sábado, 30 de abril de 2005

Special Status for Refugees in North Uganda

A ler: Special Status for Refugees in North Uganda.

As preocupações e esforços das comunidades religiosas do Uganda em relação aos campos de refugiados no norte do país (onde uma guerra civil tem colocado a população civil como alvo de terríveis atrocidades). Por vezes esquecemo-nos do que se passa noutros lugares do mundo e das preocupações de quem lá vive...

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Conversas cruzadas num almoço de bloggers

- Vamos entrando e pedindo uns aperitivos?...
- Falta o Carlos, pá... O gajo não aparece, nem tem escrito nada...
(...)
- Estou à espera de um telefonema da gráfica. Ainda vai haver fumo branco para a publicação do meu livro...
- Vamos ter cerimónia de lançamento com champanhe?
(...)
- Ah... tu és o Zé Filipe? Então parabéns!
(...)
- Já estás mais calmo com a eleição do Ratzinger?
- 'tive um dia sem bloggar.
- Ratzinger, não. Bento XVI...
(...)
- ...na Quinta da Alegria... quer dizer, na Terra da Alegria....
(...)
- Viram os comentários do Pedro Barbosa na flash interview depois do Boavista-Sporting? O homem a falar sobre a morte do Papa, e o som de fundo era a pancadaria e confusão entre jogadores.
(...)
- Há muitas meninas que vêem visitar o meu blog. Mas o Aviz não me linka, não sei porquê...
- Ó pá! Há imensa malta que não linka a ninguém, há outros que copiam os links, há outros que não os actualizam...
(...)
- Eu fiquei um bocado embaraçado para enviar aqueles perguntas sobre os livros...
- Aquilo do Fahrenheit 451?
- Sim... Eu até nem queria responder àquilo... depois lá escrevi... mas fiquei a pensar que algumas pessoas iam ficar chateadas comigo por eu lhes reenviar aquelas perguntas.
(...)
- Os Bahá'ís têm sacramentos?
(...)
- Esse Tolentino é o mesmo que escreveu "A Construção de Jesus"?
- Sim é esse. Ele também escreveu umas peças de teatro.
(...)
- Um excomungado não deixa de ser cristão. A excomunhão significa privar um crente de uma série de direitos que usufrui enquanto membro de uma comunidade religiosa.... Ninguém pode dizer "Tu não és cristão!". Só Deus é que decide isso...
(...)
- Quantas visitas tens por dia?
- Umas 30 ou 40... Uma vez quando a Rua da Judiaria me linkou tive cento e tal...
- O meu record foi duzentas...
- Eu tenho muita malta que chega ao meu blog procurando fotos no Google...
- E teus posts na Terra da Alegria? Aquilo é uma coisa enorme. Prefiro imprimir e ler em casa.
(...)
- O quê? O blog dos gajos? Já nem tenho paciência para ler aquilo. Vou lá uma vez por semana e é só para ler o que um deles escreve...
(...)
- Tenho a impressão que nós andamos todos a ler-nos uns aos outros.
(...)
- Sabes com quem és parecido fisicamente? Com o Tiago Cavaco, da Voz do Deserto...
- Pois... por acaso quando escrevo no blog sinto que estou a pregar no deserto...
(...)

Dois Lobos

Um dia um velho índio Cherokee falou ao seu neto sobre uma luta que existia dentro das pessoas. Disse:

"Há uma luta entre dois lobos que existem dentro de cada um de nós. Um é o Mal. É a raiva, a inveja, a ganância, a arrogância, a mentira, o orgulho e o ego. O outro é o Bem. É a alegria, o amor, a humildade, a esperança, a serenidade, a benevolência, a generosidade, a verdade e a fé."

O neto ficou calado por uns instante. E então perguntou:

"Qual dos lobos vence a luta?"

A resposta do velho Cherokee foi simples:

"Aquele que tu alimentares."

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Dois grandes projectos europeus

Os grandes projectos têm sempre os defensores e opositores ferrenhos, curiosos e cépticos.



O Airbus-380 é um projecto que se tornou realidade. É conhecido, já voa e agora espera-se que seja rentável.
A Constituição ainda é só um projecto; ainda não sabemos se será uma realidade. Merecia ser objecto de uma grande campanha de informação e esclarecimento.

Cultura Geral

Num post anterior, encontrei este comentário:

Podes explicar-me a diferença entre babis e bahais? Tinha para mim que Bab era uma espécie de João Baptista de Bahá'u'lláh. Mas a maneira como ele, neste post, aponta para si próprio desmente tal ideia. Ainda hoje existem babis? Ou seja, os babis não aceitam Bahá'u'lláh ao mesmo nível que Bab? E os Bahais, como o consideram?
Eu sei que são muitas perguntas, mas as respostas podem dar uma boa ajuda à minha cultura geral.

Anonymous #2
Este leitor já é "conhecido"; troquei com ele uma algumas opiniões a propósito do encontro inter-religioso na Igreja de s. Nicolau. Aqui fica o esclarecimento:

Os bahá'ís consideram o Báb e Bahá'u'lláh como Profetas fundadores de grandes religiões mundiais. Para nós, Eles estão no mesmo plano espiritual que Abraão, Moisés, Cristo, Buda, Zoroastro, e Maomé.

Os bahá'ís acreditam que no século XIX surgiram dois Profetas: o Báb e Bahá'u'lláh. O Báb pode ser visto como um precursor de Bahá'u'lláh, à semelhança do que João Baptista fez com Jesus Cristo. No entanto, o Báb, além de anunciar o aparecimento de Bahá'u'lláh, definiu um conjunto de leis e ensinamentos, revelou livros e epístolas e criou instituições que deviam reger a comunidade dos Seus seguidores. Desta forma, o Báb era mais do que uma "voz que brada no deserto"; Ele fundou uma religião.

O Báb é indissociável da religião bahá'í; não consigo conceber a minha religião sem o Báb. As escrituras do Báb são consideradas escrituras bahá'ís. Alguns autores baha’is designam o Báb e Bahá'u'lláh como "Manifestantes Gémeos"”; há também muitos sites e livros que referem o Báb, Bahá'u'lláh, e 'Abdu'l-Bahá (o filho de Bahá'u'lláh) como as "Figuras Centrais da Fé Bahá'í".


O Santuário do Báb, no Monte Carmelo (Haifa),
é hoje um local de peregrinação dos Bahá’ís

É interessante notar que algumas leis e ensinamentos definidos pelo Báb, foram aceites e confirmados pela religião Bahá’í. Foi a partir do terceiro exílio (Adrianópolis, 1863-1868) que a maioria dos Babis, que tinham aceite Bahá'u'lláh como o Prometido anunciado pelo Báb, começaram a designar-se como bahá’ís.

A palavra Baha'i significa "Seguidor de Bahá"; a palavra Babi significa "Seguidor do Báb". Na maioria das referências que são feitas a estas religiões, as palavras Babi e Baha'i surgem muitas vezes como sinónimos. Há quem use a palavra babi para se referir a uma fase embrionária da religião baha'i.

Ainda hoje existem Babís que aguardam a chegada do Prometido; não sei exactamente quanto sejam. Eles consideram que Bahá'u'lláh foi apenas um dos discípulos do Báb. A estes juntam-se ainda pequenos grupos de carácter esotérico que consideram que o Prometido teria sido um outro discípulo do Báb (Tahirih, Quddus ou outro).

quarta-feira, 27 de abril de 2005

Com vista para os Andes...

Finalmente!

A notícia já tinha surgido num jornal chileno e agora tivemos a confirmação oficial. A Comunidade Baha'i do Chile conseguiu adquirir um terreno a norte de Santiago destinado à construção do primeiro Templo Baha'i da América do Sul. O terreno, com um total de 110 hectares, situa-se num local árido e semidesértico. O templo ficará situado no topo de uma colina e terá vista panorâmica sobre as montanhas dos Andes; o edifício principal e os jardins adjacentes ocuparão uma área de sete hectares. Este projecto será financiado com contribuições voluntárias de bahá’ís de todo o mundo.

Se tudo correr bem, dentro de alguns anos esta imagem poderá ser realidade.


