domingo, 29 de abril de 2007

Ridvan (2)

O MOMENTO DA REVELAÇÃO

Como já escrevi em posts anteriores, durante o Festival de Ridvan os Bahá’ís celebram a declaração de Bahá'u'lláh feita em 1863, quando Ele anunciou a Sua missão profética. Sobre o momento exacto da Declaração feita pelo fundador da religião Bahá'í, Shoghi Effendi escreveu:
"Sobre as circunstâncias exactas que rodearam esta declaração histórica, estamos, infelizmente, pouco informados. As palavras pronunciadas por Bahá'u'lláh nessa ocasião, a forma como apresentou a Sua declaração, a reacção que esta produziu, o impacto causado em Mirza Yahyá[1], a identidade daqueles que tiveram o privilégio de ouvir Bahá'u'lláh, tudo está envolto numa obscuridade que os historiadores futuros terão dificuldade em discernir"[2]
Dos escassos relatos que existem, destacam-se dois testemunhos de familiares de Bahá'u'lláh. 'Abdu'l-Bahá afirmou que na tarde da Sua chegada ao jardim de Ridvan, Bahá'u'lláh revelou ser "Aquele que Deus tornará Manifesto" (o Profeta prometido pelo Báb).

Uma rua de Bagdade (ilustração de 1825)

A filha de Bahá'u'lláh, Bahiyyih Khanum, porém, terá dito que Bahá'u'lláh nesse dia anunciou a Sua missão em privado a 'Abdu'l-Bahá e outras quatro pessoas. De acordo com o seu relato, “Ele ordenou-lhes que mantivessem segredo pois ainda não tinha chegado o momento de uma declaração pública; mas havia motivos que O levavam a pensar que era necessário fazer aquela revelação apenas para alguns”[3]. Devido ao carácter reservado do anúncio, a que a maioria dos Babis (incluindo os que estavam exilados com Bahá'u'lláh) apenas tomaram conhecimento da Sua declaração alguns anos mais tarde, durante o exílio em Adrianópolis.

Independentemente das circunstâncias em que este anúncio ocorreu, nas escrituras de Bahá'u'lláh reveladas durante o exílio em Bagdade é possível identificar excertos que sugerem de forma implícita que Ele era o Manifestante prometido pelo Báb.

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NOTAS
[1] - Um meio-irmão de Bahá'u'lláh que era considerado líder dos Babis.
[2] - Presença de Deus, Cap. 9
[3] - The Master in Akka, p. 39

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Jorge Sampaio



Former Portuguese president chosen as UN envoy to Alliance of Civilizations

Secretary-General Ban Ki-moon today appointed the former Portuguese president Jorge Sampaio as the first United Nations High Representative for the Alliance of Civilizations, the international initiative set up in 2005 to promote reconciliation between religions, cultures and nations.

Mr. Sampaio, 67, served as Portuguese president from March 1996 to March 2006. He served also as former UN Secretary-General Kofi Annan’s Special Envoy to Stop Tuberculosis (TB). Mr. Sampaio previously held numerous public offices, including Mayor of Lisbon in 1989, Member of Parliament and member of the European Human Rights Commission of the Council of Europe.

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O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, anunciou ontem a nomeação do antigo presidente português Jorge Sampaio como primeiro Alto Representante para a Aliança das Civilizações, uma iniciativa sob os auspícios das Nações Unidas.

Oxalá seja bem sucedido nesta missão!

Haverá vida depois da vida?

Um dos melhores videos Baha'is que encontrei no YouTube!




Uma versão com legendas em português aqui.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Guernica

Foi há setenta anos...



"Essas lutas infrutíferas, essas guerras ruinosas cessarão e a Mais Grandiosa Paz virá." (Bahá'u'lláh)
Estas palavras de Bahá’u’lláh surgem por vezes como uma visão utópica do futuro da humanidade. Certamente que há algumas gerações atrás, era um sonho impossível. Mas será o conflito armado uma ocorrência inevitável na história da humanidade?

Consideremos a experiência europeia das duas últimas gerações: ressalvando as guerras na ex-Jugoslávia, tudo parece indicar que é possível substituir o conflito armado por rivalidades fraternas. Será isto consequência de um processo de amadurecimento colectivo, ou mero fruto circunstâncias políticas de uma época? Estaremos condenados a repetir erros do passado ou entramos numa fase de relacionamento mais pacífico entre os povos europeus? Conseguiremos nós, os europeus, levar esta experiência a outros povos?

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Freedom Day

We are celebrating a holiday here in Portugal.

It is Freedom Day!

33 years ago a military coup put an end to a 48 year old dictatorship in Portugal. It was the beginning of the "third wave of democratization" as Samuel P. Huntington called it. The coup was followed by two years of political and social turmoil. There were constant friction between liberal democratic forces and communist ones. The African colonial wars ended and the colonies got their independence (a handover of power with no free elections). And the Portuguese people and politicians had to learn how to live with the rules of democracy.

Those were hard times.

