terça-feira, 30 de junho de 2009

Ainda a Modernidade

No livro Cristo Filósofo, Frederic Lenoir escreve:
O grande paradoxo, a ironia suprema da história, é que o advento moderno da laicidade, dos direitos do homem, da liberdade de consciência, enfim, de tudo aquilo que se fez nos séculos XVI, XVII e XVIII contra a vontade dos eclesiásticos, se produziu por meio de um recurso implícito ou explícito à mensagem original dos Evangelhos. Dito por outras palavras, aquilo a que chamo aqui «a filosofia de Cristo», os seus ensinamentos éticos mais fundamentais, deixou de chegar aos homens através da porta da Igreja... para passar a usar a janela do Humanismo do Renascimento e das Luzes! Durante esses três séculos, ao mesmo tempo que a instituição eclesiástica crucificava o ensinamento de Cristo acerca da dignidade humana e da liberdade de consciência por meio de prática inquisitorial, este último ressuscita graças aos humanistas. (p.17)

COMENTÁRIO:

Como referi anteriormente, os valores da modernidade referidos por Frederic Lenoir, são também assumidos pela Fé Bahá’í. Não são o resultado de uma reflexão teológica-filosófica; não resultam de uma evolução histórica, ou de um conjunto de circunstâncias específicas que permitiram o seu surgimento. São valores que se encontram nas próprias Escrituras. Desta forma tornam-se um ponto de partida para uma nova etapa da nossa evolução colectiva. São, certamente valores que fazem parte da prometida civilização em constante progresso que a família humana se deve empenhar em construir.

Por este motivo, os valores da modernidade devem ser uma das bases do diálogo entre Bahá’ís e Cristãos.

domingo, 28 de junho de 2009

A inspiração de Rafsanjani

Excerto de um artigo de Margarida Santos Lopes, publicado hoje no jornal Público (caderno P2), intitulado "Rafsanjani: Este ayatollah é o cérebro da "revolução verde"
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O exemplo do vizir

Qom e Khomeini permaneceram influências determinantes na vida de Rafsanjani - mas não as únicas. Em 1967, ainda na prisão, publicou uma biografia de Amir Kabir (1807-1852), o grande vizir reformista do século XIX, que ele admira por ter usado o Ocidente para modernizar a Pérsia. Estranha escolha, para um mullah.

Representante nas negociações para pôr fim a 100 anos de guerra entre os persas e o Império Otomano, Amir Kabir ajudou o Xá Nasrudin (da dinastia Qajar) a subir ao trono e este, agradecido, ofereceu-lhe uma irmã em casamento e o cargo de primeiro-ministro. Nestas funções, reduziu a influência estrangeira nos assuntos iranianos, criou um sofisticado serviço de espionagem, fundou a Darolfonoon, a primeira universidade de estilo europeu, em 1848, apoiou a criação do primeiro jornal persa, Vaghaye al Etefaghiyeh, e tentou abrir no Irão todas as indústrias que então existiam pelo mundo. Por exemplo, fábricas de aço, de armas, de açúcar, de vidro, de chá, de cerâmica, além de estaleiros navais.

Era também o vizir quem definia o salário do Xá. No entanto, quando ousou cortar nas finanças da família imperial, para reduzir as despesas públicas e no âmbito de uma campanha contra a corrupção, Amir Kabir enfrentou a fúria de toda a nobreza. Demitido e forçado a um exílio interno, em Kashan, foi executado por uma ordem que Nasrudin não se lembra de ter assinado porque estava embriagado.

Este foi o destino que teve Siyyid 'Alí-Muhammad ou Bab, o fundador da religião Babí (actual Baha'i), que Amir Kabir mandou matar em 1850. Mas este não é certamente o destino que Rafsanjani quer para si, por muito que admire o vizir reformista.

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NOTA: Neste post, fiz referência a Amir Kabir. Apesar de ser descrito por muitos autores Baha'is como um terrível inimigo, 'Abdu'l-Bahá elogiou o seu empenho no desenvolvimento do Irão.

sábado, 27 de junho de 2009

NYTimes: Para os Bahá'ís, a repressão é uma notícia antiga

Aqui fica a tradução de parte de um artigo publicado no New York Times. O texto é de autoria de Samuel G. Freedman e foi publicado no passado dia 26 de Junho. Os sublinhados amarelos são da minha responsabilidade.
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Por vezes, durante as últimas duas semanas, enquanto estava de serviço no hospital, a Dra. Saughar Samali foi apanhando excertos dos telejornais no quarto de um paciente ou ouvia um boletim noticioso na rádio do gabinete. Contra a sua vontade, contra as suas perspectivas, foi arrastada de novo pelo turbilhão iraniano.