A cerimónia de dedicação do local está planeada para Outubro. Segundo os planos actuais, a construção deverá estar concluída dentro de três anos. Para a cerimónia de inauguração serão convidadas representantes de todas as comunidades bahá’ís do mundo, com ênfase especial para os povos indígenas da América do Sul.

Neste momento o anteprojecto já foi aprovado pelas autoridades municipais e o estudo de impacto ambiental está a ser elaborado. A Comissão do Bicentenário do Chile designou o Templo Bahá’í como um dos poucos projectos do sector privado destinados a comemorar os 200 anos da independência da nação chilena.

É interessante notar que em 1953, Shoghi Effendi - que na altura presidia aos destinos da Comunidade Internacional Baha’i - afirmou que o Chile seria o local escolhido para a construção do primeiro templo Bahá’í da América do Sul.

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SOBRE ESTE ASSUNTO:
* BWNS - Spectacular site for Chile Temple
* El Mostrador - Templo Bahá’í para Sudamérica se ubicará al norte de Santiago
* Chile: uma oferta polémica

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 4ª feira.



Garratt Rd Bridge - Imagem obtida no Paintings by Bob Abrahams

terça-feira, 26 de abril de 2005

Epístola de Maqsúd (1)

INTRODUÇÃO

Quem tenha um conhecimento, ainda que superficial, sobre os propósitos e os ensinamentos da religião baha'i, já ouvi, por certo, algumas citações das escrituras bahá'ís. São, regra geral, citações que descrevem a terra como um só país ou apelam à criação de uma nova ordem mundial. Grande parte dessas citações são provenientes de chamada Epístola a Maqsúd (a).

Esta epístola foi revelada em 'Akká, em 1882. Alguns excertos desta epístola foram publicados ao longo do século vinte. Mas só em 1978, a comunidade bahá’í teve acesso à sua tradução integral, primeiramente em inglês, e posteriormente noutras línguas, num volume intitulado "Epístolas de Bahá'u'lláh reveladas após o Kitab-i-Aqdas"(b). Trata-se de um conjunto de epístolas importantes reveladas por Bahá'u'lláh durante os últimos anos da Sua vida; nelas se esclarecem e reafirmam alguns ensinamentos anteriormente estabelecidos.

Porque a Epistola a Madsíd é uma das mais citadas epístolas de Bahá’u’lláh, nos próximos tempos vou colocar aqui uma série de posts sobre os seus temas.


Ilustração da cidade de 'Akká, 1880, cidade onde foi revelada a Epístola de Maqsúd


QUEM FOI MAQSÚD?

O destinatário foi um crente chamado Mirzá Maqsúd que vivia na Síria. Os historiadores bahá'ís pouco nos dizem sobre este crente. A própria Epístola de Maqsúd acaba por ser praticamente a única fonte de informação sobre este crente. Assim, sabemos que Maqsúd vivia em Damasco e tinha escrito pelo menos duas vezes a Bahá'u'lláh. Dedicava-se à poesia [43]; Mirzá Aqa Jan (o secretário de Bahá'u'lláh) recitara os seus poemas na presença de Bahá'u'lláh [36] e podia-se perceber como ele desejava visitá-Lo pessoalmente.

Bahá'u'lláh devia ter muita estima por Maqsúd pois afirma-lhe que Se lembrará dele [41] e declara que Deus também se lembrará dele. Bahá'u'lláh acrescenta também que o nome de Maqsúd é muitas vezes mencionado na Sua presença [36]. Quando a epístola foi revelada, Maqsúd preparava-se para empreender uma viagem a Mosul (no Iraque) [40, 41] com o objectivo de divulgar a nova religião. Bahá'u'lláh faz-lhe algumas recomendações sobre essa viagem, aconselhando-o a usar tacto e sabedoria [40].

Bahá'u'lláh apresenta ainda alguns conselhos de ordem espiritual e material [42]. Assim, diz-lhe que se ele ficar feliz com tudo o que lhe suceder isso será digno de louvor. Também o aconselha a arranjar uma profissão. Já no final da Epístola, Bahá'u'lláh revela também uma oração para Maqsúd [46].

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NOTAS
(a) - Ver esclarecimento na Baha’i International Library.
(b) - Na tradução portuguesa, esta Epístola ocupa 20 páginas e contém 51 parágrafos (referidos entre parêntesis rectos ao longo dos próximos parágrafos); o parágrafo Nº1 começa com as palavras "Ele é Deus, excelso é Ele, o Senhor de Majestade e poder". Ao longo destes posts os números dos parágrafos são indicados entre parentesis rectos.

segunda-feira, 25 de abril de 2005

31 anos



Expectativas e desilusões,
Progressos e asneiras,
Crises e vitórias,
Tudo ingredientes da democracia.
Foram 31 anos em que pudemos contribuir e opinar sobre tudo isto.

sexta-feira, 22 de abril de 2005

O Xá Nasiri'd-Din(2)

O segundo post sobre o Xá Nasiri'd-Din e a epístola que Bahá'u'lláh lhe enviou.

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BABIS E BAHÁ’ÍS

Nasiri'd-Din foi o único monarca que acompanhou o nascimento da religião do Báb. Teve conhecimento do seu surgimento, assim que os adeptos babís se espalharam pela Pérsia. Quando ainda era apenas herdeiro do trono, assistiu a uma proclamação do Báb perante uma assembleia de clérigos e dignatários do Azerbaijão persa. Nessa ocasião o Báb terá proclamado: "Eu sou, eu sou, eu sou o Prometido! Eu sou Aquele cujo nome invocais há mil anos, a cuja menção vos levantais, cujo advento há muito desejais testemunhar, e a hora cuja revelação haveis implorado a Deus que apressasse. Em verdade vos digo: incumbe aos povos, tanto do Oriente como do Ocidente, obedecer à Minha palavras e cumprir a aliança com a Minha pessoa"[1]


O Xá Nasiri'd-Din numa visita à Europa

Em Agosto de 1852 foi alvo de uma tentativa de assassinato por parte de três babís; apesar destes terem confessado ter agido por sua iniciativa individual, esse acontecimento deixaria o seu reinado marcado por uma profunda animosidade contra Babis e Baha’is, animosidade essa que foi prontamente aproveitada pelo clero muçulmano.

O seu rancor foi sendo alimentado por várias vários opositores de Bahá'u'lláh que fizeram chegar ao monarca informações segundo as quais Bahá'u'lláh conspirava contra ele; caluniavam e acusavam Bahá'u'lláh, distorciam os Seus ensinamentos. Não seria, porém, de admirar que o "problema bahá'í" fosse mais uma questão para a qual o Xá pedia o envolvimento dos seus ministros.


EPÍSTOLA DE BAHÁ’U’LLÁH

De entre as epístolas reveladas aos governantes do Seu tempo, a epístola ao Xá da Pérsia (Lawh-i-Sultán) é a mais longa. Nesta, o fundador da religião baha’i proclama ser portador de uma mensagem divina e apela ao Xá para que olhe pelo povo da Pérsia com justiça e generosidade. Ao longo do texto, repetem-se exortações para que o Xá não dê atenção aos seus bens materiais, recordando que foram muitos os monarcas do passado cujos palácios hoje se encontram em ruínas, cujos tesouros se perderam, e cuja glória desapareceu. Mais do que os bens materiais a distinção do ser humano está nos seus actos, na sua rectidão e na sua piedade.

Tal como o fez com outros governantes, também nesta epístola Bahá’u’lláh refere alguns aspectos da governação. No texto é denunciado o comportamento de alguns oficiais e figuras do estado que em vez de trabalhar em prol do progresso do país e serviço ao Xá, preferem denunciar algumas pessoas como Babis, apenas com o intuito de os matar e saquear as suas propriedades.[2]

Um dos excertos mais conhecidos desta epístola é aquele em que Bahá’u’lláh se descreve como Manifestante de Deus. Era um homem como os outros, não tinha conhecimentos ou erudição especial, mas a Revelação Divina fê-Lo expressar a vontade de Deus e proclamar uma nova Mensagem.