But today we live in a liberal democracy. And we enjoy freedom.

For the Bahá’í Community the Revolution meant the end of oppression and persecution by the former political police. At last we were free to gather, to teach the Faith,… we were free to be Bahá'ís. In 1975, the Baha’i Community of Portugal was official recognized as a religious community.

As a Bahá’í celebrating Freedom Day, my thoughts are with those followers of the Baha’i Faith in other countries who do not enjoy freedom. I hope they will live to celebrate a holiday like Freedom Day.

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The following video presents a series of photos taken during that day, 25th April, 1974. The music is Grandola, Vila Morena; it was broadcast on Portuguese radio as a signal to start the revolution.



Read more about the Carnation Revolution.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Ridvan: um vídeo

Um trabalho colocado no site dos Bahá'ís de Nova Iorque.
Palavras de Bahá'u'lláh ilustradas com fotos de Nelson Ashburger e música de Do'a.


segunda-feira, 23 de abril de 2007

Um selo do Canadá?



Esta imagem foi recebida por email.

De acordo com o Dan Jones (um baha’i canadiano que tentou averiguar se o selo é verdadeiro), isto ou é uma edição para coleccionadores ou então alguma brincadeira de um baha’i mais criativo... É que no Canadá não há selos de 8 cêntimos; e os selo de 8 dólares são muito diferentes deste.

Será que alguém consegue alguma pista?

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Sobre selos com temas bahá'ís ver os seguintes posts:
* Filatelia
* Dia Mundial das Religiões

sábado, 21 de abril de 2007

Ridvan (1)

Inicia-se hoje o Festival de Ridvan (em português, "Rizvan"). Trata-se de um período de 12 dias em que os bahá'ís celebram o momento em que Bahá'u'lláh anunciou pela primeira vez a Sua missão divina. O evento ocorreu em Bagdade, em 1863, imediatamente antes de Bahá'u'lláh, Sua família e alguns companheiros partirem para um novo exílio em Istambul.

O primeiro, o nono e o último dia deste Festival são dias sagrados; actualmente, os baha’is aproveitam este Festival para eleger as suas Assembleias Espirituais (os órgãos que administram as comunidades locais e nacionais).

O FIM DO EXÍLIO EM BAGDADE

Ao longo de dez anos de exílio em Bagdade, Bahá'u'lláh foi estabelecendo relações cordiais e de amizade com muitas e diversificadas pessoas daquela capital provincial otomana. Funcionários do governo, clérigos, peregrinos persas e muitos cidadãos comuns. Também se tinha tornado um líder da comunidade Babí (os seguidores do Báb).

Bagdade (Ilustação do Séc. XIX)

Mas Bagdade, tão perto da fronteira iraniana e de santuários xiitas (Najaf e Kerbala), residência de exilados políticos iranianos e local de passagem de peregrinos persas era um antro de intriga política. Temendo que Bahá'u'lláh usasse a Sua influência e prestigio para ameaçar o governo persa, o Embaixador em Istambul (Mushiru'd-Dawlih) começou a pressionar o Governo Otomano para que aquele Exilado fosse levado para um local mais distante. Como fruto dessas pressões, o Grão Vizir ('Ali Pasha) e o Ministro dos Negócios Estrangeiros (Fu'ad Pasha) decidiram convocar Bahá'u'lláh à capital do Império. A convocação foi feita na forma de um convite cordial.

Ao receber o documento de convocação, o governador do Iraque (Namiq Pasha) ficou relutante em entregá-lo a Bahá'u'lláh; também ele não escondia a sua simpatia e admiração por aquele Exilado. Por fim, o peso da autoridade do governo imperial levou-o a chamar Bahá'u'lláh à sede do governo provincial; dois dias mais tarde, encontrou-se com Bahá'u'lláh; o líder Babí concordou imediatamente em viajar para Istambul, com a família e alguns companheiros.

As semanas seguintes foram muito atarefadas. Enquanto se faziam os preparativos para a viagem, Bahá'u'lláh ia recebendo muitos visitantes (por vezes, revelando epístolas para alguns deles). Foi então que Bahá'u'lláh decidiu instalar-se no jardim de Najibiyyih (que ficaria conhecido como Ridvan), do outro lado do rio, recebendo aí os visitantes e dando à Sua família a tranquilidade necessária para preparar a viagem.

O Jardim de Ridvan (foto início Séc. XX)

Em 22 de Abril de 1863, Bahá'u'lláh abandonou definitivamente a Sua casa em Bagdade. Caminhou pelas ruas acompanhado pelos Seus filhos, pelo Seu secretário (Mirza Aqa Jan), uma multidão de amigos, simpatizantes e curiosos e dirigiu-Se ao rio Tigre, onde um pequeno barco O levou até ao jardim. Chegou ao jardim a meio da tarde e durante os 11 dias seguintes ali recebeu as despedidas de vários amigos a simpatizantes, incluindo do próprio Governador.