Quando está de serviço, a Dra Samali pode suprimir o que vê e ouve dos manifestantes, das prisões, dos espancamentos. Mas quando sai do St. Joseph's Hospital em Paterson e regressa a Clifton, o presente evoca um passado terrível.

Lembra-se da fábrica do seu pai em Teerão ter sido incendiada deixando-o severamente marcado e cego de um olho. Lembra-se da sua família ter tentado fugir para o Paquistão, viajando num jipe de um contrabandista, com os faróis apagados, durante a noite, pelo deserto. Lembra-se das balas furarem o pára-brisas e os pneus, e lembra-se dos meses que se seguiram na prisão.

Em 1985, ela tinha 5 anos. E nos anos seguintes, mesmo após uma posterior fuga bem sucedida para os Estados Unidos, a Dra. Samali não se esqueceu do que significa ser Baha’i na República islâmica do Irão.

"Tento desligar as minhas emoções", diz a Dra. Samali, de 28 anos, a propósito da actual turbulência no Irão. "Os Baha’is do Irão passam por isto todos os dias. É triste ver isto, mas pode ser uma forma da verdade vir ao de cima".

Os Baha'is há muito que funcionam com canários providenciais na mina de carvão que é a teocracia do Irão. A sua perseguição, documentada durante 30 anos por numerosos relatórios de direitos humanos, contradiz todas as previsões ingénuas de que a linha-dura na superfície do Irão oculta uma profunda nascente de moderação e tolerância.

(...)

Durante a recente turbulência, que é essencialmente uma luta entre xiitas sobre a duvidosa reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, os Baha'is serviram mais uma vez como bodes expiatórios. Os apoiantes do presidente Ahmadinejad recuperaram os clichés dos Baha’is serem espiões americanos e sionistas secretos, e acrescentaram um novo, afirmando que BBC (British Broadcasting Corporation) significa "Baha’i Broadcasting Corporation".

Os ataque retóricos coincidiram com a decisão do governo de levar a julgamento, no dia 11 de Julho, os sete dirigentes baha’is perante um intitulado Tribunal Revolucionário. Os dirigentes, detidos no início de 2008, enfrentam acusações de "espionagem para Israel, insulto a santidades religiosas, e propaganda contra a República Islâmica", segundo relata a imprensa oficial iraniana. A espionagem é punível com a pena de morte.

Assim, para os 165.000 Baha’is dos Estados Unidos - pelo menos 10.000 são refugiados provenientes do Irão – a questionável eleição e a repressão dos manifestantes surgem como uma confirmação sinistra do carácter do governo.

"Tenho uma sensação de turbilhão no meu coração", afirmou disse Farhad Sabetan, um porta-vos da Comunidade Internacional Bahá’í, a organização que representa os interesses Baha’is nas Nações Unidas. "Os Baha’is passaram por este tipo de repressão ao longo dos últimos 30 anos, e a forma como foram tratados é agora a forma como o povo iraniano está a ser tratado".

(...)

Mesmo após 30 anos de repressão oficial dos Baha’is, o Sr. Hossein um mantra que os mullahs não ouvem: que o Bahaismo é uma religião de paz, que os Baha’is não são políticos, que os baha'is apoiam o governo onde quer que vivam. Tudo o que os Baha’is no Irão querem, afirma, são os mesmos direitos humanos que outros cidadãos.

Enquanto vê as notícias, enquanto tenta telefonar ao familiares no Irão, enquanto tenta acompanhar os acontecimentos de forma tão obsessiva, quanto a Dra Samali tenta afastar-se deles, o Sr. Hossein chegou à mesma conclusão que ela: talvez os baha’is tenham finalmente alcançado uma espécie de igualdade.

Atacados pela milícia Basij e pela Guarda Revolucionária, atingidos por canhões de água e armas, os muçulmanos iranianos, pelo menos os que apelam publicamente para eleições justas e direitos humanos, estão a ser tratados como Baha’is.

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Artigo completo (em inglês): For Bahais, a Crackdown Is Old News

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Violência no Irão

Excerto do programa "Mais Você" da Rede Globo, com a apresentadora Ana Maria Braga, exibido no dia 24 de junho de 2009. Inclui entrevista com um Bahá'í.



Video sugerido pelos Bahá'ís de Curitiba.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Bahá'ís acusados de fomentar tumultos no Irão



Numa tentativa para distrair a opinião pública sobre as raízes dos actuais problemas iranianos, a propaganda anti-bahá’í voltou a ser um dos instrumentos usados pelo regime dos ayatollahs. Não é a primeira vez que os baha’is se tornam bodes expiatórios dos problemas políticos iranianos; nos últimos 165 anos foram acusados de serem agentes britânicos, americanos, russos e israelitas..