Alguns excertos:

Ó Rei! Eu era apenas um homem como os outros, adormecido em meu leito, quando eis que os sopros do Todo-Glorioso manaram sobre Mim e Me deram o conhecimento de tudo o que já existia. Isso não provém de Mim, mas d’Aquele que é Todo-Poderoso e Omnisciente. E Ele ordenou-Me que levantasse a Minha voz entre a terra e o céu, e por isso Me sucedeu o que fez correr lágrimas de todo os homens de compreensão. A erudição comum entre os homens, não a estudei; nem entrei nas suas escolas. Pergunta na cidade em que residi, a fim de teres a certeza de que Eu não sou dos que falam falsamente. Este Ser é apenas uma folha movida pelos ventos da Vontade do teu Senhor, o Todo-Poderoso. Alvo de todo louvor.
(...)
Contempla este Jovem, ó rei, com os olhos da justiça: então, julga com verdade, daquilo que Lhe sucedeu. Verdadeiramente, Deus fez-te a Sua sombra entre os homens e sinal do Seu poder para todos os que habitam na terra. Julga tu entre Nós e aqueles que Nos injuriaram sem prova e sem um Livro esclarecedor. Os que te rodeiam amam-te por seus próprios interesses, enquanto este Jovem te ama por ti mesmo, nenhum desejo nutrindo a não ser o de te fazer aproximar do trono da graça e te dirigir à direita da justiça.
(...)
Oxalá Me permitisses, ó Xá, enviar-te aquilo que poderia alegrar os olhos e tranquilizar as almas e fazer toda pessoa sensata acreditar que o conhecimento do Livro está com Ele... Se não fosse o repúdio dos insensatos e a conivência dos sacerdotes, Eu teria proferido palavras que extasiariam os corações, transportando-os para um reino cujos ventos se fazem ouvir, murmurando "Nenhum Deus há senão Ele!..."[3]

Esta Epístola foi revelada em Adrianópolis, mas só seria enviada para o Xá durante o exílio de Bahá'u'lláh em 'Akká. A história do portador e da forma como foi entregue ao Xá é particularmente interessante e merece um post à parte.

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NOTAS
[1] - Adib Taherzadeh, The Revelation of Baha'u'llah, vol. 2, p. 336
[2] – Nos meios políticos e religiosos da Pérsia naqueles anos, um método normal de destruição de um inimigo era acusá-lo de ser Babi. Antes da vitima poder provar a sua inocência, seria castigada, por vezes com a pena de morte
[3] – Os excertos desta epístola já traduzidos para inglês encontram-se aqui.

quinta-feira, 21 de abril de 2005

Eleição de Bento XVI: reacção oficial

A reacção oficial da Comunidade Bahá'í de Portugal à eleição de Bento XVI, conforme divulgado pela Agência Lusa.
NOVO PAPA: COMUNIDADE BAHÁ´I ESPERA CONTINUAÇÃO DE DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

Lisboa, 19 Abr (Lusa) - A comunidade Bahá´i em Portugal, com cerca de 8.000 fieis, manifestou-se hoje esperançada que o novo Papa, o alemão Joseph Ratzinger, siga o caminho do diálogo ecuménico inter-religioso do antecessor, João Paulo II.

Em declarações à agência Lusa o director dos Assuntos Externos da comunidade Bahá´i, Mário Mota Marques, afirmou que espera também uma contribuição do novo Papa para o apaziguamento dos conflitos para que a paz mundial seja possível.

"Queremos acreditar que esteja à altura", disse Mário Mota Marques quando questionado sobre a escolha do cardeal Ratzinger.

"Deus tem os seus desígnios e nós acreditamos em Deus, embora haja opiniões controversas em relação ao seu passado, mas o passado é passado e o lastro deixado por Sua Santidade o Papa João Paulo II é imparável", considerou.

Os princípios da religião Bahá´i inspiram-se no islamismo e baseiam-se na unidade da Humanidade e na promoção da paz mundial, na igualdade de direitos, deveres e oportunidades para o homem e a mulher, na harmonia entre a ciência e a religião, educação universal e obrigatória e eliminação dos excessos de pobreza e riqueza.

Mário Mota Marques lamentou a morte de João Paulo II, a 02 de Abril, considerando-o um impulsionador do diálogo inter-religioso.

Primeiro Dia de Ridvan

Um feriado baha'i e eu a trabalhar. Acontece. É frequente.

Quando Bahá'u'lláh estava exilado em Bagdade e recebeu ordem de transferência para Constantinopla, antes de iniciar a viagem, acampou com vários companheiros no chamado Jardim de Ridvan (em português "Paraíso"). Durante doze dias ali se viveu um ambiente festivo, em que o fundador da religião baha’i revelou epístolas e recebeu cumprimentos de despedida de várias pessoas proeminentes da cidade (incluindo clero muçulmano e autoridades otomanas). Doze dias durante os quais Ele anunciou aos amigos mais próximos ser o Prometido profetizado pelo Báb. Doze dias a que hoje chamamos o Festival de Ridvan.

É também neste dia que as comunidades bahá’ís por todo o mundo elegem as Assembleias Locais; sem qualquer campanha eleitoral, nomeação de candidatos ou formação de listas, os crentes com mais de 21 anos de idade, elegem por voto secreto os membros da direcção da comunidade local. Por estes dias são inevitáveis as comparações entre a forma de administração das comunidades baha’is e das comunidades católicas. Como os baha’is não têm clero, e elegem directamente a direcção da sua comunidade local, o envolvimento na vida comunitária acaba inevitavelmente é maior.

Reparei ontem que o Site Oficial Internacional da Comunidade Baha'i foi reformulado. Há um novo grafismo, existem novas secções, e foram acrescentados links para outros sites oficiais. É uma bela prenda para o Primeiro Dia de Ridvan. Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi a secção de perguntas e respostas. As questões típicas sobre a religião bahá’í estão ali respondidas. Talvez fosse uma boa ideia ter aquela secção traduzida em português no nosso site oficial.

Enfim. Hoje é o primeiro dia de Ridvan e eu estou aqui a trabalhar... Num dia destes um homem devia ir passear com a família!

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Bento XVI



Cardeal Joseph Ratzinger, o novo Papa Bento XVI

Que Deus o ajude na condução dos destinos da Igreja Católica e que, à semelhança do seu antecessor, seja capaz de prosseguir com o diálogo inter-religioso.

terça-feira, 19 de abril de 2005

O Xá Nasiri'd-Din (1)

Passam hoje 114 anos sobre a morte do Xá Nasiri'd-Din. Este monarca persa reinou durante a última metade do sec. XIX e testemunhou o surgimento das religiões babi e baha’i naquele país. Esta efeméride é serve de pretexto aos meus próximos posts.

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INTRODUÇÃO

Quem fale um pouco com iranianos sobre o passado do Irão facilmente percebe o orgulho que sentem na sua história. Tiveram reis extraordinários, ministros e governantes respeitáveis, sacerdotes e místicos admiráveis, poetas e intelectuais famosos, artistas e construtores fantásticos. Mas a história de qualquer nação, ou povo, tem altos e baixos. A dinastia Qajar[1] (1796-1925) ocupou o Trono do Pavão num tempo em que a Pérsia se deixou asfixiar pelas pressões da vizinha Rússia e da Grã-Bretanha. A primeira ia alargando os seus territórios e influência no Cáucaso; a segunda afirmava-se como uma grande potência mundial.

O monarca dessa dinastia que reinou durante mais tempo foi Nasiri'd-Din; durante a última metade do séc. XIX, ele confiou o destino político da Pérsia a sucessivos primeiros-ministros. Além das pressões russa e britânica, existiam também influências económicas, sociais e tecnológicas que iam abalando a sociedade persa. Foi durante esses tempos conturbados que as religiões Babí e Bahá’í surgiram na Pérsia.

O Xá Nasiri'd-Din

Em 1848, Nasiri'd-Din encontrava-se em Tabriz, capital provincial do Azerbaijão persa, quando recebeu a notícia da morte de seu pai, o Xá Muhammad. Nunca tinha sido o filho predilecto, ao contrário do seu irmão Abbas. O novo Xá, com 19 anos, era muito imaturo para o novo cargo; os seus interesses principais centravam-se nas mulheres e na caça. Alguns historiadores referem que estes foram sempre os interesses do Xá ao longo da sua vida; os assuntos da governação eram sempre confiados aos ministros.