Doze dias após a chegada ao jardim, chegara o momento da partida. Nesse dia, o jardim estava apinhado de gente para as despedidas finais. Ao final da tarde a comitiva pôs-se em movimento, entre manifestações de afecto e dor. Começaram por fazer uma pequena viagem de cinco quilómetros ao longo do rio, até Firayjat. Aí aguardaram durante uma semana que Mirza Musa, o irmão de Bahá'u'lláh se juntasse a eles. Também durante esses dias, as visitas eram constantes.

Finalmente, no dia 9 de Maio, iniciaram uma viagem de três meses que os levaria a Istambul.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

O Islão Secular



A Conferência do Islão Secular é uma organização dedicada a levar o Islão às suas raízes iniciais de moderação, tolerância e aceitação. No início do mês de Março, durante a sua Convenção em St. Peterburg (Florida), esta organização publicou a seguinte declaração (texto em inglês):


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Declaração de St. Petersburg,
Emitida pelos delegados da Conferência do Islão Secular
St. Petersburg, Florida, 5 de Março de 2007

Somos Muçulmanos seculares, e pessoas seculares de sociedades muçulmanas. Somos crentes, cépticos e descrentes, unidos por uma grande luta, não entre o Ocidente e o Islão, mas entre o livre e o não-livre.

Afirmamos a liberdade inviolável da consciência individual. Acreditamos na igualdade de todas as pessoas humanas.

Insistimos na separação entre religião e o Estado e na observação dos direitos humanos universais.

Encontramos tradições de liberdade, racionalidade, e tolerância nas ricas histórias das sociedades pre-islâmicas e islâmicas. Estes valores não pertencem aos Ocidente ou ao Oriente; são uma herança moral comum da humanidade.

Não vemos colonialismo, racismo, ou a chamada “Islamofobia” na submissão das práticas islâmicas à crítica e à condenação quando estas violam a razão e os direitos humanos.

Apelamos aos governos do mundo que:
  • Rejeitem a lei da Sharia, as fatwas dos tribunais, o domínio clerical e a religião apoiada pelo Estado em todas as suas formas; oponham-se a todas as punições para a blasfémia e apostasia, de acordo com o artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos;
  • Eliminem práticas como a circuncisão feminina, mortes de honra, o uso forçado do véu, o casamento forçado, e a opressão das mulheres;
  • Protejam as minorias sexuais e de género da perseguição e violência;
  • Reformem a educação sectária que ensina a intolerância e fanatismo contra não-muçulmanos
  • E que fomentem um ambiente público em que todos os assuntos possam ser discutidos sem coerção ou intimidação.
Exigimos a libertação do Islão do cativeiro de ambições totalitárias de homens sedentos de poder e das estruturas rígidas da ortodoxia.

Convidamos académicos e pensadores em toda a parte a lançarem-se numa análise destemida das origens e fontes do Islão, e a promulgar os ideais da livre investigação científica e espiritual através da tradução transcultural, publicação e media.

Dizemos para os crentes Muçulmanos: existe um futuro nobre para o Islão como fé pessoal, não como doutrina política;

Para Cristãos, Judeus, Budistas, Hindus, Bahá'ís e todos os membros de comunidades de fé não-Muçulmana: estamos ao vosso lado, enquanto cidadãos livres e iguais;

E aos não-crentes: defendemos a vossa liberdade incondicional para questionar e abandonar [a fé].

Antes de algum de nós ser membro da Umma, do Corpo de Cristo ou do Povo Eleito, é membro de uma comunidade de consciência, um povo que deve escolher por si próprio.

Assinado por:

Ayaan Hirsi Ali
Magdi Allam
Mithal Al-Alusi
Shaker Al-Nabulsi
Nonie Darwish
Afshin Ellian
Tawfik Hamid
Shahriar Kabir
Hasan Mahmud
Wafa Sultan
Amir Taheri
Ibn Warraq
Manda Zand Ervin
Banafsheh Zand-Bonazzi


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COMENTÁRIO: Não posso deixar de notar alguns nome sonantes entre os subscritores deste documento. Mas será isto um sinal de que algo vai mudar? Se sim, que impacto terá este pequeno movimento em milhões de muçulmanos em todo o mundo? Se esta organização ganhar popularidade e crescer pelo mundo islâmico poderá atenuar as tensões mundiais?

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Gustavo Gutierrez



"Vivemos numa época dominada pela economia liberal, ou, se se preferir, neoliberal. O mercado irrestrito, chamado a regular-se com as suas próprias forças, passa a ser o princípio, quase absoluto, da vida económica. O célebre e clássico “deixar fazer” do início da economia liberal postula hoje de forma universal – pelo menos na teoria – que toda a intervenção do poder político, mesmo para atender a necessidades sociais, prejudica o crescimento económico e redunda em prejuízo geral. Por isso, se se apresentam dificuldades nos rumos económicos, a única solução é mais mercado."

Gustavo Gutierrez, Onde dormirão os pobres?