Pouco depois do Ministro Iranianos dos Negócios Estrangeiros Manouchehr Mottaki ter acusado o Governo britânico de "apoiar a seita Baha’i", cartazes como o que se vê na fotografia acima têm sido exibidos em manifestações nas ruas das cidades iranianas. Trata-se de uma tentativa de associar a comunidade Baha’is com um órgão de informação britânico. É daquelas falsidades tão descaradas... que se tornam patéticas.

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SOBRE ESTE ASSUNTO:
Top Iranian official: Vote rigging not possible (CNN)
Iran media: Council rejects claims of voting irregularities (CNN)
Ferveur inhabituelle à Téhéran pour écouter le Guide (Le Monde)
NEWS: Bahais Accused of Plotting the Protests in Iran (RCE)
Iran: IRI MP: People should not trust foreign media (ISRIA)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Porque é que a Modernidade surgiu no Ocidente?

No livro Cristo Filósofo, Frederic Lenoir escreve:
Porque será que aquilo a que chamamos «modernidade» não teve lugar em outro lugar - na China, na Índia ou no Império Otomano, por exemplo - e num outro período da História? A questão é crucial. A modernidade ocidental e os seus principais componentes - razão crítica, autonomia do sujeito, universalidade, laicidade - apenas puderam desenvolver-se no seio de um mundo específico que reunia todos os factores passíveis de propiciar que tais componentes eclodissem e se ligassem entre si. Ora, historicamente, este mundo específico foi o mundo cristão. E por mais paradoxal que isso possa parecer à primeira vista, de tal forma o espírito moderno e as instituições religiosas se opuseram que a Modernidade só pôde desenvolver-se ao termo de um longo processo de amadurecimento no seio da sua própria matriz religiosa - o Cristianismo - e, depois, de emancipação e viragem contra ela. O essencial da história do Ocidente resume-se a este espantoso encadeamento de factos.(p. 163)
COMENTÁRIO:
O título deste post é um tema de reflexão demorada de Frederic Lenoir. E penso que é um tema merecedor de reflexão por parte de todas as pessoas que estudam o fenómeno religioso. Aqui ficam algumas considerações:

1 - O facto dos valores da modernidade terem surgido no Ocidente, como herança ou fruto do Cristianismo, isso não significa que não pudessem ter aparecido noutro lugar. Parece-me mais correcto dizer que noutros tempos e noutros lugares não se proporcionaram as condições para que isso acontecesse.

2 - Noto que Frederic Lenoir tem o cuidado de nunca considerar que as religiões não-cristãs foram obstáculos ao surgimento da modernidade; o importante é o conjunto de circunstâncias históricas e a sucessão de acontecimentos. Nas Escrituras Baha’is refere-se que todas as religiões surgiram com potencial para transformar a humanidade. Mas esse potencial acabou por não se revelar, devido à distorção dos ensinamentos originais dessas religiões.

3 - O facto dos valores da modernidade terem raízes no mundo Ocidental, marcado pela cultura cristã, isso não nos pode levar a deduzir que o Cristianismo seja superior às outras religiões. Se alguém for tentado por esse raciocínio, lembro que estes valores da modernidade surgem como resultado de um “longo processo de amadurecimento”. Na Fé Bahá'í, esses valores são um ponto de partida, na medida em que se encontram entre os ensinamentos de Bahá'u'lláh. E isso não acontece porque a Fé Bahá'í seja superior a outras religiões, mas antes, porque os seus ensinamentos são adequados à nossa maturidade e necessidades dos tempos actuais.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

How cults think

Diane Benscoter talks about how she joined the Moonies -- and stayed for five long years. She shares an insider's perspective on cults and extremist movements, and proposes a new way to think about today's most troubling conflicts.



Read more: Q&A with Diane Benscoter: Joining, leaving and ultimately defeating the cult

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Mousavi, Abtahi e os Bahá'ís do Irão

A propósito da situação política que actualmente se vive no Irão, o site Iran Press Watch divulgou dois documentos oficiais onde mais uma vez se demonstra a política da Republica Islâmica de discriminação sistemática dos Bahá'ís.

O primeiro desses documentos é um memorando assinado pelo Sr. Mir Hossein Mousavi (que foi primeiro-ministro entre 1981 e 1989), dirigido a diversos organismos governamentais. O segundo documento foi escrito pelo Hojjat al-Islam Seyyed Mohammad Ali Abtahi, um teólogo iraniano, académico e presidente do Instituto para o Diálogo Inter-Religioso. O Sr. Abtahi foi vice-Presidente do Irão e é considerado uma pessoa próxima do antigo presidente Mohammad Khatami.