AMIR KABIR, O PRIMEIRO-MINISTRO

O seu preceptor, Amir Kabir, acompanhava-o desde muito novo. Quando o príncipe Nasiri'd-Din sucedeu ao seu pai, Amir Kabir foi nomeado conselheiro, e posteriormente, primeiro ministro. Amir Kabir é invariavelmente descrito como um homem inteligente e brilhante cuja grande sonho era devolver ao Irão o seu antigo estatuto de potência próspera e respeitada; os seus métodos de governação, porém, revelariam um homem totalitário e brutal.

Os primeiros anos da governação do novo monarca com o seu primeiro-ministro mostravam que a Pérsia se tentava modernizar. Com o Xá frequentemente alheado dos assuntos da governação, Amir Kabir não olhava a meios para modernizar o país: organizou um sistema postal e reestruturou as finanças do estado; eliminou despesas supérfluas, reorganizou o exército e estimulou a economia; lançou as primeiras campanhas de vacinação e fundou a primeira universidade persa. Nas províncias fronteiriças colocou governadores de lealdade inquestionável. Além disto, estabeleceu sólidas relações diplomáticas com os otomanos, e criou obstáculos à influência britânica e russa no país.

Apesar destas realizações notáveis, Amir Kabir é recordado por ter sido ele a dar a ordem de execução do Báb; acredita-se que o Xá teria sido pouco influente nessa decisão. Apesar de Amir Kabir ser repetidamente descrito na literatura baha’i como um dos mais poderosos inimigos dos Babis, é interessante ter recordar umas palavras de 'Abdu'l-Bahá sobre este governante:
"Apesar do facto de ele ter oprimido esta Causa como ninguém mais o fez, Mirzá Taqi Khan[2], o Primeiro Ministro, em assuntos de Estado e política, estabeleceu o que foram as fundações verdadeiramente firmes, e isto, apesar de nunca ter frequentado escolas europeias. Na verdade, a verdadeira educação promove a condição do indivíduo de forma a que ele consiga sabedoria, consciência e confirmações divinas"[3]
O DECLÍNIO

O sucesso das realizações de Amir, e os seus programas de redução de despesas desnecessárias, valeram-lhe vários ódios e muitas inimizades. Estes surtiram uma série de intrigas palacianas que culminaram primeiramente na deposição e exílio, e posteriormente na sua execução. Com o fim da influência de Amir, termina também um ciclo reformista inicial do primeiros anos de governação do Xá Nasiri'd-Din; muitas das iniciativas de Amir Kabir foram abandonadas, a economia perdeu os seus incentivos, a vacinação foi esquecida; apenas a universidade continuou a funcionar conforme planeado. além de tudo isto, os governantes seguintes agravariam um estilo de governação despótica e profundamente corrupto.

O Xá Nasiri'd-Din visitou países europeus, encontrou-se com a Rainha Vitória e com o Kaiser Guilherme I. Visitou a Rússia, a Holanda e a Áustria. Estabeleceu ainda vários tratados com países estrangeiros, tratados esses que alguns historiadores consideram terem aberto demasiadamente as portas às influências estrangeiras. Alguns desses acordos (nomeadamente, a cedência da indústria do tabaco aos britânicos) provocaram motins e problemas com o clero.

Em Abril de 1891, Nasiri'd-Din e o país preparavam as celebrações do seu jubileu. No dia 19 desse mês, o Xá dirigiu-se ao santuário de 'Abdu'l-'Azim (túmulo de um líder religioso e local de peregrinação). Quando concluiu as suas orações, um partidário de um grupo oposicionista (Siyyid Jamalu'd-Din) disparou sobre o monarca, que morreu pouco depois. Diz-se que pouco antes de morrer teria pronunciado as seguintes palavras "Se sobreviver, vou governar de maneira diferente!"

Funeral do Xá Nasiri'd-Din

O Xá Nasiri'd-Din foi um dos governantes do século XIX em cujas mãos estava o destino de milhões de seres humanos; tal como vários governantes europeus, exercia o poder de forma arbitrária, tirânica e, por ventura, mais brutal. Sendo governante do país natal de Bahá'u'lláh, não é de admirar que ele tivesse sido um dos destinatários das epístolas que o fundador da religião Bahá'í dirigiu aos reis e governantes do Seu tempo. No próximo post será sobre essa epístola, a Lawh-i-Sultán.

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NOTAS
[1] - Ver também Qajar Dynasty
[2] - Outro nome pelo qual Amir Kabir também era conhecido
[3] - Zarqani, Badá’í’ul-Athar, Vol 2, p.144, citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, pags 160.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Festa de Naw-Ruz no canal 2:



Hoje no canal 2:, às 18H00, vamos ter mais um programa baha'í, "A Terra é um só País!". Desta vez o tema é a festa de Ano Novo Bahá'í que se realizou em Lisboa.

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 2ª feira.



Whalers Cove Albany - Imagem obtida no Boab Art Gallery

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Novos links

Disseram-me uma vez que a maioria dos blogs são como as pastelarias e os restaurantes. Somos visitantes assíduos durante várias semanas ou meses a fio, e depois enjoamos e procuramos outros. A comparação é curiosa; mas também há blogs que se tornam referências, que nos cativam mais do que os outros. É para blogs desses que hoje chamo a vossa atenção.

Lantuna – Um blog de Cabo Verde. Muito bom. Só lamento não saber crioulo para perceber todos os posts.
Dervish e Sunni Sister – Dois blogs de mulheres muçulmanas. Respira-se paz e tranquilidade.

Jogão!



Ofereceram-me um bilhete e lá fui pela primeira vez ao Alvalade XXI. Ali na bancada central, no meio de senhores vestidos de fato e gravata, fumando cigarrilhas ou charutos, "tiazocas" de cabelo arranjado e voz rouca, rapaziada com roupa de boas marcas, lá estava eu para assistir ao Sporting-Newcastle.

Vi uma faixa do directivo que anunciava "Vamos devorar os bifes!", senti o gelar do estádio com o primeiro golo dos ingleses, sucederam-se oportunidades de golo perdidas, os desabafos contra a lentidão deste ou aquele jogador, testemunhei o talento de João Moutinho e a mestria de Pedro Barbosa, surgiu o golo do empate, a ansiedade ao intervalo, a sucessão de golos... Ganhámos "de virada" como se diz no Brasil. Um espectáculo!

Lembrei-me do meu filho. Quando vê futebol na televisão, levanta os bracitos e diz "Gô!". No sábado passado correu para o écran e tentou abraçar os jogadores que festejavam um golo. Quando for mais crescido, temos de ir ver um jogo!

Fotos do jogo no site da BBC.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

Reformulemos a ONU!

Há cerca de uma semana, o secretário-geral da ONU repetiu mais uma vez que a Comissão de Direitos Humanos daquele organismo internacional estava a minar a credibilidade das Nações Unidas ao mostrar-se incapaz de defender os direitos humanos. Segundo Kofi Annan, "Chegámos a um ponto em que a decrescente credibilidade da comissão [de direitos humanos] lança uma sombra sobre a reputação do sistema das Nações Unidas" e ainda: "A menos que reformulemos a máquina dos direitos humanos, poderemos ser incapazes de renovar a confiança publica no próprio sistema das Nações Unidas".

As palavras do Secretário-Geral das Nações Unidas têm fundamento; a Comissão dos Direitos Humanos tem como membros países como o Sudão, a China, a Rússia, o Zimbabwe e a Arábia Saudita; todos eles têm um considerável curriculum de violações de direitos humanos! A presença destes países num órgão tão importante da ONU levou mesmo um representante da Amnistia Internacional, Peter Splinter, a questionar: "Como é que estes Estados são eleitos para a Comissão? Quem é que os elege?" É importante ter presente que estes, e outros Estados membros, ao analisar questões dos direitos humanos centram as suas preocupações apenas na protecção dos seus interesses nacionais.

