunca existiu» é uma daquelas teses que ciclicamente os sectores anti-religiosos gostam de agitar. Argumenta-se que Ele foi inventado pelos primeiros cristãos, que tudo não passa de uma figura mitológica preservada pela Igreja, uma espécie de conspiração que atravessou os séculos... etc, etc.

Para um Bahá’í, Cristo existiu. As Escrituras Bahá’ís afirmam que Ele existiu, e que Ele pertence à sequência de Manifestantes de Deus que têm sido enviados por Deus à humanidade. No entanto, nem estas Escrituras, nem nenhum autor Bahá’í (que eu conheça) se envolve no debate sobre a existência de Cristo procurando argumentos provem a sua existência e rebatam a sua pretensa mitologia.

A este propósito, o livro «Cristo Filósofo» (Caleidoscópio, 2008) de Frédéric Lenoir (director da revista Le Monde des Religions), apresenta um interessante argumento que rebate a ideia de que Jesus Cristo pode não ter existido:
Se se tivesse querido inventar uma fábula, ter-se-ia feito as coisas de modo que ela fosse coerente! Não se teria «inventado» contradições entre o quatro Evangelhos! E não apenas contradições, mas também palavras incómodas, incompreensíveis, perturbadoras para qualquer instituição religiosa... Além disso, que ideia a de inventar uma religião fundada num fracasso tão flagrante quanto foi o de Jesus: morrer crucificado e abandonado pelos seus próprios discípulos. Hoje isto pode parecer-nos admirável, ou comovente, porque as nossas consciências se encontram impregnadas de Cristianismo; porém, naquela época, podia-se qualificar propriamente como «inacreditável» e, até mesmo escandaloso que um pretenso enviado de Deus pudesse ter um tal destino.

O facto de a Igreja não ter ousado tocar nestes textos que remontam, por via da tradição oral, às testemunhas oculares de Cristo, mostra que ela os considera verídicos. As contradições das fontes acerca da vida de Jesus - que em nada mudam o essencial da sua vida e da sua mensagem - atestam, afinal, muito mais a favor da sua existência histórica e da relativa fiabilidade das fontes (podem ter tido lugar falhas de memória das testemunhas, interpretações divergentes dos acontecimentos, acrescentos com objectivos apologéticos) do que em benefício de uma maquinação da Igreja. E suma: a tese da invenção de Cristo é muito mais irracional do que a tese da realidade da existência histórica de Cristo. (p.25-26)

sábado, 3 de janeiro de 2009

France 24: Les bahaïs, "sans papiers" en Égypte


Mercredi 31 décembre 2008
Par Frédéric MIGEON (texte)


Pour être citoyen égyptien, il faut désormais s'enregistrer comme membre d'une des trois religions reconnues par le Coran. Les bahaïs se retrouvent donc par la force des choses sans papiers et, par conséquent, sans droits sociétaux.

Basma Moussa est une femme fatiguée. Cette chirurgienne égyptienne, qui travaille depuis vingt ans à l'hôpital Qasr al-Ayni du Caire, n'a pu renouveler sa carte d'identité, il y a trois ans. "Ma fille n'en a plus non plus. Mon fils, qui a terminé ses études, ne peut fournir les papiers nécessaires pour effectuer son service militaire, ce qui l'empêche de postuler à un emploi." Le regard triste, Basma énumère d'autres problèmes rencontrés par ses proches : trois nouveaux nés n'ayant pu obtenir de certificat de naissance, une petite fille qui n'a pu être réinscrite à son école, une autre qui n'a pu être vaccinée… "Tous les jours, je croise les doigts pour ne pas être contrôlée par un policier, poursuit-elle. J'espère que tout ceci va bientôt s'arrêter".

Pour obtenir leur carte nationale d'identité, les citoyens égyptiens doivent mentionner leur religion. Jusqu'à peu, ils pouvaient se déclarer "musulman", "chrétien", "juif" (les trois religions reconnues par le Coran) ou "autre". Mais en 2004, dans le cadre de l'informatisation des cartes d'identité, un décret administratif a supprimé la mention "autre". Depuis, les plaintes se multiplient mais, de reports d'audiences en appels des jugements, le bras de fer entre les bahaïs et le gouvernement égyptien peine à être résolu.

Renier sa foi par résignation

Pour obtenir des papiers, certains bahaïs se sont résignés à renier leur foi en s'enregistrant comme musulman ou chrétien. Mais ce n'est pas le cas de l'immense majorité des quelque 1 500 membres de la communauté, qui se trouvent confrontés à de multiples complications dans leur quotidien : renvoi des enfants de l'école ou des étudiants de l'université, impossibilité d'avoir accès à son compte bancaire ou encore de quitter le pays….

En avril 2006, un couple "sans papiers" a obtenu du tribunal de justice administrative du Caire que l'Etat leur délivre des cartes d'identité portant la mention "bahaï". Cette décision a suscité de vives protestations. "Le cas avait été faussement présenté par la presse comme une demande de reconnaissance de la foi bahaïe, alors qu'il s'agissait d'une demande de reconnaissance civique", explique Hossam Bahgat, directeur de l'Egyptian Initiative for Personal Rights (EIPR), association défendant notamment les libertés religieuses. Subissant de fortes pressions, le ministère de l'Intérieur a fait appel de la décision et obtenu que le Conseil d'Etat casse le jugement.