Aqui fica a tradução dos documentos (feita a partir desta tradução em inglês). Os documentos originais em persa podem ser lidos aqui.


* * * Primeiro Documento * * *


Em Nome de Deus

Secção sete / Minorias

Número: 11-4462

1 de Fevereiro de 1989

Memorando para todos os Ministérios, Organizações e Agências Governamentais, Fundações Revolucionárias Islâmicas e Governadores de todas as Províncias do País:

Baseado em relatórios recebidos, não existem instruções únicas e coordenadas para confrontar os membros da perdida seita Bahá'í disponíveis para o ramo executivo. Assim, com a aprovação do respeitável Presidente da República Islâmica, é necessário que todos os ministérios, organizações e agências governamentais, fundações revolucionárias islâmicas e Governadores de Províncias apliquem as orientações descritas abaixo como política oficial do Governo.

Os espiões devem ser severamente confrontados com base nas leis e regulamentos existentes, mas no que respeita a outros cidadãos, independentemente das suas crenças, devem ser tratados como cidadãos comuns, de forma consistente com a parte final do Artigo 23 da Constituição.

A nenhum funcionário ou representante da República Islâmica é permitido privar os cidadãos dos seus direitos civis ou sociais, a menos que se prove que são espiões, ou conforme estipulados pelas leis definidas pelas autoridades oficiais legais do país.

Deve-se notar que, baseado no Artigo 13 da Constituição, os Zoroastrianos, os Judeus e os Cristãos Iranianos são as únicas minorias religiosas que são livres de praticar as suas actividades religiosas no âmbito do enquadramento legal do país. É-lhes permitido seguir a sua vida e desenvolver actividades baseadas nas respectivas leis e mandamentos religiosos.

Mir Hussein Mousavi
Primeiro Ministro

* * * Segundo Documento * * *


A pesada responsabilidade de supervisionar a implementação da Constituição

Em Nome de Deus

Número: 80-7662

31 de Dezembro de 2001

Querido e estimado irmão, Sr. Sayed Mohammad Khatami, Presidente da República Islâmica do Irão.

Saudações!

Baseado num relatório apresentado numa reunião oficial da respeitável Comissão do Parlamento Islâmico em 30 de Dezembro de 2001, em que estive presente, e com respeito aos princípios 88 e 90 da Constituição, alguns Baha’is funcionários de organismos e agências governamentais perderão os seus direitos enquanto cidadãos do país devido às suas crenças e à sua associação com a religião Bahá'í.

Recordo-lhe que em 1 de Fevereiro de 1989, o respeitável antigo Primeiro Ministro [Mir Hussein Mousavi] com a aprovação do Presidente da República Islâmica do Irão, publicou um memorando para todos os ministérios, organizações e agências governamentais, fundações revolucionárias islâmicas e Governadores de todas as Províncias, indicando:

"A nenhum funcionário ou representante da República Islâmica é permitido privar os cidadãos dos seus direitos civis ou sociais, a menos que se prove que são espiões, ou conforme estipulados pelas leis definidas pelas autoridades oficiais legais do país."

Ao apresentar a informação de fundo acima mencionada e com respeito ao Artigo 23 da Constituição, as suas opiniões e recomendações enquanto Presidente do país e autoridade responsável pela implementação da Constituição, proporcionar-nos-ão a orientação relativa à necessidade de considerar os direitos civis da força de trabalho da seita Bahá'í.

Assinado
Seyyed Mohammad Ali Abtahi


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COMENTÁRIO: Tendo em conta estes antecedentes, parece-me que independentemente do resultado da actual crise política no Irão, não se pode esperar grandes alterações nas políticas oficiais em relação aos Bahá'ís

segunda-feira, 15 de junho de 2009

IP



É bom saber que no IP também apreciam o meu sentido de humor!

The Secret of Divine Civilization

An explanation from the Research Department of the Universal House of Justice concerning several questions about the book "The Secret of Divine Civilization", by 'Abdu'l-Bahá

Secret of Divine Civilization UHJ1991June20

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Quando o inesperado acontece em Teerão...



Um email que circula na net, indica um link para um vídeo de uma manifestação em Teerão. Os manifestantes entoam as seguintes palavras:

"Ahle hag natarsid yemayatat mikonim"
(Ó Povo da Verdade, não tenhas medo. Tens o nosso apoio e a nossa protecção!)