Ao longo dos últimos meses tenho chamado a atenção neste blog para uma série de atropelos à liberdade e direitos humanos dos bahá’ís no Irão. Recapitulemos:
  • Foram destruídos dois importantes lugares sagrados bahá'ís (ver Apagar a Memória e Santuário Baha'i destruído no Irão);
  • Foi destruído um cemitério Baha’i de Yazd;
  • Aos estudantes bahá’ís iranianos foi negado o acesso à universidade;
  • Vários bahá’ís de Teerao e Yazd foram espancados e detidos arbitrariamente;
  • Só no mês passado foram detidos vários bahá’ís porque distribuíam cópias de uma carta ao presidente Khatami (a carta nada tem de ofensivo e trata o presidente com toda a cortesia).
  • Vários terrenos, casas particulares de famílias bahá’ís foram confiscadas e um estabelecimento comercial foi incendiado; essas famílias ficaram sem meios de subsistência.
Lembro que entre 1978 e 1998, o governo da Republica Islâmica do Irão executou mais de 200 bahá’ís. Centenas foram detidos, milhares foram expulsos dos seus empregos expulsos das escolas, privados de pensões de reforma, e viram os seus bens destruídos ou confiscados. Foi uma campanha de perseguição que visava a asfixia económica e social da maior minoria religiosa do Irão. Graças a uma intensa pressão internacional e a sucessivas condenações na Comissão dos Direitos Humanos, as execuções terminaram e muitos bahá’ís foram libertados da prisão.

No entanto, nos últimos três anos a Comissão dos Direitos Humanos tem sido incapaz de aprovar uma resolução sobre o Irão. Esperemos que os anos sombrios da Revolução Iraniana não estejam de regresso para os bahá’ís daquele país.

O que se passa com os Bahá’ís do Irão é, obviamente, um pequeno drama quando comparado com as terríveis tragédias que se vivem no Darfur e no nordeste do Congo (até nestes casos a Comissão não consegue tomar uma decisão!). Mas o drama dos bahá’ís iranianos é também mais uma prova que Kofi Annan tem razão: as Nações Unidas necessitam de uma reestruturação.

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A ler sobre este assunto:
BWNS - Dismay at lack of human rights resolution on Iran as persecution worsens
BBC - Annan says rights body harming UN
BBC - Annan urges sweeping UN reforms
Reuters - U.N.: Establish New Human Rights Body

A consultar: Site da Comissão dos Direitos Humanos da ONU

Breaking the Baha'i Code

Na sequência da celebração inter-religiosa do passado sábado que aqui registei, mantive uma curiosa troca de comentários com um cristão evangélico. Por coincidência, encontrei um site elaborado por um cristão evangélico, intitulado "BREAKING THE BAHA’I CODE: Understanding and Evangelizing Members Of the Bahai Faith"

Não deve ter sido fácil ao Dr. Carrigan elaborar este documento. Deve ter lido muita coisa e contactado com vários bahá'ís para conseguir fazer um resumo (quase sempre correcto) da história e ensinamentos bahá'ís. As estratégias apresentadas para questionar os bahá'ís não deixam de ser curiosas (gostava de saber que respostas é que ele obteve e que respostas alguns bahá'ís portugueses lhe dariam). Mas apesar do objectivo confesso do documento (a conversão dos baha’is ao cristianismo) é possível perceber a imagem que ele tem dos bahá'ís. Aqui fica um excerto:
While no generalization is entirely accurate, as a rule, Baha’is in the United States are often professional people who have thought carefully about their religion and tend to be heavily involved in social and political causes like civil rights, world peace and poverty issues. Baha’is are often people who are inclined to use their minds, support causes and articulating their beliefs. Because the Baha’i Faith is a relatively new religion, Baha’is usually join this religion deliberately. It is rarely the case that Baha’is in the United States join the Baha’i Faith only on the basis of their association with the Baha’i culture in the absence of an attraction to the teachings of Baha’u'llah. Most Baha’is become Baha’is because they are attracted to the teachings of the Baha’i Faith and reject the exclusive claims of Christianity, or Islam, or some other major world religion.

quarta-feira, 13 de abril de 2005

terça-feira, 12 de abril de 2005

Diálogo

Diálogo com um sobrinho adolescente, dois dias após encontro inter-religioso na Igreja de S. Nicolau.

- Aquele senhor de barba e túnica preta que estava lá no sábado...
- O padre ortodoxo...?
- Sim. Ele parecia muito sério durante a celebração. Depois no final quando falámos ele cumprimentou-nos e vi que ele era muito divertido... nunca pensei! E o padre judeu que lá estava...
- Chamam-se "rabi" ou "rabinos"...
- ... sim, ele fez uma oração que era dita com o coração. Aquilo não foi um discurso. Ele estava mesmo a sentir aquilo que dizia.
- É verdade. Também percebi isso.
- E hoje falei com o Jorge (um colega de escola que é indiano). Falei-lhe do encontro e perguntei-lhe se ele também fazia a oração que acabava com as palavras "Shanti! Shanti!" (Paz! Paz!). Ele ficou admirado por eu saber coisas da religião dele.
- Ainda bem que gostaste. É importante sabermos em que é que acreditam as pessoas que têm outras religiões. É importante não ter preconceitos contra pessoas de outras religiões.
- Pois é, tio. Aquilo no sábado foi um espectáculo!

segunda-feira, 11 de abril de 2005

Simbolismo e Historicidade das Escrituras

O meu texto de hoje na Terra da Alegria fica também aqui publicado.

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Os debates Cristo da Fé / Jesus da História tendem a ser intermináveis. Geralmente quem sustenta o Cristo da Fé tem tendência a justificar os aspectos histórico ou a fazer uma interpretação não literal das Escrituras; e quem procura o Jesus da História avalia os textos sagrados em função do seu valor e rigor histórico (por vezes imaginando que pode destruir o Cristo da Fé).

O debate em curso entre o José e o Nuno é um destes debates. Com a vantagem de ser cordial e de nenhum dos dois querer destruir a fé do outro; trata-se de um diálogo que permite nos permite a todos conhecermos melhor pontos de vista diferentes dos nossos. A verdade é que o debate está tão bom, que para mim é impossível ficar calado e não dar algum contributo. Aqui vai.

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Tenho para mim que os Evangelhos não são um relato histórico fidedigno de acontecimentos relacionados com a vida de Jesus; em vez disso, devem ser encarados como um testemunho de uma vivência de fé registado por pessoas com mentalidade e cultura totalmente diferente das nossas. Mostram-nos o mundo de Cristo pelas palavras dos primeiros crentes.

Desta forma, o questionar a historicidade dos factos descritos nos Evangelhos torna-se pouco relevante; a nossa atenção deve dar prioridade ao entendimento do seu significado espiritual, isto é, àquilo que é o âmago da Mensagem de Jesus Cristo. É nos significados simbólicos das palavras do Evangelho que reside o poder regenerador da Sua mensagem.

A ênfase nos simbolismos das Escrituras não é uma inovação baha'i; trata-se de algo que sempre existiu em todas as religiões. S. Paulo, por exemplo, identifica significados simbólicos em textos que nada parecem ter de simbólico. S. Paulo faz um interpretação simbólica sobre as esposas de Abraão [Gal 4:22-26] referindo-se a uma passagem do livro do Génesis [cap.3]. Também numa Epístola aos Coríntios[I Cor 10:1-4] S.Paulo mostra-nos que existem significados simbólicos no episódio de Moisés perante o Monte Horeb[Ex. 17:6]. S. Paulo ultrapassa o significado literal e revela um significado oculto. No entanto, não há indicação no texto de que essas passagens devem ser interpretadas de um modo que não o literal. Provavelmente, S. Paulo acreditava que as Escrituras continham significa dos ocultos, mesmo quando pareciam perfeitamente literais.

Seguindo o exemplo de S. Paulo, vejamos alguns exemplos de possíveis simbolismos.

O milagre do cego que recuperou a vista[Jo cap.9]. Estará o texto a referir-se a uma realidade histórica? Ou podemos ler a cegueira com simbolizando uma incapacidade para compreender os ensinamentos de Jesus? Não posso negar que Jesus tinha poder para realizar milagres (e que os realizou). Mas poderá o texto do Evangelho ser uma prova histórica desse facto? Se este facto aconteceu, então parece-me que apenas quem o testemunhou pode considerá-lo uma prova da Divindade de Jesus. Não duvido que maior milagre do que a cura a cegueira física é a cura da cegueira espiritual.