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Direitos Humanos (8)

Educação

A democracia e os direitos humanos sempre enfrentaram grandes dificuldades em países com elevadas taxas de analfabetismo; isto entende-se se tivermos em conta o papel da informação e das organizações de base nas sociedades democráticas. O artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos proclama que todas as pessoas têm direito à educação. A Convenção dos Direitos da Criança, estabelecida pela UNICEF em 1989, protege vários direitos inalienáveis das crianças, incluindo o direito à Educação.

Na história da humanidade a transmissão de conhecimentos às novas gerações foi sempre um esforço de sobrevivência e desenvolvimento civilizacional. Os mais velhos transmitiam aos mais novos conhecimentos e técnicas que eles necessitariam; e estes por sua vez, transmiti-las-iam à geração seguinte. Durante muitas gerações esta transmissão de conhecimentos fez-se exclusivamente via oral ou através da imitação. Quando os conhecimentos puderam ser transmitidos através da escrita a densidade e o âmbito destes alargaram-se de forma espantosa.

Relevo mostrando uma Escola Romana (aprox. ano 200 EC)

As escolas, tal como as conhecemos hoje, surgiram no Egipto, entre o ano 5000 e o ano 3000 a.C. Durante o século III a.C. surgiram as primeiras escolas no Império Romano (então, República Romana); ali as crianças das famílias mais abastadas eram educadas por escravos gregos. E ao longo da Idade Média, as escolas eram essencialmente geridas por monges e o seu objectivo essencial era formar o clero.

Os sistemas de educação pública surgiram na Europa entre os séculos XVI e XVII [1]. Na década de 1760, por exemplo, a Rússia criou um sistema de ensino público não especializado cujo objectivo era criar "uma nova raça de homens". Na Índia, os britânicos introduziram um sistema educativo semelhante ao seu, durante o século XX; este sistema substituiu um antigo sistema indiano onde se leccionavam várias matérias consideradas importantes ao desenvolvimento integral de um ser humano.

O sistema de ensino publico existe hoje em muitos países do mundo, sendo financiado por autoridades nacionais e/ou locais. O conceito aplica-se à educação primária, secundária e até universitária. O desenvolvimento destes sistemas teve algumas consequências, nomeadamente ao tornar obrigatória a educação para os alunos, ao seleccionar professores e programas, e ao avaliar os resultados obtidos.

A generalização da educação básica é hoje considerada uma prioridade para países sub-desenvolvidos. Entre os seus benefícios contam-se a redução de doenças (devido ao conhecimento de regras de higiene e nutrição), redução do analfabetismo, redução de gravidezes indesejadas, redução da violência (devido à maior capacidade de procura de soluções não violentas para os problemas).

Hoje em dia, a existência de sistemas de ensino público reflectem a convicção geral na necessidade da Educação como instrumento de desenvolvimento social, mas também a vontade de desenvolver os talentos potenciais de cada cidadão. Sem sistemas educativos (públicos ou privados) a sociedade não poderia funcionar ou desenvolver-se adequadamente.

Mas a educação das crianças não é apenas uma tarefa das Escolas; na verdade, os pais são os primeiros educadores; isso é algo que os professores nunca devem esquecer. Hoje é cada vez mais aceite que o envolvimento familiar é um dos aspectos mais importantes no desenvolvimento educativo da criança. Esse envolvimento pode incluir coisas como leitura de histórias, transmissão de valores, desenvolvimento de técnicas de comunicação, exposição a diversas culturas e à comunidade. Vários estudos feitos a Europa e nos E.U.A. mostram uma forte ligação entre o sucesso escolar e o envolvimento familiar na educação das crianças.

A EDUCAÇÃO NAS ESCRITURAS BAHÁ'ÍS

No Médio-Oriente do séc. XIX a maioria das pessoas eram pastores ou agricultores; as taxas de alfabetização eram muito baixas, oscilando entre os cinco e os sete por cento. No início desse século não existiam escolas públicas, e passados cem anos ainda eram relativamente poucas; e mesmo essas eram escolas corânicas, dedicadas a um ensino elementar. A maioria dos alunos era rapazes; as excepções encontravam-se em escolas femininas das comunidades cristãs.

No livro mais sagrado das escrituras Baha'is (o Kitab-i-Aqdas) Bahá'u'lláh afirma que a educação dos filhos (sejam rapazes ou raparigas) é uma obrigação dos progenitores; e noutras epístolas salientou que os pais deveriam reservar parte dos seus rendimentos para apoiar a educação dos filhos.[2]

'Abdu'l-Bahá, ao referir os problemas do Irão, insistiu que a necessidade mais urgente do Irão era a promoção da educação, sem a qual nenhum progresso poderia ser conseguido. Acrescentou que "a educação e as artes da civilização trazem honra, prosperidade, independência e liberdade a governo e ao seu povo", e insistia que esta devia ser obrigatória [3]. Estes princípios foram reafirmados durante as suas viagens ao Ocidente, onde enfatizou a importância da educação das mulheres, frisando que não deveria haver diferenças entre a educação delas e a educação dos homens.[4]

A Educação Obrigatória é um princípio Bahá'í

As figuras centrais da Fé Bahá'í perceberam que a educação devia incluir as ciências modernas e outros temas seculares, mas também referiram a importância de ensinar valores. Bahá'u'lláh advertiu contra alguns tipos de educação religiosa que podem instigar fanatismo nas crianças[5]. Mais recentemente, a Casa Universal de Justiça insistiu na importância de ensinar o conceito de cidadania mundial a todas as crianças do mundo[6].