A expressão "Povo da Verdade" é usada pelos Sufis se identificarem a si próprios. Diversos bloggers e twitters sugerem que se tratam de cânticos de apoio a Sufis, Zoroastrianos e Bahá’ís.

Algum amigo que fale persa pode esclarecer exactamente o que dizem os cânticos?

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NOTA: É importante ter presente que os Bahá'ís, seguindo o princípio de não envolvimento em política partidária, não apoiam nenhum dos candidatos às eleições presidenciais iranianas.

Zahra Rahnavard

A novidade nas eleições iranianas, que hoje se realizam, não foi nenhum dos candidatos. O centro das atenções acabou por ser a Sra. Zahra Rahnavard, a esposa de um dos candidatos, o Sr. Hossein Moussavi. Num país em que dass mulheres apenas se espera que permaneçam afastadas do olhar público, a Sra Zahra Rahnavard - professora universitária, escritora e escultora - acabou por surgir como um trunfo valioso na campanha eleitoral do marido.

Os observadores internacionais não hesitaram em fazer comparações entre a Sra. Rahnavard e outras primeiras damas em países ocidentais, nomeadamente, Michele Obama. Nos comícios em que participou as suas intervenções dirigiram-se essencialmente ao eleitorado jovem e feminino, apelando ao fim da discriminação das mulheres no acesso ao emprego e à política, e criticando as perseguições aos dissidentes, nas universidades e na imprensa.

Durante a campanha eleitoral, a Sra. Rahnavard não hesitou em questionar porque é que os estudantes são presos por expressar as suas opiniões e porque é que os professores liberais são obrigados a reformar-se antecipadamente. Repetidamente, os seus discursos fizeram as audiências entoar palavras de ordem apelando à libertação de presos políticos.

O ponto forte das palavras da Sra. Rahnavard é a questão da igualdade de direitos entre homens e mulheres. E num comício em Tabriz, a esposa do candidato apresentou a questão da igualdade de direitos da seguinte forma: "O homem e a mulher são como duas asas. Um pássaro não pode voar apenas com uma asa ou com um asa partida".

"Porque é que não foi aprovada nenhuma candidatura feminina à presidência? Porque é que não existem mulheres no Governo? Porque é que as donas de casa não têm direito a seguro? Isto tem que mudar! Libertarmo-nos da discriminação e exigir direitos iguais deve ser a prioridade numero um para as mulheres no Irão."

Ver a Sra. Rahnavard comparar a igualdade de direitos entre homens e mulheres com as asas de um pássaro é surpreendente para um bahá’í. Na verdade, esta analogia foi usada por 'Abdu'l-Bahá durante a Sua visita aos EUA em 1912. Nessa ocasião, o filho de Bahá'u'lláh afirmou:
O mundo da humanidade possui duas asas: o homem e a mulher. Enquanto estas asas não forem igualmente fortes, o pássaro não poderá voar. Enquanto a mulher não atingir a mesma condição que o homem, enquanto ela não usufruir das mesmas áreas de actividade, não haverá realizações maravilhosas para a humanidade... Quando as duas asas se tornarem equivalentes em força, gozando dos mesmos direitos, o voo da humanidade será sublime e extraordinário.
Este é um dos mais citados excertos das Escrituras Bahá'ís. Ciclicamente os bahá’ís recorrem a este pequeno texto para descrever um dos princípios fundamentais da sua religião. Por este motivo, não deixa de ser curioso que esta analogia tenha sido usada pela esposa de um candidato à presidência do Irão.

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Sobre este assunto:
'Michelle Obama' do Irã sacode o palanque (estadão.com.br)
A silenciosa revolução feminina no Irã (O Globo)
A prova de Ahmadinejad (JN)
Iranian election could be test for women's rights (CNN)
Reform candidate's wife new political star in Iran (NewsTimes.com)
Power of women in Iran's election (BBC)
The Woman Ahmadinejad Should Fear (Spiegel)
Iranian presidential candidate's wife takes the spotlight (LA Times)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Responsabilidade política

O Governador do Banco de Portugal é nomeado pelo Governo. Não é um cargo a que se aceda graças a uma promoção, ou evolução, numa determinada carreira. Consequentemente, é um cargo que impõem uma dupla responsabilidade: administrativa e política.

No caso dos recentes escândalos financeiros (BPN e BPP), Vítor Constâncio tem justificado a sua actuação apenas na vertente da responsabilidade administrativa: seguiu todos os procedimentos legais possíveis; fez tudo o que os regulamentos e as normas processuais indicam. Até dedicou uma atenção especial aos bancos em causa. Acredito que seja verdade.