A expulsão dos vendilhões do templo[Mt 21:12-13]. Teria sido um facto, ou os autores dos evangelhos pretenderam transmitir-nos algo mais com o simbolismo da história? É verdade que ao lado do Templo existia a Torre Antónia; permitia vigiar a actividade que decorria no Templo, pois os romanos percebiam que era ali que germinavam as revoltas contra a sua autoridade. Se entendermos a expulsão dos vendilhões como literal, bem nos podemos perguntar "E porque é que os romanos não fizeram nada?". Então o que poderia significar essa expulsão? Pessoalmente vejo-a como uma renovação da religião(representada pelo Templo), uma purificação do seu propósito.

Quanto ao episódio de Barrabás[Mt27:16-21; Mc15:6-15; Lc23:17-19; Jo18:39-40], também lhe encontro um simbolismo. Os autores dos evangelhos pretendem mostrar-nos que judeus daquele tempo tinham menos consideração por Jesus do que por um criminoso. E mesmo que um evento que seja relatado nos quatro evangelhos (como o episódio de Barrabás), podemos garantir a sua historicidade? Tenho as minhas dúvidas.

Alguns significados espirituais não são fáceis de encontrar. Leiam-se as palavras “Meu Deus Meu Deus, porque me abandonaste”[Mt27:46]. Estas palavras que o evangelista coloca na boca de Jesus podem parecer palavras de desespero. Na verdade são uma invocação do Salmo 22, um salmo de triunfo. O que literalmente parece um grito de desespero, simboliza, na verdade, uma declaração de vitória. Tanto quanto sei, os antigos livros hebreus não tinham título. Para os identificar, os hebreus referiam-se aos livros pelas suas primeiras palavras. As primeiras palavras do salmo 22 são exactamente “Meus Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?

Numa das Suas últimas epístolas, Bahá’u’lláh escreveu: "...nas palavras d'Aquele que foi o Espírito (Jesus) jazem ocultos incontáveis significados". Acredito que não são apenas as palavras de Jesus que possuem significados ocultos; os livros sagrados de todas as religiões estão repletos de significados simbólicos. Procurá-los é um desafio. E quando os encontramos percebemos ainda melhor a grandeza, a beleza e o objectivo do Fundador da nossa religião. É à busca da compreensão desses simbolismos que devemos dar prioridade.

Apenas uma nota final sobre Flávio Josefo: são conhecidas as referências que ele fez sobre Jesus. Mas este autor também refere, entre muitas outras coisas, que no tempo de Alexandre, o Grande, os rios se abriam para que os seus exércitos passassem. Claro que não posso aceitar isto como um facto literal; é mais provável que Flávio Josefo estivesse a relatar os factos tal como lhe eram contados. Desta forma, creio que é correcto pensar que Flávio Josefo relata o que pode ter ouvido a algum cristão.

domingo, 10 de abril de 2005

Ontem, na Igreja de S. Nicolau

Quem esteve ontem à noite na Igreja de S. Nicolau, em Lisboa, captou certamente a verdadeira essência do que significa o diálogo inter-religioso. O objectivo do encontro era evocar a memória de João Paulo II; a presença de tantas e tão diversas comunidades religiosas do nosso país, é, no fundo, um reconhecimento do tremendo impulso que o falecido Papa deu ao diálogo inter-religioso.

Das palavras dos intervenientes retive a oração bahá’í em memória do Papa; o facto de Paulo Borges, representante da União Budista, ter chamado a atenção para a importância de incluir ateus e agnósticos no diálogo inter-religioso; a frase “Não tenham medo!” repetida em tantas intervenções; o Dr. Karim Vakil, que citou uma encíclica papal para mostrar como o Papa acreditava na enorme proximidade entre cristãos e muçulmanos e de ter recordado que João Paulo II foi o primeiro Papa a visitar uma mesquita (Mesquita de S. João Baptista, em Damasco); a Dra. Esther Mucznik, que referiu as desconfianças e estereótipos que durante séculos existiram nas relações entre judeus e cristãos e o Rabi Boaze Bash leu um salmo do Rei David; o Padre Alexandre Bonito, da Igreja Ortodoxa Grega, que recordou o facto do Papa ter pedido desculpa aos ortodoxos, e ele próprio aproveitou para pedir desculpa aos católicos pelo facto dos ortodoxos nem sempre terem compreendido o Papa; e as palavras finais do Padre Peter Stilwell que recordou a primeira encíclica de João Paulo II (uma espécie de linha programática do que seria o seu pontificado) onde se percebia a sua predisposição para o diálogo inter-religioso.

A celebração terminou com a leitura de uma oração pela paz de S. Francisco de Assis ("Senhor! Fazei de mim um instrumento de paz...") e um forte aplauso por parte de todos os presentes.

Ficam as fotos do momento (sim, eu sei que a minha máquina é uma treta e eu também não sou lá muito jeitoso...)

Piedade Antunes (Comunidade Baha’i)


Ashok Hansraj e um Sacerdote (Comunidade Hindu)


Paulo Borges (Uniao Budista)


Esther Mucznick (Comunidade Judaica)


Rabi Boaze Bash (Comunidade Judaica)


Padre Alexandre Bonito (Igreja Ortodoxa Grega)


Miriam Lopes(Igreja Metodista)


Dr. Nazim Dim(Comunidade Ismaelita)


Abdul Karim Vakil (Comuinidade Islâmica de Lisboa)


Reverenda Idalina (Igreja Presbiteriana)


O Padre Peter Stilwell (Igreja Católica) proferindo palavras de agradecimento


O Aplauso Final


Um dos aspectos mais interessantes que me apercebi foi o animado diálogo entre os representantes das diferentes confissões após a conclusão da cerimónia. Percebia-se a amizade e o carinho que nutriam uns pelos outros; claramente as palavras proferidas na celebração não foram palavras de circunstância. Mais uma vez recordei para mim as palavras de Bahá'u'lláh: "Associai-vos com os seguidores de todas as religiões em espírito de amizade e fraternidade"


No final da celebração


O Padre Alexandre Bonito e uma representante da Igreja Anglicana


Pedro Marques, Mário Marques (ambos da Comunidade Baha'i) e o Padre Peter Stilwell


O Rabi Boaze Bash e o grupo de jovens do Coro

sexta-feira, 8 de abril de 2005

A melhor notícia desta semana!

Como sabíamos a maioria dos dirigentes políticos mundiais iam estar presentes no Funeral de João Paulo II que decorreu esta manhã. Como acontece nestes eventos onde se encontram vários chefes de estado, realizam-se vários encontros bilaterais e muitas, muitas conversas de corredor.

Neste momento as agências noticiosas estão a divulgar a notícia segundo a qual o Presidente Israelita Moshe Katzav teria falado (em persa) com o Presidente Iraniano Mohammad Khatami durante mais de uma hora. Convém recordar que Katzav e Khatami nasceram na cidade de Yazd, no Irão. "O Presidente do Irão estendeu-me a mão, cumprimentamo-nos e eu disse-lhe em persa «Que a paz esteja contigo»" afirmou o Presidente Katsav.

Além desta demorada conversa, o presidente israelita também cumprimentou por duas vezes o seu homólogo sírio, Bachar al-Assad, e abraçou o chefe de estado argelino Abdelaziz Buteflika.

Gostava de ver fotos desses momentos... (a notícia é tão boa que quase tenho de ver para crer!) Será que se começaram a abriram as portas para um futuro comum? Será que os povos do Médio Oriente podem agora ter um pouco de mais esperança no futuro?

Oxalá...

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FONTES:
Yahoo News - Israeli President Shook Hands with Assad, Khatami
Haaretz - Katsav greets Syrian, Iranian leaders at Pope's funeral
Diário Digital - PR de Israel falou com homólogos sírio e iraniano

8 de Abril de 1853: o início do exílio em Bagdade

Em 8 de Abril de 1853, Bahá'u'lláh chegou a Bagdade, na companhia de alguns familiares. Iniciava-se o primeiro exílio. Na altura, a cidade era uma capital provincial do império Otomano, com cerca de 60.000 habitantes. A cidade, cuja construção foi ordenada pelo Califa Al-Mansur, entre 762 e 766 EC, frequentemente designada por Cidade da Paz (Madinatus Salam), já perdera o esplendor de tempos gloriosos. Tinha sido capital de um império que se estendia do Egipto à Índia. Mas os saques dos Mongois (1258 e 1401) e a conquista pelos Otomanos (1534) marcaram definitivamente a sua decadência.