Malgré tout, Shady Samer reste optimiste. Ce jeune entrepreneur en informatique bahaï, qui a ouvert un blog, à la fin de 2006, pour battre en brèche les idées reçues sur sa confession, note le changement qui s'est opéré dans l'opinion publique : "Jusqu'à cette affaire, les gens ne savaient même pas que nous existions. La couverture médiatique pendant le procès est un fait sans précédent dans le monde arabe. Jamais un bahaï n'avait été interviewé à la télé auparavant. Cela a rendu possible que les gens acceptent la liberté religieuse, que les gens différents avaient le droit d'avoir des droits civiques."

Shady Samer fait partie des rares bahaïs ayant encore des papiers.
Sur sa carte d'identité, le champ religion est vide. DR.


Egyptien marié à une Américaine, Shady Samer a réussi à obtenir un certificat de naissance sans mention de religion pour sa fille qui dispose de la double nationalité, grâce à l'intervention de l'ambassade des Etats-Unis auprès du ministère de l'Intérieur. Un cas unique mais qui, pour lui, est une raison supplémentaire d'espérer.

Un tiret en lieu et place de la mention "bahaï"

Le tribunal administratif du Caire, saisi une nouvelle fois en 2007, a de nouveau tranché en faveur des bahaïs en janvier dernier, le gouvernement n'a pas fait appel cette fois-ci. Pour Hossam Bahgat, deux raisons expliquent ce changement d'attitude : "D'abord, les débats sans précédent sur la question de citoyenneté ont été très bénéfiques. Ensuite, les avocats des bahaïs ont changé de stratégie : ils ne demandent plus la mention 'bahaï', mais un simple tiret".

L'application du jugement, qui devrait permettre la reconnaissance civique des bahaïs, est toutefois suspendue en raison de deux demandes d'appels, déposées par deux avocats islamistes. Depuis près d'un an, les audiences d'appel, fortement perturbées par la présence d'extrémistes invectivant la Cour, ont été à plusieurs reprises reportées. Prochaine date : le 17 janvier. Les bahaïs attendent toujours leur heure.

Un groupe de bahaïs devant un lieu de culte au Caire, en 1946. DR.

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Les bahaïs en Egypte

La foi bahaïe, religion monothéiste apparue dans les années 1860 en Perse, accepte l'héritage du judaïsme, du christianisme et de l'islam. Les bahaïs sont aujourd'hui un peu plus de 7 millions dans le monde, répartis dans 193 pays.
Après avoir été reconnus en Egypte à partir des années 1930, les bahaïs ont été privés par le président Nasser de leurs droits en tant que communauté religieuse, en 1960. Leurs lieux de culte ont alors été fermés. Ils se réunissent, depuis, dans un contexte familial une fois par mois

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FONTE: Les bahaïs, "sans papiers" en Égypte (France 24)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Mais uma manobra de intimidação!

Shirin Ebadi saindo do Centro de Defesa de Direitos Humanos,
no passado dia 21 de Dezembro, em Teerão
(Foto AP)

Um grupo de manifestantes atacou hoje a residência de Shirin Ebadi em Teerão, pintando vários insultos nas paredes e entoando slogans como «Ebadi apoia os assassinos de Israel». Os manifestantes acabaram por ser dispersados pela polícia.

Ironicamente, o Centro de Defesa de Direitos Humanos (de que a Drª Ebadi faz parte) tinha publicado um comunicado condenando a violência em Gaza e exigindo uma acção rápida por parte das organizações internacionais.

Recorde-se que a Drª Ebadi, Prémio Nobel da Paz (2003), antiga juiz e veterana defensora dos Direitos Humanos no Irão, aceitou defender 7 dirigentes Bahá’ís detidos no passado mês de Maio. E um cliché da propaganda iraniana consiste em considerar os Bahá’ís como “agentes sionistas”. Compreende-se assim as motivações deste incidente, e percebe-se quem são os seus mentores!

Recorde-se que na passada segunda-feira, vários agentes da autoridade invadiram os seu escritório de advocacia, confiscando computadores e vários documentos sobre os seus clientes (na maioria, activistas políticos). Na semana passada, os escritórios do Centro de Defesa de Direitos Humanos tinham sido encerrados, após uma celebração do 60º Aniversário do Dia dos Direitos Humanos. E há alguns meses atrás a sua filha foi acusada pela agência noticiosa oficial de se ter convertido à Fé Bahá’í.

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Sobre este assunto:
Ataque no Irã contra a casa da Nobel da Paz Shirin Ebadi (AFP)
L'Union européenne exprime ses "craintes" pour l'avocate iranienne Shirin Ebadi (Le Monde)
Protesters attack Tehran home of Nobel winner (CNN)
Iranian raid on Ebadi condemned (BBC)
Iran's Nobel Laureate Dismisses Official Motives For Raids (RFE)
Ataque contra la casa de la Nobel de la Paz Shirin Ebadi (La Nueva)
Iran: End Persecution of Nobel Laureate (Payvand)
L'ambassadeur d'Iran convoqué par la présidence de l'UE (Iran Focus)

2008 em retrospectiva


2008 Retrospect from Changing Times on Vimeo.