O que me parece é que o Governador do Banco de Portugal tem esquecido a sua responsabilidade política; por outras palavras, os problemas surgidos na supervisão sistema bancário português (mesmo que sejam impossíveis de detectar com os actuais métodos de supervisão) são da sua responsabilidade política, o que pressupõe uma responsabilização do Governador perante o Governo e, consequentemente, perante os cidadãos portugueses.

Lembro, a este propósito, a atitude de outros governantes que confrontados com situações semelhantes, perceberam a responsabilidade política do cargo que ocupavam (algo a que por vezes se chama "sentido de Estado") e apresentaram a sua demissão.

Recorde-se Jorge Coelho e o caso da ponte de Entre-os-Rios. Enquanto Ministro do Equipamento Social (Obras Públicas) era responsável pelas infra-estruturas rodoviárias. Entendeu que o que tinha acontecido era da sua responsabilidade política e, consequentemente, demitiu-se.

Por esse motivo, entendo que o Governador do Banco de Portugal se devia demitir. Se não o faz, apenas se descredibiliza a si próprio e à instituição que lidera. E se para justificar o facto de não se demitir, invoca, entre outras coisas, o seu "prestígio perante outros governadores de bancos centrais europeus", então o descrédito ainda é maior.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Activista do Bahrain apela ao reconhecimento da Fé Bahá'í nos Estados do Golfo

Esra’a Al Shafei é uma activista de direitos cívicos conhecida pelas suas campanhas Free Karem e Baha’i Rights. Há algumas semanas atrás os seu trabalho mereceu atenção do NewsBlaze.com. Aqui fica a tradução das partes mais relevantes desse texto (de autoria de Sandeep Singh Grewal).
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Uma activista do Bahrain insta o governo a reconhecer a Fé Baha’i e a permitir que a comunidade se possa reunir e praticar livremente actos de culto.

Esra'a Al Shafei, cujo trabalho se foca nas minorias étnicas e religiosas, afirmou que este é o momento certo para os governos Árabes e do Golfo reconhecerem legalmente os Baha’is.

"A comunidade devia receber das autoridades uma autorização para operar os seus locais de culto. O tema Baha’i não é tabu e a sociedade deve aceitá-los como uma comunidade que dá o seu contributo", afirmou a activista. O apelo surge quando os Baha’is em diferentes partes do mundo celebraram no Sábado o 165º aniversário do nascimento da fé Baha’i.

Al Shafei, Directora da Fundação Mideast Youth (que dirige a Muslim Network of Baha´i Rights), afirmou que as pessoas não devem olhar para a comunidade como “sionistas disfarçados”. "Só porque eles têm o seu templo em Israel (Haifa) não significa que eles devam ser rotulados como Sionistas. Historicamente, os Baha'is têm um imenso respeito pelo Islão. Mas os Judeus têm mais direitos que os Baha’is no Médio Oriente", explicou Al Shafei.

Os Baha'is representam aproximadamente 1% da população do Bahrein. Não há interferência governamental nos seus actos de culto e reuniões. Contudo, de acordo com relatórios do Ministério da Justiça e dos Assuntos islâmicos tem-lhes sido repetidamente negada licença para operar. Segundo o relatório de 2008 sobre a Liberdade Religiosa Internacional elaborado pelo Departamento de Estado dos EUA, o governo não reconhece as cerimónias de casamento Baha'i, mas reconhece as cerimónias civis de casamentos realizados no estrangeiro. Declara-se ainda que as autoridades permitiram a publicação e discussão pública de um livro por uma Bahraini sobre a Fé Bahá'í no Reino.

Cemitério Bahá'í em Salmabad, Bahrain.

A activista salientou que os Baha’is na ilha têm acesso a cuidados de saúde, educação e outros serviços que lhes estão vedados noutros países como o Irão e o Egipto. O seu projecto (www.bahairights.org) está a ser desenvolvido com um grupo Muçulmano inter-religioso que acredita na tolerância e na coexistência. "Foi um desafio para nós iniciar este projecto num momento em que o Egipto e o Irão estavam a perseguir silenciosamente os Baha’is devido à sua fé", afirmou

(...)

Não foi um caminho fácil para Al Shafei que foi condenada e criticada por clérigos de países petrolíferos como a Arábia Saudita. "Insultam-nos e mandam-nos para o inferno. Para alguns conservadores o nosso trabalho vai contra os ensinamentos islâmicos. Alguns clérigos deixam comentários abusivos e ameaças de morte no nosso site. A fonte da minha força é a minha família que me apoia e compreende a minha paixão pela causa", afirmou a activista.