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NOTAS:
[1] - Em 1561, a Igreja Escocesa criou um programa de educação gratuita para os pobres e décadas mais tarde o parlamento escocês introduziria um imposto especial para financia este programa.
[2] - Kitab-i-Aqdas, Parag. 48
[3] - Respostas a Algumas Perguntas, cap. 77
[4] - Promulgation of Universal Peace, pag. 76; Palestras em Paris, pag. 108 (ed. 1979); Selecção dos Escritos de 'Abdul'-Bahá, sec. 96
[5] - Epistolas de Baha'u'lláh, (Palavras do Paraíso), pag. 79 (ed. 1983)
[6] - A Promessa da Paz Mundial: "Atendendo às necessidades dos nossos dias, deveria também ser dada atenção ao ensino do conceito de cidadania mundial, como elemento integral da educação normal de cada criança."

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Um diálogo sereno

Este post é dedicado à equipa do blog De Rerum Natura (e comentadores!).

O Bispo de Oxford, Richard Harries, e Richard Dawkins numa conversa fascinante. Além de abordarem assuntos muito interessantes, fazem-no com uma serenidade que gostaria de ver em muitos diálogos na blogosfera.

Um imenso sofrimento

"Uma vez fui chamado ao local de uma explosão. Ali vi um rapaz de quatro anos sentado ao lado do corpo da sua mãe, que tinha sido decapitada pela explosão. Ele estava a falar para ela, e perguntava-lhe o que tinha acontecido."
Estas palavras são das mais brutais e chocantes descrições do que se vive hoje no Iraque. Trata-se de um relato de um funcionário de uma organização humanitária que trabalha no Iraque, e foi publicado num relatório do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

Mantendo-se fiel à sua neutralidade em situações de conflito, o documento do CICV não aponta culpados pelo caos iraquiano. Mas simultaneamente, declara que ninguém, - incluindo o Governo Iraquiano e as forças da coligação - tem feito o suficiente para resolver a situação.

O relatório em questão reafirma que os civis iraquianos vivem um imenso sofrimento e a sua situação se agrava de dia para dia. E os problemas mais graves são enfatizados: o sistema de saúde enfrentam tremendas faltas de pessoal e equipamentos; os sistemas de distribuição de água, esgotos electricidade encontram-se num estado crítico; a falta de alimentos e casos de subnutrição tem vindo a aumentar em várias regiões.

Os bahá’ís no Irão e no Egipto, enfrentam a discriminação; e as crianças bahá’ís no Irão até suportam humilhações nas escolas. Mas os homens, mulheres e crianças do Iraque suportam o inaceitável e o insuportável.

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A ler sobre este assunto:
Civilians without protection: The ever-worsening humanitarian crisis in Iraq (relatório do CICV)
Life in Iraq (BBC)
Red Cross: Iraq situation 'ever-worsening' (CNN)
Iraqis face 'immense' suffering (BBC)

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Vida Selvagem em Portugal


A União Europeia que está a pôr em perigo a vida selvagem em Portugal, afirma o titulo de um artigo no site da BBC. O artigo faz eco de uma acusação feita por ambientalistas portugueses e refere que mais de metade da vida selvagem no nosso país está sob ameaça de extinção. A ameaça de extinção do lince ibérico é um dos exemplos referidos no texto.

sábado, 7 de abril de 2007

A Religião nas Escolas Públicas


A propósito da realização de missas em escolas públicas, o jornal Público apresenta hoje um artigo (de autoria de Andreia Cunha Freitas) onde analisa o assunto; um segundo texto aborda a crescente presença de outras religiões nas escolas públicas. Aqui fica a transcrição desse segundo texto.

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Do pôr do sol adventista à comunidade Bahá’í

Se os alunos manifestarem essa vontade e as comunidades religiosas se organizarem nesse sentido, as escolas públicas podem acolher disciplinas de outras confissões que não a católica. Margarida Moreira, responsável da DREN, prevê mesmo que este cenário seja cada vez mais comum, uma vez que o país acolhe muitas pessoas de diversas comunidades religiosas.

Aliás, há já alguns sinais no presente e alguns não serão assim tão recentes. "A Escola de Águas Santas (na Maia), por exemplo, tem há mais de dez anos uma aula de Educação Religiosa Baptista", refere Margarida Moreira. Mas há mais. Em Guimarães, por exemplo, já há duas turmas dedicadas à religião Bahá’í - uma religião independente e monoteísta, fundada por Bahaullah, com mais de cinco milhões de seguidores no mundo. Segundo fonte da comunidade religiosa em Portugal, cuja sede se situa em Lisboa, as aulas são leccionadas na Escola Secundária Francisco de Holanda e Martins Sarmento, em Guimarães, e na Escola Secundária Monserrate, em Viana do Castelo.