O exílio vivido em Bagdade iniciou-se num tempo em que os babís sentiam profundamente as perseguições vividas na Pérsia e também a ausência de uma liderança clara na sua comunidade. Desde o martírio do Báb, vários crentes tinham reclamado ser "herdeiros espirituais" do fundador da religião Babi; outros anunciavam serem o Prometido anunciado pelo Bab. Este ambiente de agitação e intriga levou a que Bahá'u'lláh se afastasse durante uns tempos de Bagdade e fosse viver como um dervish durante dois anos nas montanhas do Sulaymanieh.


Bagdade, no início do Sec. XIX

Nos anos seguintes anos seguintes os babís foram reagrupando-se em torno de Bahá'u'lláh; muitos viajavam desde as cidades persas para O visitar em Bagdade. A Sua casa tornou-se local de peregrinação para os Babis[1]. Alguns crentes dessa época deixaram interessantes testemunhos sobre o quão importante era para eles visitar pessoalmente Bahá'u'lláh. O texto seguinte é um excerto de uma carta de um tio do Báb que se deslocara propositadamente ao Iraque para falar com Ele. As palavras do autor são bem reveladoras do fascínio que Bahá’u’lláh provocava nos primeiros crentes.

...Alcancei a presença de Sua Honra Bahá - que a paz esteja sobre Ele - e desejava que pudesses ter estado presente! Ele tratou-me com o máximo afecto e cortesia, e atenciosamente pediu-me para ficar durante a noite. É uma verdade absoluta que a privação da Sua magnânime presença é uma penosa perda. Que Deus me conceda o privilégio de alcançar a Sua presença perpetuamente[2]
O exílio em Bagdade é recordado pela revelação de dois livros sobejamente conhecidos nas Escrituras Bahá’ís: As Palavras Ocultas, que contém um conjunto de conselhos e advertências espirituais que ajudam o ser humano na sua caminhada para o Criador; o tom poético e místico das palavras de Bahá’u’lláh fizeram deste livro um dos mais populares entre os crentes. O Livro da Certeza, o segundo livro mais importante das escrituras baha’is e simultaneamente a obra teológica mais relevante das escrituras de Bahá’u’lláh; este livro contém uma descrição detalhada do propósito e natureza da religião, explica as passagens mais misteriosas do Corão, e dos Antigo e o Novo Testamentos, e descreve o papel dos Mensageiros de Deus como intermediários entre Deus e a humanidade.

O exílio em Bagdade duraria 10 anos. Em 1863, as autoridades Otomanas e persas decidiram exilar Bahá’u’lláh em Constantinopla.

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NOTAS
[1] – A Casa de Bahá’u’lláh em Bagdade e a Casa do Báb em Shiraz são consideradas nas escrituras baha’is como locais de peregrinação.
[2] - Khánidán-i-Afnan, pag. 42-43, citado em The Revelation of Bahá'u'lláh, vol. I de Adib Taherzadeh

quinta-feira, 7 de abril de 2005

A Laicidade Britânica

Foi agora divulgado que os baha'is do Reino Unido, numa das várias actividades realizadas para celebrar o Naw Ruz (o Ano Novo Baha'i), organizaram uma recepção para membros das duas câmaras do parlamento britânico, ONGs, comunicação social e alguns funcionários de topo da administração pública. No meio dos discursos e agradecimentos da praxe, foi lida uma mensagem elogiosa do primeiro-ministro, Tony Blair (notícia completa no BWNS).

À luz do que muito se tem falado laicidade no nosso país, esta notícia também suscita algumas questões.

A recepção teve lugar na Câmara dos Comuns; irá isto pôr em causa a independência do Estado em relação às religiões no Reino Unido? E será que os parlamentares que compareceram oficialmente a um acto destes podem ser acusados de pôr em causa a laicidade do estado? Imagino que o Tony Blair não elogia da mesma forma todas as comunidades religiosas do Reino Unido. Será isso discriminação?

O Passaporte

A figura seguinte mostra uma reprodução do passaporte emitido pelo Governo Persa para Bahá'u'lláh e Sua família, para a viagem que os levaria ao primeiro exílio, no Iraque.



Tradução:

Passaporte Impresso na Capital Suprema

Viajam com o portador quatro mulheres.
Levam consigo duas crianças do sexo masculino.

Mirza' Husayn-'Ali Nur-i

Número: (em branco)
Características: (em branco)
Idade: 35
Altura: Média
Olhos: Pretos
Sobrancelhas: Pretas
Barba: Preta
Bigode: Preto
Sinais Particulares: (em branco)

O portador deste passaporte é cidadão do Governo supremo do Irão. Por ordem de Sua Excelência o Primeiro-Ministro, está livre (dismissed) e vai viajar para os pavilhões supremos nos Santuários Sagrados[1]. Os guardas fronteiriços e oficiais de passaportes não devem impedir a sua passagem nas províncias, nas cidades e ou fronteiras, mas antes devem dar a devida consideração se necessário. A duração deste passaporte é de um ano, após o qual já não será válido.

Ano: 1269 [2]
Taxa: 500 Dinares

Por ordem escrita do Ministro dos Negócios Estrangeiros[3]
Emitido em Teerão, 1 Rabí'u'th-Thání[4]

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Notas
[1] - Santuários xiitas no Iraque, nas cidades de Bagdade, Najaf e Karbala
[2] - De acordo com o Calendário Lunar Islâmico
[3] - O nome do ministro está escrito à mão e não é perceptível na totalidade. Provavelmente será Mírzá Sa'íd Khán
[4] – Quarto mês do calendário islâmico. Há algumas dúvidas sobre se o dia é "1" ou "9". É quase certo que se trate do dia "1", pois este corresponde ao dia 12 de Janeiro de 1853, a data em que Bahá'u'lláh foi oficialmente exilado para o Iraque. (ver God Passes By, Shoghi Effendi, p. 108. Ver também The Revelation of Baha'u'llah, Adib Taherzadeh, 1975, vol: 1, p. 13.)

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Muitas Religiões, um único Deus

Será que adoramos todos o mesmo Deus?

"Existem várias abordagens para responder a esta pergunta. A primeira é simples. Os cristãos aceitam os profetas judeus como tendo recebido revelações de Deus; desta forma é óbvio que os cristãos acreditam no Deus dos judeus. Os muçulmanos acreditam nos profetas judeus e em Jesus como tendo recebido revelações de Deus; desta forma é óbvio que os muçulmanos acreditam no Deus judaico-cristão. Os bahá'ís aceitam a realidade nos profetas judeus, em Jesus e em Maomé; por isso é óbvio que acreditam no deus judaico-cristão-islâmico.

(...)

Mas sejamos honestos com nós próprios. Algum de nós acredita realmente ter uma compreensão completamente adequada da realidade de Deus? Não falo apenas sobre ter consciência da existência de Deus ou um conhecimento sólido das escrituras, ou mesmo uma forte percepção de estar na presença de Deus. Em vez disso, refiro-me a uma compreensão clara e total do que Deus é, e de que aspecto Ele tem. Pode a mente humana compreender Deus na sua totalidade? Se sim, então a mente humana deve ser maior, ou pelo menos igual, a Deus. Nenhuma destas religiões ensina isto; na verdade ensinam exactamente o contrário. Se Deus tem toda a criação sobre a palma da Sua mão (falando metaforicamente), então que parte da sua criação é capaz de compreender verdadeiramente a Sua natureza, ou mesmo a plena medida de qualquer uma das Suas qualidades?"


Os dois parágrafos anteriores foram traduzidos (um pouco à pressa) do artigo Many Faiths, One God, que está no Planet Baha'i. Vale a pena ler.

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 4ª feira.



Cannery Row, de Ralph Love - Imagem obtida no CREATIVE CONCEPTS

terça-feira, 5 de abril de 2005

A Reacção Oficial (via Agência Lusa)

A reacção oficial da Comunidade Bahá'í de Portugal ao falecimento de João Paulo II, conforme divulgado pela Agência Lusa.