Apesar do volume de críticas, há um pequeno ma crescente número de Muçulmanos progressistas que apoiam a causa. "Não fazemos propaganda e queremos que todas as maiorias defendam as minorias. Por exemplo, que os israelitas reconheçam e apoiem os direitos dos palestinianos, ou que os árabes reconheçam os direitos dos curdos, pode provocar uma mudança tremenda" afirmou a jovem Bahraini.

O Bahrain é visto como um modelo de tolerância religiosa na região. No ano passado, o governo nomeou Huda Nonu, a primeira embaixadora judaica de um país árabe e do Golfo para os Estados Unidos. A ilha tem fronteiras com Arábia Saudita rica em petróleo e é o lar da Quinta Frota da Marinha dos EUA.

domingo, 7 de junho de 2009

O Mundo é a nossa casa

HOME, filme da autoria do realizador francês Yann Arthus-Bertrand, é constituído por paisagens aéreas do mundo inteiro e pretende sensibilizar a opinião pública mundial sobre a necessidade de alterar modos e hábitos de vida a fim de evitar uma catástrofe ecológica planetária.



A versão integral (exibida recentemente na RTP) encontra-se aqui.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O princípio da Liberdade Religiosa



Barack Obama, hoje na Universidade do Cairo:
O quinto assunto que devemos abordar juntos é a liberdade religiosa.

O Islão tem uma orgulhosa tradição de tolerância. Vemo-lo na história da Andaluzia e de Córdoba durante a Inquisição. Vi-o em primeira mão como criança na Indonésia, onde cristãos devotos praticam a sua religião livremente num país predominantemente muçulmano. Esse é o espírito que precisamos hoje. As pessoas em todos os países devem ser livres de escolher e viver a sua fé baseada na persuasão da mente, coração e alma. Esta tolerância é essencial para a religião prosperar, mas ela está sendo desafiada de muitas formas diferentes.

Entre alguns muçulmanos, há uma tendência perturbadora para medir a fé de uma pessoa pela rejeição da fé de outro. A riqueza da diversidade religiosa deve ser acolhida - seja para Maronitas do Líbano ou para Coptas no Egipto.

Só faltou mesmo referir os Bahá’ís no Irão e no Egipto!

O "laicismo" de Saramago

Na sua crónica de hoje no Diário de Notícias, José Saramago discorre sobre o “laicismo”. Tal como noutras ocasiões, nas entrelinhas deste texto percebe-se que o escritor defende que o Estado deve ignorar as confissões religiosas. É algo bem diferente de uma laicidade inclusiva, onde o Estado coopera com as confissões religiosas, tal como coopera com tantos outros agentes sociais.

O texto de hoje tem a novidade: Saramago reduz o conceito de laicismo a uma espécie de combate escatológico entre a Igreja Católica e o Ateísmo. Para um velho combatente comunista, esta é uma curiosa visão profética.

Sabemos que Saramago nunca morreu de amores pela Igreja Católica, nem pela religião. No texto de hoje, rejeita a existência de Deus; não de um Deus transcendente, distinto da criação; para Saramago Deus apenas pode ser identificada com uma divindade saída de um catecismo literalista ou de uma qualquer religiosidade infantil. Um ateísmo, como o de Saramago, que se limita a rejeitar crenças religiosas patéticas, será sempre um ateísmo patético. É por isso que Saramago não chega aos calcanhares de Richard Dawkins.

David Carradine (1936-2009)

"O Sinal do Dragão" (Kung-Fu) foi o meu primeiro culto televisivo.

David Caradine, o actor que dava vida ao protagonista (Kwai Chang Caine), faleceu hoje.

Um Ayatollah diferente

Os apoiantes do Ayatollah Boroujerdi exigem uma investigação sobre a situação dos Bahá'ís.

O ayatollah Siyyid Husayn Kazemeyni Boroujerdi é um clérigo iraniano que defende a separação entre estado e religião. Em 1994 manifestou publicamente a sua oposição ao regime Islâmico do Irão e contestou o conceito "teocrático" de governo ou "guardiania" por parte do de clérigos/juristas islâmicos. Boroujerdi e muitos dos seus seguidores foram detidos em Teerão, em Outubro de 2006, após confrontos entre a polícia e centenas dos seus apoiantes. Em 25 de Maio de 2009, os apoiantes do Ayatollah Boroujerdi condenaram a actual repressão e violação de direitos da Comunidade Bahá’í no Irão. Aqui fica a tradução da declaração publicada no seu site:
Com a escalada recente de detenções, prisões e ameaças de execução contra os nossos compatriotas baha’is, os apoiantes do Sr. Boroujerdi exigem uma investigação e uma maior atenção da comunidade internacional para a actual violação dos direitos básicos dos Bahá’ís do Irão.