A presença desta comunidade já passou também pelo Porto, Braga e Silves, locais onde acabou por deixar de existir, uma vez que serão necessárias turmas de pelo menos 15 alunos.

A DREN recebeu também uma comunicação dos Adventistas do Sétimo Dia sobre a organização dos tempos lectivos dos crentes desta fé que não devem coincidir nunca com o seu dia sagrado, o sábado, sendo que o início deste dia é considerado a partir do pôr do sol de sexta-feira. A comunidade religiosa forneceu à DREN um "calendário" com detalhes "ao minuto" de todos os pores do sol durante o ano lectivo. Trata-se aqui apenas de garantir um direito assente na Lei da Liberdade Religiosa. "Ao que confirmámos, mesmo nas aulas para adultos, não existe coincidência entre este horário e um aluno desta religião. No entanto, ficou como um alerta que registei e devo naturalmente respeitar", disse Margarida Moreira. "Estamos num caminho que nos levará cada vez mais à presença de outras confissões religiosas nas escolas públicas", conclui.

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Sobre este assunto, alguns comentários:

1 – Para que uma confissão religiosa possa leccionar aulas de religião numa escola pública é necessário que estejam inscritos pelo menos 15 alunos. No entanto, este número mínimo de alunos não é exigido à Igreja Católica. Esta diferença de tratamento leva-nos a questionar se o Estado Português é verdadeiramente neutral e equidistante em relação às confissões religiosas.

2 – Quanto à realização de missas em escolas públicas, penso que quando um Conselho Directivo abre as portas a uma confissão religiosa, então tem obrigação de abrir as portas a todas as confissões religiosas. Seria interessante verificar da abertura das escolas referidas no artigo para a celebração do Natal Ortodoxo, do Pesach, do Idul-Fitr ou mesmo de um Naw-Ruz. Se porventura, a realização destas cerimónias no espaço da escola pública se revelarem geradoras de tensões e atritos, então o bom senso deve prevalecer e as cerimónias não se devem realizar naquele espaço.

3 – A Comissão da Liberdade Religiosa deveria pronunciar-se sobre os assuntos referidos nos pontos anteriores.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Crianças Bahá'ís humilhadas nas escolas iranianas

Os estudantes bahá'ís nas escolas primárias e secundárias no Irão têm vindo a ser alvo de crescentes humilhações e abusos, segundo afirmam relatos chegados daquele país. Durante um período de 30 dias - entre meados de Janeiro e meados de Fevereiro - registaram-se cerca de 150 incidentes.

"Estes novos relatos indicando que os membros mais vulneráveis da comunidade bahá'í iraniana – as crianças e os pré-jovens – estão a ser incomodados, humilhados e, pelo menos num caso, vendados e espancados, é uma notícia extremamente perturbadora", afirmou Bani Dugal, a representante da Comunidade Internacional Baha'i junto das Nações Unidas.

"O número crescente de incidentes sugere que se trata de uma escalada grave e vergonhosa da actual perseguição contra os Bahá’ís iranianos. O facto de crianças em idade escolar serem um alvo daqueles que as deviam ter à sua guarda – professores e administradores escolares – apenas torna esta tendência ainda mais sinistra".

Alemanha, 1935: duas crianças judias são humilhadas em plana sala de aula.
A história repete-se hoje no Irão com crianças bahá'ís.

Até agora assistiam-se a casos isolados; mas a quantidade e natureza destes actos ignominiosos permitem concluir que estamos na presença de um esforço concertado. O tipo de abuso a que estas crianças têm sido sujeitas é diversificado:

  • são humilhados em frente aos seus colegas;
  • são obrigados a ouvir insultos contra a sua Fé por parte de professores de religião;
  • é-lhes ensinada história do Irão com base em textos que denigrem, distorcem e falsificam a herança da religião bahá'í (e têm que ter aprovação em testes com esta matéria);
  • são pressionados a converterem-se ao Islão;
  • são ameaçados com expulsão (e em alguns casos essa expulsão concretizou-se);
  • são repetidamente advertidos para não falar da sua religião com os colegas.
Um baha'i informou que na escola da cidade de Kermanshah, uma criança foi exposta perante a sua turma e obrigada a ouvir insultos contra a sua religião. Num instituto de artes, um estudante bahá'í foi vendado e espancado, em três ocasiões.

Especialmente preocupante é o facto de uma elevada proporção destes actos ter sido dirigida contra raparigas. Se nas escolas de ensino básico, os incidentes têm ocorrido de forma mais ou menos igual entre rapazes e raparigas, no ensino secundário, as raparigas tornaram-se um alvo preferencial: em 76 incidentes, 68 foram contra raparigas bahá'ís.