(LGR1091 4 rel 218 LUSA 6883392)
Papa "impulsionador diálogo inter-religioso", Comunidade Baha’i

Lisboa, 03 Abr (Lusa) - O director dos assuntos externos da Comunidade Baha’i de Portugal, Mário Mota Marques, lamentou hoje a morte do papa João Paulo II, considerando-o um "impulsionador do diálogo inter-religioso".

"O papa foi impulsionador do diálogo inter-religioso e encontrou nas confissões religiosas mais pontos que as unem do que as divide", disse à Agência Lusa Mário Mota Marques.

O mesmo responsável destacou ainda o facto de João Paulo II acreditar que "só existe um só Deus", manifestando o desejo de que o próximo papa também pense nesse sentido.

"João Paulo II foi um paladino da manutenção da paz mundial", disse ainda Mário Mota Marques.

A Comunidade Baha'i de Lisboa reúne-se às 15:30 de hoje no seu Centro Nacional em Telheiras, Lisboa, para fazer uma oração especial pelo Papa João Paulo II, que morreu sábado à noite.

Com cerca de oito mil seguidores em Portugal, os princípios desta religião, inspirada no islamismo, baseiam-se na unidade da Humanidade e na promoção da paz mundial, na igualdade de direitos, deveres e oportunidades para o homem e a mulher, a harmonia entre a ciência e a religião, educação universal e obrigatória e eliminação dos excessos de pobreza e de riqueza.

CMP.

NOTA: Desculpem mas não encontrei o link para esta notícia.

1853: a caminho do Primeiro Exílio

Em 1852, um atentado contra o Xá da Pérsia provocou uma onda de perseguições contra a recém nascida comunidade Babí. Entre as figuras proeminentes dessa comunidade contava-se Bahá'u'lláh. Durante vários meses daquele ano, o nobre persa esteve encarcerado numa masmorra de Teerão, enquanto nos corredores do palácio real se moviam influências, quer para o condenar à morte, quer para Lhe poupar a vida.

Como resultado desse jogo de influências, e de alguma forma, fruto do Seu prestígio social e das pressões do embaixador russo[1], no final desse ano, o governo persa libertou Bahá'u'lláh e dando-Lhe um prazo de um mês para abandonar o país. Ao ser libertado, Bahá'u'lláh estava doente, não tinha casa onde morar (a sua residência tinha sido pilhada e vandalizada), e as Suas duas esposas e filhos encontravam-se a viver num bairro obscuro da capital. Valeu-Lhe, então, o apoio de um dos Seus irmãos. No espaço de um mês, Bahá'u'lláh pôde recuperar a sua saúde, enquanto se faziam os preparativos possíveis para deixar o país.

Em Janeiro do ano seguinte, Bahá'u'lláh e a Sua família[2] abandonaram Teerão, na companhia de um representante do governo iraniano e um oficial da embaixada russa. O governo russo tinha-se oferecido para receber aquele nobre persa no seu território, mas Ele preferiu ir para o Iraque, que na época era uma província Otomana.

A história e os detalhes desta viagem em direcção ao Iraque foram já descritas por vários historiadores bahá’ís[3]. Foram três meses em que tiveram de atravessar o agreste planalto iraniano coberto de neve. Anos mais tarde, Bahá'u'lláh numa das Suas Epístolas atribuiria os motivos do exílio à Vontade de Deus e descreveu as condições dessa viagem, referindo que os grupo de viajantes eram "homens frágeis acompanhados por crianças de tenra idade, num momento em que o frio era tão intenso que não se podia falar e o gelo e a neve tão densos que mal se podiam mover"[4].


Ilustração do Sec.XIX, mostrando uma caravana típica
que cruzava as estradas da Pérsia e do Iraque

Não obstante essas dificuldades, durante essa viagem, em várias paragens foi recebido cordialmente por vários nobres governadores e comerciantes. Por altura do Naw-Ruz (o ano novo persa) atravessou a fronteira. Para trás ficou a Pérsia, o país que O viu nascer, e que não voltaria a ver.

Não deixa de ser curioso perceber como em todas as religiões o exílio parece ser uma constante na vida dos seus Fundadores. Conhecemos a história da viagem de Abraão de Ur para a Terra Prometida, o êxodo de Moisés, a fuga da Sagrada Família para o Egipto e a migração de Maomé de Meca para Medina. Em todos esses momentos Deus protegeu os Seus Manifestantes e os Seu eleitos. E por incrível que pareça, o exílio do seu Fundador, acaba sempre por fortalecer e proteger essa nova religião.

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NOTAS
[1] – Sobre outras acções do Embaixador Russo em Teerão, ver
A Preocupação do Embaixador Russo e Sete Mártires de Teerão: a Reacção Russa.
[2] – Além das esposas e filhos (na época
‘Abdu’l-Bahá tinha nove anos), houve ainda dois irmãos que acompanharam Bahá’u’lláh no Seu primeiro exílio.
[3] – Ver
Bahá'u'lláh, the King of Glory, H. M. Balyuzi, cap. 19 (Release an Exile)
[4] – Citado em Presença de Deus, Shoghi Effendi, pag. 162-163

segunda-feira, 4 de abril de 2005

João Paulo II

A propósito do falecimento de João Paulo II, deixo aqui também o meu texto, publicado na Terra da Alegria de hoje.
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Quando frequentava a faculdade, um professor perguntou-nos se tínhamos alguma ideia sobre qual era o país com a mais poderosa máquina diplomática. A resposta de alguns foi imediata: "Os Estados Unidos" ou "A União Soviética". Com o professor a negar essas respostas, arrisquei: "O Vaticano". O professor concordou e acrescentou "Não se elege um Papa polaco por acaso". Não sei até que ponto aquele professor tinha razão, mas hoje, pensando no que foi o pontificado de João Paulo segundo, percebo que foi um período de tempo em que a Igreja Católica conseguiu induzir algumas mudanças no mundo e tentou acompanhar outras.

Durante os últimos vinte e cinco anos as comunidades católicas por todo o mundo ficaram marcadas pela figura de João Paulo II. Ciclicamente, aquele polaco de sorriso sereno surgia numa visita a algum país do mundo; era saudado por milhares de crentes e o seu rosto tornou-se familiar. Se foi um Papa conservador, ou se a Igreja Católica podia ter feito mudanças mais profundas no seu interior, isso é um debate que deixo para os católicos.

Para mim a imagem de Karol Wojtyla será sempre a do homem que abriu as portas da Igreja Católica ao diálogo inter-religioso. Creio que tudo começou com a célebre Jornada de Oração pela Paz, em Assis, em Outubro de 1986, quando vários lideres religiosos foram convidados para uma sessão de orações pela paz. Para um baha’i o acto era perfeitamente natural; Bahá'u'lláh afirmara: "Associai-vos com os seguidores de todas as religiões num espírito de amizade e fraternidade". Mas por ter sido uma iniciativa da Igreja Católica liderada por João Paulo II, e intensamente acompanhada pelos media, assumiu uma dimensão tremenda.


Lideres Religiosos em Assis, Outubro de 1986


Desde então o diálogo inter-religioso tornou-se uma prática corrente e perfeitamente aceitável para a grande maioria dos católicos. Os contactos e encontros entre cristãos, judeus, muçulmanos, baha'is, hindus, budistas e tantos outros sucederam-se um pouco por todo o mundo. Hoje para qualquer pessoa com um pouco de senso comum, o diálogo inter-religioso é o algo tão indispensável à construção da nossa Aldeia Global como o diálogo entre pessoas de diferentes culturas ou de diferentes etnias.

O mundo catolico acaba, pois, de perder um homem fora do vulgar. Como baha'i, e observador do fenómeno religioso, deixo aqui a minha homenagem a essa figura tão marcante da Igreja. Faço votos para que o seu sucessor possa prosseguir o seu trabalho e, com a ajuda de Deus, consiga ainda melhores resultados.

ACTUALIZAÇÃO

Através da Karen cheguei a um texto de Juan Cole: The Other Pope. Muito interessante!

sábado, 2 de abril de 2005

Sul de Angola, 1915

Algumas recordações de um tenente-médico, envolvido em operações militares no sul de Angola em 1915. No Antigamente...


Militares Portugueses no Lubango, Janeiro de 1915