No entanto, os apoiantes do Sr. Boroujerdi acreditam que, infelizmente, nas negociações e nos “acordos feitos atrás do pano” entre as nações, a questão dos direitos humanos é muitas vezes sacrificada por interesses temporários e pragmatismo político. Como tal, o aumentar da sensibilização para esta questão importante recai sobre os ombros de oposição, que, confrontados com uma grande tirania, têm feito eco dos gritos sufocados da oprimida comunidade iraniana.

Desde o início da administração de Ahmadinejad, a supressão sistemática de movimentos civis, intelectuais heterodoxos, e membros de outras religiões tem acelerado. Entre estes grupos, a repressão dos nossos conterrâneos Bahá'ís tem sido particularmente intensa e maliciosa. A negação do direito à educação de alunos Bahá'ís, a negação de direitos cívicos fundamentais, a repetida violação dos seus direitos como cidadãos, sob o pretexto de "encontros jurídicos", e a deliberação de pernas excessivamente duras e alegações infundadas, tais como atentados bombistas ou envolvimento em actos terroristas, num ambiente de opacidade desprovida de adequado recurso legal, pintaram um quadro sombrio para o futuro dos nossos compatriotas Bahá'ís no Irão.

Além de acreditar na liberdade de expressão religiosa e na liberdade de culto para outras religiões, os apoiantes do Sr. Boroujerdi expressam a sua solidariedade para com a comunidade Bahá'í, e exortam a aplicação integral das disposições da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e plena observância das disposições no Irão.
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FONTE: Supporters of Ayatollah Boroujerdi demand investigation of Baha’i case (IPW)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Uruguay: Plantean que la educación incluya estudiar religiones

Reunión. Grupos religiosos y autoridades del MEC e IMM

¿Se puede comprender el Renacimiento sin estudiar a Martín Lutero? ¿China sin analizar el budismo? ¿El conflicto de Medio Oriente sin conocer las diferentes religiones implicadas?

Según surgió del diálogo interreligioso de Uruguay, aprender sobre las religiones no sólo sirve para entender la historia humana, sino también para fomentar una convivencia respetuosa en el presente.

"Promover un modelo de laicidad que no suponga la prescindencia de la diversidad religiosa sino que lo integre socialmente", fue uno de los puntos que surgieron en este diálogo social, uno de los seis del Mercosur impulsados por el actual presidente pro témpore, Fernando Lugo.

En realidad, las religiones en Uruguay llevan unos cinco años reuniéndose por iniciativa propia, pero el contexto del Mercosur les permitió la semana pasada acceder al vicepresidente, Rodolfo Nin Novoa, para acercarle las conclusiones, y hoy reunirse con autoridades del Ministerio de Educación y Cultura y de la Intendencia de Montevideo. A su vez, el mes próximo en la Cumbre de Presidentes del Mercosur, tendrán cinco minutos de exposición.

Para lograr esa laicidad "inclusiva" que propusieron desde el diálogo interreligioso como forma de evitar la discriminación, una de las medidas fue incorporar información sobre todas las religiones dentro de los programas de estudio en sus diferentes niveles.

Nicolás Iglesias, del Consejo Latinoamericano de Iglesias (CLAI), institución organizadora del diálogo en Uruguay, explicó que la idea no es obligar a los estudiantes a conocer los más de 50 grupos religiosos que existen en el país, según la Guía de la diversidad religiosa de Montevideo de Néstor da Costa. De hecho, hay quienes afirman que son cerca de 100 grupos, dijo Iglesias. "El objetivo es lograr una mayor sensibilidad hacia el tema", resumió.

Además, según la Encuesta Nacional de Hogares del Instituto Nacional de Estadística (INE) de 2006, el 82,8% de los uruguayos creen en Dios. Del total, 47,1% se declararon católicos, 23,2% dijeron ser creyentes en Dios sin confesión, el 11,2% cristianos no católicos, 0,6% afroumbandistas, 0,3% judíos y 0,4% de otros grupos.

En este mismo sentido, la próxima semana presentarán al INE una propuesta para incluir la definición religiosa en el Censo 2010 y seguir conociendo la diversidad uruguaya en materia de cultos.

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NOTÍCIA COMPLETA: Plantean que la educación incluya estudiar religiones (El Pais, Uruguay)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Steven Gonzales fala sobre Assuntos Indígenas

Steven Gonzales é professor de Direito e representante da Comunidade Internacional Baha'i no Forum Permanente das Nações Unidas para Assuntos Indígenas.