Além destes relatos, as Universidades continuam a expulsar estudantes bahá’ís; neste momento já são 94 as expulsões no corrente ano lectivo (em Fevereiro eram 70).

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Sobre este assunto:
Baha'i school children in Iran increasingly harassed and abused by school authorities (BWNS)
Baha’i children abused in Iranian schools (Barnabas Quotidianus)

Brilhante!



A magnífica resposta do Gato Fedorento ao cartaz xenófobo do PNR, foi mais poderosa do que todas as análises e comentários que se ouviram e leram nestes últimos dias.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Ich bin ein Berliner

Aqui fica a tradução do texto da interpelação feita por deputados alemães ao Governo Federal Alemão sobre a situação dos Direitos Humanos dos Baha’is no Egipto. A tradução deste texto foi feita a partir de uma tradução para inglês feita por Emanuel Vahid Towfigh (do blog Einblicke). O texto original (em alemão) da interpelação encontra-se aqui.
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Parlamento Federal Alemão (Deutscher Bundestag) -- Documento 16/4815
16º Período Legislativo, 22 Março, 2007

Interpelação feita pelos deputados Volker Beck (Köln), Marieluise Beck (Bremen), Alexander Bonde,Dr. Uschi Eid, Thilo Hoppe, Ute Koczy, Kerstin Müller (Köln), Winfried Nachtwei, Omid Nouripour, Claudia Roth (Augsburg), Rainder Steenblock, Jürgen Trittin e do grupo parlamentar Aliança 90/Os Verdes.


Situação dos Direitos Humanos dos Bahá’ís no Egipto


Em 1960, a Comunidade Bahá'í organizada foi proibida pelo Presidente Nasser e os seus bens foram confiscados. Este decreto ainda hoje se encontra em vigor. Como resultado, recorrentemente ocorrem ataques, detenções e campanhas nos media contra os bahá'ís. Um problema muito sério é a recusa das autoridades egípcias em emitir documentos de identificação para os Bahá'ís, pois a sua filiação religiosa não pode ser correctamente identificada. Isto deve-se aos esforços do Governo Egípcio para digitalizar o processo de registo e identificação com software que apenas aceita as religiões reconhecidas oficialmente, nomeadamente, Islão, Cristianismo e Judaísmo. Numa decisão do Supremo Tribunal Administrativo em 16 de Dezembro de 2006 este procedimento, que levou os Bahá'í a não ter o direito de ser correctamente identificados nos seus documentos, foi considerado legal. Um casal Bahá'í contestou com sucesso este procedimento num tribunal de primeira instância em Abril de 2006; mas essa decisão foi revogada. Assim, os documentos de identificação não podem ser emitidos para os Baha’is. Sem esses documentos, um cidadão Egípcio pode ser detido em qualquer momento, devido à situação de emergência que ainda continua em vigor. Não podem inscrever os filhos nas escolas, não têm acesso a assistência médica, nem podem abrir uma conta bancária, receber um salário ou uma pensão, não podem casar ou obter certidões de nascimento ou de óbito. Num caso recente, o jovem médico Egípcio, Bassem W. foi afastado da Universidade Alemã depois de não ter conseguido apresentar um documento de identificação, e consequentemente não poder abrir uma conta bancária para o seu salário.

Perguntamos ao Governo Federal:

1. Que conhecimento tem o Governo Federal sobre a sistemática discriminação e perseguição dos Bahá'ís no Egipto? Que papel têm desempenhado os media?

2. Como é que o Governo Federal avalia o acto da universidade Alemã no caso de Bassem W.? Qual a relação da Universidade Alemã com a Alemanha e de que forma o trabalho desta Universidade é promovido por organizações ou instituições alemãs? Que consequências vê o Governo Federal na credibilidade da Alemanha em questões de Direitos Humanos, em função do acto da Universidade Alemã?

3. Que papel desempenham as forças fundamentalistas islâmicas no que respeita ao tratamento dos bahá'ís pelo Governo Egípcio? Que pessoas, ou instituições, na liderança egípcia são responsáveis pelas perseguições às minorias religiosas?

4. Como é que o Governo Federal avalia a decisão do Supremo Tribunal Administrativo do Egipto, datada de 16 de Dezembro de 2006? O Governo Federal concorda com os grupos de Direitos Humanos que a consideram um precedente para maiores restrições aos direitos civis no Egipto?

5. Como é que o Governo Federal avalia a decisão contra o blogger Kareem A. à luz da liberdade de imprensa e liberdade de opinião no Egipto?

6. Como é que o Governo Federal analisa a complexa situação da liberdade religiosa no Egipto? Vê alguma relação concreta com a situação dos Bahá'ís?

7. Que implicações tem a situação dos Bahá'ís sobre as práticas do código de deportação do Governo Federal?

Berlim, 22 de Março de 2007
Renate Künast, Fritz Kuhn e Grupo Parlamentar

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COMENTÁRIO: Será isto uma interferência do Parlamento Alemão em assuntos internos Egípcios? Ou será que hoje em dia nenhum governo do mundo pode discriminar ou perseguir um grupo social, esperando não ser questionado por qualquer outro governo ou instituição internacional? O Egipto não vive isolado do resto do mundo. Uma violação de direitos humanos não pode ser um assunto interno de um país; é um assunto de toda a humanidade. Como baha’i e como europeu tenho orgulho na iniciativa destes deputados alemães; é caso para citar JFK: "Ich bin ein Berliner!" Será que alguma vez veremos deputados portugueses a tomar iniciativas semelhantes?

No Bundestag...



A situação dos Bahá'ís no Egipto foi ontem tema de debate no parlamento alemão, segundo afirma o site oficial do Bundestag. Deputados da Aliança 90/Verdes e questionaram o Governo Federal sobre a discriminação desta comunidade religiosa que não é reconhecida no Egipto, e consequentemente os seus membros não podem receber documento de identificação civil. O grupo parlamentar Aliança 90/Verdes perguntou ao Governo Federal de que forma este tema da fé, da liberdade religiosa e da situação dos bahá’ís, tem sido abordado junto das autoridade Egípcias e que consequências tem tido as pressões do Governo Federal.

O site oficial não esclarece, porém, qual foi a resposta do Governo Federal.

Recorde-se que a Universidade Alemã do Cairo foi alvo de polémica ao despedir um professor bahá'í por este não possuir documetnos de identidade válidos. Sobre este assunto, ler:
* Egypt: No ID Card = You Are Fired!
* No ID = You Are Fired! Revisited
* Update on the German University Case

terça-feira, 3 de abril de 2007

domingo, 1 de abril de 2007

Domingo de Ramos e o Jardim de Ridvan

Na liturgia da Igreja Católica celebra-se hoje o Domingo de Ramos. É o primeiro dia da Semana Santa, em que se recorda a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, aclamado por uma multidão em festa. A partir desse momento o choque com os poderes políticos e religiosos do Seu tempo assume novas dimensões; os mercadores são expulsos do templo e os sacerdotes conspiram contra Ele. Mas também é após a entrada em Jerusalém que as Suas palavras começam a adquirir uma crescente intensidade espiritual e escatológica, como é o caso do discurso no Monte das Oliveiras.


A entrada em Jerusalém tinha sido precedida de uma premonição profética: “Importa, porém, caminhar hoje, amanhã, e no dia seguinte, para que não suceda que morra um profeta fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu juntar os teus filhos, como a galinha os seus pintos debaixo das asas, e não quiseste?” (Lc 13:33-34)

O momento da entrada em Jerusalém encontra um paralelo no fim do exílio de Bahá'u'lláh em Bagdade. E tal como Jesus, também Bahá'u'lláh antecipou as várias tribulações que O aguardavam; foi no Naw-Ruz de 1863, quando revelou a Epístola do Santo Marinheiro, deixando apreensivos muitos dos Seus companheiros e admiradores.

O Seu exílio na capital provincial do Iraque já durava há dez anos e o Seu prestígio tornava-se motivo de inquietação para autoridades otomanas e persas. Quando se tornou conhecida a decisão de enviar Bahá'u'lláh, a Sua família e alguns exilados para Constantinopla, as imediações da Sua casa encheram-se de gente que queria despedir-se daquele exilado persa que durante uma década, através das Suas palavras e ensinamentos, tinha exercido uma poderosa influência sobre uma parte significativa da população da cidade.

Em 22 de Abril de 1863, depois de receber a notificação imperial, Bahá'u'lláh abandonou a Sua casa em Bagdade e dirigiu-Se ao jardim de Ridván, junto às margens do rio Tigre. Ficou ali durante doze dias, dormindo numa tenda e continuando a receber todos os que se queria despedir dele. Durante doze dias, amigos, conhecidos, árabes, curdos, persas, autoridades civis e religiosas, funcionários do governo e comerciantes, ricos e pobres, encheram o jardim, todos ansiando por ver pela última vez o Seu rosto, enquanto não escondiam o seu desgosto e angústia.

O Jardim de Ridván nos finais do séc. XIX

A saída do Jardim de Ridván (3 de Maio) provocou cenas de entusiasmo ainda mais tumultuosas do que as que marcaram a despedida da Sua casa. A multidão de admiradores lançava-Se aos seus pés, enquanto outros choravam e lamentavam-se batendo no peito. Mesmo as pessoas eminentes que se tinham reunido para uma última despedida estavam surpresas pela reacção a que assistiam; um cronista da época refere que "tal era a emoção que os dominava que nenhuma língua seria capaz de descrevê-la nem poderia qualquer observador escapar à sua influência".

A entrada em Jerusalém e os dias no Jardim de Ridván são momentos de viragem na vida de dois Manifestantes de Deus. São também os momentos de maior visibilidade e aceitação pública das Suas Missões. Em ambos os casos, estes momentos foram sucedidos por episódios humilhantes às mãos daqueles que detinham o poder.